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Greta Garbo e a Duquesa de Langeais

two-faced womenGreta Garbo em “Duas Vezes Meu”, dirigido por George Cukor em 1941. Depois desse filme, Greta Garbo nunca mais seria vista novamente nas telas de cinema.

Desde sua última aparição nas telas em “Duas Vezes Meu” (Two-Faced Woman), Greta Garbo foi diversas vezes procurada pelos estúdios para um possível retorno aos filmes. De todas as ofertas que a diva sueca recebeu e rejeitou, apenas uma esteve muito próxima de se transformar em realidade. Em 1948, a atriz chegou a assinar um contrato para estrelar um filme produzido por Walter Wanger após decidirem que a novela de Honoré de Balzac “A Duquesa de Langeais” (La Duchesse de Langeais, de 1834) seria o veículo perfeito para o retorno de Greta Garbo ao cinema.

Mas Wanger queria filmar na Itália, e chegou a assinar com o ator James Mason para que co-estrelasse o filme. Porém, vários problemas de produção detiveram o início das filmagens. Por conta disso, os principais investidores abandonaram o projeto e o filme foi interrompido várias vezes. Apesar de Wanger ter tentado reiniciar a produção em fevereiro de 1950, ele esbarrou na perda de interesse de Garbo, que retornou a Nova York. Ela continuou recebendo ofertas para voltar, mas nenhuma esteve tão perto de se tornar realidade quanto “A Duquesa de Langeais”.

“Garbo’s Back!”

Walter Wanger, um produtor norte-americano que já havia trabalhado com Garbo no passado (ele produziu “Rainha Cristina” para a MGM em 1933), queria ter a certeza de que o primeiro filme de sua nova produtora, a Walter Wanger International Productions, em sociedade com Eugene Frenke, fosse um grande sucesso de público e de crítica, e nada melhor do que um romance de época que marcasse o retorno da lenda viva Greta Garbo.

A estrela sueca confiava em Wanger e aceitou se encontrar com ele no começo de 1948. Garbo ficou realmente empolgada com a produção e assinou um contrato de um único filme. Foi o primeiro contrato para um filme que ela assinou desde 1940. Mas o romance de Balzac não foi a primeira ideia de roteiro para o novo filme de Garbo. Salka Viertel, atriz, roteirista e amiga pessoal de Garbo, sugeriu uma adaptação da vida da escritora George Sand. Wanger adorou a ideia para o filme, que seria rodado na França, com roteiro escrito por Viertel. Na França, Wanger conseguiu investidores para o filme. Todos queriam que Garbo filmasse na França e Garbo amava a França também.

O primeiro nome escolhido para a direção foi o de G.W. Pabst, o grande cineasta austríaco que já havia dirigido Garbo em seu começo de carreira na Alemanha ainda no período silencioso, “Rua de Lágrimas” (A Joyless Street, de 1925). Mas Pabst não se interessou pela proposta apresentada. Ele queria filmar uma adaptação de Ulisses, onde Garbo viveria um papel-duplo, como Circe e Penélope. Frenke, sócio de Wanger, não concordou porque Pabst tinha má fama na França, e seu nome poderia afastar os possíveis investidores.

O roteiro de “George Sand” escrito por Salka Viertel também não agradou. Ao lado com outros problemas de produção, Wanger reconheceu que seria um grande erro prosseguir com ele e o roteiro foi descartado definitivamente. Ele havia comprado os direitos de filmagem da novela de Balzac, “La Duchesse de Langeais”, e apresentou a ideia de Garbo interpretar a personagem do título. O romance já havia sido transformado em filme em 1922 “The Eternal Flame”, dirigido por Frank Lloyd e estrelado por  Norma Talmadge, e em 1942, produzido na França e dirigido por Jacques de Barobcelli, com Edwige Feuillere como a trágica Duquesa.

garbo-howe-screen-testGreta Garbo sorri no teste de tela que foi obrigada a fazer em 1949 para estrelar “A Duquesa de Langeais”, que marcaria o seu retorno às telas de cinema.

A possibilidade de interpretar a heroína Antoinette de Navarreins da novela de Balzac interessou a Greta Garbo por conta dos temas de romance, vingança e redenção. Além disso, Garbo tinha admiração pela atriz Edwige Feuillere. Wanger arranjou uma apresentação particular do filme em Paris para que Garbo tivesse uma clara ideia de como ela poderia atuar e para se familiarizar um pouco mais com aquela personagem trágica.

A produção finalmente iria começar, com Garbo assinando uma carta aceitando os termos para atuar no filme da Wanger International em 15 de março de 1949. Wanger decidiu rodar na Itália por considerar mais fácil conseguir novos investidores e poder usar as instalações dos estúdios da Cinecittá a um custo muito inferior do que se filmasse na França ou em qualquer outro país.

Outro fator que foi decisivo para Wanger mudar sua produção para a Itália vinha por conta do interesse de Angelo Rizzoli, publicitário italiano e principal responsável por Wanger e Frenke terem conseguido os investidores de que eles precisavam, e com o qual formaram uma parceria para gerenciar os custos e dividir os lucros com o filme. A pós-produção e montagem seriam feitas na Inglaterra, com algumas cenas rodadas nos arredores de Paris. O custo com essas cenas seriam pagos com o dinheiro de outros investidores, os Rothschild, amigos pessoais de Garbo.

Os testes de tela

Greta Garbo chegou em Roma em abril de 1949 com seu companheiro e gerente pessoal George Schlee com a missão de se encontrar com os investidores italianos e usar de todo o charme para convencê-los a investir em seu filme. Uma estratégia que ela nunca precisou utilizar antes. Após o primeiro encontro no hotel, nenhum investidor estava satisfeito pelo fato de Garbo ter usado um grande chapéu que escondia seu rosto. Eles acharam que ela estava escondendo cicatrizes ou sinais de velhice, e decidiram não assinar os cheques até que vissem um teste de tela com Garbo.

Valentine01Quem em são consciência poderia imaginar Garbo em um teste de tela? Aquilo era um insulto. Garbo ainda era Garbo, mas não havia outra saída. Pelo menos três testes de tela foram realizados durante a pré-produção de “A Duquesa de Langeais”. O primeiro teste foi realizado em 5 de Maio de 1949 nos estúdios da Universal por Joseph Valentine, que havia feito um trabalho maravilhoso iluminando Joan Crawford em “Fogueira de Paixões” (Posessed), de 1947, e Ingrid Bergman em “Joana D’Arc”, de 1948.

Valentine filmou cerca de 23 minutos de filme em preto-e-branco. Garbo contou que estava apavorada mas os resultados foram  impressionantes e certamente agradariam os investidores. Valentine, então com 84 anos, foi contratado como diretor de fotografia, mas logo após ter realizado o teste, ele ficou gravemente doente e morreu pouco tempo depois.

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Wanger chamou dois dos melhores cinegrafistas da época: William Daniels e James Wong Howe para realizarem mais testes de tela com fotografia em preto-e-branco.

Howe01Em 25 de Maio, Garbo chegou aos estúdios da United Artists em Hollywood para seu teste de tela com o cinegrafista James Wong Howe. Garbo usava um grande chapéu de palha, um par de calças e uma blusa branca, e distribuía sorrisos. Ela foi para o camarim e 45 minutos depois apareceu no palco maquiada e com o cabelo preso, vestindo uma jaqueta xadrez e um lenço preto. Enquanto Howe analisava como iria montar as luzes e compor a fotografia, Garbo perguntou se poderia fumar um cigarro. Howe consentiu, e a atriz colocou um cigarro em sua piteira. Howe ligou sua câmera e o rosto de Garbo ganhou vida. Cerca de uma hora depois, Garbo se virou para ele: “Suficiente agora?”

Howe concordou. “Bom”, disse ela, “eu acho que vou para casa.”

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Daniels01Algumas horas depois, porém, Garbo se encontrou com William Daniels nos estúdios da Universal, para a qual Daniels trabalhava. Lá ela fez seu terceiro teste de tela. Garbo sentia-se um pouco tímida e temerosa de como ela poderia aparentar durante o teste, mas feliz por reencontrar seu antigo cameraman. Daniels trabalhou com Garbo na maioria de seus filmes na MGM, sendo o primeiro “Terra de Todos” (The Temptress), de 1926, e o último “Ninotcka”, de 1939.

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No dia seguinte, os laboratórios da Pathé em Hollywood revelaram os resultados de ambos os testes. Analisando os testes e as diferenças de estilo, o de Howe aparentava ser mais interessante e ele foi contratado. George Schlee afirmou que haviam sido excelentes e de fato todos eles o foram. Garbo viu os testes e admitiu que ficou muito feliz com os resultados. A grande estrela do cinema ainda não tinha perdido o brilho.

Joseph Valentine’s Screen test:

James Wong Howe’s Screen test:

Os testes acabaram perdidos por quase 40 anos. Em 1989, fragmentos foram encontrados e divulgados para o público após a morte de Greta Garbo em 1990. Conta-se que o teste de Valentine durou cerca de 20 minutos, e os de Howe e Daniels juntos somavam cerca de 13 minutos.

James Mason e Edith Piaf

Investidores convencidos, tudo parecia estar dando certo. Os cenários ficaram prontos em agosto. A principal fotografia foi marcada para começar em setembro de 1949, em Roma, e o lançamento do filme foi planejado para o começo de 1950 para coincidir com o centenário da morte de Balzac. A produção que estava orçada em cerca de 225 mil dólares, porém, acabou subindo para meio milhão de dólares. O salário inicial de Garbo  era 100 mil dólares. Se o filme arrecadasse mais de dois milhões de dólares, ela receberia um adicional de 50 mil mais 15% sobre o lucro.

Wanger teria negociado com grandes estúdios americanos para lançar o filme nos Estados Unidos, entre eles a Columbia Pictures e a RKO, que teria obtido os direitos de distribuição. O apoio do produtor inglês J. Arthur Rank deu a Wanger o apoio financeiro de que ele precisava para poder escalar atores ingleses no filme e realizar a pós-produção na Inglaterra.

La_DuchesseEm 1949, uma revista da Suécia anunciava a volta de Garbo em um filme ao lado de James Mason chamado “Lover and Friend”, distribuído pela RKO Pictures.

Vários atores foram considerados para interpretar o Duque de Langeais, entre eles Errol Flynn, Louis Jourdan, Lawrence Olivier e Robert Cummings. Garbo sugeriu o nome do ator inglês James Mason após tê-lo visto atuar ao lado de Joan Bennett em um filme produzido por Wanger, “Na Teia do Destino” (The Reckless Moment), mas queria conhecê-lo antes. Wanger arranjou um encontro para eles na casa do ator em Berverly Hills. Garbo passou uma tarde agradável na companhia de Mason e sua esposa, sorrindo e brincando no jardim com os filhos do casal.

Anos mais tarde, James Mason lembrou o quanto Garbo estava surpreendente, espontânea, divertida e sorridente. Ele disse que o roteiro do filme não era muito interessante, mas que seria muito interessante para ele atuar ao lado dela. Eles acabaram se tornando amigos, com Garbo visitando o casal Mason algumas vezes depois disso, mas eles nunca conversavam sobre filmes ou sobre o filme que quase fizeram juntos. O salário de Mason seria de 75 mil dólares.

Max Ophuls, que acabaria escolhido para dirigir o filme, pensou em vários atores britânicos para atuar como Armand de Montriveau, entre eles Jack Hawkins,  Frank Allenby,  Geoffrey Keen e Frederick Lester. Ophuls também sugeriu ao produtor Walter Wanger vários outros artistas para compor sua equipe de produção, entre os quais os cenógrafos Jean D’Eaubonne e Leon Barsacq, o técnico de som Joseph de Bretagne, o gerente de produção e assistente de direção Ralph Baum e o editor Michael Luciano.

Sally Benson foi contratada para escrever o roteiro do filme a partir do roteiro original que Frances Marion havia escrito para a versão americana de 1922. O filme ganhou os títulos de “The Duchess Of Langelais” na Inglaterra e “Lover and Friend” na América. Benson tinha escrito os roteiros de “Agora Seremos Felizes” (Meet Me in St. Louis), estrelado por Judy Garland, de 1944, e “A Sombra de uma Dúvida” (Shadow of a Doubt), de Alfred Hitchcock, mas o primeiro esboço de roteiro para “The Duchess” não agradou Wanger. Diziam que Benson tinha problemas com bebida e era negligente no trabalho, e apesar das revisões que fez no roteiro, Wanger pediu a Ophuls que o terminasse.

Wanger teve a ideia de inserir uma canção de Edith Piaf na história. Havia no roteiro duas cenas que se passavam em um café do século 19 e que mostravam uma cantora desiludida do mundo que na opinião de Wanger seria perfeita para ser vivida pela própria Edith Piaf.

Garbo em Technicolor

George Cukor foi a primeira escolha para dirigir o filme que marcaria o retorno de Greta Garbo. Ele tinha sido o responsável pelo último filme dela em Hollywood, “Duas Vezes Meu”, que dirigiu em 1941. Infelizmente, pouco antes ele havia assinado com a MGM para dirigir Katharine Hepburn em “A Costela de Adão” (Adam’s Rib), e outros diretores foram considerados: Robert Siodmak, Mervyn Leroy, Henry Koster e William Dieterle, além de Curtis Bernhardt, Irving Rapper e Vittorio De Sica. Ao assistirem o grande sucesso da Broadway dirigido por Joshua Logan, “South Pacific”, Garbo e Schlee pensaram que ele seria perfeito para dirigir o filme. Logan, porém, nunca aceitou os termos do contrato e a escolha acabou ficando com o diretor franco-alemão Max Ophuls.

Diziam que o contrato de Garbo garantia que ela atuaria em um filme em preto-e-branco, com base no argumento de que a “mística de Garbo” só se beneficiaria em contrastes de preto, branco e cinza. Mas na verdade não havia essa cláusula no contrato, o que aumentou os rumores de que o filme seria feito em Technicolor e que teria havido pelo menos um teste de tela realizado em cores.

Começam os problemas

Parecia que nada poderia dar errado. Mas deu. O plano financeiro de “A Duquesa” começou a ruir quando o orçamento para o filme fugiu ao controle. A presença de Garbo se tornou imediata na Itália para conseguir os recursos adicionais necessários para a produção começar. Assim que chegou em Roma, em 1º de setembro, Garbo foi cercada pelos paparazzi. Ela teve uma reunião com o produtor Giuseppe Amato, com o publicitário Angelo Rizzoli e outros investidores. Walter Wanger estava em uma importante viagem e não pôde ir ao encontro, crucial para o projeto e um dos dias mais perturbadores de toda a carreira de Greta Garbo.

Garbo percebeu que Amato e Rizzoli queriam que ela sorrisse e flertasse com aquele bando de italianos ricos para os convencer a colocar suas fortunas na conta da produtora. Greta disse que não faria isso. Ela ainda era Greta Garbo e não iria servir de “cavalo de circo” para eles. As coisas rapidamente foram de mal a pior: Amato ficou chocado porque Greta achou que ele tinha arranjado os fotógrafos e informado a imprensa de sua presença ali.

Com os custos de produção nas nuvens e o início das filmagens adiado para outubro, a situação ficou tensa no final de setembro quando os jornais italianos disseram que Rizzoli estava deixando o projeto por conta das exigências impossíveis de Garbo, que ela não queria se comprometer enquanto o filme não estivesse totalmente financiado. Wanger e Frenke queriam se livrar dos italianos mas tinham ido longe demais. Eles sabiam que aquilo tudo era mentira, e que embora Garbo tivesse estabelecido certas cláusulas, ela nunca cogitou em pedir aumento de salário ou abandonar o projeto com a saída dos investidores.

La_Duchesse_fanart_posterPoster criado por um fã para o filme de Greta Garbo que nunca aconteceu.

Quando Max Ophuls e James Wong Howe chegaram em Roma, tudo estava mergulhado no caos. Por sua vez, James Mason se recusou a viajar para a Itália até que os termos sobre seu salário e início das filmagens estivessem definidos. Os produtores cogitaram em contratar Errol Flynn ou Louis Jourdan em seu lugar, e enviaram um telegrama para os agentes de Garbo na América informando sobre a possível mudança de protagonista.

Walter Wanger estava descontente com a lentidão e os custos da produção, e principalmente com a presença de Schlee e as tentativas dele de interferir no processo criativo do filme. Para Wanger, Schlee era uma barreira para o seu contato direto com Garbo e acusou Schlee de fazer duras críticas em relação a presença dos investidores estrangeiros no projeto. Por sua vez, Schlee afirmou que Garbo não aceitaria nem Flynn nem Jourdan atuando ao lado dela.

George_Schlee-3Greta Garbo e George Schlee, que ela conheceu em 1941 e com o qual teve um relacionamento que durou até 1960.

Para piorar, um duro golpe foi a falta de instalações disponíveis para as filmagens. A MGM havia reservado todos os estúdios da Cinecittá para a produção de seu drama épico “Quo Vadis”. Henry Henigson, alto executivo da MGM, chegou a oferecer a Wanger as instalações desde que ele começasse a rodar imediatamente e concluísse as filmagens a tempo do início da produção de seu filme. Sem o apoio de Rizzoli e sem um homem de comando em Roma, isso se tornou impossível.

Sally Benson deu prosseguimento às más notícias quando decidiu processar a Wanger International por quebra de contrato. As mudanças feitas por Max Ophuls no roteiro original de “A Duquesa” levantaram a ira dos moralistas de plantão. O chefe do Código de Produção Joseph Breen informou os produtores que o roteiro de Benson/Ophuls era inaceitável para os padrões da época. Em novembro, Wanger decidiu liberar Ophuls para que realizasse na França aquele que seria considerado um de seus melhores trabalhos: “Conflitos de Amor” (La Ronde), de 1950.

Finalmente, os investidores italianos abandonaram o projeto. Garbo perdeu a fé no filme. Sem dinheiro para o filme, Wanger precisou recomeçar, buscando o apoio de algum grande estúdio de Hollywood. Howard Hughes demonstrou interesse e chegou a ser dito que ele iria investir o meio milhão necessário para salvar a produção, mas como o próprio Hughes estava enfrentando problemas financeiros na época, ele só poderia financiar parte do filme.

Nunca mais um filme de Garbo

Em janeiro de 1950, Wanger convocou uma reunião com a imprensa. Ele anunciou oficialmente o adiamento do filme, dizendo que não culpava Garbo pelo atraso e desmentiu todos os rumores de que ela estava velha demais. Pelo contrário, que Garbo estava agora mais linda do que nunca, ainda mais fluente no inglês e que ela iria encantar mais do que antes no próximo filme que fizesse.

Por sua vez, Garbo confidenciou ao amigo Cecil Beaton, que conheceu em Paris, o tempo enorme que perdeu e que a impediu de realizar outros trabalhos. Garbo afirmou que essas “pessoas de filmes” são muito difíceis de lidar e que elas mentem o tempo todo, e que ainda tinha esperanças de trabalhar no filme no futuro, mas que não era nada agradável trabalhar para pessoas que você não gosta.

Wanger não desistiu do filme. Ele tentou novos financiamentos, inclusive propondo que Garbo atuasse sem salário e investisse seu próprio dinheiro no filme, ficando com a maior parte dos lucros. Nem Garbo nem Schlee ficaram muito interessados, nem os grandes estúdios sondados, como RKO, Paramount, Columbia, Warner e 20th Century Fox. Wanger tentou uma última vez convencer Garbo e escreveu uma carta pessoal para ela em fevereiro de 1950. Mas era o fim. Garbo pediu a liberação de seu contrato e voltou, triste, para Nova York. Ela queria muito ter feito esse filme e o filme esteve realmente muito, muito perto de acontecer.

walter-wanger_39Muito rumores foram ditos na época e acusações foram feitas de todos os lados. Mas os motivos principais porque “A Duquesa de Langeais” nunca foi realizado foi a desistência dos investidores italianos e as diferenças entre Walter Wanger e George Schlee, que nunca se entenderam. Muitos acusaram Schlee de ter sido o responsável pelo fiasco do filme e por conta disso, Greta Garbo nunca mais retornou ao cinema. Nunca se estabeleceu o grau de relacionamento entre Garbo e Schlee, que era casado com Valentina, figurinista de Garbo em Nova York, onde se conheceram em 1941. Schlee tinha uma bem protegida casa na Riviera, conhecida como “Garbo’s house”. Quando ele morreu em 1964, Garbo ficou profundamente chocada. Ela se importava muito com ele e sentiu muito a sua falta até o fim da vida.

Walter Wanger, que começou a carreira no final dos anos 20, ainda era um produtor de sucesso em Hollywood, quando em 1951, levado pelo ciúmes disparou um tiro contra o agente de sua esposa Joan Bennett, Jennings Lang, acusando-os de terem um caso. Entre os filmes mais importantes que produziu posteriormente estão “Vampiros de Alma”, o clássico de ficção-científica dirigido por Don Siegel em 1956, “Quero Viver!”, dirigido por Robert Wise em 1958 e que deu o Oscar de atriz à Susan Hayworth, e a mal fadada produção “Cleópatra”, estrelada por Elizabeth Taylor em 1963. Depois de ter se separado de Joan Bennett em 1965, Wanger faleceria em 1968, aos 74 anos.

A fonte para este artigo está no site www.garboforever.com. Informações adicionais foram obtidas nos sites IMDb e Wikipedia.

Imagem da Semana: As Mãos de Orlac (1924)

Conrad Veidt in The Hands of OrlacConrad Veidt, em “As Mãos de Orlac”, de 1924, dirigido por Robert Wiene. Tamanho da imagem: 786 × 1037.

O Expressionismo foi a maior contribuição que a Alemanha deu à cultura mundial nas primeiras décadas do século 20. O estilo, mais que um simples movimento artístico, rapidamente se espalhou pela Europa e chegou à América, onde os filmes produzidos no estilo do cinema expressionista alemão começavam a ganhar adeptos entre os realizadores norte-americanos e aqueles que, fugindo do nazismo na Europa, imigraram para Hollywood para dar seguimento às suas carreiras. Dentre esses realizadores, Robert Wiene foi um dos poucos que decidiu permanecer na Europa, exilando-se primeiramente em Budapeste, na Hungria. Ali, prosseguiu a carreira como diretor de forma modesta dirigindo apenas um filme, “One Night in Venice” (1934). Depois de seguir para Londres, Wiene foi para Paris, onde morreu, de câncer, em 1938, dias antes de finalizar seu último trabalho, “Ultimatum”, que foi concluído por seu amigo Robert Siodmak.

Mais conhecido por “O Gabinete do Dr. Caligari”, de 1919, Robert Wiene realizou outros grandes filmes de terror no estilo expressionista. “As Mãos de Orlac” (Orlac’s Hände), produzido na Áustria em 1924, é um desses filmes. Estrelado por Conrad Veidt, o grande ator alemão que já havia atuado como o sonâmbulo Cesare em “O Gabinete” e aqui estrela no papel-título, o filme é baseado na novela “Les Mains d’Orlac” de Maurice Renard. A história conta como um grande pianista, Paul Orlac, após sobreviver a um grave acidente de trem em que teve as mãos decepadas, consegue, com a intervenção de um cirurgião brilhante receber as mãos de um assassino condenado à morte. Orlac não consegue mais tocar piano, e passa a sentir uma compulsão por assassinatos, como se as mãos do crimininoso morto o estivessem controlando a partir de agora.

“As Mãos de Orlac” ganharia uma versão hollywoodiana em 1935 chamada “Mad Love”, dirigida pelo célebre Karl Freund e estrelada por Colin Clive (Frankenstein) e Peter Lorre (M), e uma versão franco-inglesa de 1960, “Les Mains d’Orlac”, estrelada por Mel Ferrer e Christopher Lee, dirigida por Edmond T. Gréville. A novela original de Renard ainda inspirou outros filmes, entre eles, “The Hand”, de 1981, que marcou a estreia do roteirista Oliver Stone na direção, e “Les Mains de Roxana”, de 2012, onde aconteceu uma troca de sexo onde o protagonista era mulher, Roxanna Orlac, uma violinista que recebeu as mãos de uma criminosa que cometeu suicídio.

Leia mais sobre o Expressionismo Alemão e os grandes filmes de terror do início do século 20 aqui, no Assim Era Hollywood.

Filmes: A Letra Escarlate (1926)

A LETRA ESCARLATE
scarletletter_1Título Original: The Scarlet Letter
Ano: 1926
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 115 min.
Direção: Victor Sjöström
Elenco: Lillian Gish, Lars Hanson, Henry B. Walthall, Karl Dane, William H. Tooker, Marcelle Corday, Fred Herzog, Jules Cowles, Mary Hawes, Joyce Coad, James A. Marcus.
Sinopse:
Boston, Século 17. O reverendo Arthur Dimmesdale e a costureira Hester Pryne se apaixonam. Porém, ela é casada, apesar do marido estar ausente há anos. Arthur tem que fazer uma viagem e quando retorna, encontra Hester esperando um filho seu e sofrendo a repressão da sociedade puritana, que a condena a usar a letra A – de “adultério” – em sua roupa por toda a vida.

Adaptação da obra de Nathaniel Hawthorne, este primoroso drama de época, produzido antes do advento do cinema sonoro, traz o prestigiado diretor sueco Victor Sjöstrom (ou Seastrom, como passou a chamar-se na América) em um dos nove filmes que produziu para o estúdio MGM em sua passagem pelos Estados Unidos, com grandes atuações de Lillian Gish como Hester Prynne e Lars Hanson como o reverendo Arthur Dimmesdale. O roteiro de Frances Marion e o cuidadoso trabalho de reconstituição de época, aos cuidados dos cenografistas Cedric Gibbons e Sidney Ullman, e do figurinista Max Rée, são outros dos destaques do filme.

Possivelmente a melhor atuação da lendária atriz Lillian Gish

O clássico de Nathaniel Hawthorne publicado em 1850 já vinha sendo adaptado para as telas desde 1908, através de curtas, o primeiro deles dirigido por Sidney Olcott, e protagonizado por Ruth Roland como Hester Pryne. Outras adaptações em forma de curta-metragem vieram em 1911 e 1913, mas só em 1917, a história ganhou um filme completo, dirigido por Carl Harbaugh, e estrelado por Mary Martin e Stuart Holmes nos papéis principais. Outra versão viria em 1922, dirigida por Frank Miller, e estrelando Sybil Thorndike. Esta versão de “A Letra Escarlate” só foi possível graças ao empenho pessoal da atriz Lillian Gish, que encabeçou uma campanha para que a Metro-Goldywn-Mayer produzisse o filme e lutou contra os grupos de moralidade que eram contra o livro de Hawthorne, que permanecia na lista de livros proibidos. O chefão do estúdio,Louis B. mayer, estava receoso em arriscar a carreira de uma de suas atrizes mais importantes, temendo justamente a oposição dos grupos religiosos e moralistas.

Por conta disso, a atriz ironicamente enfrentou fora das telas as mesmas restrições morais que sua personagem enfrenta no filme. Ela convidou os suecos Victor Sjöström para dirigir e Lars Hanson para atuar ao seu lado, e de imediato não só se instruiu no método escandinavo de atuação como realizou uma de suas performances mais arrebatadoras, mostrando porque é considerada uma das maiores atrizes de todos os tempos. Embora a história voltasse a ser filmada por Robert G. Vignola em 1934, estrelada por Colleen Moore e Hardie Albright, esta versão é considerada a mais bem acabada, a começar pela própria transcrição do texto para as telas pela premiada roteirista Frances Marion (de “O Campeão” e “O Presídio”), a direção de arte primorosa de Cedric Gibbos e Sidney Ullman e pela fotografia de Hendrik Sartov, mas o melhor mesmo é acompanhar a maneira como Sjöström (ou Seastrom, como assinou seus filmes americanos) mostra a transformação da personagem.

No início do filme, Hester tem o rosto radiante e luminoso, enquanto brinca como costureira da comunidade, escolhe as roupas que pretende usar, ou quando está ao lado de seu amado sobretudo nas paisagens campestres, nas quais o diretor Sjöstrom preenche a tela de beleza e poesia. Mais tarde, porém, Lillian conduz o espectador diretamente ao seu drama interior, cujo climax se dá com sua inabalável calma em pé no cadafalso para suportar a vergonha ou ferozmente proteger sua filha não batizada, fruto de sua paixão proibida. Gish em nenhum instante perde o controle da personagem patética que está interpretando. A despeito de sua arrebatadora atuação em “Vento e Areia”, seu filme posterior, muitos críticos insistem em que “A Letra Escarlate” é sem dúvida alguma a sua melhor performance.

Por sua vez, o idioma não foi empecilho para o ator Lars Hanson (ele dizia suas falas em sueco, Lillian Gish dizia as suas em inglês), que tenta mostrar o lado humano e bondoso de seu personagem, um homem fraco consumido pela culpa, enquanto caminha para a inevitável e profundamente comovente conclusão. Lillian Gish gostou tanto de atuar com Hanson, que ele foi escolhido para interpretar seu par em “Vento e Areia”, também dirigido por Victor Sjöstrom. No elenco de apoio, estão excepcionais Henry B. Walthall (que atuou ao lado de Lillian Gish em “O Nascimento de uma Nação”) como Roger Prynne, que chega a Boston e prenuncia um terrível desfecho para os dois amantes, e Karl Dane, como Mestre Giles, um dos líderes da comunidade e que acrescenta um pouco de alívio cômico à essa trágica história de amor. Como curiosidade, Walthall também está presente na versão de “A Letra Escarlate”, de 1934, repetindo o personagem Roger.

O filme sofreu uma restauração em 2000 e ganhou uma trilha sonora composta por Lisa Anne Miller e Mark Northam. Por conta da utilização de fontes de qualidade e aspectos diferentes, a cópia em DVD acabou sofrendo um pouco com a adaptação para um único formato de tela. Nada que estrague o prazer de asssitir a esse clássico e comprovar o enorme talento dos envolvidos diretamente em sua realização: o talentoso diretor Sjöstrom e a lendária estrela Lillian Gish.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0017350/

Filme:

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