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Clássicos: As Aventuras de Robin Hood (1938)

AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD

adventuresofrobinhood_1Título Original: The Adventures of Robin Hood
País: Estados Unidos
Ano: 1938
Duração: 102 min.
Direção: Michael Curtiz
Elenco: Errol Flynn, Olivia de Havilland, Basil Rathbone, Claude Rains, Patric Knowles, Eugene Pallette, Alan Hale, Melville Cooper, Ian Hunter, Una O’Connor, Herbert Mundin, Montagu Love, Leonard Willey, Kenneth Hunter, Robert Warwick, Colin Kenny, Lester Matthews, Harry Cording, Howard Hill, Ivan Simpson, Robert Noble, Charles McNaughton, Lionel Belmore, Austin Fairman, Crauford Kent.
Sinopse:
Na Inglaterra do século XII, justiceiro se esconde nas florestas de Sherwood enquanto rouba dos ricos para dar aos pobres durante a regência do tirânico Príncipe John, que se apoderou do trono de Ricardo Coração de Leão.

Clássica versão da lenda do ladrão e rebelde Robin Hood pelo húngaro Michael Curtiz, um dos mais prolíficos diretores de todos os tempos. O carisma do astro Errol Flynn encaixou-se perfeitamente ao personagem e ao lado de Olivia de Havilland ele consagrou uma parceria que durou por vários filmes. Direção ágil, montagem perfeita, belíssima fotografia em cores e direção de arte impecável, além da mistura de romantismo e humor irresistível e esplêndidas seqüências de ação ao som da música de Erich Wolfgang Korngold, sublinhando um duelo de espadas memorável, fizeram deste um dos maiores filmes de aventura já realizados. Foi premiado com os Oscars de montagem, música e direção de arte para Carl Weyl.

Um dos maiores filmes de aventuras já produzidos

É muito difícil concluir qual o melhor filme de aventuras estrelado por Errol Flynn: “Captain Blood”, “The Sea Hawk” ou este “The Adventures of Robin Hood”. Certamente seria mais fácil concluir que “The Adventures of Robin Hood” é o filme mais famoso de toda a carreira de Flynn, graças a uma popularidade que atravessa décadas e gerações. Entre todas as versões da lenda de Robin Hood já filmadas por Hollywood, desde o clássico silencioso com Douglas Fairbanks até o recente filme de Ridley Scott estrelado por Russell Crowe, passando pela versão famosa com Kevin Costner em 1997, este é sem dúvida a mais charmosa, encantadora, romântica e irresistível de todas. Pouco importa a história mais do que conhecida do nobre que perdeu seus bens e títulos por conta do maligno Príncipe John e sua corte, mas que se refugia na floresta de Sherwood e reúne um bando de homens com o objetivo de equilibrar a economia local tirando dos ricos para dar aos pobres até o Rei Ricardo Coração de Leão retornar das cruzadas para devolver a ordem ao reino.

O filme dirigido por Michael Curtiz em 1938 é muito mais do que a narrativa perfeita de uma lenda imortal. Aqui está imortalizado um dos casais mais famosos das telas em todos os tempos: Errol Flynn e Olivia De Havilland, que se consagraram nos oito filmes que fizeram juntos entre 1935 e 1941. Flynn estava então no melhor de sua forma atlética, não só na desenvoltura para os tipos heróicos que marcaram sua carreira, mas também com aquele charme envolvente com que fazia o público feminino suspirar fundo nas salas de cinema. Por sua vez, Olivia De Havilland, um ano antes de “E o Vento Levou”, já demonstrava ser uma atriz completa, que além de um talento nato para atuar ainda iluminava a tela com sua beleza e olhar encantadores. Uma atriz de carreira longa e que sobreviveu a todos os envolvidos na produção do filme, Olivia De Havilland lutou durante toda a carreira com os estúdios para obter papéis onde ela seria mais do que a heroína indefesa à espera de seu amado para livrá-la do perigo. Ela sabia desde cedo o seu valor e o seu talento e tem um par de Oscar para provar isso.

Coube ao húngaro Michael Curtiz, um dos mais versáteis cineastas que Hollywood já conheceu, administrar todo esse patrimônio artístico e técnico envolvido. Para tanto, contribui de forma decisiva a fotografia esplêndida de Sol Polito (substituindo Tony Gaudio quando algumas cenas já haviam sido filmadas, sob a direção de William Keighley, substituído por Curtiz) em cores vivas e precisas, ainda há poucos anos apenas do advento do Technicolor. Não se sabe ao certo até que ponto a contribuição de Sol Polito foi fundamental para o ritmo da narrativa, apenas que em alguns momentos do filme a fotografia beira o sublime, seja pelos enquadramentos elegantes, a mise-en-scene ágil e o memorável duelo final em que seus antagonistas têm suas sombras projetadas na parede do castelo. Um momento de rara inspiração, que continua influenciando gerações de cineastas, tudo pontuado pela música vibrante de Erich Wolfgang Korngold, um dos maiores compositores que o cinema já conheceu.

Os papéis de pequeno porte são verdadeiramente memoráveis. Os melhores momentos cômicos do filme vêm de Melville Cooper, o Xerife de Nottingham e de Herbert Mundin e Una O’Connor, respectivamente Much, o filho de Miller do bando de Robin Hood, e a empregada de Lady Marion. Herbert Mundin foi o primeiro do elenco a morrer, em um acidente de carro há apenas dois anos após o filme ter terminado. Ele era um homem engraçado que viveu tipos nervosos no cinema, mas que aqui tem um momento decisivo para o destino da história em um ato de soberba bravura. Basil Rathbone e Claude Rains fazem um ótimo par de vilões como o Príncipe John e Guy de Gisborne. Rains cobiça o trono, e Rathbone cobiça Marion. Ambos fornecem o toque certo de ameaça em performances convincentes.

Os três prêmios Oscar que recebeu em 1938 apenas confirmam os méritos técnicos do filme, mas somente assistindo a “The Adventures of Robin Hood” o espectador terá certeza de que este é um dos maiores filmes de aventuras já feitos e uma lição de cinema que qualquer cineasta que se acha capaz de construir uma versão desta lenda à altura do trabalho de Michael Curtiz deveria primeiramente aprender.

Curiosidades sobre um clássico inspirador mas até hoje inigualável

Segundo fontes da época, em 1935 a Metro-Goldwyn-Mayer teria pago 62.500 dólares para o espólio de Reginald de Koven pelos direitos de filmagem da música que ele compôs para a opereta “Robin Hood”. Foi a maior quantia já paga por um estúdio por direitos musicais. A MGM já tinha comprado os direitos da história da Warner, que detinha os direitos desde a época do cinema mudo e apesar dos planos de o estúdio de estrelar um filme com o grande casal das telas na época Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, a opereta nunca foi filmada pela MGM. Em 1936, a Warner começou a se desenvolver o projeto, readquiriu os direitos e James Cagney foi originalmente cogitado para estrelar como Robin Hood, com Guy Kibbee como Frei Tuck. O chefão Hal B. Wallis, observando Cagney andando pelos sets de filmagem, acabou decidindo por escalar Errol Flynn para o papel-título. Por sua vez, Jack Warner chegou a considerar Anita Louise para o papel de Marian.

A Warner Bros produziu “As Aventuras de Robin Hood” por dois milhões de dólares, o maior orçamento até então. Quando Michael Curtiz substituiu William Keighley praticamente no meio das filmagens, Sol Polito veio com ele, substituindo o fotógrafo Tony Gaudio. O estúdio havia escolhido Keighley (que havia dirigido Errol Flynn um ano antes em “O Príncuipe e o Mendigo) por conta de sua experiência anterior com o Technicolor em “God’s Country and the Woman”, de 1937, mas quando de sua substituição, ele já havia dirigido a maioria das cenas de locação em Chico, na Califórnia, enquanto Curtiz dirigiu o restante do filme. Segundo sua autobiografia, Hal B. Wallis substituíra Keighley porque sentiu que as cenas de ação filmadas por ele eram ineficazes. Ele optou por chamar Michael Curtiz, que foi o responsável por lançar Errol Flynn ao estrelato no vibrante “Capitão Blood” e em seguida consolidou sua posição como astro de ação em “A Carga da Brigada Ligeira”. Curiosamente, Errol Flynn não gostou da substituição, primeiro porque era amigo de Keighley, e segundo porque achava o método de trabalho de Curtiz muito ditatorial.

O elenco e a equipe de filmagem ficaram nas locações no Chico’s Bidwell Park durante seis semanas e o concurso do arco foi encenado no Busch Gardens, em Pasadena, na Califórnia. O diretor de segunda unidade B. Reeves Eason foi enviado a Chico perto do final de outubro para filmar cenas de ação que não envolviam os principais atores a fim de encurtar o cronograma de filmagens, segundo a autobiografia de Wallis. O diretor de Arte Carl Weyl construiu algumas árvores artificiais para aumentar o Bidwell Park. Como a grama e os arbustos foram retirados devido aos riscos de incêndio, grama artificial foi usada para substituí-los. Diante do enorme do sucesso do filme quando de sua estreia, a Warner previu uma sequela do filme, também estrelada por Errol Flynn e com Michael Curtiz na direção, mas este projeto nunca foi adiante.

O mestre belga da esgrima Fred Cavens e seu filho Albert tutelaram o elenco nas rotinas com a espada. Por sua vez, o especialista em tiro com arco Howard Hill fez as cenas onde sua perícia era exigida. O estúdio pagou aos dublês e figurantes cerca de US$ 150 por cena para deixarem Hill atingi-los com as setas. Errol Flynn fez a maior parte de suas cenas de ação dispensando dublês, com exceção de um salto com as mãos amarradas atrás das costas e um outro pulo até a parte traseira de um cavalo, seu balanço até o portão de Nottingham e sua queda para o outro lado.

Embora as fontes modernas geralmente se refiram a este filme como o primeiro lançamento da Warner em Technicolor de três bandas, esta honra realmente vai para “Onde o Ouro Se Esconde” (Gold Is Where You Find It), que entrou em produção antes de “As Aventuras de Robin Hood” mas só foi lançado vários meses depois. Segundo o IMDb, só haviam 11 câmeras em Technicolor em Hollywood, e todas elas foram usadas no filme. Mais uma curiosidade: Alan Hale interpretou Little John, na versão de 1922 estrelada por Douglas Fairbanks e voltou a interpretá-lo novamente em “Rogues of Sherwood Forest”, lançado pela Columbia em 1950. O editor Ralph Dawson, o diretor de arte Carl Weyl, e o compositor Erich Wolfgang Korngold ganharam um Oscar por seus trabalhos neste filme, que foi nomeado para Melhor Filme de 1938. “As Aventuras de Robin Hood” foi o grande arrasa-quarteirão do ano, batendo o recorde do dia de estreia no Radio City Music Hall, arrecadando US $ 14.000.

A lenda de Robin Hood tem sido a base para vários filmes. O primeiro foi um filme de um rolo feito nos Estados Unidos em 1908 sobre o qual muito pouco se sabe. Um filme britânico, “Robin Hood and His Merry Men”, foi feito no mesmo ano. Outra versão foi feita pela Thanhouser Film Corporation em 1913, estrelado por William Russell. A quarta versão foi dirigida por Allan Dwan para a United Artists, em 1922, estrelada por Douglas Fairbanks. A RKO e a Walt Disney Productions co-financiaram o britânico “The Story of Robin Hood”, em 1952. Esta produção foi estrelada por Richard Todd e foi dirigida por Ken Annakin. Em 1961, a Columbia lançou “Sword of Sherwood Forest”, estrelado por Richard Greene, que também atuou na série de televisão de “Robin Hood” transmitida pela rede CBS de 1955-58. Em 1964, a Warner produziu “Robin and the Seven Hoods”, dirigido por Gordon Douglas e estrelado por Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis, Jr. A produção britânica, “A Challenge for Robin Hood”, foi feita pela Hammer em 1967 e estrelado por Barrie Ingham e Guy Hamilton. Em 1973, a Walt Disney lançou um desenho animado “Robin Hood”, dirigido por Wolfgang Reigherman e com as vozes de Brian Bedford e Peter Ustinov. “Robin e Marian”, feito pela Columbia em 1976, foi estrelado por Sean Connery e Audrey Hepburn como os amantes no envelhecimento. Em 1991, a Morgan Creek lançou “Robin Hood: Príncipe dos Ladrões”, estrelado por Kevin Costner e dirigido por Kevin Reynolds. Uma versão da televisão americana, intitulada “As Aventuras de Robin Hood” e estrelada por Patrick Bergin e Uma Thurman foi lançado nos cinemas no exterior pela 20th Century Fox. Em 2009, o diretor Ridley Scott realizou uma nova versão, estrelada por Rusell Crowe e Cate Blanchet.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0029843/

Trailer:

Galeria de Imagens:

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Os Grandes Clássicos do Terror – Parte IV

O CINEMA DE TERROR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – PARTE IV

“Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, eles nos vencem.”
Stephen King

Golems, demônios, vampiros e outros monstros expressionistas

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Em 1924, O diretor alemão Paul Leni realizou um dos grandes filmes de terror da década: “O Gabinete das Figuras de Cera” (Das Wachsfigurenkabinett), co-dirigido por Leo Birinsk, realizado no auge do movimento expressionista e reunindo as suas características mais importantes: apurado senso estético, fotografia sombria, liberdade criativa, destreza técnica e um gosto pelo universo fantástico ao utilizar o recurso das histórias paralelas que se entrelaçam em uma mesma narrativa, algo bem parecido com o que Fritz Lang já havia feito alguns anos antes em “A Morte Cansada”: na primeira história, Emil Jannings vive um califa na época das mil e uma noites, na segunda, Conrad Veidt (O sonâmbulo Cesare de “O Gabinete do Dr. Caligari”) interpreta o czar russo Ivan, o Terrível, e na terceira história Werner Krauss (o próprio Dr. Caligari) interpreta o assassino Jack, o Estripador perseguindo o narrador do filme, um contador de histórias vivido pelo futuro diretor William Dieterle.

Conrad-Veidt-Orlacs-Hände-2Outro grande filme produzido naquele mesmo ano foi “As Mãos de Orlac” (Orlacs Hände), dirigido por Robert Wiene, o mesmo diretor de “O Gabinete do Dr. Caligari”, que além da pesada atmosfera gótica e da estética expressionista sombria, trazia uma história tenebrosa estrelada pelo ótimo Conradt Veidt. Ele é o talentoso pianista Paul Orlac, que ao retornar para casa após uma turnê sofre um acidente de trem e tem as mãos destruídas. Sua esposa Yvonne implora que o cirurgião Dr. Serral ajude o marido, que então tem suas mãos amputadas e substituídas pelas de Vasseur, um terrível assassino condenado à morte. Quando se recupera, Orlac percebe que há algo errado e sem conseguir controlar suas próprias mãos se vê preso a instintos assassinos herdados de Vasseur. Apesar do tom absurdo, o filme representa bem o modelo expressionista em que se inspira e está mais voltado para o macabro e o terror do que o filme anterior de Leni.

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golem-2O Expressionismo alemão rendeu ainda outros excelentes frutos ao cinema de horror. É o caso de “O Golem” (Der Golem, wie er in die Welt kam), de 1920, dirigido por Paul Wegener e Car Boese, que recebeu o subtítulo “Como Veio ao Mundo”. Aqui, uma estátua de barro ganha vida e sai cometendo assassinatos. “O Golem” ficou famoso pelos cenários tortuosos desenhados pelo renomado arquiteto Hanz Poelzig, pelas angulações de câmera inovadoras e pela deslumbrante fotografia do mestre Karl Freund, o grande responsável pelas imagens poderosas do filme ao explorar recursos visuais até então inéditos. Usando muita fumaça, trovões e alguma pirotecnia, o filme investe em questões mitológicas e religiosas de um mito tradicional da cultura judaica e em aspectos fantásticos envolvendo até uma manifestação sobrenatural, a entidade Astaroth, responsável por dizer ao rabino a palavra mágica que faz o Golem ganhar vida.

Outras versões da lenda já haviam sido filmadas na Alemanha, em 1914 e 1917. Na figura arquetípica do monstro de barro jaz latente toda uma estética inovadora que iria se perpetuar no cinema de horror da década seguinte, sobretudo nos aspectos sutis com que o diretor Wagener joga com a natureza destrutiva da criatura sem consciência ou emoção e descarta maiores explicações do que aquela que o misticismo medieval ali retratado permite. Algo muito próximo do que James Whale tentou recriar para o seu monstro em “Frankenstein”, de 1931. Enquanto seus colegas fugiram do nazismo, Paul Wegener, que interpreta o Golem, decidiu permanecer na Alemanha e reduziu seu talento submetendo-se a produzir filmes de propaganda para o Partido Nazista.

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“A Morte Cansada” (Der Müde Tod), de 1921, é um dos filmes mais emblemáticos e simbólicos que Fritz Lang dirigiu em sua longa carreira. Esta fantasia gótica é inspirada em seus sonhos de infância e foi escrita por Lang já em colaboração com sua esposa Thea Von Harbou em tom de fábula, sobre a inexorabilidade do destino sobre os desejos humanos. Na trama, a Morte em pessoa está cansada de se ocupar das vidas humanas e decide tirar férias, erguendo um muro intransponível em volta da casa em que se abriga. Uma jovem descobre que é para lá que vão as almas dos recém-falecidos, entre elas a de seu amado. A moça faz um trato com a Morte: se ela conseguir salvar uma de três vidas condenadas, terá seu amado de volta.

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Cada uma das três velas abrirá caminho para uma história em tom de folhetim com lugares e personagens diferentes, mas sempre o mesmo tema: em uma cidade árabe, em Veneza durante o carnaval e na China imperial, o amor proibido entre dois jovens será perseguido pelas forças do poder – respectivamente, o califa, o aristocrata e o imperador – que conspiram para assassinar o herói. A despeito das histórias, o filme mantém seu interesse na forma como Lang aborda questões filosóficas e metafísicas, e usa as velas como símbolos da vida humana. Bernhard Goetzke coloca na tela com o seu desempenho quase abstrato o retrato mais fascinante que o cinema já fez da Morte, um modelo para diversos outros cineastas que ousaram investir no tema, sobretudo o transcendental “O Sétimo Selo”, de Bergman.

nosferatu-1Em 1922, houve o lançamento de “Nosferatu”, de F.W. Murnau, o primeiro dos grandes filmes de vampiro. Sendo uma adaptação não-oficial do livro “Drácula”, de Bram Stoker, “Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens) sofreu com um processo movido pela viúva de Stoker: um juiz inglês ordenou que todas as cópias do filme fossem destruídas. Felizmente, a maior parte das cópias alemãs sobreviveu, deixando o legado que prova sua reputação como um dos maiores feitos cinematográficos da história. Toda a sexualidade reprimida do início do século passado está presente em “Nosferatu”. O desejo do protagonista por sangue beira a tensão erótica. O frenesi que o vampiro alcança ao morder sua vítima pode ser entendido como o ápice da excitação. Como ele se alimenta, com igual apetite, tanto de homens quanto de mulheres, temos ainda um perfil andrógino e de sexualidade indefinida que seria abordado em diversos filmes no futuro.

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Por sua vez, confirmando o caráter sexual do ato, quem é mordido também passa por uma catarse libidinosa, perdendo o controle de suas faculdades mentais. Sem oferecer resistência e de forma masoquista, a vítima deleita-se com a violência e acaba tornando-se mais um algoz. O conceito básico de vampiro é sensual. Sua ambientação noturna impregna-se de caráter erótico, tanto que muitos chegaram ao exagero de dizer que Max Schreck, com sua pesada maquiagem, calva, levantando-se de seu caixão na Transilvânia representaria em si uma ereção. E a figura maquiada do ator como o Conde Orlock, com sua testa avantajada, figura esguia, dentes afiados e dedos longos e magros penetrou de tal maneira no inconsciente do público que foi a melhor definição de vampiro durante décadas, mesmo depois da adaptação oficial de “Drácula”, nos anos 30, e estrelada por Bela Lugosi.

O mito de Fausto ganharia as telas na adaptação da obra de Goethe pelas lentes de F.W. Murnau em 1926 em seu filme homônimo sobre o homem que faz um pacto com o Diabo e oferece sua alma em troca de conhecimento e prazeres mundanos. Quando se apaixona por uma jovem camponesa, ele tenta desfazer o trato. “Fausto” (Faust – Eine Deutsche Volkssage), além da direção brilhante de Murnau, que entregou um dos últimos grandes exemplares do expressionismo alemão, ainda tem a magistral atuação de Emil Jannings – provavelmente o maior ator alemão de todos os tempos – como Mefistófeles. Muitos desses filmes do período expressionista têm em comum além da estética opressiva e perturbadora que caracteriza o movimento, as tentativas de se retratar a tendência do ser humano à autodestruição. Movido por ideais quase sempre mesquinhos e egoístas, os personagens desses filmes levam à ruína seus semelhantes e a si próprios.

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O último grande exemplar do cinema expressionista alemão foi levado às telas pelo mestre Fritz Lang em sua obra-prima “M, o Vampiro de Dusseldorf”, já em 1931 e em pleno período sonoro. Já antecipando a paranóia social da época pouco antes da ascensão de Hitler, deveria chamar-se “O Assassino Está Entre Nós”, mas temendo que fosse interpretado como uma acusação direta ao Partido Nazista o filme teve o título mudado para “M”, de “Murder” (“Assassino”) uma referência à letra que é desenhada às costas do assassino de meninas Hans Beckert (habilmente interpretado por Peter Lorre, escolhido pessoalmente pelo diretor por se encaixar no estereótipo do sujeito comum). O roteiro de Thea Von Harbour faz uma analogia entre a justiça pelas próprias mãos e a justiça de direito quando a sociedade se une para caçar o assassino e ao mesmo tempo faz um interessante estudo psicológico da histeria social e da paranoia que dominava a população alemã da época. O medo e a desconfiança tomam as ruas e cada um é capaz de acusar até mesmo os cidadãos mais proeminentes se desconfiar de alguma atitude suspeita.

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m-2-1931O roteiro de von Harbour, que logo em seguida se filiaria ao partido Nazista, também reafirma sua crença na autoridade absoluta do poder público quando policiais resgatam Beckert das mãos dos criminosos que queriam condená-lo à morte em um júri popular e o levam preso em nome da justiça. Peter Lorre fez um incrível trabalho psicológico atuando como Beckert, que passa de algoz a vítima, e cuja autoconfiança inicial se transforma em desespero na sequência final em que precisa atuar como advogado de defesa de si mesmo. Lang, que era um mestre no jogo de luz e sombras, explora o talento do diretor de fotografia Fritz Arno Wagner para criar sequências impressionantes como a caçada a Beckert dentro de um prédio público, ou a sugestiva cena do assassinato da menina que fica o tempo todo subentendido e que nem por isso deixou de ser umas das cenas mais perturbadoras que o cinema já nos mostrou. Indo na contramão dos temas expressionistas, Lang provou que o monstro mais assustador de todos é o próprio ser humano.

Desde 1927, coincidindo com a introdução do cinema sonoro, uma mudança de direção na UFA comportou um novo rumo para o cinema alemão, de corte mais comercial, visando a imitar o sucesso conseguido pelo cinema americano produzido por Hollywood. Desde então, a maioria de diretores alemães estabeleceram-se em Hollywood ou Londres, o que comportou o fim do cinema expressionista como tal, substituído por um cinema cada vez mais germanista, produto de um nacionalismo exacerbado, que foi de imediato um dos temas principais dos veículos de propaganda do regime nazista. Contudo, fora da Alemanha, a estética expressionista incorporou-se ao cinema moderno através da obra de outros diretores como Carl Theodor Dreyer ou dos mestres cineastas ou fotógrafos que, fugindo do nazismo, continuaram suas carreiras em outros países, principalmente em Hollywood: Fritz Lang, F.W. Murnau, Paul Leni, Karl Freund, entre outros.

vampyr-2Produzido na Alemanha, o curioso “O Vampiro” (Vampyr – Der Traum des Allan Grey), de 1932, dirigido pelo dinamarquês Carl Theodore Dreyer, delineia a história do jovem Allan Grey, um estudioso sobre vampirismo que chega a um vilarejo e se envolve com duas irmãs: Leone, que aparenta morrer de alguma doença misteriosa, e Gisele, supostamente prisioneira. Estranhos acontecimentos envolvem o trio, quando Grey dá-se conta que as moças estão sob o domínio de alguma estranha força. Baseado no romance “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu, o filme tem um contraste exótico presente nos seus efeitos de claro-escuro que nos remetem ao cinema expressionista alemão do começo dos anos 20, bem como faz menção a sonhos e ao inconsciente.

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O personagem Allan Grey, em certa cena, chega a sonhar com o seu próprio funeral, e o espectador pode ver o mundo a partir da perspectiva enevoada de um caixão. Muitas outras sequências da película seguem a mesma linha abstrata e irregular. Aparentemente desconexas, há diversas cenas que quebram o fio narrativo. Mais uma vez, estão aqui temas psicanalíticos em voga na época: sonhos e desejos reprimidos. O filme não é muito inteligível por conta das montagens que sofreu ao longo das décadas e que, a partir das diferentes versões que teve, tentaram se aproximar da concepção original de Dreyer, que após o fracasso do filme teve uma crise nervosa e ficou quase uma década sem voltar à direção.

Continua na Parte 5.