Arquivos Mensais: julho \15\UTC 2013

Filmes: Anna Christie (1930)

ANNA CHRISTIE

annachristie_1Título Original: Anna Christie
Ano: 1930
País: Estados Unidos
Duração: 89 min.
Direção Clarence Brown
Elenco: Greta Garbo, Charles Bickford, George F. Marion, Marie Dressler, Lee Phelps, James T. Mack, Jack Baxley, William H. O’Brien.
Sinopse:
Faz 15 anos que Chris mandou Anna morar com uns parentes e, agora, ela está de volta. Após um resgate, um dos sobreviventes chamado Matt se apaixona por ela e a pede em casamento. Anna diz não e resolve contar a verdade sobre a vida miserável que levava em Minnesota, além de um grande segredo.

“Garbo talks”, anunciavam os cartazes da época, na tentativa de promover o primeiro filme falado da diva sueca, nesta segunda versão da peça de Eugene O’Neill (a anterior foi realizada em 1923). Surpreendendo a todos com sua voz grave e rouca, Garbo não só realizou com sucesso a sua transição do cinema mudo para o falado (algo que muitas outras estrelas da época, como Mary Pickford e Gloria Swanson não conseguiram), como reafirmou seu potencial de grande estrela do cinema (a atriz chegou a ser indicada ao Oscar por esse filme e por “Romance”, produzido no mesmo ano e também dirigido por Clarence Brown). Como era costume de alguns estúdios, paralelamente foi realizada uma versão falada em alemão deste filme, dirigida por Jacques Feyder e com outro elenco secundário, lançada na Europa em 1931.

Uma das melhores performances de Garbo

Para o primeiro filme em que Greta Garbo está falando, a MGM sabiamente escolheu a peça de Eugene O’Neill, ganhadora do Prêmio Pullitzer em 1921. Também sabiamente, os produtores ajudaram Garbo não com um, mas com dois membros do elenco original da peça na Broadway: George F. Marion como o pai de Anna, Chris, e James T. Mack como Johnny Priest – transmutado em “Johnny Harp” para o filme de forma a não ofender os mais puritanos. Esta pequena mudança foi interessante. Há cinéfilos que gostam por demais de filmes do tipo que ao contrário de negar suas origens teatrais, desenvolvem um modelo de narrativa que poderiam rotulá-los como “pouco mais do que peças de teatro filmadas”.

“Anna Christie” não peca por isso. O problema não são as peças em si, mas os seus realizadores que não foram mais fiéis ao conteúdo da obra original quando precisavam ou não souberam alçar voos mais elevados quando o texto lhes permitia. Diluindo-se uma obra grande dos palcos para uma versão cinematográfica que não ofendesse ninguém, muitas delas perdem as qualidades que tornaram as peças dignas de serem filmadas em primeiro lugar. Felizmente, o respeito que o estúdio MGM tinha tanto para Eugene O’Neill quanto para Greta Garbo permitiu que “Anna Christie” sobrevivesse ao processo normalmente destrutivo da adaptação, admiravelmente transposto para a linguagem das telas pela consagrada roteirista Frances Marion, que o faz de maneira totalmente sensível. Maravilha das maravilhas, Marion ainda permite que o ponto alto da peça em que Anna revela seu passado para o homem com quem ela mal quer se casar, se torne também o momento absoluto do filme. O que os secretários do Código Hays não deveriam ter pensado sobre isso se ele já estivesse em vigor naquela época!

O elenco é perfeito, e ainda inclui a grande dama das telas Marie Dressler, cuja personagem se torna um ponto de equilíbrio para Garbo em cena, e a curta duração do filme, de apenas 90 minutos, ajuda a manter o ritmo durante toda a projeção. Um dos poucos benefícios a mais para o filme em relação ao texto original é a atmosfera que está sendo mostrada ao invés de eloquentemente descrita na peça – e a roteirista Frances Marion é sábia o suficiente para se manter bem próximo ao texto de O’Neill e quando precisa trazer Dressler de volta para uma cena tocante a atriz a executa de forma magistral. Dressler ganhou um Oscar por sua atuação em “Lírio do Lodo”, de 1931, já aos 61 anos de idade.

“Anna Christie” é uma peça de tragédia, mas rendeu um ótimo filme dramático. É difícil imaginar que um remake atual, que quase certamente perderia a coragem e a atmosfera desta versão de 1930 (a peça já fora filmada sem som, em 1923 – também com George Marion repetindo o papel de Chris) pudesse melhorar essa filmagem excelente. As cenas internas dão mais familiaridade à peça, mas o exterior também deve ser ressaltado por qualquer pessoa com um olho atento para a atmosfera criada pelo diretor de cenários Cedric Gibbons e capturada pelas lentes mágicas do diretor de fotografia William H. Daniels. Enquanto o trabalho de fundo pareça fugir aos modernos padrões técnicos, os cenários de “Anna Christie” dão uma melhor visão do que a maioria dos primeiros filmes da era do cinema mudo mais prezavam, uma visão mais convincente do mundo, especialmente do porto de Nova York.

Talvez com exceção apenas da exagerada e frequentemente parodiada cena da morte de sua personagem em “A Dama das Camélias”, realizado sete anos mais tarde e que ocasionalmente provoca risadas por causa da direção desajeitada, quase todas as performances naturalistas de Garbo da época do começo do cinema sonoro mantiveram-se soberbamente com o passar dos anos. Mas juntamente com a variedade de seus filmes no período, “Mata Hari”, “Rainha Cristina” e “Grande Hotel”, ao toque sublime de Lubitsch em sua comédia de 1939, “Ninotchka” (“Garbo ri!”), com certeza, “Anna Christie” nos oferece a chance de ver a diva sueca em um de seus melhores momentos.

“Garbo talks!”

No final de agosto de 1929, Garbo terminou “The Kiss” e estava se preparando para estrelar “Anna Christie”, seu primeiro filme falado. Garbo já fazia testes de som depois que ela voltou de sua viagem a Suécia no final de 1928. Segundo consta, ela não estava com medo em relação a ter sua voz gravada finalmente ou em falar as linhas de texto diante do microfone. Muitas estrelas estrangeiras deixaram Hollywood por causa de seu forte sotaque. Greta não sabia o que iria acontecer com ela e parecia que ela não se importava de qualquer maneira com isso. Não, o mundo estava esperando por ela em um “talkie”, em primeiro lugar. Outras estrelas da MGM, Joan Crawford, John Gilbert e Ramon Novarro logo teriam suas estreias faladas também.

Mas o fato é que “Anna Christie” não foi a primeira escolha para a estreia de som de Garbo. Irving Thalberg e ela queriam fazer um filme de Joana D’Arc. O produtor sugeriu o remake do filme “La Passion de Jeanne d’Arc” (França 1927), em um filme sonoro. Ele também considerou a peça de Shaw “Santa Joana”. Mas não aconteceu nada disso. De tudo que tinham escolhido o vencedor do Prêmio Pulitzer, a peça teatral “Anna Christie”, de Eugene O’Neill, foi a escolhida para o primeiro filme falado da estrela sueca.

Anna Christie é um dos papéis mais difíceis do teatro contemporâneo. A peça é quase um monólogo, um teste de fôlego para qualquer atriz experiente de palco, imagine para uma atriz cuja voz até então nunca precisara ser ouvida. Foi uma atitude corajosa para Garbo e até mesmo para a MGM, e um risco e tanto para a sua carreira. Outras estrelas do cinema mudo não conseguiram manter suas carreiras com o advento dos filmes falados. Além disso, o papel de uma prostituta era algo difícil de ser aceito no mercado cinematográfico e muito menos conseguia atingir um público grande. Além do conteúdo adulto e trágico, a peça de O’Neill tinha uma linguagem áspera que poderia ofender alguns espectadores ou despertar a ira dos censores da época.

Então Thalberg teve uma ideia para torná-lo mais aceitável, mesmo para um público mais familiar. No roteiro adaptado por Frances Marion, uma das mais experientes e renomadas escritoras de Hollywood, o diálogo de Anna Christie ganhou o forte sotaque sueco. Mas Greta não queria que as pessoas pensassem que ela falaria assim também na vida real. Seu Inglês era muito bom até então e assim ela fez o seu diálogo do jeito que ela queria. Greta até recusou um treinador de voz. Em 28 de setembro, John Gilbert teve seu debut em imagens conversando em “His Glorious Night”, e o público começou a rir em voz alta. Se isso é uma verdade ou não, o fato é que a voz de Gilbert tornou-se uma dessas anedotas lendárias do Cinema. De toda forma, muitos relatórios ruins dos proprietários de cinema não culpavam o filme em si. Todos eles culparam a voz de Gilbert. Infelizmente, sua voz não era ruim, mas era muito aguda. Gilbert ficou profundamente magoado com as críticas, e que ajudariam a destruir sua carreira. Garbo não ficou nada encorajada pela notícia ruim da estreia de Gilbert nos “talkies” mas ainda assim recusou um treinador de voz.

Por contrato, Garbo podia escolher quem quisesse para dirigi-la e ela queria Clarence Brown como diretor de “Anna Christie”. Ela tinha ouvido falar de um ator da Broadway chamado Charles Bickford, que poderia viver o marinheiro Matt Burke. Greta tinha também a palavra final a dizer sobre o casting e queria Bickford de qualquer jeito. Thalberg e Mayer deram o sinal verde. Em 8 de outubro de 1929, os ensaios começaram, mas Greta odiava ensaiar. Ela teria preferido ficar longe até que toda a gente tivesse ensaiado. Então ela iria entrar e fazer a sua cena. Em 14 de outubro, as filmagens começaram e três dias depois Garbo teve seu primeiro dia diante do microfone. Ela estava em boa forma mas também um pouco assustada. Quando ela ouviu sua própria voz gravada pela primeira vez, ela riu: “Meu Deus! É essa a minha voz? Você diz que esse som sou eu? honestamente?”

O filme ganhou muito com o trabalho de Douglas Shearer a frente do Departamento de som da MGM, ele que era um dos pioneiros do som em Hollywood e um dos principais técnicos em atividade no período. Por sua vez, Greta Garbo ficou satisfeita consigo mesma e das cenas que fez. Mas ainda estava insatisfeita com a aparência dela e a forma como Clarence Brown queria a sua interpretação de uma personagem sueca-americana. Alguns dias depois ela teve uma discussão com Brown sobre o assunto. O que se seguiu foi que todas as cenas dela desde a primeira semana de filmagem foram refeitas. Apesar disso, a produção continuou muito bem e sem maiores problemas e terminou em novembro de 1929. Agora MGM começava a pensar em uma campanha para o filme. Depois de algum tempo alguém do estúdio sugeriu a ideia, de apenas duas palavras: “GARBO FALA”. Thalberg adorou a ideia.

Uma prévia do filme foi realizada em San Bernardino. Greta não compareceu, mas os espectadores que esperavam ver o filme anterior de Garbo “O beijo” foram surpreendidos quando vieram os títulos de abertura de “Anna Christie”. O filme começou e Garbo não surge na tela até o fim dos primeiros 15 minutos. Quando ela apareceu de pé na porta e entra no salão, o público inteiro prendeu a respiração. Sua personagem se senta e diz as primeiras linhas de diálogo: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”. Quando o filme terminou, o público aplaudiu alto. O estúdio sabia que este seria um filme vencedor. Thalberg disse que o filme não precisava de qualquer retoque ou cortes. Algo que era bastante incomum em sessões testes feitas na época.

“Anna Christie” estreou oficialmente no Fox Criterion Theatre, em Los Angeles em 22 de janeiro de 1930. Os críticos amaram. Garbo viu “Anna Christie” no dia seguinte. Ela ficou satisfeita com a sua parte, mas ainda estava descontente com a forma como o filme mostrou os suecos. A campanha “Garbo talks” foi um sucesso. “Anna Christie” foi o filme de maior bilheteria na América em 1930 e fez mais de US $ 1 milhão em bilheterias. O mito Greta Garbo resurgia com força total também nos “talkies”.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0020641/

Anna Christie Whiskey Scene:

Galeria de Imagens:

Grandes Diretores: James Whale

JAMES WHALE – O PAI DE FRANKENSTEIN

“O futuro é apenas velhice, doença e dor… Eu preciso ter paz e esta é a única maneira”
Linhas finais da nota de suicídio de James Whale

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O cinema clássico de horror deve muito a James Whale. O britânico entregou alguns dos mais fantásticos filmes da Universal durante a sua melhor fase. Sem ele não teríamos a imagem que aprendemos a admirar de Boris Karloff como o monstro de Frankenstein, nem a visão diabólica do Dr. Pretorius em “A Noiva de Frankenstein” ou mesmo a primazia na técnica de “O Homem Invisível”.

Dono de um requintado estilo à frente de seu tempo e de um trabalho de câmera fluído e único – pesadamente influenciado pelo impressionismo alemão – sua polêmica vida particular é tão interessante quanto sua vida profissional, portanto, Whale merece um olhar mais profundo que você terá a oportunidade de conferir nesta grande jornada por sua fugaz e brilhante carreira.

Primeiros passos

James Whale nasceu na cidade de Dudley, Inglaterra no dia 22 de julho de 1889, sendo o sexto filho (de um total de sete) do casal William e Sarah. O pai era um operador de fornalha e a mãe era enfermeira num típico reduto operário inglês. Apesar da infância em colégios particulares, quando Whale chegou a adolescência precisou largar os estudos devido ao alto custo e sua força de trabalho era necessária para ajudar a família, porém o futuro diretor não era fisicamente robusto como os irmãos e entendeu que poderia sofrer nas indústrias de metalurgia. Assim seu primeiro emprego foi como sapateiro, retendo os pregos que eram retirados das solas trocadas e vendendo em seguida como sucata para ganhar um dinheiro a mais. Na sequência, começando a descobrir seus dotes artísticos, passou a pintar letreiros para o comercio local, James usou o dinheiro extra para pagar aulas noturnas na escola de artes de Dudley.

Em 1914 o mundo entrou em guerra pela primeira vez e Whale se alistou no exército por causa do serviço obrigatório. Treinou como oficial e se juntou às unidades de cadetes em outubro de 1915 ficando na cidade de Bristol, subindo até o posto de segundo tenente do regimento de Worcestershire em julho de 1916. Durante a campanha de Flanders em agosto de 1917 foi capturado e ficou retido por dois anos no campo de prisioneiros de Holzminden onde acumulou ódio pelos alemães e desenvolveu seu gosto pelo drama: Whale desenvolvia produções teatrais para serem apresentadas para os guardas e companheiros de cela. Curiosamente, também foi na prisão que Whale aprendeu a jogar pôquer, ganhou muitas apostas e depois da guerra foi cobrar seus companheiros de cela e fazer um pé-de-meia.

Após o armistício e retornando a Birmingham, em 1919, Whale tentou trabalhar como cartunista de jornal, contudo não conseguiu um emprego em caráter permanente e resolveu trocar de ofício, trabalhando como ator, designer de sets, construtor e diretor de uma companhia de teatro. Em 1922 encontrou com Doris Zinkeisen, apresentados pelo tutor-ator-produtor Nigel Playfair. O noivado não seria grande coisa não fosse por um detalhe: Whale já era abertamente homossexual, uma coisa virtualmente impossível para a época. Em 1925, o noivado que durou cerca de dois anos, terminou.

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Em 1928, Whale teve a oportunidade de dirigir para a Incorporated Stage Society duas performances da peça de R.C. Sheriff “Journey’s End” encenadas para um público fechado – a peça narra as experiências de oficiais das forças armadas britânicas durante a primeira guerra mundial. O diretor ofereceu um dos papéis principais para o futuro astro do cinema Laurence Olivier, que a princípio recusou o convite, mas aceitou após uma reunião com o diretor. Incluindo o ator Maurice Evans no elenco, as apresentações foram bem sucedidas e depois transferidas para o Savoy Theatre em Londres em 21 de Janeiro de 1929, já sem Olivier no elenco, pois ele foi chamado para dirigir a peça “Beau Geste”, e com o jovem Colin Clive no papel principal.

O tremendo sucesso entre público e crítica capacitou sua exibição no Savoy por três semanas, sendo transferida para o Prince of Wales Theatre onde ficaria em cartaz por mais dois anos. Não tarda muito e o produtor estadunidense Gilbert Miller adquiriu os direitos da peça para a Broadway que também foi dirigida por Whale, estreando em 22 de março de 1929 e ficou em cartaz por mais de um ano. A notoriedade de “Journey’s End” trouxe Whale para os holofotes dos produtores de cinema bem na transição dos filmes mudos para os falados, e ele tinha experiência em trabalhar com diálogos. O diretor assinou um contrato com a Paramount como “diretor de diálogos” do filme “The Love Doctor” (1929) onde terminou seu trabalho em 15 dias. Foi nesta época que Whale conheceu David Lewis, seu companheiro pelas próximas décadas.

O trabalho seguinte de Whale foi um filme independente produzido pelo magnata Howard Hughes, para que escrevesse os diálogos de um modo que pudesse converter seu filme previamente silencioso “Hell’s Angels”, de 1930, em um “talkie”. Em seguida, os produtores britânicos Michael Balcon e Thomas Welsh adquiriram os direitos de “Journey’s End” para o cinema e concordaram que James Whale era a pessoa mais indicada para dirigir a película. Os produtores fizeram uma parceria com a empresa Tiffany-Stahl, um pequeno estúdio estadunidense, para rodar o filme em Nova York. Colin Clive repetiu nas telas seu papel na peça e David Manners substituiu Maurice Evans, no papel de Raleigh. As filmagens duraram menos de dois meses e o longa foi lançado em abril de 1930 na Inglaterra e nos Estados Unidos. O resultado foi o mesmo do teatro, outro êxito absoluto de público e crítica.

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Na Universal e a consagração com “Frankenstein”

whale-karloff-cigaretteEm 1931 o estúdio Universal contratou Whale por cinco anos, com o melodrama romântico “A Ponte de Waterloo” (Waterloo Bridge) ficando como seu primeiro projeto. Baseado na peça da Broadway escrita por Robert E. Sherwood, o filme tinha Mae Clark como Myra, uma jovem corista que se torna prostituta para sobreviver durante a I Guerra Mundial, e Douglass Montgomery como seu amante que parte para o front de batalha. O filme seria mais tarde refeito com Vivien Leigh e Robert Taylor nos papeis principais. O ótimo resultado de “A Ponte de Waterloo” elevou o prestígio de James Whale dentro do estúdio.

O chefe do estúdio Carl Laemmle logo ofereceu ao diretor a chance de comandar qualquer filme cujos direitos estavam com a Universal. Whale escolheu “Frankenstein” principalmente porque nenhuma das outras propriedades da Universal lhe interessavam e ele queria realizar uma película de guerra. Whale chamou para o elenco Colin Clive – conhecido do diretor por causa da peça “Journey’s End” – para o papel do barão e cientista, e Mae Clark como sua noiva Elizabeth.

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Porém, para representar o monstro, Whale ofereceu o papel para um ator desconhecido chamado Boris Karloff (diz a lenda que Bela Lugosi era a primeira escolha do estúdio, mas não aceitou porque o papel não possuía falas). As filmagens começaram em 24 de agosto de 1931, estendendo-se até 3 de outubro. Já no dia 29 de outubro foram feitas as pré-estreias com lançamento em 21 de novembro. Instantaneamente a resposta do público e crítica foi aclamar o novo clássico, que estourou os recordes de bilheteria por todo o país, rendendo ao estúdio 12 milhões de dólares no primeiro lançamento. O filme custou 291 mil dólares e se tornaria o mais importante cartão de visitas de seu diretor.

No ano seguinte foi a vez do lançamento de “The Impatient Maiden”, um drama estrelado por Lew Ayres e Mae Clark, baseado na novela “The Impatient Virgin”, de Donald Henderson Clarke, e “A Velha Casa Assombrada” (The Old Dark House), creditado como uma reinvenção dos filmes de horror envolvendo casas sombrias e misteriosas. Para a produção, mais uma vez Boris Karloff foi chamado para o papel principal. Depois que o filme foi retirado de circulação “The Old Dark House” foi considerado perdido por muitos anos até que nos anos 60 o cineasta Curtis Harrington encontrou um negativo nos arquivos da Universal e levou-o para restauração. O famoso produtor e diretor William Castle realizou um remake homônimo em 1963.

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O filme seguinte de Whale foi “The Kiss Before the Mirror”, um drama de suspense estrelado por Nancy Carroll, Frank Morgan, Gloria Stuart e Walter Pidgeon, que foi bem recebido pela crítica mas fracassou nas bilheterias. Porém, logo Whale recuperaria as atenções do público com “O Homem Invisível” (The Invisible Man, de 1933), com um roteiro mais próximo do material escrito por H. G. Wells depois que sofreu 14 revisões de roteiro até ser considerado possível de ser realizado. A mistura de horror, humor e os excelentes efeitos visuais capturaram de imediato a imaginação do público que nunca tinha visto nada parecido até aquele momento. Curiosamente, Karloff representaria o papel principal de acordo com a preferência do estúdio, mas Whale queria uma voz mais “intelectual” e menos soturna para o personagem e sua primeira escolha foi o ator Claude Rains, que pegou o trabalho.

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Depois da comédia romântica “By Candlelight”, estrelada por Elissa Landi e Paul Lukas e também produzida em 1933, o filme seguinte de Whale foi o drama “One More River”, de 1934, uma adaptação da novela de mesmo nome de John Galsworthy, sobre uma mulher tentando escapar de um casamento com um abusivo membro da aristocracia inglesa. Foi o primeiro filme de Whale produzido sob o Código de Produção, o que provocou diversos problemas para adaptar o texto ao novo código por conta dos elementos de sadismo e sexualidade implícitos na história.

O próximo projeto de Whale foi “A Noiva de Frankenstein” de 1935 que ele aceitou entre a cruz e a caldeira: Whale era resistente em realizar uma continuação de seu mais lucrativo filme e ficar para sempre estigmatizado como diretor de filmes de horror. Aproveitando-se de um episódio da novela de Mary Shelley no qual o barão se comprometia a criar uma companheira para a sua criação, o filme chamou de volta o mesmo elenco principal de “Frankenstein”, contudo a famosa história ganharia traços mais humanos e sombrios e a mestria com que foi realizado fez dele um caso raro no cinema em que uma continuação conseguia ser ainda melhor do que o filme original.

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No corte original, 21 pessoas morriam, mas depois de pressões da censura o número caiu para dez mortes – e o roteiro introduziu um vilão que conseguiu engolir o personagem principal, o Dr. Pretorius, interpretado de forma brilhante por Ernest Thesiger. A audiência recebeu muito bem esta continuação, embora não tanto quanto o original. “A Noiva de Frankenstein” custou 397 mil dólares e rendeu cerca de 2 milhões até 1943. Alardeado como o mais importante filme da era clássica do horror, mesmo depois de todos os cortes e mudanças que precisou fazer por conta da imposição dos códigos de produção da época, “A Noiva de Frankenstein” é o trabalho de mestre de James Whale e elevou a reputação do diretor as alturas.

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whale-brideLaemmle ficou ansioso para colocar Whale para dirigir “A Filha de Drácula”, a continuação do primeiro grande sucesso de horror da Universal (que terminou nas mãos de Lambert Hillyer). O receio que o diretor tinha antes de aceitar “A Noiva de Frankenstein” falou mais alto e embora ele já estivesse trabalhando na adaptação de “Show Boat” (anteriormente produzido em 1929 como parcialmente falado) Whale convenceu o chefe do estúdio a comprar os direitos de um livro da comédia de suspense “The Hangover Murders”, sobre um grupo de amigos que ficaram tão bêbados numa noitada que um deles foi assassinado e nenhum dos outros se lembra de nada. Lançado em 28 de outubro de 1935 com o título “Remember Last Night?”, a produção foi uma das mais pessoais e favoritas de Whale, mas dividiu opiniões e não despertou o interesse do público.

Imediatamente após completar “Remember Last Night?”, James Whale terminou seu trabalho no musical “Show Boat” lançado em 1936 e batizado no Brasil como “Magnolia – O Barco das Ilusões”, uma adaptação para o cinema da peça homônima de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, por sua vez baseada na novela de Edna Ferber, publicada em 1926. No elenco estavam Helen Morgan, Paul Robeson,Charles Winninger e Irene Dunne no papel de Magnolia. Apesar dos problemas para adaptar a peça, esta foi considerada a versão definitiva do musical mesmo depois da versão de 1951 dirigida por George Sidney. Este seria o último trabalho de Whale sob o comando da família Laemmle, que perdeu o controle do estúdio para J. Cheever Cowdin da Standard Capital Corporation e Charles R. Rogers ficou na cadeira de diretor da Universal.

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Declínio, recomeço, e por fim saída de cena

A carreira de Whale começou a entrar em declínio após o lançamento de seu filme “The Road Back” (1937), continuação de “Sem Novidades no Front” (All Quiet on the Western Front) de 1930. O cônsul da Alemanha nazista em Los Angeles, George Gyssling, sabendo da produção do filme protestou no Tribunal de Arbitragem Permanente alegando que o longa daria uma “visão distorcida do povo alemão”. Gyssling se encontrou com Whale e chegou a mandar cartas para os membros do elenco ameaçando liderar dificuldades na obtenção de qualquer permissão alemã de qualquer tipo para eles e quaisquer outros associados com eles.

Somente após a interferência do Departamento de Estado norte-americano sob pressões da Liga Anti-nazista de Hollywood e do Sindicato dos Atores que o governo alemão recuou. A edição original de Whale levou boas críticas nas exibições teste, contudo Rogers se rendeu aos alemães e ordenou novos cortes no material original e que rodassem cenas adicionais para serem enxertadas. Whale ficou furioso e apesar de as exigências tivessem sido atendidas, o filme foi banido da Alemanha mesmo assim. Além disso, o governo alemão conseguiu persuadir a China, Grécia, Itália e a Suíça para bani-lo também. Os negativos com a versão original do diretor foram destruídos.

A situação entre Charles Rogers e James Whale após o incidente com “The Road Back” se tornou quase insustentável: Rogers queria romper o contrato, porém Whale não aceitou, forçando o magnata a colocar o diretor para comandar uma série de projetos de baixo orçamento sem expressão alguma apenas para cumprir tabela, e neste período apenas um se destacou, a versão de 1939 para “O Homem da Máscara de Ferro”. Em 1941, Whale saía de vez dos holofotes da indústria do cinema.

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Sem contrato, mas com um bom dinheiro em outros investimentos, eram oferecidos apenas trabalhos ocasionais para James Whale que passava o maior tempo em casa, entediado. David O. Selznick cogitou Whale para a direção de “Since You Went Away”, mas o diretor na aceitou. Lewis, preocupado com seu companheiro, forneceu para Whale um conjunto de tinta e tela para que ele redescobrisse o gosto pela pintura. A tática funcionou e o diretor chegou a montar um grande estúdio.

Com a explosão da II Grande Guerra, Whale voltou à direção como voluntário realizando um filme de treinamento para as forças armadas dos Estados Unidos, e em seguida montou em parceria com a atriz Claire DuBrey uma nova companhia de teatro, a Brentwood Service Players, que tinha parte de seus lucros revertidos para os fundos de amparo à guerra. Em 1944, o diretor retornou para a Broadway para dirigir a peça de mistério “Hand in Glove” com sucesso moderado com cerca de 40 apresentações. Foi a sua primeira peça na Broadway desde o fracasso de “One, Two, Three!”, de 1930.

Em 1950, Whale dirigiu seu último filme, um curta dramático (que deveria ser um episódio de uma antologia), baseado na peça de um único ato “Hello Out There”, escrita por William Saroyan, que conta a história de um homem falsamente acusado de estupro. Dificuldades em encontrar as peças apropriadas para amarrar o restante da produção foram decisivas para o abandono do projeto que nunca foi lançado comercialmente. Seu trabalho derradeiro foi uma volta ao teatro dirigindo a peça “Pagan in the Parlour”, uma comédia sobre duas irmãs solteironas que são visitadas por uma polinésia com quem seu pai casou depois que seu navio encalhou na costa. A produção estreou em 1951 e foi levada para a Europa.

whale-in-paris-april-1952Artigo publicado em um jornal francês de abril de 1952. A manchete diz: “Diretor de Frankenstein está pintando em Paris”.

Em Paris, Whale reencontrou Curtis Harrington, que ele conheceu em 1947, que o apresentou à vida noturna da cidade, inclusive levando-o a bares frequentados por homossexuais. Em um deles conheceu Pierre Foegel, um barman de 25 anos, que encantou aquele senhor de 62 anos a tal ponto que Whale decidiu contratá-lo como seu motorista. Mas a turnê da peça que começou tão promissora em setembro de 1952 ficou prejudicada quando uma das atrizes principais, Hermione Baddeley, entrou na bebida e cada vez mais estragava o espetáculo aparecendo bêbada em cena. Pior que ela não podia ser mandada embora por força de contrato e os produtores foram obrigados a encerrar a turnê.

whale4Whale retornou para a California em novembro de 1952 e encerrou o relacionamento de 23 anos com David Lewis por causa de Pierre. Lewis e Whale continuaram amigos. Whale dava grandes festas onde os convidados eram todos homens e ficava à beira da piscina observando e cumprimentando seus convidados. Em 1953, o rapaz passou a viver na casa de Whale onde permaneceu por vários meses até retornar para a França. Em 1954, Pierre Foegel retornou permanentemente, tornando-se o gerente de um posto de gasolina de propriedade do diretor.

Whale e Foegel tinham uma rotina tranquila até 1956, quando o ex-diretor sofreu dois ataques cardíacos e foi hospitalizado. Para agravar seu estado, enquanto estava se recuperando no hospital, Whale foi diagnosticado com um forte quadro de depressão e submetido a tratamentos de choque. Parcialmente recuperado, James Whale contratou um enfermeiro para trabalhar morando em sua residência, contudo seu companheiro ciumento expulsou o enfermeiro e contratou uma enfermeira em seu lugar. Com o tempo Whale passou a sofrer de alterações de humor, suas faculdades mentais foram diminuindo e passou a ser cada vez mais dependente de outros. Em seu caso crônico de depressão, o diretor cometeu suicídio se jogando na piscina de sua casa em 29 de maio de 1957 aos 67 anos.

Embora tivesse uma piscina, Whale não sabia nadar e tinha pavor de água. Seu corpo foi cremado a seu pedido e suas cinzas foram enterradas na cidade de Glendale, California. Uma nota de suicídio ficou na posse de David Lewis por muitas décadas, até pouco antes de sua própria morte em 1987, o que fez suspeitar até então que a morte de Whale tinha sido um afogamento acidental:

“Para todos que eu amo,
Não chorem por mim. Meus nervos estão destruídos e por todo o ano que passou eu estive agonizando dia e noite – exceto quando as pílulas para dormir faziam efeito – e toda paz que eu tenho todo dia é quando estou sob efeito delas.
Eu tive uma vida maravilhosa, mas ela acabou e meus nervos pioraram e eu tenho medo de que irão me levar embora. Por favor, me perdoem todos aqueles que eu amo e que Deus possa me perdoar também. Mas eu não posso suportar a agonia e é melhor para todos esse caminho.
O futuro é apenas velhice, doença e dor. Adeus e obrigado a todos pelo seu amor. Eu preciso ter paz e esta é a única maneira.
Jimmy”

O breve trabalho de James Whale no cinema foi suficiente para deixar uma herança de grande valor para o público: Um monumento foi erguido em sua homenagem em Dudley, sua cidade natal, e seus últimos meses foram retratados mesclando realidade e ficção no livro “Father of Frankenstein” escrito por Christopher Bram em 1995. O livro serviu de base para o filme “Deuses e Monstros”, de1998, com Sir Ian McKellen no papel de James Whale – que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator – e Brendan Fraser como seu companheiro. Tributos feitos com bastante justiça ao homem que trouxe o icônico monstro de Mary Shelley para a sétima arte, mudando a face do cinema de horror para sempre.

Filmografia:

1930 – Journey’s End
1931 – Waterloo Bridge
1931 – FRANKENSTEIN (Frankenstein)
1932 – Impatient Maiden
1932 – The Old Dark House
1933 – The Kiss Before the Mirror
1933 – O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man)
1933 – By Candlelight
1934 – One More River
1935 – A NOIVA DE FRANKENSTEIN (Bride of Frankenstein)
1935 – Remember Last Night?
1936 – MAGNOLIA – O BARCO DAS ILUSÕES (Show Boat)
1937 – The Road Back
1937 – The Great Garrick
1938 – Port of Seven Seas
1938 – Sinners in Paradise
1939 – The Man in the Iron Mask
1940 – Green Hell
1941 – They Dare Not Love

Filmes: O Galante Mr. Deeds (1936)

O GALANTE MR. DEEDS

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País: Estados Unidos
Ano: 1936
Duração: 115 min.
Direção: Frank Capra
Elenco: Gary Cooper, Jean Arthur, George Bancroft, Lionel Stander, Douglass Dumbrille, Raymond Walburn, H.B. Warner, Ruth Donnelly, Walter Catlett, John Wray, Margaret Matzenauer, Warren Hymer, Muriel Evans, Spencer Charters, Emma Dunn, Wyrley Birch, Arthur Hoyt, Stanley Andrews, Pierre Watkin, Christian Rub, Jameson Thomas, Mayo Methot, Russell Hicks, Irving Bacon.
Sinopse:
O simplório e honesto poeta Longfellow Deeds, de Mandrake Falls, recebe uma herança milionária de seu tio, sendo obrigado a deixar sua vida no interior e partir para Nova York, onde lidará com pessoas que só pensam em se aproveitar de sua fortuna e humildade. Ele se envolve em um romance com uma esperta jornalista e se torna alvo de implacáveis homens de negócio e parentes oportunistas.

Escrito por Robert Riskin a partir de uma história de Clarence Budington Kelland, este é mais um clássico do humor romântico, otimista e popular de Frank Capra, que em plena era do New Deal do presidente Roosevelt usava seus filmes para exaltar os valores morais dos cidadãos americanos responsáveis pela reconstrução do país pós-Depressão. Antes de ser puramente otimista ou unilateral, é uma visão rica em contrastes e deliciosa em suas implicações. Ganhou o Oscar de Diretor, o segundo de Capra, e tem seu maior apelo na química perfeita entre os astros Gary Cooper e Jean Arthur. Foi uma das produções mais caras da Columbia até então custando cerca de 800 mil dólares, mas um sucesso de público e um dos melhores filmes do diretor, que aqui inicia sua trilogia populista, ao qual seguiram “A Mulher Faz o Homem”, de 1939, e “Adorável Vagabundo”, de 1941.

Mais um clássico edificante de Frank Capra que o tempo eternizou

“O Galante Mr. Deeds” e “Adorável Vagabundo” representam os dois lados de uma mesma moeda. Ambos são filmes de Frank Capra. Ambos são estrelados por Gary Cooper. E ambos apresentam histórias de mulheres que usam o jornal em que atuam para distorcer ou manipular os dois protagonistas desses filmes. Em cada filme, as duas mulheres (Barbara Stanwick em “Adorável Vagabundo” e Jean Arthur em “Mr. Deeds”) acabam sendo traídas pelo amor e passam a ver os personagens de Cooper como eles realmente são. Ambos os filmes transformam um homem comum em herói do povo, e nesse aspecto o rosto confiável e a boa índole do ator vencedor do Oscar por “Sargento York” fizeram dele o modelo perfeito de herói que Capra imaginara em seus filmes.

“O Galante Mr. Deeds”, como boa parte da filmografia de Frank Capra, integra um conjunto de filmes que pode levar os saudosistas a concluir: não se fazem mais filmes como antigamente. Leve, divertido, cativante, e ainda inteligente e crítico, marca uma era de Hollywood que parece que não volta mais. Personagens fortes, bem delineados, cenas deliciosas a todo o momento, ainda hoje, se mantém atual em seu discurso, mesmo que cada vez se torne mais e mais utópico. Impensável nos dias de hoje, acreditar numa figura como Longfellow Deeds.

Nesta deliciosa comédia dramática de Capra, Gary Cooper, em um dos seus melhores papéis, interpreta um jovem do interior que recebe uma herança de U$ 20 milhões de dólares. Como um autêntico herói “capriano”, Longfellow Deeds dá mais importância a seus princípios e valores do que qualquer bem material. Convencido a ir para a cidade receber sua fortuna, ele aceita, mas com uma intenção nobre: visitar o túmulo do General Grant. Chegando lá, a vida na cidade começa a entrar em conflito com sua pureza quase infantil e isso começa a afetá-lo e a frustrá-lo. A princípio todos ao seu redor querem tirar proveito do novo milionário e mesmo aqueles que parecem querer ajudá-lo, têm suas segundas intenções. Capra usa o conflito Campo x Cidade para fazer sua crítica aos valores morais da sociedade americana. O homem inocente vem do campo puro, bondoso e quase infantil e se defronta com luxúria, ganância e egoísmo. No fundo, isto talvez seja uma maneira de criticar o meio que ele, Capra, vive e trabalha, onde as pessoas muitas vezes crescem à custa da exploração e pilhéria daqueles que o cercam.

Apesar de todo o contexto social, político e econômico em que o filme está inserido, isso tudo pouco importa nos dias de hoje. A diferença entre os filmes clássicos que Capra dirigiu nos anos 30 e 40 para qualquer um que ganhe a luz em nossos dias, é que esse diretor talentosíssimo sabia usar a mesma mágica habitual sobre um elenco escalado a dedo e dirigido com esmero. Prova disso é que Capra esperou seis meses até que o chefão da Columbia, Harry Cohn, pudesse tirar o ator Gary Cooper da Paramount para dar-lhe o papel de Longfellow Deeds, mesmo pagando uma multa de 100 mil dólares pelo atraso no início das filmagens. E esse seria o papel de uma vida se o ator em questão não fosse um dos grandes mitos do Cinema, qualquer ator que o representasse poderia se aposentar em seguida e viver da glória de ter atuado em um filme de Frank Capra.

Embora fosse indicado para o Oscar naquele ano, Cooper perdeu para Paul Muni por “Émile Zola”, mas Capra ganhou o de Melhor Direção. Jean Arthur interpreta a heroína Louis “Babe” Bennett, um papel parecido com aquele que viveria em “A Mulher Faz o Homem”, que Frank Capra dirigiria em 1939, e que conclui sua trilogia populista. “O Galante Mr. Deeds” é sem dúvida o melhor momento de sua carreira como atriz. Curiosamente, a atriz Carole Lombard, escolhida para o papel, abandonou a produção para trabalhar em “Irene, a Teimosa”, enquanto Harry Cohn era contra a contratação de Jean Arthur, uma escolha pessoal de Capra, que mais uma vez se mostrou acertada. A despeito da história pouco crível do fazendeiro arruinado que move Deeds a disponibilizar toda a sua herança e ter sua sanidade questionada pelo executor do processo, o vilanesco personagem de Douglass Dumbrille, o filme não envelheceu em sua maneira de ressaltar os valores mais nobres do ser humano, nem seu charme original ficou diminuído pela passagem do tempo.

O filme deve muito à direção preciosa de Capra e ao roteiro de Robert Riskin, muito inteligente e que constantemente avança. Parece não haver nenhuma ponta solta, todas as cenas, todos os diálogos e toda a conduta dos personagens funcionam para nos levar ao ponto de virada da trama: a maravilhosa transformação de Longfellow Deeds enquanto tenta defender-se de seus acusadores no tribunal é um ensaio magnífico para a cena em que James Stewart discursa no Congresso, em “A Mulher Faz o Homem”. Todo o elenco está perfeito, reafirmando mais uma vez o enorme talento de Frank Capra na direção de atores, até mesmo o jovem Lionel Stander, cinquenta anos antes de ser o mordomo Max no seriado de TV “Casal 20”.

Talvez seja a prova mais evidente de que alguns diretores (Lubitsch, Hitchcock, Ford, Hawks) tinham um “toque” pessoal e inconfundível, e é com esse toque que Capra apela às massas e manipula as emoções do público. A visão criativa do diretor e a forma como obtém grandes desempenhos, com destaque para o mordomo vivido por Raymond Walburn, ainda permanecem intactos. Curiosamente, Frank Capra e a Columbia planejavam fazer uma sequência deste filme intitulada “Mr. Deeds Goes to Washington”, reunindo Gary Cooper e Jean Arthur, baseado na história “The Gentleman from Wyoming”, de Lewis R. Foster. O projeto não vingou, mas em 1939 dele nasceu “A Mulher Faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington), estrelado por James Stewart e Jean Arthur.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0027996/

Trailer:

Galeria de Imagens:

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