Arquivos Mensais: agosto \31\UTC 2013

Os Grandes Clássicos do Terror – Parte V

O CINEMA DE TERROR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – PARTE V

É que não há razão válida para temeres o que quer que seja; nós, isso sim, deixamo-nos abalar e atormentar apenas por vãs aparências. Nunca ninguém analisou o que há de verdade no que nos aflige, mas cada um vai incutindo medo nos outros; nunca ninguém se atreveu a aproximar-se do que lhe perturba o espírito e a averiguar a natureza real e fundamentada do seu medo.
Sêneca, em “Cartas a Lucílio”

Horror silencioso

A década de 20 dividiu o gênero terror em duas vertentes: a americana e a europeia. Na Europa, a sutileza dos filmes de terror transpirava mensagens mais complexas como nos clássicos expressionistas de Lang, Murnau e Wiene, ou nas experiências sensoriais de Jean Epstein como em “A Queda da Casa de Usher” e de Victor Sjöstrom em “A Carruagem Fantasma”. Nos Estados Unidos, o terror teve mais a função de entretenimento. A década de vinte consagrou adaptações de clássicos como “O Corcunda de Notre-Dame”, “O Médico e o Monstro” e “O Cão dos Baskervilles”. Até D.W. Griffith fez filmes de horror, como “Uma Noite de Terror”, de 1922, no qual temos a exploração do tema da velha casa mal-assombrada. Em “O Médico e o Monstro” de 1920, produzido por Adolph Zukor e dirigido por John S. Robertson, podemos ver mais uma vez o tema da psicanálise na investigação da dupla personalidade. O Dr. Henry Jekyll (interpretado por John Barrymore) separa o bem e o mal em sua personalidade, com um misterioso experimento químico, criando assim um alter ego monstruoso, um indivíduo perverso que vive em total liberdade porque não obedece a regras sociais nem a condutas morais.

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korkalen1No mesmo ano em que Lang realizou “A Morte Cansada”, o diretor sueco Victor Sjöstrom realizaria um dos filmes mais intrigantes do cinema fantástico em todos os tempos: “A Carruagem Fantasma”, de 1921. Usando efeitos visuais pioneiros, truques de câmera, imagens sobrepostas e lançando mão de uma narrativa não -linear, Sjöstrom e o diretor de fotografia Julius Jaenzon deram forma e textura a fantasmas e a uma carruagem assombrada que em sua forma translúcida interagem com os vivos e realizaram um clássico que chamou a atenção do mundo para o cinema sueco. Baseado em uma história de Selma Lagerlöf, escritora premiada com o Pulitzer, o filme apresenta o diretor Sjöstrom como David Holm, um homem amargo e alcoólatra que alcança a redenção graças ao amor da esposa a quem maltratava. Existe uma lenda de que o último pecador a morrer na Noite de Ano Novo tornar-se-á o coletor de almas da carruagem fantasma. Quando David morre após uma luta e seu falecido amigo George vem buscar sua alma, David percebe o quanto cruel e egoísta ele era.

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À maneira de Charles Dickens, embora enverede por questões filosóficas, morais e metafísicas, “A Carruagem Fantasma” representa um marco em muitos aspectos, sobretudo por fazer uso da narrativa em flashback e por seus efeitos de transparência que até os dias de hoje continuam impressionantes. Ingmar Bergman, o maior diretor sueco de todos os tempos, dizia que esse era o seu filme preferido e que o inspirou por toda a vida, o qual costumava rever pelo menos uma vez por ano.

chutemaisonusher1“A Queda da Casa de Usher”, de 1928, com direção de Jean Epstein, é um dos primeiros filmes de terror baseados em contos de Edgar Allan Poe, e entrou para a história como um marco do expressionismo francês. Ajudado por um jovem Luis Buñuel, Epstein adaptou a história de Roderick Usher, que vive isolado em sua mansão preso à lembrança de sua amada e falecida esposa. O clima opressor e o jogo de luz e sombra ajudam a criar cenas de tensão e forte expectativa, sobretudo durante o funeral de Madeleine, e reafirmam o filme como uma das obras mais importantes do cinema de vanguarda do final dos anos 20. Há durante toda a projeção um enorme esforço da direção em criar um clima gótico ideal através do uso de recursos visuais bastante subjetivos e que mais tarde seriam típicos nos filmes do gênero: cortinas esvoaçando, folhas secas voando pelos corredores, o movimentar de um pêndulo e truques que estendem o tempo para criar um clima angustiante e depressivo. Mudando apenas certos aspectos da história original como o incesto que não é mencionado no filme, Epstein criou um clássico do terror imortal, valorizado pela excelente atuação de Jean Debucourt como o obsessivo e traumatizado protagonista.

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phantomoftheopera2Longe do pesado terror europeu, já no novo continente, a escola norte-americana de entretenimento era representada basicamente por películas estreladas pelo ator Lon Chaney Sr., apelidado de “o Homem de Mil Faces” pela versatilidade como se disfarçava em diversos personagens graças à técnicas de maquiagem que ele mesmo desenvolvia: Erik em “O Fantasma da Ópera” (1924), Quasímodo em “O Corcunda de Notre-Dame” (1923), Echo, o ventríloquo que comete crimes, em “The Unholy Three” (1925), Alonzo, o atirador de facas sem braços, em “O Monstro do Circo” (1927), e a dupla atuação como um inspetor da Scotland Yard e debaixo de pesada maquiagem o vilão disforme, em “London After Midnight” (1927). Este último, um dos seus mais elogiados trabalhos, dirigido pelo mestre do horror Tod Browning infelizmente é considerado um filme perdido. Browning também dirigiu Chaney em “O Monstro do Circo”, uma trama de terror que já antecipava o gosto do diretor pelos espetáculos circenses e suas aberrações, e que mais tarde ele iria explorar no polêmico “Monstros”, de 1932.

Paul Leni foi um dos mais talentosos cineastas alemães em atividade nos anos 20, e o convite para filmar em Hollywood veio de Carl Laemmle, o chefe da Universal, estúdio que começava a dar seus primeiros passos para se tornar o maior celeiro de filmes de terror de todos os tempos. A estreia no cinema norte-americano veio em 1927, com “O Gato e o Canário”, uma síntese para todos os filmes sobre casas assombradas que viriam depois. Na história, os herdeiros de um ricaço se reúnem em sua antiga mansão para a leitura de seu testamento e se veem as voltas com uma trama envolvendo assassinatos e assombrações. Leni consegue fugir da herança teatral da peça original em que a história se baseia criando uma série de artifícios cênicos e explorando seu gosto pelo gótico e inserindo muito humor à narrativa.

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O diretor Leni seria responsável por outro grande filme do gênero, e Conrad Veidt, o ator alemão que impressionou o mundo como Cesare em “O Gabinete do Dr. Caligari”, voltaria em mais um papel marcante, o de Gwynplaine em “O Homem que Ri”, de 1928. Baseado na obra de Vitor Hugo, o filme traz o ator usando uma prótese dentária que repuxava os cantos da boca e dava-lhe um sorriso perpétuo e sinistro, fruto do castigo do Rei James II pela punição à traição de seu pai ainda quando era criança. Depois de ser expulso do reino e ter perdido seus direitos de nobreza, o menino vaga pela floresta e salva Dea, uma menina cega cuja mãe acabara de morrer. Ambos são acolhidos por Ursus, o Filósofo, e quando crescem, passam a trabalhar em um show ambulante onde Gwynplaine é a atração principal e ganha a alcunha de “o homem que ri”. Ele só encontra paz no amor que sente por Dea, uma vez que ela não pode ver seu rosto deformado.

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A atuação de Veidt é comovente e ao mesmo tempo assustadora, tanto pela aparência macabra de seu sorriso quanto pela expressão em seus olhos. O personagem foi a fonte de inspiração para Bob Kane, o criador do Homem-Morcego, criar o Coringa, arquiinimigo do herói. Paul Leni, que era um mestre na concepção visual de seus filmes, inspira-se no cinema expressionista alemão, no qual já havia dirigido “O Gabinete das Figuras de Cera” (também estrelado por Veidt) para realizar um clássico que mistura drama, horror, aventura e romance em doses perfeitas.

Assassinos em série eram um tema raro nos primeiros anos do cinema de terror, e “O Pensionista”, de 1927, é um dos poucos filmes sobre o tema, mais conhecido por ter se inspirado na figura real de Jack, o Estripador. Este foi o terceiro filme de Alfred Hitchcock e o primeiro a sobreviver completo. Na narrativa, Hitchcock já dava seus primeiros passos rumo a uma carreira brilhante, inspirando-se nos filmes alemães da época: um assassino de mulheres loiras (Hitch já demonstra seu fetiche pessoal por elas) ataca nas ruas de Londres toda terça à noite e sempre deixa um bilhete junto às vítimas. Hitchcock faz um interessante estudo sobre a dubiedade e embora se prenda muito tempo ao triângulo amoroso entre a heroína loira, o principal suspeito e o detetive que investiga o caso, o filme serviu de lição para o cineasta explorar seu gosto pelos recursos visuais e narrativos que utilizaria em seus filmes futuros.

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No final dos anos 20, a Universal começava a pavimentar o caminho para se tornar o maior estúdio de filmes de terror da década seguinte.

Continua na Parte 6 (breve).