Filmes: Anna Christie (1930)

ANNA CHRISTIE

annachristie_1Título Original: Anna Christie
Ano: 1930
País: Estados Unidos
Duração: 89 min.
Direção Clarence Brown
Elenco: Greta Garbo, Charles Bickford, George F. Marion, Marie Dressler, Lee Phelps, James T. Mack, Jack Baxley, William H. O’Brien.
Sinopse:
Faz 15 anos que Chris mandou Anna morar com uns parentes e, agora, ela está de volta. Após um resgate, um dos sobreviventes chamado Matt se apaixona por ela e a pede em casamento. Anna diz não e resolve contar a verdade sobre a vida miserável que levava em Minnesota, além de um grande segredo.

“Garbo talks”, anunciavam os cartazes da época, na tentativa de promover o primeiro filme falado da diva sueca, nesta segunda versão da peça de Eugene O’Neill (a anterior foi realizada em 1923). Surpreendendo a todos com sua voz grave e rouca, Garbo não só realizou com sucesso a sua transição do cinema mudo para o falado (algo que muitas outras estrelas da época, como Mary Pickford e Gloria Swanson não conseguiram), como reafirmou seu potencial de grande estrela do cinema (a atriz chegou a ser indicada ao Oscar por esse filme e por “Romance”, produzido no mesmo ano e também dirigido por Clarence Brown). Como era costume de alguns estúdios, paralelamente foi realizada uma versão falada em alemão deste filme, dirigida por Jacques Feyder e com outro elenco secundário, lançada na Europa em 1931.

Uma das melhores performances de Garbo

Para o primeiro filme em que Greta Garbo está falando, a MGM sabiamente escolheu a peça de Eugene O’Neill, ganhadora do Prêmio Pullitzer em 1921. Também sabiamente, os produtores ajudaram Garbo não com um, mas com dois membros do elenco original da peça na Broadway: George F. Marion como o pai de Anna, Chris, e James T. Mack como Johnny Priest – transmutado em “Johnny Harp” para o filme de forma a não ofender os mais puritanos. Esta pequena mudança foi interessante. Há cinéfilos que gostam por demais de filmes do tipo que ao contrário de negar suas origens teatrais, desenvolvem um modelo de narrativa que poderiam rotulá-los como “pouco mais do que peças de teatro filmadas”.

“Anna Christie” não peca por isso. O problema não são as peças em si, mas os seus realizadores que não foram mais fiéis ao conteúdo da obra original quando precisavam ou não souberam alçar voos mais elevados quando o texto lhes permitia. Diluindo-se uma obra grande dos palcos para uma versão cinematográfica que não ofendesse ninguém, muitas delas perdem as qualidades que tornaram as peças dignas de serem filmadas em primeiro lugar. Felizmente, o respeito que o estúdio MGM tinha tanto para Eugene O’Neill quanto para Greta Garbo permitiu que “Anna Christie” sobrevivesse ao processo normalmente destrutivo da adaptação, admiravelmente transposto para a linguagem das telas pela consagrada roteirista Frances Marion, que o faz de maneira totalmente sensível. Maravilha das maravilhas, Marion ainda permite que o ponto alto da peça em que Anna revela seu passado para o homem com quem ela mal quer se casar, se torne também o momento absoluto do filme. O que os secretários do Código Hays não deveriam ter pensado sobre isso se ele já estivesse em vigor naquela época!

O elenco é perfeito, e ainda inclui a grande dama das telas Marie Dressler, cuja personagem se torna um ponto de equilíbrio para Garbo em cena, e a curta duração do filme, de apenas 90 minutos, ajuda a manter o ritmo durante toda a projeção. Um dos poucos benefícios a mais para o filme em relação ao texto original é a atmosfera que está sendo mostrada ao invés de eloquentemente descrita na peça – e a roteirista Frances Marion é sábia o suficiente para se manter bem próximo ao texto de O’Neill e quando precisa trazer Dressler de volta para uma cena tocante a atriz a executa de forma magistral. Dressler ganhou um Oscar por sua atuação em “Lírio do Lodo”, de 1931, já aos 61 anos de idade.

“Anna Christie” é uma peça de tragédia, mas rendeu um ótimo filme dramático. É difícil imaginar que um remake atual, que quase certamente perderia a coragem e a atmosfera desta versão de 1930 (a peça já fora filmada sem som, em 1923 – também com George Marion repetindo o papel de Chris) pudesse melhorar essa filmagem excelente. As cenas internas dão mais familiaridade à peça, mas o exterior também deve ser ressaltado por qualquer pessoa com um olho atento para a atmosfera criada pelo diretor de cenários Cedric Gibbons e capturada pelas lentes mágicas do diretor de fotografia William H. Daniels. Enquanto o trabalho de fundo pareça fugir aos modernos padrões técnicos, os cenários de “Anna Christie” dão uma melhor visão do que a maioria dos primeiros filmes da era do cinema mudo mais prezavam, uma visão mais convincente do mundo, especialmente do porto de Nova York.

Talvez com exceção apenas da exagerada e frequentemente parodiada cena da morte de sua personagem em “A Dama das Camélias”, realizado sete anos mais tarde e que ocasionalmente provoca risadas por causa da direção desajeitada, quase todas as performances naturalistas de Garbo da época do começo do cinema sonoro mantiveram-se soberbamente com o passar dos anos. Mas juntamente com a variedade de seus filmes no período, “Mata Hari”, “Rainha Cristina” e “Grande Hotel”, ao toque sublime de Lubitsch em sua comédia de 1939, “Ninotchka” (“Garbo ri!”), com certeza, “Anna Christie” nos oferece a chance de ver a diva sueca em um de seus melhores momentos.

“Garbo talks!”

No final de agosto de 1929, Garbo terminou “The Kiss” e estava se preparando para estrelar “Anna Christie”, seu primeiro filme falado. Garbo já fazia testes de som depois que ela voltou de sua viagem a Suécia no final de 1928. Segundo consta, ela não estava com medo em relação a ter sua voz gravada finalmente ou em falar as linhas de texto diante do microfone. Muitas estrelas estrangeiras deixaram Hollywood por causa de seu forte sotaque. Greta não sabia o que iria acontecer com ela e parecia que ela não se importava de qualquer maneira com isso. Não, o mundo estava esperando por ela em um “talkie”, em primeiro lugar. Outras estrelas da MGM, Joan Crawford, John Gilbert e Ramon Novarro logo teriam suas estreias faladas também.

Mas o fato é que “Anna Christie” não foi a primeira escolha para a estreia de som de Garbo. Irving Thalberg e ela queriam fazer um filme de Joana D’Arc. O produtor sugeriu o remake do filme “La Passion de Jeanne d’Arc” (França 1927), em um filme sonoro. Ele também considerou a peça de Shaw “Santa Joana”. Mas não aconteceu nada disso. De tudo que tinham escolhido o vencedor do Prêmio Pulitzer, a peça teatral “Anna Christie”, de Eugene O’Neill, foi a escolhida para o primeiro filme falado da estrela sueca.

Anna Christie é um dos papéis mais difíceis do teatro contemporâneo. A peça é quase um monólogo, um teste de fôlego para qualquer atriz experiente de palco, imagine para uma atriz cuja voz até então nunca precisara ser ouvida. Foi uma atitude corajosa para Garbo e até mesmo para a MGM, e um risco e tanto para a sua carreira. Outras estrelas do cinema mudo não conseguiram manter suas carreiras com o advento dos filmes falados. Além disso, o papel de uma prostituta era algo difícil de ser aceito no mercado cinematográfico e muito menos conseguia atingir um público grande. Além do conteúdo adulto e trágico, a peça de O’Neill tinha uma linguagem áspera que poderia ofender alguns espectadores ou despertar a ira dos censores da época.

Então Thalberg teve uma ideia para torná-lo mais aceitável, mesmo para um público mais familiar. No roteiro adaptado por Frances Marion, uma das mais experientes e renomadas escritoras de Hollywood, o diálogo de Anna Christie ganhou o forte sotaque sueco. Mas Greta não queria que as pessoas pensassem que ela falaria assim também na vida real. Seu Inglês era muito bom até então e assim ela fez o seu diálogo do jeito que ela queria. Greta até recusou um treinador de voz. Em 28 de setembro, John Gilbert teve seu debut em imagens conversando em “His Glorious Night”, e o público começou a rir em voz alta. Se isso é uma verdade ou não, o fato é que a voz de Gilbert tornou-se uma dessas anedotas lendárias do Cinema. De toda forma, muitos relatórios ruins dos proprietários de cinema não culpavam o filme em si. Todos eles culparam a voz de Gilbert. Infelizmente, sua voz não era ruim, mas era muito aguda. Gilbert ficou profundamente magoado com as críticas, e que ajudariam a destruir sua carreira. Garbo não ficou nada encorajada pela notícia ruim da estreia de Gilbert nos “talkies” mas ainda assim recusou um treinador de voz.

Por contrato, Garbo podia escolher quem quisesse para dirigi-la e ela queria Clarence Brown como diretor de “Anna Christie”. Ela tinha ouvido falar de um ator da Broadway chamado Charles Bickford, que poderia viver o marinheiro Matt Burke. Greta tinha também a palavra final a dizer sobre o casting e queria Bickford de qualquer jeito. Thalberg e Mayer deram o sinal verde. Em 8 de outubro de 1929, os ensaios começaram, mas Greta odiava ensaiar. Ela teria preferido ficar longe até que toda a gente tivesse ensaiado. Então ela iria entrar e fazer a sua cena. Em 14 de outubro, as filmagens começaram e três dias depois Garbo teve seu primeiro dia diante do microfone. Ela estava em boa forma mas também um pouco assustada. Quando ela ouviu sua própria voz gravada pela primeira vez, ela riu: “Meu Deus! É essa a minha voz? Você diz que esse som sou eu? honestamente?”

O filme ganhou muito com o trabalho de Douglas Shearer a frente do Departamento de som da MGM, ele que era um dos pioneiros do som em Hollywood e um dos principais técnicos em atividade no período. Por sua vez, Greta Garbo ficou satisfeita consigo mesma e das cenas que fez. Mas ainda estava insatisfeita com a aparência dela e a forma como Clarence Brown queria a sua interpretação de uma personagem sueca-americana. Alguns dias depois ela teve uma discussão com Brown sobre o assunto. O que se seguiu foi que todas as cenas dela desde a primeira semana de filmagem foram refeitas. Apesar disso, a produção continuou muito bem e sem maiores problemas e terminou em novembro de 1929. Agora MGM começava a pensar em uma campanha para o filme. Depois de algum tempo alguém do estúdio sugeriu a ideia, de apenas duas palavras: “GARBO FALA”. Thalberg adorou a ideia.

Uma prévia do filme foi realizada em San Bernardino. Greta não compareceu, mas os espectadores que esperavam ver o filme anterior de Garbo “O beijo” foram surpreendidos quando vieram os títulos de abertura de “Anna Christie”. O filme começou e Garbo não surge na tela até o fim dos primeiros 15 minutos. Quando ela apareceu de pé na porta e entra no salão, o público inteiro prendeu a respiração. Sua personagem se senta e diz as primeiras linhas de diálogo: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”. Quando o filme terminou, o público aplaudiu alto. O estúdio sabia que este seria um filme vencedor. Thalberg disse que o filme não precisava de qualquer retoque ou cortes. Algo que era bastante incomum em sessões testes feitas na época.

“Anna Christie” estreou oficialmente no Fox Criterion Theatre, em Los Angeles em 22 de janeiro de 1930. Os críticos amaram. Garbo viu “Anna Christie” no dia seguinte. Ela ficou satisfeita com a sua parte, mas ainda estava descontente com a forma como o filme mostrou os suecos. A campanha “Garbo talks” foi um sucesso. “Anna Christie” foi o filme de maior bilheteria na América em 1930 e fez mais de US $ 1 milhão em bilheterias. O mito Greta Garbo resurgia com força total também nos “talkies”.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0020641/

Anna Christie Whiskey Scene:

Galeria de Imagens:

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