Arquivos de Categoria: Filmes

Filmes: Vento e Areia (1928)

windVENTO E AREIA

Título Original: The Wind
Ano: 1928
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.
Direção: Victor Seastrom
Elenco: Lillian Gish, Lars Hanson, Montagu Love, Dorothy Cumming, Edward Earle, William Orlamond, Carmencita Johnson, Leon Janney, Billy Kent Schaefer.
Sinopse:
A inocente Letty deixa seu lar na Virginia em direção ao Oeste selvagem, para morar no rancho de seu primo Beverly, a esposa dele Cora e seus três filhos. Aos poucos, ela percebe o quanto aquele lugar é inóspito a começar pelos fortes ventos, que açoitam as paisagens áridas levantando turbilhões de areia de forma incessante. Cora acredita que Letty está querendo roubar seu marido, e a obriga a se casar com Lige, um homem que ela não ama. Aos poucos, Letty, isolada e acuada, sente que está à beira de enlouquecer.

Nascido na Suécia, Victor Sjöstrom adotou o sobrenome Seastrom quando chegou a Hollywood em 1924. Ele já havia dirigido Lilian Gish em “A Letra Escarlate”, em 1926, e teve a chance de trabalhar com ela novamente nessa adaptação da novela de Dorothy Scarborough, com roteiro de Frances Marion. “Vento e Areia” repete praticamente a mesma equipe de “A Letra Escarlate”, incluindo o ator também sueco Lars Hanson, a roteirista Frances Marion e o diretor de arte Cedric Gibbons. A despeito do todos os esforços do estúdio MGM, que chegou a incluir um final feliz quando as sessões de testes mostraram a reação negativa do público ao final original em que a personagem de Lillian Gish vaga sozinha em meio ao deserto provavelmente rumo à morte e dos talentos envolvidos na sua realização, “Vento e Areia” foi um fracasso de público e de crítica.

Mas isso porque desde o início, o filme esteve muito a frente de seu tempo. Mesmo tendo sido realizado no final da era silenciosa, “Vento e Areia” já utilizava efeitos sonoros para ampliar a experiência sensorial imaginada pelo diretor, que realizou um formidável trabalho psicológico ao transformar essa grande força da natureza no personagem principal da história. O vento que castiga a região de Sweet Water e leva Letty à beira da loucura, distende o tempo da história e amplifica o potencial dramático quando os exteriores se tornam tão claustrofóbicos pela impossibilidade de visão em meio à tempestade de areia, quanto o são as cenas passadas dentro da cabana onde Letty se isola e sofre o assédio de um dos empregados do marido.

wind-11Lillian Gish está magnífica. O que pode ser visto hoje como “overaction” para aqueles acostumados ao falatório dos filmes modernos, se transforma diante das telas em uma das atuações mais arrebatadoras do cinema. Lillian permite ao público compreender a exata dimensão dos temores e dos sentimentos confusos que afligem sua personagem. A princípio frágil e amedrontada, Letty ganha força ao mesmo tempo em que o vento se torna cada vez mais ameaçador. Ela se mostra capaz de superar não só o medo do vento e o trauma surgido quando precisou defender a própria honra, como se tornou uma mulher forte mas capaz de se entregar à possibilidade de um romance.

Lars Hanson, que já havia contracenado com Lillian Gish em “A Letra Escarlate”, mais uma vez não precisou enfrentar problemas com o idioma inglês – afinal, “Vento e Areia” ainda era um filme mudo. Desde o primeiro momento em que seus personagens se casam, o público é levado a não simpatizar com Lige. Hanson consegue ao mesmo tempo justificar a forma como Letty a princípio o despreza – a cena da noite de núpcias é uma das melhores cenas do filme – como acaba conquistando a simpatia do público próximo ao final.

Realizado em locações em pleno deserto do Mojave, na Califórnia, a temperatura durante as filmagens chegava a 48 graus Celsius durante o dia, tornando o trabalho dos atores e técnicos um verdadeiro inferno. Os rolos de filme eram mantidos em estojos com gelo para que não se deformassem e o calor intenso fez uma maçaneta esquentar tanto que ao tocá-la para abrir a porta, a atriz Lillian Gish teve a mão queimada gravemente e a pele da palma imediatamente escaldada.

O diretor Seastrom conseguiu sem muitos recursos técnicos realizar cenas impressionantes como a chegada de um ciclone à cidade, e ao mesmo tempo atingiu um grande efeito dramático e uma situação bastante realista quando colocou as forças da natureza como deflagradoras das paixões e dos conflitos humanos. Seastrom trabalhou habilmente os poucos efeitos sonoros para ampliar a experiência sensorial do público e utilizou alguns simbolismos para expressar o aspecto psicológico da personagem de Letty, como os cavalos selvagens.

Os filmes de Seastrom eram tão vanguardistas que serviriam de inspiração para seu compatriota Ingmar Bergman durante toda a sua vida. Bergman chegou a declarar que não ficava mais de um ano sem rever “A Carruagem Fantasma”, que Seastrom dirigiu ainda em seu país natal, em 1921. Com “Vento e Areia”, Seastrom finalmente alcançou o seu maior momento como cineasta, bem como conseguiu de Lillian Gish a sua melhor atuação, mesmo para uma carreira tão longa quanto a dela, que só terminou com a morte da atriz, em 1993, aos 99 anos. O último filme em que Lillian Gish atuou foi “As Baleias de Agosto”, de 1987.

Para obter o efeito do vento soprando forte 24 horas sem parar, a equipe de produção utilizou oito aviões estacionados no meio do deserto com os motores ligados o tempo todo. O barulho das hélices e o o vento provocado por elas misturado à areia, ao ar quente e à fumaça eram tão perigosos que os membros da equipe técnica foram forçados a usar pesadas roupas de mangas compridas – em uma temperatura média de mais de 45 graus -, além de óculos de proteção, bandanas em volta do pescoço e tinta especial em torno dos olhos durante as filmagens.

lillian gish the wind 7A atriz Lillian Gish durante as filmagens de “Vento e Areia”, além do vento e da areia soprados contra eles pelas hélices de oito aviões, a equipe de produção enfrentou temperaturas médias de mais de 45 graus em pleno deserto do Mojave.

Não importa muito se o final alterado parece ser forçado – e realmente é, em uma tentativa do estúdio de agradar o público que rejeitou a trágica versão original. “Vento e Areia” é um filme que precisou de algumas décadas depois de seu lançamento para provar todos os seus méritos. O tempo, mais uma vez, fez justiça a uma das maiores obras-primas do cinema. O último grande filme do período silencioso. Em 1983, o filme sofreu uma restauração por Kevin Brownlow com adição de uma nova trilha sonora composta por Carl Davis.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0019585/.

Download “Vento e Areia” AVI 555 MB/408 MB*:

Bitshare: Parte 1 + Parte 2
Depositfiles: Parte 1 + Parte 2

Galeria de Imagens:

(*) os arquivos para download foram disponibilizados por outras pessoas em outros locais da Internet e estão sujeitos às leis de direitos autorais, podendo ser removidos de seus locais de origem a qualquer momento. O Blog apenas utiliza os links já existentes.

Imagem da Semana: As Mãos de Orlac (1924)

Conrad Veidt in The Hands of OrlacConrad Veidt, em “As Mãos de Orlac”, de 1924, dirigido por Robert Wiene. Tamanho da imagem: 786 × 1037.

O Expressionismo foi a maior contribuição que a Alemanha deu à cultura mundial nas primeiras décadas do século 20. O estilo, mais que um simples movimento artístico, rapidamente se espalhou pela Europa e chegou à América, onde os filmes produzidos no estilo do cinema expressionista alemão começavam a ganhar adeptos entre os realizadores norte-americanos e aqueles que, fugindo do nazismo na Europa, imigraram para Hollywood para dar seguimento às suas carreiras. Dentre esses realizadores, Robert Wiene foi um dos poucos que decidiu permanecer na Europa, exilando-se primeiramente em Budapeste, na Hungria. Ali, prosseguiu a carreira como diretor de forma modesta dirigindo apenas um filme, “One Night in Venice” (1934). Depois de seguir para Londres, Wiene foi para Paris, onde morreu, de câncer, em 1938, dias antes de finalizar seu último trabalho, “Ultimatum”, que foi concluído por seu amigo Robert Siodmak.

Mais conhecido por “O Gabinete do Dr. Caligari”, de 1919, Robert Wiene realizou outros grandes filmes de terror no estilo expressionista. “As Mãos de Orlac” (Orlac’s Hände), produzido na Áustria em 1924, é um desses filmes. Estrelado por Conrad Veidt, o grande ator alemão que já havia atuado como o sonâmbulo Cesare em “O Gabinete” e aqui estrela no papel-título, o filme é baseado na novela “Les Mains d’Orlac” de Maurice Renard. A história conta como um grande pianista, Paul Orlac, após sobreviver a um grave acidente de trem em que teve as mãos decepadas, consegue, com a intervenção de um cirurgião brilhante receber as mãos de um assassino condenado à morte. Orlac não consegue mais tocar piano, e passa a sentir uma compulsão por assassinatos, como se as mãos do crimininoso morto o estivessem controlando a partir de agora.

“As Mãos de Orlac” ganharia uma versão hollywoodiana em 1935 chamada “Mad Love”, dirigida pelo célebre Karl Freund e estrelada por Colin Clive (Frankenstein) e Peter Lorre (M), e uma versão franco-inglesa de 1960, “Les Mains d’Orlac”, estrelada por Mel Ferrer e Christopher Lee, dirigida por Edmond T. Gréville. A novela original de Renard ainda inspirou outros filmes, entre eles, “The Hand”, de 1981, que marcou a estreia do roteirista Oliver Stone na direção, e “Les Mains de Roxana”, de 2012, onde aconteceu uma troca de sexo onde o protagonista era mulher, Roxanna Orlac, uma violinista que recebeu as mãos de uma criminosa que cometeu suicídio.

Leia mais sobre o Expressionismo Alemão e os grandes filmes de terror do início do século 20 aqui, no Assim Era Hollywood.

Filmes: O Véu Pintado (1934)

PaintedVeil01O VÉU PINTADO

Título Original: The Painted Veil
País: Estados Unidos
Ano: 1934
Direção: Richard Boleslawski
Duração: 85 min.
Elenco: Greta Garbo, Herbert Marshall, George Brent, Warner Oland, Jean Hersholt, Bodil Rosing, Katharine Alexander, Cecilia Parker, Soo Yong, Forrester Harvey.
Sinopse: Na Áustria, Katrin, uma mulher ainda jovem, sente-se solitária ao ver a irmã mais nova se casar. Ela acaba aceitando o pedido de casamento de um homem mais velho, Walter Fane, um médico que ela acabou de conhecer. Katrin segue o marido para uma região inóspita no interior da China onde uma epidemia de cólera está dizimando a população. Sentindo-se negligenciada pelo marido, ela se envolve com Jack Townsend, o embaixador Britânico cujos planos políticos irão acabar por afastá-lo de Katrin.

PaintedVeil08Somente a presença mítica de Greta Garbo para justificar o interesse do público por esse melodrama banal, baseado em novela de W. Somerset Maugham sobre um triângulo amoroso que se passa nos cafundós da China durante uma epidemia de cólera. Mas além da presença da diva sueca, há sempre aqueles detalhes curiosos e os cuidados habituais típicos de um filme de Greta Garbo na MGM capazes de sustentar o interesse de qualquer fã do cinema clássico. É claro que Garbo teve atuações muito melhores em filmes muito superiores em qualidade técnica e artística. Mas a redenção de sua personagem ao final, quando tem de fazer uma difícil escolha entre o marido enfermo que ela aprendeu a amar e o amante que se arrepende e retorna para levá-la embora, encerra a trama de maneira satisfatória em 85 minutos de narrativa e com Greta Garbo no auge da carreira.

Mas há duas coisas no filme que não convencem. A primeira é o roteiro de John Meehan, Salka Viertel e Edith Fitzgerald que divide a história em três atos: o prólogo na Europa (que devido a exibições testes mal sucedidas precisou sofrer diversos cortes para deixar a história menos enfadonha), o desinteressante affair entre os personagens de Garbo e George Brent (ator sem nenhum carisma, diga-se de passagem), e a parte final, quando a personagem de Garbo sofre uma reviravolta interna ao perceber que está apaixonada pelo próprio marido, vivido por Herbert Marshall. Nada que não tivesse sido visto antes, mas também nada tão ruim que possa desmerecer este que é um dos filmes menos conhecidos da atriz.

PaintedVeil06A segunda é acreditar que a personagem de Garbo poderia estar tão desesperada em sua solidão (ou seria inveja pelo fato de a irmã mais nova ter se casado primeiro que ela ou apenas tédio por viver confinada em um quarto durante tantos anos?) a ponto de aceitar se casar com o primeiro homem que encontrou pela frente, um homem mais velho e totalmente dedicado à sua profissão. O personagem de Herbert Marshall (ator conhecido por participar de grandes produções como “Duelo ao Sol”, “A Carta” e “Pérfida”), porém, faz jus ao talento do ator, cujos atos e palavras justificam não só a mudança de comportamento da personagem de Garbo no final, como dá um sentido real à trama que até então não fazia quase nenhum sentido.

Algumas curiosidades cercam “O Véu Pintado”, como a escolha da atriz Cecilia Parker para viver Olga, a irmã mais nova de Katrin, no primeiro terço do filme. Egressa da série de filmes “Andy Hardy” (que durou até o final dos anos 50 e onde fazia a irmã mais velha de Mickey Rooney), alguns Westerns e produções B da MGM, Cecilia tem uma curiosa cena de beijo com Garbo. Este foi o primeiro filme de Garbo lançado após a vigência do famigerado Código de Produção de 1934. Isso limitou o potencial triângulo amoroso criado por Maughan em seu romance e obrigou o estúdio a fazer modificações para que o final se encaixasse em um modelo aceitável para a moral da época.

Algumas cenas de “O Véu Pintado” filmadas na China por George W. Hill foram também utilizadas em “Terra dos Deuses” de 1937 e o filme que custou pouco mais de meio milhão de dólares, faturou cerca de US$ 1,6 milhão em bilheterias ao redor do mundo. O público norte-americano, porém, reagiu com risadas nas primeiras exibições diante dos figurinos exóticos desenhados por Adrian e usados por Garbo ao longo do filme. Uma anedota de bastidores se tornou muito conhecida entre os biógrafos da diva sueca. Floyd Porter, eletricista-chefe do estúdio era encarregado de seguir Garbo pelo cenário com uma luz apontada diretamente aos olhos dela, para lhes dar mais brilho. Garbo tinha por hábito dar um tapinha no ombro de Floyd toda vez que saía do estúdio.

PaintedVeil07Há que se destacar a excelente fotografia de William H. Daniels, a música do sempre competente Herbert Stothart, os cenários de Cedric Gibbons e o esforço do diretor Richard Boleslawski em dar credibilidade a personagens tão apáticos. Bolesław Ryszard Srzednicki foi um ator, diretor e professor de atuação polonês que trabalhou na Rússia antes da Revolução de 1917, e fez seus primeiros filmes na Polônia no início dos anos 20. Ao imigrar para a América no início daquela década, ele assumiu a pronúncia inglesa de seu nome e abriu uma escola de atuação baseada no Método Stanislavski com outra imigrante, Maria Ouspenskaya. Entre seus alunos estavam Lee Strasberg, Stella Adler e Harold Clurman – que fundariam o Group Theatre (1931-1941), o primeiro na América a  utilizar as técnicas de Stanislavski.

A carreira de Boleslawski em Hollywood, porém, foi curta por conta de sua morte prematura aos 48 anos, em 1937: de 1930 a 1937, foram 20 filmes, em que teve a chance de dirigir alguns dos maiores astros da época – Lionel Barrymore, Clark Gable, Fredric March, Charles Laughton, Marlene Dietrich, Joan Crawford e, é claro, Greta Garbo.

Além desta versão com Greta Garbo, a novela de Somerset Maughan foi filmada outras duas vezes: “O Sétimo Pecado”, de 1957, estrelado por Eleanor Parker e Bill Travers, e “O Despertar de Uma Paixão”, de 2006, com Naomi Watts e Edward Norton.

“O Véu Pintado”, Cena do Beijo – Greta Garbo e Cecilia Parker:

Galeria de Fotos:

Download “O Véu Pintado” (1934) AVI c/Legendas*:

Deposit Files: Parte 1 / Parte 2 – Bitshare: Parte 1 / Parte 2

(*) Os arquivos para download foram disponibilizados por outras pessoas em outros locais da Internet e estão submetidos às leis de direitos autorais, podendo ser removidos do local de origem a qualquer momento. O blog apenas utiliza os links já existentes.