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Greta Garbo e a Duquesa de Langeais

two-faced womenGreta Garbo em “Duas Vezes Meu”, dirigido por George Cukor em 1941. Depois desse filme, Greta Garbo nunca mais seria vista novamente nas telas de cinema.

Desde sua última aparição nas telas em “Duas Vezes Meu” (Two-Faced Woman), Greta Garbo foi diversas vezes procurada pelos estúdios para um possível retorno aos filmes. De todas as ofertas que a diva sueca recebeu e rejeitou, apenas uma esteve muito próxima de se transformar em realidade. Em 1948, a atriz chegou a assinar um contrato para estrelar um filme produzido por Walter Wanger após decidirem que a novela de Honoré de Balzac “A Duquesa de Langeais” (La Duchesse de Langeais, de 1834) seria o veículo perfeito para o retorno de Greta Garbo ao cinema.

Mas Wanger queria filmar na Itália, e chegou a assinar com o ator James Mason para que co-estrelasse o filme. Porém, vários problemas de produção detiveram o início das filmagens. Por conta disso, os principais investidores abandonaram o projeto e o filme foi interrompido várias vezes. Apesar de Wanger ter tentado reiniciar a produção em fevereiro de 1950, ele esbarrou na perda de interesse de Garbo, que retornou a Nova York. Ela continuou recebendo ofertas para voltar, mas nenhuma esteve tão perto de se tornar realidade quanto “A Duquesa de Langeais”.

“Garbo’s Back!”

Walter Wanger, um produtor norte-americano que já havia trabalhado com Garbo no passado (ele produziu “Rainha Cristina” para a MGM em 1933), queria ter a certeza de que o primeiro filme de sua nova produtora, a Walter Wanger International Productions, em sociedade com Eugene Frenke, fosse um grande sucesso de público e de crítica, e nada melhor do que um romance de época que marcasse o retorno da lenda viva Greta Garbo.

A estrela sueca confiava em Wanger e aceitou se encontrar com ele no começo de 1948. Garbo ficou realmente empolgada com a produção e assinou um contrato de um único filme. Foi o primeiro contrato para um filme que ela assinou desde 1940. Mas o romance de Balzac não foi a primeira ideia de roteiro para o novo filme de Garbo. Salka Viertel, atriz, roteirista e amiga pessoal de Garbo, sugeriu uma adaptação da vida da escritora George Sand. Wanger adorou a ideia para o filme, que seria rodado na França, com roteiro escrito por Viertel. Na França, Wanger conseguiu investidores para o filme. Todos queriam que Garbo filmasse na França e Garbo amava a França também.

O primeiro nome escolhido para a direção foi o de G.W. Pabst, o grande cineasta austríaco que já havia dirigido Garbo em seu começo de carreira na Alemanha ainda no período silencioso, “Rua de Lágrimas” (A Joyless Street, de 1925). Mas Pabst não se interessou pela proposta apresentada. Ele queria filmar uma adaptação de Ulisses, onde Garbo viveria um papel-duplo, como Circe e Penélope. Frenke, sócio de Wanger, não concordou porque Pabst tinha má fama na França, e seu nome poderia afastar os possíveis investidores.

O roteiro de “George Sand” escrito por Salka Viertel também não agradou. Ao lado com outros problemas de produção, Wanger reconheceu que seria um grande erro prosseguir com ele e o roteiro foi descartado definitivamente. Ele havia comprado os direitos de filmagem da novela de Balzac, “La Duchesse de Langeais”, e apresentou a ideia de Garbo interpretar a personagem do título. O romance já havia sido transformado em filme em 1922 “The Eternal Flame”, dirigido por Frank Lloyd e estrelado por  Norma Talmadge, e em 1942, produzido na França e dirigido por Jacques de Barobcelli, com Edwige Feuillere como a trágica Duquesa.

garbo-howe-screen-testGreta Garbo sorri no teste de tela que foi obrigada a fazer em 1949 para estrelar “A Duquesa de Langeais”, que marcaria o seu retorno às telas de cinema.

A possibilidade de interpretar a heroína Antoinette de Navarreins da novela de Balzac interessou a Greta Garbo por conta dos temas de romance, vingança e redenção. Além disso, Garbo tinha admiração pela atriz Edwige Feuillere. Wanger arranjou uma apresentação particular do filme em Paris para que Garbo tivesse uma clara ideia de como ela poderia atuar e para se familiarizar um pouco mais com aquela personagem trágica.

A produção finalmente iria começar, com Garbo assinando uma carta aceitando os termos para atuar no filme da Wanger International em 15 de março de 1949. Wanger decidiu rodar na Itália por considerar mais fácil conseguir novos investidores e poder usar as instalações dos estúdios da Cinecittá a um custo muito inferior do que se filmasse na França ou em qualquer outro país.

Outro fator que foi decisivo para Wanger mudar sua produção para a Itália vinha por conta do interesse de Angelo Rizzoli, publicitário italiano e principal responsável por Wanger e Frenke terem conseguido os investidores de que eles precisavam, e com o qual formaram uma parceria para gerenciar os custos e dividir os lucros com o filme. A pós-produção e montagem seriam feitas na Inglaterra, com algumas cenas rodadas nos arredores de Paris. O custo com essas cenas seriam pagos com o dinheiro de outros investidores, os Rothschild, amigos pessoais de Garbo.

Os testes de tela

Greta Garbo chegou em Roma em abril de 1949 com seu companheiro e gerente pessoal George Schlee com a missão de se encontrar com os investidores italianos e usar de todo o charme para convencê-los a investir em seu filme. Uma estratégia que ela nunca precisou utilizar antes. Após o primeiro encontro no hotel, nenhum investidor estava satisfeito pelo fato de Garbo ter usado um grande chapéu que escondia seu rosto. Eles acharam que ela estava escondendo cicatrizes ou sinais de velhice, e decidiram não assinar os cheques até que vissem um teste de tela com Garbo.

Valentine01Quem em são consciência poderia imaginar Garbo em um teste de tela? Aquilo era um insulto. Garbo ainda era Garbo, mas não havia outra saída. Pelo menos três testes de tela foram realizados durante a pré-produção de “A Duquesa de Langeais”. O primeiro teste foi realizado em 5 de Maio de 1949 nos estúdios da Universal por Joseph Valentine, que havia feito um trabalho maravilhoso iluminando Joan Crawford em “Fogueira de Paixões” (Posessed), de 1947, e Ingrid Bergman em “Joana D’Arc”, de 1948.

Valentine filmou cerca de 23 minutos de filme em preto-e-branco. Garbo contou que estava apavorada mas os resultados foram  impressionantes e certamente agradariam os investidores. Valentine, então com 84 anos, foi contratado como diretor de fotografia, mas logo após ter realizado o teste, ele ficou gravemente doente e morreu pouco tempo depois.

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Wanger chamou dois dos melhores cinegrafistas da época: William Daniels e James Wong Howe para realizarem mais testes de tela com fotografia em preto-e-branco.

Howe01Em 25 de Maio, Garbo chegou aos estúdios da United Artists em Hollywood para seu teste de tela com o cinegrafista James Wong Howe. Garbo usava um grande chapéu de palha, um par de calças e uma blusa branca, e distribuía sorrisos. Ela foi para o camarim e 45 minutos depois apareceu no palco maquiada e com o cabelo preso, vestindo uma jaqueta xadrez e um lenço preto. Enquanto Howe analisava como iria montar as luzes e compor a fotografia, Garbo perguntou se poderia fumar um cigarro. Howe consentiu, e a atriz colocou um cigarro em sua piteira. Howe ligou sua câmera e o rosto de Garbo ganhou vida. Cerca de uma hora depois, Garbo se virou para ele: “Suficiente agora?”

Howe concordou. “Bom”, disse ela, “eu acho que vou para casa.”

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Daniels01Algumas horas depois, porém, Garbo se encontrou com William Daniels nos estúdios da Universal, para a qual Daniels trabalhava. Lá ela fez seu terceiro teste de tela. Garbo sentia-se um pouco tímida e temerosa de como ela poderia aparentar durante o teste, mas feliz por reencontrar seu antigo cameraman. Daniels trabalhou com Garbo na maioria de seus filmes na MGM, sendo o primeiro “Terra de Todos” (The Temptress), de 1926, e o último “Ninotcka”, de 1939.

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No dia seguinte, os laboratórios da Pathé em Hollywood revelaram os resultados de ambos os testes. Analisando os testes e as diferenças de estilo, o de Howe aparentava ser mais interessante e ele foi contratado. George Schlee afirmou que haviam sido excelentes e de fato todos eles o foram. Garbo viu os testes e admitiu que ficou muito feliz com os resultados. A grande estrela do cinema ainda não tinha perdido o brilho.

Joseph Valentine’s Screen test:

James Wong Howe’s Screen test:

Os testes acabaram perdidos por quase 40 anos. Em 1989, fragmentos foram encontrados e divulgados para o público após a morte de Greta Garbo em 1990. Conta-se que o teste de Valentine durou cerca de 20 minutos, e os de Howe e Daniels juntos somavam cerca de 13 minutos.

James Mason e Edith Piaf

Investidores convencidos, tudo parecia estar dando certo. Os cenários ficaram prontos em agosto. A principal fotografia foi marcada para começar em setembro de 1949, em Roma, e o lançamento do filme foi planejado para o começo de 1950 para coincidir com o centenário da morte de Balzac. A produção que estava orçada em cerca de 225 mil dólares, porém, acabou subindo para meio milhão de dólares. O salário inicial de Garbo  era 100 mil dólares. Se o filme arrecadasse mais de dois milhões de dólares, ela receberia um adicional de 50 mil mais 15% sobre o lucro.

Wanger teria negociado com grandes estúdios americanos para lançar o filme nos Estados Unidos, entre eles a Columbia Pictures e a RKO, que teria obtido os direitos de distribuição. O apoio do produtor inglês J. Arthur Rank deu a Wanger o apoio financeiro de que ele precisava para poder escalar atores ingleses no filme e realizar a pós-produção na Inglaterra.

La_DuchesseEm 1949, uma revista da Suécia anunciava a volta de Garbo em um filme ao lado de James Mason chamado “Lover and Friend”, distribuído pela RKO Pictures.

Vários atores foram considerados para interpretar o Duque de Langeais, entre eles Errol Flynn, Louis Jourdan, Lawrence Olivier e Robert Cummings. Garbo sugeriu o nome do ator inglês James Mason após tê-lo visto atuar ao lado de Joan Bennett em um filme produzido por Wanger, “Na Teia do Destino” (The Reckless Moment), mas queria conhecê-lo antes. Wanger arranjou um encontro para eles na casa do ator em Berverly Hills. Garbo passou uma tarde agradável na companhia de Mason e sua esposa, sorrindo e brincando no jardim com os filhos do casal.

Anos mais tarde, James Mason lembrou o quanto Garbo estava surpreendente, espontânea, divertida e sorridente. Ele disse que o roteiro do filme não era muito interessante, mas que seria muito interessante para ele atuar ao lado dela. Eles acabaram se tornando amigos, com Garbo visitando o casal Mason algumas vezes depois disso, mas eles nunca conversavam sobre filmes ou sobre o filme que quase fizeram juntos. O salário de Mason seria de 75 mil dólares.

Max Ophuls, que acabaria escolhido para dirigir o filme, pensou em vários atores britânicos para atuar como Armand de Montriveau, entre eles Jack Hawkins,  Frank Allenby,  Geoffrey Keen e Frederick Lester. Ophuls também sugeriu ao produtor Walter Wanger vários outros artistas para compor sua equipe de produção, entre os quais os cenógrafos Jean D’Eaubonne e Leon Barsacq, o técnico de som Joseph de Bretagne, o gerente de produção e assistente de direção Ralph Baum e o editor Michael Luciano.

Sally Benson foi contratada para escrever o roteiro do filme a partir do roteiro original que Frances Marion havia escrito para a versão americana de 1922. O filme ganhou os títulos de “The Duchess Of Langelais” na Inglaterra e “Lover and Friend” na América. Benson tinha escrito os roteiros de “Agora Seremos Felizes” (Meet Me in St. Louis), estrelado por Judy Garland, de 1944, e “A Sombra de uma Dúvida” (Shadow of a Doubt), de Alfred Hitchcock, mas o primeiro esboço de roteiro para “The Duchess” não agradou Wanger. Diziam que Benson tinha problemas com bebida e era negligente no trabalho, e apesar das revisões que fez no roteiro, Wanger pediu a Ophuls que o terminasse.

Wanger teve a ideia de inserir uma canção de Edith Piaf na história. Havia no roteiro duas cenas que se passavam em um café do século 19 e que mostravam uma cantora desiludida do mundo que na opinião de Wanger seria perfeita para ser vivida pela própria Edith Piaf.

Garbo em Technicolor

George Cukor foi a primeira escolha para dirigir o filme que marcaria o retorno de Greta Garbo. Ele tinha sido o responsável pelo último filme dela em Hollywood, “Duas Vezes Meu”, que dirigiu em 1941. Infelizmente, pouco antes ele havia assinado com a MGM para dirigir Katharine Hepburn em “A Costela de Adão” (Adam’s Rib), e outros diretores foram considerados: Robert Siodmak, Mervyn Leroy, Henry Koster e William Dieterle, além de Curtis Bernhardt, Irving Rapper e Vittorio De Sica. Ao assistirem o grande sucesso da Broadway dirigido por Joshua Logan, “South Pacific”, Garbo e Schlee pensaram que ele seria perfeito para dirigir o filme. Logan, porém, nunca aceitou os termos do contrato e a escolha acabou ficando com o diretor franco-alemão Max Ophuls.

Diziam que o contrato de Garbo garantia que ela atuaria em um filme em preto-e-branco, com base no argumento de que a “mística de Garbo” só se beneficiaria em contrastes de preto, branco e cinza. Mas na verdade não havia essa cláusula no contrato, o que aumentou os rumores de que o filme seria feito em Technicolor e que teria havido pelo menos um teste de tela realizado em cores.

Começam os problemas

Parecia que nada poderia dar errado. Mas deu. O plano financeiro de “A Duquesa” começou a ruir quando o orçamento para o filme fugiu ao controle. A presença de Garbo se tornou imediata na Itália para conseguir os recursos adicionais necessários para a produção começar. Assim que chegou em Roma, em 1º de setembro, Garbo foi cercada pelos paparazzi. Ela teve uma reunião com o produtor Giuseppe Amato, com o publicitário Angelo Rizzoli e outros investidores. Walter Wanger estava em uma importante viagem e não pôde ir ao encontro, crucial para o projeto e um dos dias mais perturbadores de toda a carreira de Greta Garbo.

Garbo percebeu que Amato e Rizzoli queriam que ela sorrisse e flertasse com aquele bando de italianos ricos para os convencer a colocar suas fortunas na conta da produtora. Greta disse que não faria isso. Ela ainda era Greta Garbo e não iria servir de “cavalo de circo” para eles. As coisas rapidamente foram de mal a pior: Amato ficou chocado porque Greta achou que ele tinha arranjado os fotógrafos e informado a imprensa de sua presença ali.

Com os custos de produção nas nuvens e o início das filmagens adiado para outubro, a situação ficou tensa no final de setembro quando os jornais italianos disseram que Rizzoli estava deixando o projeto por conta das exigências impossíveis de Garbo, que ela não queria se comprometer enquanto o filme não estivesse totalmente financiado. Wanger e Frenke queriam se livrar dos italianos mas tinham ido longe demais. Eles sabiam que aquilo tudo era mentira, e que embora Garbo tivesse estabelecido certas cláusulas, ela nunca cogitou em pedir aumento de salário ou abandonar o projeto com a saída dos investidores.

La_Duchesse_fanart_posterPoster criado por um fã para o filme de Greta Garbo que nunca aconteceu.

Quando Max Ophuls e James Wong Howe chegaram em Roma, tudo estava mergulhado no caos. Por sua vez, James Mason se recusou a viajar para a Itália até que os termos sobre seu salário e início das filmagens estivessem definidos. Os produtores cogitaram em contratar Errol Flynn ou Louis Jourdan em seu lugar, e enviaram um telegrama para os agentes de Garbo na América informando sobre a possível mudança de protagonista.

Walter Wanger estava descontente com a lentidão e os custos da produção, e principalmente com a presença de Schlee e as tentativas dele de interferir no processo criativo do filme. Para Wanger, Schlee era uma barreira para o seu contato direto com Garbo e acusou Schlee de fazer duras críticas em relação a presença dos investidores estrangeiros no projeto. Por sua vez, Schlee afirmou que Garbo não aceitaria nem Flynn nem Jourdan atuando ao lado dela.

George_Schlee-3Greta Garbo e George Schlee, que ela conheceu em 1941 e com o qual teve um relacionamento que durou até 1960.

Para piorar, um duro golpe foi a falta de instalações disponíveis para as filmagens. A MGM havia reservado todos os estúdios da Cinecittá para a produção de seu drama épico “Quo Vadis”. Henry Henigson, alto executivo da MGM, chegou a oferecer a Wanger as instalações desde que ele começasse a rodar imediatamente e concluísse as filmagens a tempo do início da produção de seu filme. Sem o apoio de Rizzoli e sem um homem de comando em Roma, isso se tornou impossível.

Sally Benson deu prosseguimento às más notícias quando decidiu processar a Wanger International por quebra de contrato. As mudanças feitas por Max Ophuls no roteiro original de “A Duquesa” levantaram a ira dos moralistas de plantão. O chefe do Código de Produção Joseph Breen informou os produtores que o roteiro de Benson/Ophuls era inaceitável para os padrões da época. Em novembro, Wanger decidiu liberar Ophuls para que realizasse na França aquele que seria considerado um de seus melhores trabalhos: “Conflitos de Amor” (La Ronde), de 1950.

Finalmente, os investidores italianos abandonaram o projeto. Garbo perdeu a fé no filme. Sem dinheiro para o filme, Wanger precisou recomeçar, buscando o apoio de algum grande estúdio de Hollywood. Howard Hughes demonstrou interesse e chegou a ser dito que ele iria investir o meio milhão necessário para salvar a produção, mas como o próprio Hughes estava enfrentando problemas financeiros na época, ele só poderia financiar parte do filme.

Nunca mais um filme de Garbo

Em janeiro de 1950, Wanger convocou uma reunião com a imprensa. Ele anunciou oficialmente o adiamento do filme, dizendo que não culpava Garbo pelo atraso e desmentiu todos os rumores de que ela estava velha demais. Pelo contrário, que Garbo estava agora mais linda do que nunca, ainda mais fluente no inglês e que ela iria encantar mais do que antes no próximo filme que fizesse.

Por sua vez, Garbo confidenciou ao amigo Cecil Beaton, que conheceu em Paris, o tempo enorme que perdeu e que a impediu de realizar outros trabalhos. Garbo afirmou que essas “pessoas de filmes” são muito difíceis de lidar e que elas mentem o tempo todo, e que ainda tinha esperanças de trabalhar no filme no futuro, mas que não era nada agradável trabalhar para pessoas que você não gosta.

Wanger não desistiu do filme. Ele tentou novos financiamentos, inclusive propondo que Garbo atuasse sem salário e investisse seu próprio dinheiro no filme, ficando com a maior parte dos lucros. Nem Garbo nem Schlee ficaram muito interessados, nem os grandes estúdios sondados, como RKO, Paramount, Columbia, Warner e 20th Century Fox. Wanger tentou uma última vez convencer Garbo e escreveu uma carta pessoal para ela em fevereiro de 1950. Mas era o fim. Garbo pediu a liberação de seu contrato e voltou, triste, para Nova York. Ela queria muito ter feito esse filme e o filme esteve realmente muito, muito perto de acontecer.

walter-wanger_39Muito rumores foram ditos na época e acusações foram feitas de todos os lados. Mas os motivos principais porque “A Duquesa de Langeais” nunca foi realizado foi a desistência dos investidores italianos e as diferenças entre Walter Wanger e George Schlee, que nunca se entenderam. Muitos acusaram Schlee de ter sido o responsável pelo fiasco do filme e por conta disso, Greta Garbo nunca mais retornou ao cinema. Nunca se estabeleceu o grau de relacionamento entre Garbo e Schlee, que era casado com Valentina, figurinista de Garbo em Nova York, onde se conheceram em 1941. Schlee tinha uma bem protegida casa na Riviera, conhecida como “Garbo’s house”. Quando ele morreu em 1964, Garbo ficou profundamente chocada. Ela se importava muito com ele e sentiu muito a sua falta até o fim da vida.

Walter Wanger, que começou a carreira no final dos anos 20, ainda era um produtor de sucesso em Hollywood, quando em 1951, levado pelo ciúmes disparou um tiro contra o agente de sua esposa Joan Bennett, Jennings Lang, acusando-os de terem um caso. Entre os filmes mais importantes que produziu posteriormente estão “Vampiros de Alma”, o clássico de ficção-científica dirigido por Don Siegel em 1956, “Quero Viver!”, dirigido por Robert Wise em 1958 e que deu o Oscar de atriz à Susan Hayworth, e a mal fadada produção “Cleópatra”, estrelada por Elizabeth Taylor em 1963. Depois de ter se separado de Joan Bennett em 1965, Wanger faleceria em 1968, aos 74 anos.

A fonte para este artigo está no site www.garboforever.com. Informações adicionais foram obtidas nos sites IMDb e Wikipedia.

Filmes: O Véu Pintado (1934)

PaintedVeil01O VÉU PINTADO

Título Original: The Painted Veil
País: Estados Unidos
Ano: 1934
Direção: Richard Boleslawski
Duração: 85 min.
Elenco: Greta Garbo, Herbert Marshall, George Brent, Warner Oland, Jean Hersholt, Bodil Rosing, Katharine Alexander, Cecilia Parker, Soo Yong, Forrester Harvey.
Sinopse: Na Áustria, Katrin, uma mulher ainda jovem, sente-se solitária ao ver a irmã mais nova se casar. Ela acaba aceitando o pedido de casamento de um homem mais velho, Walter Fane, um médico que ela acabou de conhecer. Katrin segue o marido para uma região inóspita no interior da China onde uma epidemia de cólera está dizimando a população. Sentindo-se negligenciada pelo marido, ela se envolve com Jack Townsend, o embaixador Britânico cujos planos políticos irão acabar por afastá-lo de Katrin.

PaintedVeil08Somente a presença mítica de Greta Garbo para justificar o interesse do público por esse melodrama banal, baseado em novela de W. Somerset Maugham sobre um triângulo amoroso que se passa nos cafundós da China durante uma epidemia de cólera. Mas além da presença da diva sueca, há sempre aqueles detalhes curiosos e os cuidados habituais típicos de um filme de Greta Garbo na MGM capazes de sustentar o interesse de qualquer fã do cinema clássico. É claro que Garbo teve atuações muito melhores em filmes muito superiores em qualidade técnica e artística. Mas a redenção de sua personagem ao final, quando tem de fazer uma difícil escolha entre o marido enfermo que ela aprendeu a amar e o amante que se arrepende e retorna para levá-la embora, encerra a trama de maneira satisfatória em 85 minutos de narrativa e com Greta Garbo no auge da carreira.

Mas há duas coisas no filme que não convencem. A primeira é o roteiro de John Meehan, Salka Viertel e Edith Fitzgerald que divide a história em três atos: o prólogo na Europa (que devido a exibições testes mal sucedidas precisou sofrer diversos cortes para deixar a história menos enfadonha), o desinteressante affair entre os personagens de Garbo e George Brent (ator sem nenhum carisma, diga-se de passagem), e a parte final, quando a personagem de Garbo sofre uma reviravolta interna ao perceber que está apaixonada pelo próprio marido, vivido por Herbert Marshall. Nada que não tivesse sido visto antes, mas também nada tão ruim que possa desmerecer este que é um dos filmes menos conhecidos da atriz.

PaintedVeil06A segunda é acreditar que a personagem de Garbo poderia estar tão desesperada em sua solidão (ou seria inveja pelo fato de a irmã mais nova ter se casado primeiro que ela ou apenas tédio por viver confinada em um quarto durante tantos anos?) a ponto de aceitar se casar com o primeiro homem que encontrou pela frente, um homem mais velho e totalmente dedicado à sua profissão. O personagem de Herbert Marshall (ator conhecido por participar de grandes produções como “Duelo ao Sol”, “A Carta” e “Pérfida”), porém, faz jus ao talento do ator, cujos atos e palavras justificam não só a mudança de comportamento da personagem de Garbo no final, como dá um sentido real à trama que até então não fazia quase nenhum sentido.

Algumas curiosidades cercam “O Véu Pintado”, como a escolha da atriz Cecilia Parker para viver Olga, a irmã mais nova de Katrin, no primeiro terço do filme. Egressa da série de filmes “Andy Hardy” (que durou até o final dos anos 50 e onde fazia a irmã mais velha de Mickey Rooney), alguns Westerns e produções B da MGM, Cecilia tem uma curiosa cena de beijo com Garbo. Este foi o primeiro filme de Garbo lançado após a vigência do famigerado Código de Produção de 1934. Isso limitou o potencial triângulo amoroso criado por Maughan em seu romance e obrigou o estúdio a fazer modificações para que o final se encaixasse em um modelo aceitável para a moral da época.

Algumas cenas de “O Véu Pintado” filmadas na China por George W. Hill foram também utilizadas em “Terra dos Deuses” de 1937 e o filme que custou pouco mais de meio milhão de dólares, faturou cerca de US$ 1,6 milhão em bilheterias ao redor do mundo. O público norte-americano, porém, reagiu com risadas nas primeiras exibições diante dos figurinos exóticos desenhados por Adrian e usados por Garbo ao longo do filme. Uma anedota de bastidores se tornou muito conhecida entre os biógrafos da diva sueca. Floyd Porter, eletricista-chefe do estúdio era encarregado de seguir Garbo pelo cenário com uma luz apontada diretamente aos olhos dela, para lhes dar mais brilho. Garbo tinha por hábito dar um tapinha no ombro de Floyd toda vez que saía do estúdio.

PaintedVeil07Há que se destacar a excelente fotografia de William H. Daniels, a música do sempre competente Herbert Stothart, os cenários de Cedric Gibbons e o esforço do diretor Richard Boleslawski em dar credibilidade a personagens tão apáticos. Bolesław Ryszard Srzednicki foi um ator, diretor e professor de atuação polonês que trabalhou na Rússia antes da Revolução de 1917, e fez seus primeiros filmes na Polônia no início dos anos 20. Ao imigrar para a América no início daquela década, ele assumiu a pronúncia inglesa de seu nome e abriu uma escola de atuação baseada no Método Stanislavski com outra imigrante, Maria Ouspenskaya. Entre seus alunos estavam Lee Strasberg, Stella Adler e Harold Clurman – que fundariam o Group Theatre (1931-1941), o primeiro na América a  utilizar as técnicas de Stanislavski.

A carreira de Boleslawski em Hollywood, porém, foi curta por conta de sua morte prematura aos 48 anos, em 1937: de 1930 a 1937, foram 20 filmes, em que teve a chance de dirigir alguns dos maiores astros da época – Lionel Barrymore, Clark Gable, Fredric March, Charles Laughton, Marlene Dietrich, Joan Crawford e, é claro, Greta Garbo.

Além desta versão com Greta Garbo, a novela de Somerset Maughan foi filmada outras duas vezes: “O Sétimo Pecado”, de 1957, estrelado por Eleanor Parker e Bill Travers, e “O Despertar de Uma Paixão”, de 2006, com Naomi Watts e Edward Norton.

“O Véu Pintado”, Cena do Beijo – Greta Garbo e Cecilia Parker:

Galeria de Fotos:

Download “O Véu Pintado” (1934) AVI c/Legendas*:

Deposit Files: Parte 1 / Parte 2 – Bitshare: Parte 1 / Parte 2

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Filmes: Anna Christie (1930)

ANNA CHRISTIE

annachristie_1Título Original: Anna Christie
Ano: 1930
País: Estados Unidos
Duração: 89 min.
Direção Clarence Brown
Elenco: Greta Garbo, Charles Bickford, George F. Marion, Marie Dressler, Lee Phelps, James T. Mack, Jack Baxley, William H. O’Brien.
Sinopse:
Faz 15 anos que Chris mandou Anna morar com uns parentes e, agora, ela está de volta. Após um resgate, um dos sobreviventes chamado Matt se apaixona por ela e a pede em casamento. Anna diz não e resolve contar a verdade sobre a vida miserável que levava em Minnesota, além de um grande segredo.

“Garbo talks”, anunciavam os cartazes da época, na tentativa de promover o primeiro filme falado da diva sueca, nesta segunda versão da peça de Eugene O’Neill (a anterior foi realizada em 1923). Surpreendendo a todos com sua voz grave e rouca, Garbo não só realizou com sucesso a sua transição do cinema mudo para o falado (algo que muitas outras estrelas da época, como Mary Pickford e Gloria Swanson não conseguiram), como reafirmou seu potencial de grande estrela do cinema (a atriz chegou a ser indicada ao Oscar por esse filme e por “Romance”, produzido no mesmo ano e também dirigido por Clarence Brown). Como era costume de alguns estúdios, paralelamente foi realizada uma versão falada em alemão deste filme, dirigida por Jacques Feyder e com outro elenco secundário, lançada na Europa em 1931.

Uma das melhores performances de Garbo

Para o primeiro filme em que Greta Garbo está falando, a MGM sabiamente escolheu a peça de Eugene O’Neill, ganhadora do Prêmio Pullitzer em 1921. Também sabiamente, os produtores ajudaram Garbo não com um, mas com dois membros do elenco original da peça na Broadway: George F. Marion como o pai de Anna, Chris, e James T. Mack como Johnny Priest – transmutado em “Johnny Harp” para o filme de forma a não ofender os mais puritanos. Esta pequena mudança foi interessante. Há cinéfilos que gostam por demais de filmes do tipo que ao contrário de negar suas origens teatrais, desenvolvem um modelo de narrativa que poderiam rotulá-los como “pouco mais do que peças de teatro filmadas”.

“Anna Christie” não peca por isso. O problema não são as peças em si, mas os seus realizadores que não foram mais fiéis ao conteúdo da obra original quando precisavam ou não souberam alçar voos mais elevados quando o texto lhes permitia. Diluindo-se uma obra grande dos palcos para uma versão cinematográfica que não ofendesse ninguém, muitas delas perdem as qualidades que tornaram as peças dignas de serem filmadas em primeiro lugar. Felizmente, o respeito que o estúdio MGM tinha tanto para Eugene O’Neill quanto para Greta Garbo permitiu que “Anna Christie” sobrevivesse ao processo normalmente destrutivo da adaptação, admiravelmente transposto para a linguagem das telas pela consagrada roteirista Frances Marion, que o faz de maneira totalmente sensível. Maravilha das maravilhas, Marion ainda permite que o ponto alto da peça em que Anna revela seu passado para o homem com quem ela mal quer se casar, se torne também o momento absoluto do filme. O que os secretários do Código Hays não deveriam ter pensado sobre isso se ele já estivesse em vigor naquela época!

O elenco é perfeito, e ainda inclui a grande dama das telas Marie Dressler, cuja personagem se torna um ponto de equilíbrio para Garbo em cena, e a curta duração do filme, de apenas 90 minutos, ajuda a manter o ritmo durante toda a projeção. Um dos poucos benefícios a mais para o filme em relação ao texto original é a atmosfera que está sendo mostrada ao invés de eloquentemente descrita na peça – e a roteirista Frances Marion é sábia o suficiente para se manter bem próximo ao texto de O’Neill e quando precisa trazer Dressler de volta para uma cena tocante a atriz a executa de forma magistral. Dressler ganhou um Oscar por sua atuação em “Lírio do Lodo”, de 1931, já aos 61 anos de idade.

“Anna Christie” é uma peça de tragédia, mas rendeu um ótimo filme dramático. É difícil imaginar que um remake atual, que quase certamente perderia a coragem e a atmosfera desta versão de 1930 (a peça já fora filmada sem som, em 1923 – também com George Marion repetindo o papel de Chris) pudesse melhorar essa filmagem excelente. As cenas internas dão mais familiaridade à peça, mas o exterior também deve ser ressaltado por qualquer pessoa com um olho atento para a atmosfera criada pelo diretor de cenários Cedric Gibbons e capturada pelas lentes mágicas do diretor de fotografia William H. Daniels. Enquanto o trabalho de fundo pareça fugir aos modernos padrões técnicos, os cenários de “Anna Christie” dão uma melhor visão do que a maioria dos primeiros filmes da era do cinema mudo mais prezavam, uma visão mais convincente do mundo, especialmente do porto de Nova York.

Talvez com exceção apenas da exagerada e frequentemente parodiada cena da morte de sua personagem em “A Dama das Camélias”, realizado sete anos mais tarde e que ocasionalmente provoca risadas por causa da direção desajeitada, quase todas as performances naturalistas de Garbo da época do começo do cinema sonoro mantiveram-se soberbamente com o passar dos anos. Mas juntamente com a variedade de seus filmes no período, “Mata Hari”, “Rainha Cristina” e “Grande Hotel”, ao toque sublime de Lubitsch em sua comédia de 1939, “Ninotchka” (“Garbo ri!”), com certeza, “Anna Christie” nos oferece a chance de ver a diva sueca em um de seus melhores momentos.

“Garbo talks!”

No final de agosto de 1929, Garbo terminou “The Kiss” e estava se preparando para estrelar “Anna Christie”, seu primeiro filme falado. Garbo já fazia testes de som depois que ela voltou de sua viagem a Suécia no final de 1928. Segundo consta, ela não estava com medo em relação a ter sua voz gravada finalmente ou em falar as linhas de texto diante do microfone. Muitas estrelas estrangeiras deixaram Hollywood por causa de seu forte sotaque. Greta não sabia o que iria acontecer com ela e parecia que ela não se importava de qualquer maneira com isso. Não, o mundo estava esperando por ela em um “talkie”, em primeiro lugar. Outras estrelas da MGM, Joan Crawford, John Gilbert e Ramon Novarro logo teriam suas estreias faladas também.

Mas o fato é que “Anna Christie” não foi a primeira escolha para a estreia de som de Garbo. Irving Thalberg e ela queriam fazer um filme de Joana D’Arc. O produtor sugeriu o remake do filme “La Passion de Jeanne d’Arc” (França 1927), em um filme sonoro. Ele também considerou a peça de Shaw “Santa Joana”. Mas não aconteceu nada disso. De tudo que tinham escolhido o vencedor do Prêmio Pulitzer, a peça teatral “Anna Christie”, de Eugene O’Neill, foi a escolhida para o primeiro filme falado da estrela sueca.

Anna Christie é um dos papéis mais difíceis do teatro contemporâneo. A peça é quase um monólogo, um teste de fôlego para qualquer atriz experiente de palco, imagine para uma atriz cuja voz até então nunca precisara ser ouvida. Foi uma atitude corajosa para Garbo e até mesmo para a MGM, e um risco e tanto para a sua carreira. Outras estrelas do cinema mudo não conseguiram manter suas carreiras com o advento dos filmes falados. Além disso, o papel de uma prostituta era algo difícil de ser aceito no mercado cinematográfico e muito menos conseguia atingir um público grande. Além do conteúdo adulto e trágico, a peça de O’Neill tinha uma linguagem áspera que poderia ofender alguns espectadores ou despertar a ira dos censores da época.

Então Thalberg teve uma ideia para torná-lo mais aceitável, mesmo para um público mais familiar. No roteiro adaptado por Frances Marion, uma das mais experientes e renomadas escritoras de Hollywood, o diálogo de Anna Christie ganhou o forte sotaque sueco. Mas Greta não queria que as pessoas pensassem que ela falaria assim também na vida real. Seu Inglês era muito bom até então e assim ela fez o seu diálogo do jeito que ela queria. Greta até recusou um treinador de voz. Em 28 de setembro, John Gilbert teve seu debut em imagens conversando em “His Glorious Night”, e o público começou a rir em voz alta. Se isso é uma verdade ou não, o fato é que a voz de Gilbert tornou-se uma dessas anedotas lendárias do Cinema. De toda forma, muitos relatórios ruins dos proprietários de cinema não culpavam o filme em si. Todos eles culparam a voz de Gilbert. Infelizmente, sua voz não era ruim, mas era muito aguda. Gilbert ficou profundamente magoado com as críticas, e que ajudariam a destruir sua carreira. Garbo não ficou nada encorajada pela notícia ruim da estreia de Gilbert nos “talkies” mas ainda assim recusou um treinador de voz.

Por contrato, Garbo podia escolher quem quisesse para dirigi-la e ela queria Clarence Brown como diretor de “Anna Christie”. Ela tinha ouvido falar de um ator da Broadway chamado Charles Bickford, que poderia viver o marinheiro Matt Burke. Greta tinha também a palavra final a dizer sobre o casting e queria Bickford de qualquer jeito. Thalberg e Mayer deram o sinal verde. Em 8 de outubro de 1929, os ensaios começaram, mas Greta odiava ensaiar. Ela teria preferido ficar longe até que toda a gente tivesse ensaiado. Então ela iria entrar e fazer a sua cena. Em 14 de outubro, as filmagens começaram e três dias depois Garbo teve seu primeiro dia diante do microfone. Ela estava em boa forma mas também um pouco assustada. Quando ela ouviu sua própria voz gravada pela primeira vez, ela riu: “Meu Deus! É essa a minha voz? Você diz que esse som sou eu? honestamente?”

O filme ganhou muito com o trabalho de Douglas Shearer a frente do Departamento de som da MGM, ele que era um dos pioneiros do som em Hollywood e um dos principais técnicos em atividade no período. Por sua vez, Greta Garbo ficou satisfeita consigo mesma e das cenas que fez. Mas ainda estava insatisfeita com a aparência dela e a forma como Clarence Brown queria a sua interpretação de uma personagem sueca-americana. Alguns dias depois ela teve uma discussão com Brown sobre o assunto. O que se seguiu foi que todas as cenas dela desde a primeira semana de filmagem foram refeitas. Apesar disso, a produção continuou muito bem e sem maiores problemas e terminou em novembro de 1929. Agora MGM começava a pensar em uma campanha para o filme. Depois de algum tempo alguém do estúdio sugeriu a ideia, de apenas duas palavras: “GARBO FALA”. Thalberg adorou a ideia.

Uma prévia do filme foi realizada em San Bernardino. Greta não compareceu, mas os espectadores que esperavam ver o filme anterior de Garbo “O beijo” foram surpreendidos quando vieram os títulos de abertura de “Anna Christie”. O filme começou e Garbo não surge na tela até o fim dos primeiros 15 minutos. Quando ela apareceu de pé na porta e entra no salão, o público inteiro prendeu a respiração. Sua personagem se senta e diz as primeiras linhas de diálogo: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”. Quando o filme terminou, o público aplaudiu alto. O estúdio sabia que este seria um filme vencedor. Thalberg disse que o filme não precisava de qualquer retoque ou cortes. Algo que era bastante incomum em sessões testes feitas na época.

“Anna Christie” estreou oficialmente no Fox Criterion Theatre, em Los Angeles em 22 de janeiro de 1930. Os críticos amaram. Garbo viu “Anna Christie” no dia seguinte. Ela ficou satisfeita com a sua parte, mas ainda estava descontente com a forma como o filme mostrou os suecos. A campanha “Garbo talks” foi um sucesso. “Anna Christie” foi o filme de maior bilheteria na América em 1930 e fez mais de US $ 1 milhão em bilheterias. O mito Greta Garbo resurgia com força total também nos “talkies”.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0020641/

Anna Christie Whiskey Scene:

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