Atores: Mickey Rooney

CRIANÇAS PRODÍGIOS NO CINEMA: MICKEY ROONEY

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Nascimento: 23 de setembro de 1920, Brooklyn, Nova York.
Falecimento: 6 de abril de 2014, Los Angeles, Califórnia.
Casamentos: Ava Gardner (1942─1943),  Betty Jane Phillips (1944─1948),  Martha Vickers (1949─1952),  Elaine Devry (1952─1958),  Carolyn Mitchell (1958─1966),  Marge Lane (1966─1967),  Carolyn Hockett (1969─ 1974),  Jan Chamberlin (1978─2014).
Filhos: Michael Rooney, Tim Rooney, Mickey Rooney, Jr., Teddy Rooney, Jimmy Rooney, Jonelle Rooney, Kimmy Sue Rooney, Kerry Rooney, Kelly Ann Rooney.

Nascido no Brooklyn, em Nova York, em 1920, ainda bebê de colo começou a participar das apresentações dos pais, integrantes de uma trupe de teatro vaudeville. Após o divórcio de seus pais, ele foi com a mãe para Hollywood, onde conseguiu ser escalado, aos 6 anos, para pequenas produções como uma série de curtas-metragens chamada Mickey McGuire. Do papel do título ele herdou o nome artístico. Mickey Rooney interpretou o personagem Andy Hardy em 15 filmes entre 1930 e 1940 e que o ajudaram a ser tornar uma das maiores estrelas da época. Com 13 anos, interpretou Puck na adaptação para as telas da peça de Shakespeare “Sonho de uma Noite de Verão”, de 1935. Além de sinônimo de sucesso nas bilheterias, seus múltiplos talentos como ator tanto de comédias quanto de dramas, cantor, dançarino e instrumentista ajudaram a fazer de Mickey Rooney um dos atores mais requisitados de Hollywood e o favorito do chefão da MGM Louis B. Mayer.

Laurence Olivier declarou que Rooney era “o maior de todos os atores” e o diretor Clarence Brown, que dirigiu Rooney em “A Mocidade é Assim Mesmo” e “A Comédia Humana”, disse certa vez que Rooney foi “o mais próximo de um gênio” com que ele teve a honra de trabalhar. Mas a carreira de Mickey Rooney teve também seus momentos ruins. Com a popularidade em alta no início da II Guerra Mundial, o ator partiu em turnê para entreter as tropas americanas nos campos de batalha, mas ao voltar a Hollywood, já no final da guerra, sua aparência não era mais a de um garoto e ele nunca mais teve o mesmo prestígio nem o mesmo sucesso dos seus tempos de menino. Com apenas 1,57 metro de altura, lhe faltava a estrutura física para a maioria dos papéis de homens adultos. Aos poucos, porém, com personagens secundários e tipos exóticos, Rooney soube se reinventar e continuou a colocar seu nome nos créditos, alternando entre participações em filmes, programas de TV e peças de teatro.

jan-mickey-2004Mickey Rooney e a esposa Jan, com quem foi casado por 35 anos, em 2004.

Nove décadas de grandes atuações

Joseph Yule, Jr. nasceu em 23 de Setembro de 1920, no Brooklin, em Nova York, filho único de um casal de artistas do vaudeville, o escocês Joe Yule, e Nell W. Carter, uma moça do Kansas. Quando o menino nasceu, o casal já atuava em espetáculos no Brooklin e a estreia de Joe Jr. teria sido em um desses espetáculos aos 17 meses de idade vestindo um smoking especialmente feito para ele. Durante uma viagem prolongada do pai, o menino e sua mãe foram morar com uma tia no Kansas. Lá, Nell viu no jornal que a produtora de Hal Roach estava contratando crianças para o elenco de “Our Gang”. Roach ofereceu a Joe Jr. um contrato de cinco dólares por dia enquanto os outros garotos do show ganhavam cinco vezes mais. Logo, porém, o talento do menino começaria a atrair a atenção e ele passaria a atuar ao lado de grandes nomes de Hollywood como Joel McCrea, Colleen Moore, Clark Gable, Douglas Fairbanks Jr. e Jean Harlow.

mickey-rooney-babyMickey Rooney bebê, no começo de 1921. A estreia do ator nos palcos foi aos 15 ou 17 meses de vida segundo algumas fontes, em um espetáculo de vaudeville onde seus pais atuaram quando moravam no Brooklin em Nova York.

Os pais de Joe se separaram em 1924, e em 1925 ele e a mãe se mudaram para Hollywood, onde Nell se tornou gerente de uma agência de turismo. O primeiro filme estrelado pelo garoto foi um curta-metragem chamado “Not to be Trusted”, de 1926, mas o seu primeiro papel como protagonista veio apenas um ano depois graças à sua mãe que viu o anúncio de jornal de Fontaine Fox procurando um menino de cabelos escuros para atuar no papel de “Mickey McGuire” em uma série de curtas-metragens. Sem dinheiro para pagar a tinta para tingir os cabelos do filho, a Sra. Yule levou o filho para a audição após escurecer seu couro cabeludo com uma cortiça queimada. Joe Jr. ganhou o papel e se tornou Mickey McGuire por 78 filmes realizados entre 1927 e 1936, tendo o primeiro da série, “Mickey’s Circus”, estreado em 4 de setembro de 1927.

Como o personagem foi adaptado de Toonerville Trolley, uma popular tira de jornal da época, o produtor do show Larry Darmour enfrentou um processo judicial movido pelos escritores. Para fugir ao processo, Joe Yule Jr. se tornou legalmente Mickey McGuire, pois se esse fosse seu nome real, Damour não teria que pagar os royalties aos proprietários da tira. Sua mãe mudou o nome para McGuire em uma tentativa de reforçar o argumento, mas o estúdio acabou perdendo o processo. Por conta disso, além da indenização, os proprietários do personagem exigiram que o ator, então com doze anos de idade, fosse proibido de usar o nome Mickey McGuire.

mickey-rooney-1930Mickey Rooney em 1930.

Mais tarde, o ator contou que durante os anos em que interpretou Mickey McGuire, ele conheceu Walt Disney nos estúdios da Warner, e que Disney criou Mickey Mouse inspirado em seu nome, apesar de Disney sempre dizer que mudou o nome do seu personagem mais famoso de Mortimer para Mickey por sugestão de sua esposa. Para evitar problemas, Fontaine Fox pediu que o ator trocasse de nome novamente. Sua mãe, sugeriu Mickey Looney para o filho comediante, mudado logo depois para Rooney para não provocar outro problema legal, desta vez com a série animada da Warner Looney Tunes. O ator estrelou mais alguns filmes na série “Mickey McGuire” até assinar com a MGM. O estúdio então o escalou como Mickey Rooney no papel de Andy Hardy, o filho adolescente de um juiz em “Uma Questão de Família” (A Family Affair), de 1937.

Andy Hardy

A MGM planejou “Uma Questão de Família” como um Filme B convencional, escalando Lionel Barrymore para o papel do juiz James K. Hardy (depois substituído por Lewis Stone nos filmes seguintes) e Mickey Rooney como seu filho adolescebte, Andy. Porém, o sucesso inesperado do filme criou a maior franquia cinematográfica da época, que incluiu mais 13 filmes entre 1937 e 1946, e um filme de despedida em 1958. A intenção da MGM era fazer uma série de filmes exaltando valores morais e a união da família, com Rooney vivendo o típico adolescente ansioso, hiperativo e namorador, mas logo os talentos do ator fizeram dele o astro desses filmes e a série se tornaria um modelo de exaltação da família e “um retrato reconfortante de uma pequena cidade da América”, com Rooney idealizando “a imagem duradoura daquilo que todos os pais desejavam que seus filhos pudessem ser”.

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Mas na vida real, Mickey Rooney era muito mais do que o retrato idealizado do adolescente dos filmes de Andy Hardy. O chefão da MGM, Louis B. Mayer, que sempre se esforçou em manter seus atores na linha e que se tornou uma espécie de pai para Mickey Rooney durante o período em que ele esteve sob contrato do estúdio, certa vez precisou intervir para que o ator não estragasse sua imagem pública. Segundo a biógrafa Jane Ellen Wayne, Mickey Rooney teria respondido a Mayer de forma ríspida, dizendo “Eu não farei isso. Você está pedindo o impossível”. Mayer teria agarrado Rooney pela lapela e dito: “Ouça bem! Eu não ligo para o que você faz na sua vida privada. Apenas não o faça em público. Em público, comporte-se. Seus fãs esperam isso. Você é Andy Hardy! Você é a América! Você é as Estrelas e as Faixas. Trate de se comportar! Você é um símbolo!” Mickey Rooney, então engoliu em seco, e respondeu: “Eu vou ser bom, Sr. Mayer. Eu prometo.” Mayer soltou o garoto e disse: “Tudo bem”.

Mais tarde, Rooney reconheceu que esses primeiros confrontos com Mayer foram necessários para sua evolução como ator e protagonista dos filmes. “Todo mundo se desentendia com ele, mas ele ouvia e você ouvia, e assim ambos chegavam a um acordo… Ele visitava os sets, ele dava voz às pessoas… O que ele queria era algo que fosse americano, apresentado de uma maneira cosmopolita”, contou o ator.

1937-Mickey-Rooney-and-Judy-GarlandEm 1937, Rooney fez seu primeiro filme ao lado de Judy Garland, “Menino de Ouro” (Thoroughbreds Don’t Cry, foto ao lado), dirigido por Alfred E. Green. Mickey e Judy se tornaram grandes amigos desde então e estrelariam diversos outros filmes onde cantavam e dançavam juntos. O público da época delirava ao ver o modo como aquelas duas estrelas de Hollywood interagiam entre si em um química poucas vezes vista nas telas. A MGM também percebeu essa química e reuniu as suas duas grandes estrelas diversas outras vezes. Além de três filmes de Andy Hardy onde Judy interpretou a menina que tinha uma queda por Andy, Judy Garland atuou em outros filmes ao lado de Rooney, entre eles aquele pelo qual ele foi indicado ao Oscar de ator, “Sangue de Artista” (Babes in Arms), de 1939, além de “O Rei da Alegria” (Strike Up the Band), de 1940, “Calouros na Broadway” (Babes on Broadway), de 1941, e “Louco por Saias” (Girl Crazy), de 1943, todos dirigidos por Busby Berkeley. O último filme em que atuaram juntos foi “Minha Vida é uma Canção” (Words and Music), de 1948, que também foi o último filme de Mickey Rooney na MGM. Somente em 1963, como convidado em um episódio do show de variedades dela na rede de TV CBS, Mickey e Judy voltariam a se encontrar novamente nas telas.

rooney-garland-love-finds-andy-hardy-1938Mickey Rooney com Judy Garland em “O Amor Encontra Andy Hardy” (Love Finds Andy Hardy), de 1938, dirigido por George B. Seitz.

Durante uma entrevista para um documentário, Mickey Rooney relembrou a amizade entre eles: “Judy e eu éramos tão unidos que poderíamos ter vindo do mesmo útero. Nós não éramos como irmão e irmã, mas não havia nenhum caso de amor naquilo; havia mais do que um caso de amor. É muito, muito difícil explicar as profundezas de nosso amor um pelo outro. Era muito especial. Era um amor para sempre. Judy não faleceu. Ela está sempre comigo em cada batida do meu coração.”

1941-Judy-Garland-and-Mickey-RooneyMickey Rooney e Judy Garland no musical “Calouros na Broadway”, de 1941. O filme foi dirigido por Busby Berkeley, com Vincente Minnelli (não creditado) dirigindo Judy nos seus números-solos.

Em 1937, Mickey Rooney estrelou como Shockey Carter em “O Filho do Herói” (Hoosier Schoolboy), dirigido por William Nigh, sobre uma professora recém-chegada à uma escola onde precisa lidar com alunos rebeldes. O filme está em domínio público e pode ser visto no Internet Archive. No mesmo ano, ele atuou como Dan ao lado de Spencer Tracy e Freddie Bartholomew na adaptação da novela de Rudyard Kipling “Marujo Intrépido” (Captains Courageous), dirigida por Victor Fleming. O filme foi um sucesso absoluto e foi indicado para três categorias do Oscar, com Spencer Tracy recebendo a estatueta de ator.

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O primeiro papel de destaque de Mickey Rooney como ator dramático veio um ano depois, em “Com os Braços Abertos” (Boys Town), dirigido por Norman Taurog, onde atuou ao lado de Spencer Tracy. Baseado na história real do Padre Edward J. Flanagan que fundou um lar para delinquentes juvenis chamado “Boys Town”, em Omaha, no Nebraska, o filme foi um estrondoso sucesso de público e de crítica. Mickey Rooney ganhou um Oscar especial, dado aos atores juvenis que se destacam no cinema, por sua atuação como Whitey Marsh, e Spencer Tracy levou o Oscar de ator. A despeito de diversas cenas memoráveis, a mais famosa é aquela em que o personagem de Mickey está jogando pôquer com um cigarro na boca, usando um chapéu e com os pés sobre a mesa. Spencer Tracy chega e agarra-o pela lapela, joga o cigarro fora e o empurra para um cadeira. O sucesso de “Com os Braços Abertos” foi tanto que motivou uma sequência, “Men of Boys Town”, de 1941, onde Tracy e Rooney reprisaram seus papéis.

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A popularidade dos filmes estrelados por Mickey Rooney fez dele a maior estrela de Hollywood nos anos de 1939, 1940 e 1941. Em 1939, ele estrelou no papel título de “As Aventuras de Hucleberry Finn”, adaptação do conto clássico de Mark Twain, dirigida por Richard Thorpe. Não foi Clark Gable, Tyrone Power ou Errol Flynn, mas o rosto que saiu na capa da revista Time em 1940 foi o de Mickey Rooney por ocasião do lançamento do filme “Young Tom Edison”, onde o ator vivia nada menos do que o grande inventor Thomas Edison em seus anos de juventude. “Você não estava indo para o trabalho, você estava indo se divertir. Eu me sentia em casa, todos eram coesivos; era como uma família. Em um ano eu fiz nove filmes; e eu tinha que ir de um estúdio ao outro”, lembra o ator: “Você não lia o roteiro e dizia ‘eu acho que posso fazer’. Você fazia. Eles tinham pessoas que sabiam que tipo de histórias que eram apropriadas para você.”

Sobre como foi trabalhar com Mickey Rooney em “A Comédia Humana”, de 1943, e “A Mocidade é Assim Mesmo”, de 1944, o diretor Clarence Brown declarou: “Mickey Rooney é o mais perto de um gênio com quem eu já trabalhei. Havia Chaplin, e então havia Rooney. Nada do que ele fazia podia dar errado, e tudo o que você tinha que fazer com ele, ele fazia de uma só vez”.

O declínio em Hollywood e o ressurgimento no rádio, TV e teatro

Em 1944, Rooney alistou-se no Exército e serviu até pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra. Nesse período ele ajudou a entreter os soldados na América e nas frentes de batalha na Europa. Ele recebeu diversas condecorações pelos serviços prestados, inclusive a Medalha Estrela de Bronze, a quarta mais alta condecoração dada individualmente por atos de heroísmo ou serviços meritórios em zonas de combate.

mickey-rooney-1945Mickey Rooney entretém os soldados americanos na Alemanha, em 1945.

Mas o seu retorno à vida civil foi marcada por um súbito declínio na carreira. Mickey Rooney agora era um adulto com pouco mais de um metro e meio de altura, que não podia mais interpretar papéis de adolescentes e não tinha o físico exigido para atuar como protagonista em filmes de adultos. Os papéis começaram a se tornar mais raros e desse período, merece destaque apenas “Minha Vida é uma Canção”, de 1948, o último filme em que atuou ao lado de sua amiga Judy Garland, e o drama policial “Assassino Público Número Um” (Baby Face Nelson), de 1957, dirigido por Don Siegel, em que interpretou o personagem título, o famoso gangster que aterrorizou Chicago nos anos 30. “Em 1938”, Mickey Rooney disse, “eu estrelei oito filmes. Entre 1948 e 1949, eu estrelei em apenas três.”

mickey-rooney-1956-the-bold-and-the-braveMickey Rooney no drama “O Preço da Audácia” (The Bold and the Brave), de 1956, dirigido por  Lewis R. Foster, sobre três soldados americanos na Itália durante a Segunda Guerra. Além de dirigir (não creditado) o filme, Mickey Rooney atuou como o soldado Dooley e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

Mickey Rooney passou a atuar no rádio, reprisando seu papel como “Andy Hardy” ao lado de grande parte do elenco original em transmissões realizadas entre 1948 e 1952. Em 1951, Mickey Rooney dirigiu um filme para a Columbia Pictures chamado “My True Story”, estrelado por Helen Walker. Três anos mais tarde, Rooney estrelou seu próprio programa de TV, “The Mickey Rooney Show: Hey, Mulligan”, criado por Blake Edwards e onde ele era o produtor, que foi transmitido pela NBC entre 28 de agosto de 1954 e 4 de junho de 1955, e totalizou 32 episódios. Mickey Rooney continuou trabalhando a frente e atrás das câmeras em diversos programas de TV até seu retorno ao cinema, no começo dos anos 60. Ele atuou em filmes dos mais diversos, entre os quais “Réquiem Para um Lutador” (Requiem for a Heavyweight), de 1962, “Deu a Louca no Mundo” (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World), de 1963, e “O Corcel Negro” (The Black Stallion), de 1979.

O mais curioso personagem que interpretou naquela época foi um japonês, o Sr. Yunioshi, na adaptação para as telas da novela de Truman Capote “Bonequinha de Luxo”, estrelado por Audrey Hepburn em 1961. A atuação do ator foi muito criticada porque além de exagerada, foi considerada estereotipada e ofensiva aos japoneses. Durante anos, o ator defendeu sua atuação, mas no fim reconheceu que se soubesse que as pessoas ficariam ofendidas por isso, ele jamais teria aceitado o papel.

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Em 1962, Mickey Rooney enfrentou um duro golpe: sua falência declarada. Em 1966, um novo golpe enquanto filmava “Ambush Bay”, nas Filipinas: sua esposa, Barbara Ann Thomason, antiga modelo e atriz que ganhou diversos concursos de beleza na juventude, foi encontrada morta na cama ao lado do amante, Milos Milos, um ator amigo de Rooney. A investigação policial concluiu que foi assassinato seguido por suicídio, cometidos com a própria arma de Rooney.

Mickey Rooney continuou alternando atuações no cinema e na TV. Em 1963, atuou em um episódio da série de Rod Serling “Além da Imaginação” chamado “The Last Night of a Jockey” e estrelou um novo show em 1964, “Mickey”, na ABC, que durou 17 episódios. Em 1981, o ator ganhou um Globo de Ouro e um Emmy por seu papel no telefilme “Bill”, em que atuou ao lado de Dennis Quaid como um perturbado mental que tenta levar uma vida normal após sair de uma instituição. O filme foi muito bem recebido e gerou uma sequência em 1983, chamada “Bill: On His Own”, pelo qual Mickey Rooney foi indicado ao Emmy. Aos 70 anos, venho a chance de reprisar seu papel de Henry Dailey na série de TV “The Adventures of the Black Stallion”, baseada no filme em que atuou onze anos antes. O show foi um sucesso mundial, visto em 70 países.

Mickey Rooney também atuou em peças importantes, a principal delas a sua estreia na Broadway em 1979, aos 59 anos, “Sugar Babies”, um musical que fazia referências ao teatro burlesco do passado, protagonizado pela ex-estrela da MGM Ann Miller. O espetáculo foi um sucesso, totalizando mais de 1200 apresentações em Nova York e uma turnê que durou cinco anos, sendo 8 meses em cartaz apenas em Londres. Em seguida, atuou em “A Funny Thing Happened on the Way to the Forum”, de Stephen Soudheim, e nos anos 90 participou de uma versão de “O Mágico de Oz” encenada no Madison Square Garden. Em 1991, O ator publicou seu livro de memórias, “Life is Too Short”.

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Em 2008, embora já tivessem atuado juntos, Mickey Rooney e a esposa Jan Chamberlin interpretaram um casal no filme independente “Lost Stallions: The Journey Home”, que marcou seu retorno aos temas equestres. Os últimos trabalhos de Mickey Rooney incluem ainda sua atuação como Gus, um dos funcionários do museu mágico nos filmes estrelados por Ben Stiller e Robin Williams “Uma Noite no Museu”, de 2006, e “Uma Noite no Museu 2”, de 2009. Ele repetiria o papel de Gus na terceira aventura “Night at the Museum: Secret of the Tomb”, em fase de produção, mas não se sabe até que ponto a morte do ator prejudicou a sua participação na história.

Mickey Rooney foi casado 8 vezes, tornando-se vítima de piadas de seus colegas pela impossibilidade de o ator continuar casado. Sua primeira esposa foi Ava Gardner, com quem teve uma relação conturbada de apenas um ano, entre 1942 e 1943 – o casamento não sobreviveu à ascensão da atriz ao posto de estrela de primeira grandeza do cinema americano. Quando serviu o Exército, Mickey Rooney conheceu a Rainha da Beleza do Alabama Betty Jane Phillips, com quem permaneceu casado até o seu retorno da Europa após o fim da Segunda Guerra. O casal teve dois filhos. Em 1949, casou-se com Martha Vickers, e em 1952 com Elaine Mahnken. Em 1958, Rooney casou-se com Barbara Ann Thomason, assassinada pelo amante em 1966. Deprimido com a morte da esposa e da mãe, além de problemas financeiros, Rooney enfrentou batalhas com o álcool e as drogas. Ele se casou com uma amiga de Barbara, Marge Lane, mas o casamento durou apenas 100 dias. O casamento seguinte, com Carolyn Hockett durou de 1969 até 1974, mas os problemas financeiros do ator arruinaram a união. Em 1978, Rooney se casou com Joan Chamberlin, uma união que durou 35 anos – o casal se separou em junho de 2012.

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Nos últimos anos de sua vida, alegando abuso de idosos, Mickey Rooney moveu uma ação judicial contra seu enteado Christopher Aber. O ator  recebeu uma indenização por Aber ter desviado dinheiro de suas contas. Vencedor de dois Oscar honorários – um pelo conjunto da obra e outro na extinta categoria juvenil, e um prêmio Emmy, Rooney morreu durante o sono de causas naturais em Los Angeles, no dia 6 de abril de 2014, aos 93 anos. O ator deixou oito filhos vivos, dois enteados, dezenove netos e diversos bisnetos. Rooney foi considerado pelo Guinness, o Livro dos Recordes, o ator com a carreira mais longeva do cinema.

Tributo:

Imagem da Semana: As Mãos de Orlac (1924)

Conrad Veidt in The Hands of OrlacConrad Veidt, em “As Mãos de Orlac”, de 1924, dirigido por Robert Wiene. Tamanho da imagem: 786 × 1037.

O Expressionismo foi a maior contribuição que a Alemanha deu à cultura mundial nas primeiras décadas do século 20. O estilo, mais que um simples movimento artístico, rapidamente se espalhou pela Europa e chegou à América, onde os filmes produzidos no estilo do cinema expressionista alemão começavam a ganhar adeptos entre os realizadores norte-americanos e aqueles que, fugindo do nazismo na Europa, imigraram para Hollywood para dar seguimento às suas carreiras. Dentre esses realizadores, Robert Wiene foi um dos poucos que decidiu permanecer na Europa, exilando-se primeiramente em Budapeste, na Hungria. Ali, prosseguiu a carreira como diretor de forma modesta dirigindo apenas um filme, “One Night in Venice” (1934). Depois de seguir para Londres, Wiene foi para Paris, onde morreu, de câncer, em 1938, dias antes de finalizar seu último trabalho, “Ultimatum”, que foi concluído por seu amigo Robert Siodmak.

Mais conhecido por “O Gabinete do Dr. Caligari”, de 1919, Robert Wiene realizou outros grandes filmes de terror no estilo expressionista. “As Mãos de Orlac” (Orlac’s Hände), produzido na Áustria em 1924, é um desses filmes. Estrelado por Conrad Veidt, o grande ator alemão que já havia atuado como o sonâmbulo Cesare em “O Gabinete” e aqui estrela no papel-título, o filme é baseado na novela “Les Mains d’Orlac” de Maurice Renard. A história conta como um grande pianista, Paul Orlac, após sobreviver a um grave acidente de trem em que teve as mãos decepadas, consegue, com a intervenção de um cirurgião brilhante receber as mãos de um assassino condenado à morte. Orlac não consegue mais tocar piano, e passa a sentir uma compulsão por assassinatos, como se as mãos do crimininoso morto o estivessem controlando a partir de agora.

“As Mãos de Orlac” ganharia uma versão hollywoodiana em 1935 chamada “Mad Love”, dirigida pelo célebre Karl Freund e estrelada por Colin Clive (Frankenstein) e Peter Lorre (M), e uma versão franco-inglesa de 1960, “Les Mains d’Orlac”, estrelada por Mel Ferrer e Christopher Lee, dirigida por Edmond T. Gréville. A novela original de Renard ainda inspirou outros filmes, entre eles, “The Hand”, de 1981, que marcou a estreia do roteirista Oliver Stone na direção, e “Les Mains de Roxana”, de 2012, onde aconteceu uma troca de sexo onde o protagonista era mulher, Roxanna Orlac, uma violinista que recebeu as mãos de uma criminosa que cometeu suicídio.

Leia mais sobre o Expressionismo Alemão e os grandes filmes de terror do início do século 20 aqui, no Assim Era Hollywood.

Filmes: O Véu Pintado (1934)

PaintedVeil01O VÉU PINTADO

Título Original: The Painted Veil
País: Estados Unidos
Ano: 1934
Direção: Richard Boleslawski
Duração: 85 min.
Elenco: Greta Garbo, Herbert Marshall, George Brent, Warner Oland, Jean Hersholt, Bodil Rosing, Katharine Alexander, Cecilia Parker, Soo Yong, Forrester Harvey.
Sinopse: Na Áustria, Katrin, uma mulher ainda jovem, sente-se solitária ao ver a irmã mais nova se casar. Ela acaba aceitando o pedido de casamento de um homem mais velho, Walter Fane, um médico que ela acabou de conhecer. Katrin segue o marido para uma região inóspita no interior da China onde uma epidemia de cólera está dizimando a população. Sentindo-se negligenciada pelo marido, ela se envolve com Jack Townsend, o embaixador Britânico cujos planos políticos irão acabar por afastá-lo de Katrin.

PaintedVeil08Somente a presença mítica de Greta Garbo para justificar o interesse do público por esse melodrama banal, baseado em novela de W. Somerset Maugham sobre um triângulo amoroso que se passa nos cafundós da China durante uma epidemia de cólera. Mas além da presença da diva sueca, há sempre aqueles detalhes curiosos e os cuidados habituais típicos de um filme de Greta Garbo na MGM capazes de sustentar o interesse de qualquer fã do cinema clássico. É claro que Garbo teve atuações muito melhores em filmes muito superiores em qualidade técnica e artística. Mas a redenção de sua personagem ao final, quando tem de fazer uma difícil escolha entre o marido enfermo que ela aprendeu a amar e o amante que se arrepende e retorna para levá-la embora, encerra a trama de maneira satisfatória em 85 minutos de narrativa e com Greta Garbo no auge da carreira.

Mas há duas coisas no filme que não convencem. A primeira é o roteiro de John Meehan, Salka Viertel e Edith Fitzgerald que divide a história em três atos: o prólogo na Europa (que devido a exibições testes mal sucedidas precisou sofrer diversos cortes para deixar a história menos enfadonha), o desinteressante affair entre os personagens de Garbo e George Brent (ator sem nenhum carisma, diga-se de passagem), e a parte final, quando a personagem de Garbo sofre uma reviravolta interna ao perceber que está apaixonada pelo próprio marido, vivido por Herbert Marshall. Nada que não tivesse sido visto antes, mas também nada tão ruim que possa desmerecer este que é um dos filmes menos conhecidos da atriz.

PaintedVeil06A segunda é acreditar que a personagem de Garbo poderia estar tão desesperada em sua solidão (ou seria inveja pelo fato de a irmã mais nova ter se casado primeiro que ela ou apenas tédio por viver confinada em um quarto durante tantos anos?) a ponto de aceitar se casar com o primeiro homem que encontrou pela frente, um homem mais velho e totalmente dedicado à sua profissão. O personagem de Herbert Marshall (ator conhecido por participar de grandes produções como “Duelo ao Sol”, “A Carta” e “Pérfida”), porém, faz jus ao talento do ator, cujos atos e palavras justificam não só a mudança de comportamento da personagem de Garbo no final, como dá um sentido real à trama que até então não fazia quase nenhum sentido.

Algumas curiosidades cercam “O Véu Pintado”, como a escolha da atriz Cecilia Parker para viver Olga, a irmã mais nova de Katrin, no primeiro terço do filme. Egressa da série de filmes “Andy Hardy” (que durou até o final dos anos 50 e onde fazia a irmã mais velha de Mickey Rooney), alguns Westerns e produções B da MGM, Cecilia tem uma curiosa cena de beijo com Garbo. Este foi o primeiro filme de Garbo lançado após a vigência do famigerado Código de Produção de 1934. Isso limitou o potencial triângulo amoroso criado por Maughan em seu romance e obrigou o estúdio a fazer modificações para que o final se encaixasse em um modelo aceitável para a moral da época.

Algumas cenas de “O Véu Pintado” filmadas na China por George W. Hill foram também utilizadas em “Terra dos Deuses” de 1937 e o filme que custou pouco mais de meio milhão de dólares, faturou cerca de US$ 1,6 milhão em bilheterias ao redor do mundo. O público norte-americano, porém, reagiu com risadas nas primeiras exibições diante dos figurinos exóticos desenhados por Adrian e usados por Garbo ao longo do filme. Uma anedota de bastidores se tornou muito conhecida entre os biógrafos da diva sueca. Floyd Porter, eletricista-chefe do estúdio era encarregado de seguir Garbo pelo cenário com uma luz apontada diretamente aos olhos dela, para lhes dar mais brilho. Garbo tinha por hábito dar um tapinha no ombro de Floyd toda vez que saía do estúdio.

PaintedVeil07Há que se destacar a excelente fotografia de William H. Daniels, a música do sempre competente Herbert Stothart, os cenários de Cedric Gibbons e o esforço do diretor Richard Boleslawski em dar credibilidade a personagens tão apáticos. Bolesław Ryszard Srzednicki foi um ator, diretor e professor de atuação polonês que trabalhou na Rússia antes da Revolução de 1917, e fez seus primeiros filmes na Polônia no início dos anos 20. Ao imigrar para a América no início daquela década, ele assumiu a pronúncia inglesa de seu nome e abriu uma escola de atuação baseada no Método Stanislavski com outra imigrante, Maria Ouspenskaya. Entre seus alunos estavam Lee Strasberg, Stella Adler e Harold Clurman – que fundariam o Group Theatre (1931-1941), o primeiro na América a  utilizar as técnicas de Stanislavski.

A carreira de Boleslawski em Hollywood, porém, foi curta por conta de sua morte prematura aos 48 anos, em 1937: de 1930 a 1937, foram 20 filmes, em que teve a chance de dirigir alguns dos maiores astros da época – Lionel Barrymore, Clark Gable, Fredric March, Charles Laughton, Marlene Dietrich, Joan Crawford e, é claro, Greta Garbo.

Além desta versão com Greta Garbo, a novela de Somerset Maughan foi filmada outras duas vezes: “O Sétimo Pecado”, de 1957, estrelado por Eleanor Parker e Bill Travers, e “O Despertar de Uma Paixão”, de 2006, com Naomi Watts e Edward Norton.

“O Véu Pintado”, Cena do Beijo – Greta Garbo e Cecilia Parker:

Galeria de Fotos:

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