Grandes Diretores: Erich von Stroheim

STROHEIM, O GÊNIO INCOMPREENDIDO

Nome: Erich Oswald Stroheim
Nascimento e local: 22 de setembro de 1885, Viena, Áustria-Hungria
Falecimento e local: 12 de maio de 1957, Maurepas, França
Ocupação: Ator, diretor, roteirista
Casamento: Margaret Knox (1913–1915; divórcio); Mae Jones (1916–1919; divórcio); Valerie Germonprez (1920–1957; sua morte)

Erich von Stroheim não era filho de aristocratas como ele mesmo fazia acreditar, mas seu gosto apurado pelos detalhes cênicos e pelas intrigas da corte marcaram a maioria de seus filmes. Filho de judeus praticantes nascido durante o Império Austro-Húngaro, abraçou o catolicismo com fervor e imigrou para a América aos 24 anos de idade para trabalhar em Hollywood. Após a Primeira Guerra, tornou-se diretor de cinema, construindo uma carreira irregular e ousada, polêmica e visionária até cair em desgraça por conta de seu gênio indomável e por filmes em que tentou fazer prevalecer a sua visão artística sobre o interesse financeiro dos grandes estúdios. Stroheim dirigiu apenas doze filmes – três dos quais ele não terminou e cinco outros foram fortemente mutilados. Em outras palavras, sua carreira inspira o sentimento pelo grande artista que poderia ter sido e não foi, e que na soma geral o transformaram em uma espécie de gênio incompreendido. Erich von Stroheim foi o primeiro cineasta maldito do cinema.

erich-von-stroheim-wall

Gênio ou charlatão, Stroheim nos deixou uma das filmografias mais curiosas da história do cinema

Erich Oswald Stroheim nasceu em 22 de setembro de 1885, em Viena, capital do Império Austro-Húngaro, filho de comerciantes de classe média. Seu pai, Benno Stroheim, um fabricante de chapéus, e Johanna Bondy, eram judeus praticantes. Em sua juventude, adotou o catolicismo com fervor embora não existam evidências de que tivesse realmente se convertido. Em 1909, aos 24 anos, Stroheim viajou para a América. Em sua chegada à Ilha Ellis ele se identificou como Conde Erich Oswald Hans Carl Maria von Stroheim und Nordenwall, filho de nobres austríacos. Mais tarde, o diretor Billy Wilder e o próprio agente de Stroheim, Paul Kohner, desmentiram essa descendência, afirmando que Stroheim na verdade falava com um inconfundível sotaque da classe trabalhadora austríaca. O cineasta Jean Renoir contou em suas memórias que Stroheim “falava um alemão duro como um estudante que tivesse sido obrigado a aprender uma língua estrangeira”. Por sua vez, em sua vivência na Europa, Stroheim confessou que havia “esquecido” seu sotaque natural.

erich-von-stroheim-1Seja como for, a sua pose aristocrática, o seu gosto pela decoração e pelos figurinos, e o seu talento como roteirista logo foram reconhecidos pelos estúdios de cinema. Stroheim começou a trabalhar como consultor para filmes que abordavam a cultura alemã,e pouco tempo depois já estava atuando. Seu primeiro filme foi “An Unseen Enemy”, de 1912. Em 1915, atuou em vários filmes, entre eles “The Country Boy”, “Ghosts”, “Captain Macklin” e “The Failure”, todos não creditado. Stroheim começou a trabalhar para D.W. Griffith, em “O Nascimento de uma Nação”, de 1915, e “Intolerância”, de 1916, nos quais atuou em pequenos papéis e trabalhou como diretor assistente também de forma não creditada. O primeiro papel pelo qual recebeu créditos foi “Old Heidelberg”, de 1915.

Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, Stroheim atuou como oficial alemão em alguns filmes marcantes. Os mais importantes foram “Sylvia of the Secret Service” (1917) e “The Hun Within” (1918). “Coração da Humanidade” (“The Heart of the Humanity”, 1918) certamente é o mais famoso de seus filmes do período por conta da cena em que o personagem de Stroheim (creditado como Eric von Eberhard), Mr. Stowell, estupra a enfermeira da Cruz Vermelha Nanette, vivida por Dorothy Phillips. Durante a cena, ele arranca os botões  do uniforme dela com os dentes e quando o choro de um bebê presente no quarto o perturba, furiosamente ele o atira pela janela. “Em me senti péssimo por causa daquela cena”, relembrou Stroheim muitos anos depois, dizendo que o bebê chorava de forma histérica e a cena levou vários takes para ser concluída: “Eu era o vilão no filme, mas o verdadeiro vilão foi a mãe que permitiu que seu filho sofresse tudo aquilo por conta de uma nota de cinco dólares”.

erich-von-stroheim-4

Com o fim da Guerra, Stroheim começou uma carreira como roteirista e iniciou na direção a partir de um de seus próprios roteiros: “Maridos Cegos” (“Blind Husbands”), de 1919, produzido pela Universal e onde também atuou no papel principal, o oficial da cavalaria austríaca Erich von Steuben que tenta seduzir a esposa de um famoso cirurgião americano, vivida pela atriz Francelia Billington. A história se passa em Cortina d’Ampezzo, nos Alpes, e tem como clímax o momento em que o marido (Sam de Grasse) e von Steuben escalam o pico de uma montanha e ele desconfia da traição de sua esposa. Típico filme de diretor estreante, Stroheim se perde em alguns momentos quando não consegue criar a tensão necessária, mas já demonstra um ótimo trabalho psicológico na criação dos personagens e que iria se tornar a base de seus próximos trabalhos. Seu filme seguinte foi “The Devil’s Pass Key”, de 1920, em que trabalhou como diretor e roteirista, e hoje é considerado um filme perdido. A última cópia de que se tem notícia, já em estado avançado de decomposição, foi destruída pelo estúdio Universal no início dos anos 40. A trama girava em torno de uma tentativa de adultério entre uma esposa insatisfeita e um oficial do Exército, mostrando que Stroheim tinha verdadeira obsessão pelas relações matrimoniais, sempre enfatizando o lado sexual e social das classes retratadas em seus filmes.

erich-von-stroheim-foolish-wives-1Como realizador, desde cedo Stroheim ficou marcado por seu temperamento forte e ditatorial, frequentemente antagonizando com seus atores. As agendas apertadas, os prazos de filmagens cada vez mais curtos,  as restrições orçamentárias e as constantes interferências dos produtores no processo criativo do diretor iriam ocasionar desde então conflitos famosos. Em seu filme seguinte, “Esposas Ingênuas” (Foolish Wives, 1922) Stroheim deixaria estigmatizado todos os problemas que acabariam por prejudicar a sua carreira como diretor de filmes. Por conta de sua obsessão pelos detalhes técnicos na construção dos cenários e na reconstituição de época, esta mal fadada produção de Carl Laemmle para a Universal ficou marcada como o primeiro filme cujo orçamento ultrapassou mais de um milhão de dólares, mais da metade gastos em cenários, que incluem réplicas fiéis do Hotel de France, do Café de Paris e do cassino de Monte Carlo que tiveram que ser construídas em estúdio e outra parte construída em Monterrey para as cenas passadas no Mediterrâneo. Uma tempestade destruiu parte dos cenários já prontos, obrigando o estúdio a reconstruir o que foi perdido. A produção prevista para um mês se arrastou por um ano.

“Esposas Ingênuas” é sobre um impostor que se faz passar por aristocrata, o Conde Wladislaus Sergius Karamzin, que vive de aparências ao lado das primas Olga e Vera, que se fazem passar por princesas, mas na verdade são ex-condenadas. O conde Karamzin seduz mulheres ricas para depois aplicar golpes financeiros e realizar chantagens. A história, embora pareça simples, se desdobra em reviravoltas, surpresas e outros relacionamentos turbulentos que consumiram grande parte do tempo de produção em revisões de roteiro. Na época apenas um assistente de 21 anos, Irving Thalberg foi enviado para interpelar Stroheim pelos atrasos nas filmagens e os altos custos da produção, mas o diretor o hostilizou de imediato. Thalberg esperou pacientemente que as filmagens progredissem até reunir uma quantidade suficiente de material e então decidiu interromper a produção, demitir Stroheim e assumir ele mesmo o filme, sendo em seguida promovido a chefe de produção da Universal.

erich-von-stroheim-foolish-wives-2

A versão original de “Esposas Ingênuas” tinha cerca de 32 rolos, equivalente a 6 horas de filme, logo reduzidas para 14 rolos e cerca de três horas e meia de narrativa quando da sua estreia em 1922. A natureza perversa, amoral e cínica dos personagens, e a abordagem erótico-sensual de Stroheim fez o filme se tornar a princípio muito pouco comercial, obrigando o estúdio a fazer sucessivas remontagens até chegar à versão definitiva com cerca de duas horas, mais tarde restaurada e lançada em DVD. Apesar de ter sido totalmente mutilado, o filme causou um forte impacto na época. A visão de Stroheim sobre adultério e corrupção na aristocracia iam contra o romantismo idealizado até então visto nas telas. Aquela história de perversão, mentiras, violência e dissimulação repetia algumas obsessões pessoais de Stroheim já manifestadas em seus dois filmes anteriores e lançava mão de outras que reunidas iriam marcar a sua carreira como gênio incompreendido desde então.

erich-von-stroheim-foolish-wives-3

Apesar de todos os problemas com a produção de “Esposas Ingênuas”, o prestígio de Stroheim continuou alto na Universal e ele foi escalado para dirigir “Redemoinho da Vida” (Merry-Go-Round), de 1922. Stroheim pessoalmente escalou o ator Norman Kerry para o papel que ele havia escrito para si mesmo, o Conde Franz Maximilian Von Hohennegg, e a atriz novata Mary Philbin, no principal papel feminino. Mais uma vez, o roteiro aborda os temas preferidos de Stroheim na história de um conde que apesar de estar noivo de uma aristocrata, se envolve com Agnes, uma jovem trabalhadora, também pretendida pelo patrão e por um colega de trabalho corcunda. Há o jogo de interesses da aristocracia, as falsidades, as mentiras, as reviravoltas amorosas e até uma tentativa de estupro sofrida por Agnes.

merry-go-round-stroheim

Mas a produção foi tumultuada. Na metade das filmagens, Irving Thalberg demitiu Stroheim e escalou Robert Julian para concluir o filme. Entre os motivos para a sua justa-causa estavam a insubordinação de Stroheim e o seu descaso pela regras do estúdio contratante, os atrasos desnecessários das filmagens, os custos elevados da produção e o seu desprezo pela ética e pela moral mesmo em um período anterior à entrada em vigor do Código de Produção. Mais uma vez, porém, o gênio criativo de Stroheim conseguiu prevalecer em um produto do qual ele não foi inteiramente o responsável: cenários impecáveis, figurinos magníficos e personagens muito bem definidos serviriam de modelo para seus filmes futuros: “A Viúva Alegre”, “A Marcha Nupcial” e “Minha Rainha”.

stroheim-directing-greedDemitido da Universal, Stroheim encontrou na MGM aquele que parecia ser o ambiente perfeito para que pudesse desenvolver seu novo e mais ambicioso projeto até então: a adaptação do romance do escritor naturalista Frank Norris, “McTeague”. Na época em que começou a escrever o roteiro para “Ouro e Maldição” (Greed), Stroheim era contratado da Goldwyn Pictures, estúdio de propriedade de Samuel Goldwyn. A ideia original de Stroheim era fazer uma adaptação fiel do romance, inclusive com as cenas filmadas em locação em San Francisco e no Vale da Morte, que resultou em 45 rolos ou cerca de 10 horas de narrativa, logo em seguida reduzidas para cerca de seis horas que seriam exibidas durante duas noites seguidas. O material foi considerado muito longo, obrigando Stroheim e seu amigo e diretor Rex Ingram a trabalharem em uma nova versão. O montador Grant Whytock, que trabalhara com Stroheim em “The Devil’s Key Pass”, foi encarregado de realizar a nova montagem de cerca de quatro horas. Foi ele quem propôs que o filme poderia ser exibido com um intervalo entre as duas partes, a primeira terminando com o casamento de McTeague e Trina, e a segunda prosseguindo desse momento até o duelo final no Vale da Morte. Duas histórias paralelas foram totalmente eliminadas nesse último corte, envolvendo os vizinhos idosos que se amavam em segredo e a vendedora de bilhetes de loteria que é assassinada pelo desconfiado companheiro.

No entanto, no meio da produção, a Goldwyn Pictures foi comprada pela Metro Pictures Corporation de Marcus Loew e após uma fusão se tornou a Metro-Goldywn-Mayer, sob a chefia de Irving Thalberg, antigo desafeto de Stroheim. Os chefões do novo estúdio não acreditaram que o filme pudesse ter retorno financeiro e obrigaram um corte ainda maior na sua narrativa. Depois de se recusar a cortar novamente seu filme, Stroheim foi retirado do controle artístico e a roteirista June Mathis encarregada de remontar “Ouro e Maldição” até chegar a um comprimento aceitável, cerca de duas horas e meia. Todo o conteúdo eliminado nesse corte acabou destruído pelo estúdio – o que é considerado até hoje uma das maiores perdas da história do cinema.

erich-von-stroheim-2

A versão reduzida foi um fracasso colossal de bilheteria e acabou repudiada pelo próprio Stroheim, que culpou Mathis por destruir seu projeto de estimação – uma vez que ela acabou sendo creditada como co-autora do roteiro por conta de obrigações contratuais que tinha com o estúdio -, embora ela já tivesse trabalhado com Stroheim anteriormente. Em 1999, o filme foi parcialmente reconstruido pelo produtor Rick Schmidlin usando fotografias e legendas para substituir as partes perdidas até chegar à uma narrativa o mais próximo possível daquela imaginada por Stroheim – quatro horas de duração. Essa versão reconstituiu inclusive o seu esquema original de cor através de um processo seletivo que permitiu colorizar somente alguns objetos dentro do filme. Apesar desse esforço, “Ouro e Maldição” passou para a história como o grande filme perdido do cinema.

O filme marcou uma reviravolta na carreira de Stroheim, que embora abordasse temas que lhe eram favoritos – a ganância, a falsidade e a degradação do ser humano – ele trocou os cenários de luxo das cortes europeias para o ambiente pobre dos trabalhadores da classe média baixa dos Estados Unidos. Na história do minerador McTeague que após aprender a profissão passa a trabalhar como dentista em San Francisco mesmo sem ter licença, Stroheim faz um esforçado trabalho psicológico e impregna o filme com a sua visão cínica das relações humanas. Novamente há um triângulo amoroso que é a mola do filme: McTeague se apaixona por Trina, prima de seu melhor amigo Marcus, também pretendida por este. Embora McTeague se case com a moça, ambos continuam amigos. Quando Trina ganha uma pequena fortuna na loteria e se torna escrava do próprio dinheiro, consumida pela avareza, a relação entre Marcus, Trina e McTeague se torna tensa, culminando com um assassinato e terminando em um duelo no Vale da Morte.

merry-widow

Como “castigo” por ter sido demitido de “Ouro e Maldição”, Stroheim foi obrigado a cumprir seu contrato dirigindo para a MGM a adaptação da opereta de Franz Lehar “A Viúva Alegre” (The Merry Widow), de 1925, ainda que fosse contra a escalação de John Gilbert e Mae Murray para os papéis principais. A vigilância constante do estúdio não impediu que a visão de Stroheim prevalecesse sobre o argumento original. Logo o diretor transformou uma história leve e romântica em uma comédia cínica onde usou a sátira para mais uma vez criticar a classe aristocrática e expor as mazelas que segundo ele estavam destruindo a sociedade de sua época. Como não poderia deixar de fazer, Stroheim criou personagens novos, o mais importante deles o lascivo Barão Sadoja,  cuja fortuna sustenta os luxos da realeza, mas que se casa com a dançarina Sally, o amor do príncipe Danilo, o segundo na ordem sucessória do fictício reino de Monteblanco. Após a morte do Barão, Sally viaja para Paris, onde reencontra Danilo e seu primo Mirko, o herdeiro do trono, dando início à uma nova trama em que mentiras, interesses financeiros e disputas pessoais se tornam a ordem do dia.

A versão de Stroheim para “A Viúva Alegre” talvez pecasse pelos seus excessos, mas acabou sendo um surpreendente sucesso de público justamente por isso. Não se pode negar ao diretor a sua ousadia ao inserir cenas provocantes e sensuais na história, uma delas envolvendo duas prostitutas seminuas tocando instrumentos musicais durante a cena do jantar que Danilo oferece a Sally, e em outra uma orgia de oficiais em que jovens seminus têm os rostos cobertos por máscaras e usam perucas. Durante uma visita aos sets para verificar o andamento das filmagens, Irving Thalberg teria ficado assustado com uma das cenas mais fortes – censuradas antes mesmo do lançamento do filme – em que Stroheim expõe o fetiche do Barão Sadoja por pés femininos: “O que é isso!?”, exclamou Thalberg perplexo. “Isso é um fetiche por pés”, respondeu Stroheim. “Você, von”, afirmou o chefe de produção da MGM, “tem um fetiche por filmagens”.

erich-von-stroheim-fay-wray-the-wedding-marchApesar do êxito de “A Viúva Alegre”, Stroheim foi dispensado pela MGM. Seu filme seguinte foi uma produção de P.A. Powers para a Paramount, e talvez seja o seu trabalho mais bem acabado. Stroheim escreveu, dirigiu e atuou no papel principal de “A Marcha Nupcial” (The Wedding March), de 1928. Na história, os membros da família real austríaca exigem que o príncipe herdeiro Nicki se case com uma moça rica, Cecelia, que além de feia é aleijada de uma perna. Ele, porém, se apaixona por uma moça pobre, Mitzi (interpretada por uma Fay Wray ainda aspirante à fama), noiva de Schani, um açougueiro. A história se complica como em todos os outros filmes anteriores do diretor, que parecem quase sempre variações sobre os mesmos temas: há um casamento arranjado em troca de acordos financeiros, uma tentativa de estupro (Mitzi é salva graças à intervenção do pai de seu noivo) e a ameaça do açougueiro de assassinar o príncipe caso Mitzi não se case com ele.

O filme foi planejado em duas partes, com a segunda parte chamando-se “The Honeymoon”, e se passando logo após o casamento do príncipe com Cecelia. Com reviravoltas típicas de um roteiro de Stroheim, o filme tem sequência no alto de uma montanha em que os quatro personagens principais se reencontram, resultando na morte de Cecelia por uma bala disparada por Schani e endereçada a Nicki. No clímax do filme, Nicki é enviado em uma missão para combater criminosos de fronteira, reencontra Mitzi que entrou para o convento e precisa salvá-la, enfrentando Schani mais uma vez. Porém, “The Honeymoon” nunca foi exibido comercialmente nos Estados Unidos, somente na Europa e na América do Sul, em uma cópia remontada por Josef von Sternberg. “A Marcha Nupcial” foi reconstruido pelo próprio Stroheim no começo dos anos 50.

erich-von-stroheim-3

Mais do que em seus filmes anteriores, percebe-se em “A Marcha Nupcial” a manifestação de uma linguagem mais poética e o uso de muitos simbolismos por parte do diretor, além da criação de momentos de forte tensão e carga dramática que provaram a capacidade de Stroheim em criar os climas ideais para seus filmes: o passeio de Nicki e Mitzi pelo parque, a orgia em que o casamento dos filhos é acertado por seus pais, a tentativa de estupro dentro do açougue e a própria cena do casamento, que é o momento mais tocante do filme. O filme passeia pelas antigas lembranças da infância de Stroheim em seu país natal e o diretor utiliza a história de amor entre um príncipe e uma plebeia para criar um estudo sério do que levou à decadência do império austro-húngaro, destruído por vícios sociais e mergulhado em corrupção.

queen-kelly

O filme seguinte de Stroheim iria se tornar uma lenda, menos por suas qualidades artísticas e mais pelos problemas de produção, provocados mais uma vez pelos excessos do diretor. Produzido pela atriz Gloria Swanson para ser um veículo para a sua carreira que já vinha em declínio, “Minha Rainha” (Queen Kelly) levou quase dois anos para ser lançado. Desde o começo das filmagens, Stroheim, que também era o roteirista, conseguiu convencer a atriz a produzi-lo graças a uma sinopse sobre uma jovem freira que após ser seduzida por um aristocrata de casamento marcado com uma rainha, acaba expulsa do país e indo parar no continente africano, onde se torna a dona de um bordel. Mais uma vez, Stroheim retorna ao tema do príncipe devasso que atinge a redenção graças ao amor de uma jovem plebeia, mas o filme foi interrompido antes de sua conclusão.

Segundo Stroheim, por causa do produtor Joseph P. Kennedy, amante de Gloria Swanson, que percebeu que filmes mudos não teriam mais retorno de bilheteria. Segundo Gloria, pelos excessos de Stroheim, que gastou dinheiro demais e obrigou a atriz a protagonizar cenas de grande humilhação. Gloria contratou o diretor de fotografia Gregg Toland para cuidar da montagem, filmando um novo final e cortando todas as cenas passadas na África, uma versão chamada “Swanson Ending”. Somente em 1985, graças ao material original devidamente conservado por ela, Dennis Doros conseguiu recuperar a história original – inclusive o final escrito por Stroheim – acrescentando fotografias e legendas para completar o material não filmado, resultando em uma versão de 99 minutos para um filme previsto para ter cerca de cinco horas.

fugitive-road

Esta nova demissão representaria o fim da carreira de Stroheim como diretor. Ele ainda conseguiria realizar mais alguns filmes, sendo dois não creditado. O primeiro, de 1929, “The Great Gabbo”, uma espécie de musical em que interpreta o personagem-título, um ventríloquo aparentemente dominado por seu boneco de madeira que se apaixona por uma jovem dançarina apaixonada por outro homem. O segundo, “Fugitive Road”, de 1934, um drama de guerra em que interpreta um oficial austríaco em crise pessoal. Seu filme “Walking Down Broadway” (1932-1933), nunca foi lançado. O último filme assinado por Eric von Stroheim foi o drama romântico “Alô, Beleza”, (Hello Sister, de 1933), em que divide os créditos com mais três diretores, entre eles Raoul Walsh. Stroheim não participa do elenco, encabeçado por Zazu Pitts e Boots Mallory, que vivem duas amigas às voltas com romances e uma gravidez não esperada. Fontes afirmam que Stroheim assinou um contrato com a Fox Film em que se comprometia a realizar este filme dentro de um limite estabelecido de 95 minutos de duração, e um porta-voz do estúdio na época afirmou que a sua demissão foi justamente em razão de ele ter extrapolado esse limite.

erich-von-stroheimgreta-garbo-as-you-desire-me

A partir de então, a necessidade financeira e as portas fechadas dos estúdios levaram Stroheim a trabalhar como ator para outros cineastas, como em “The Lost Squadron”, de 1932, produzido por David O. Selznick, ou em “Como me Queres” (As You Desire Me), de 1932, estrelado por Greta Garbo, ou como roteirista em “The Devil Doll”, de 1936, dirigido por Tod Browning. O melhor momento de sua carreira como ator viria graças ao grande cineasta francês Jean Renoir, para o qual atuou em “A Grande Ilusão” (La Grande Illusion), de 1937, no papel marcante de um oficial de campo de prisioneiros durante a Primeira Guerra Mundial. O cinema francês reabriu as portas para o diretor. Ele estava se preparando para dirigir “La Dame Blanche”, baseado em um argumento de sua autoria, com a colaboração de Jean Renoir nos diálogos e no qual também atuaria em um dos papéis principais. Com a explosão da Segunda Guerra em setembro de 1939 o projeto foi cancelado e Stroheim retornou aos Estados Unidos.

grand-illusion-erich-von-stroheim

Stroheim passaria os anos seguintes atuando em filmes de menor expressão até ser redescoberto por Billy Wilder, que o convidou para atuar no filme “Cinco Covas no Egito” (Five Graves to Cairo), de 1943, baseado em uma peça de mesmo nome ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, em um hotel do Egito. Ali, um soldado inglês é deixado para trás quando seu exército perde para os alemães, e precisa adotar a identidade de um garçom morto para se infiltrar entre o inimigo quando o comandante da ofensiva alemã, o general Rommel, se hospeda no hotel. O filme é um misto de suspense e drama, e se vale muito mais da caracterização de Stroheim como o oficial alemão, um dos poucos personagens nazistas da época que não é um vilão maníaco e caricatural. Outros papeis inexpressivos se seguiram até Stroheim novamente ser lembrado por Billy Wilder para atuar em seu drama sobre a meca do cinema “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de 1950.  O filme, estrelado pela então esquecida Gloria Swanson em um papel quase autobiográfico, trata da conturbada relação entre uma ex-estrela do cinema com um jovem e ambicioso roteirista. Stroheim interpreta Max Von Mayerling, um ex-diretor de cinema que agora trabalha de mordomo para sua antiga estrela em sua mansão vazia e solitária. Por sua atuação nesse filme, Stroheim ganhou uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante naquele ano. Stroheim fez mais alguns filmes como ator, entre eles “Mandrágora”, de 1952, “Ao Sul do Sahara”, de 1953, “Massacre Total”, e “Napoleão”, ambos de 1955. Seu último filme foi “La Madone des Sleepings”, também de 1955.

erich-von-stroheim-sunset-boulevard

Erich von Stroheim foi casado três vezes. Embora ele nunca tivesse se divorciado de sua terceira esposa, permaneceu até a sua morte ao lado da atriz Denise Vernac, que tinha sido sua secretária particular e com quem atuou em alguns filmes. Os últimos anos de vida de Stroheim foram passados na França, onde sempre recebeu muita admiração dos críticos por seus filmes mudos. Foi condecorado com o French Légion d’Honneur pouco antes de sua morte em 12 de maio de 1957, aos 71 anos.

erich-von-stroheim-5

Talvez Stroheim tenha sucumbido à sua própria ambição de tentar ser algo que ele nunca foi. Começando por sua falsa descendência aristocrática – que acabou nos anos seguintes se tornando uma das muitas anedotas contadas pelos corredores dos estúdios. Ou talvez o gênio criativo de Stroheim se manifestasse mais na criação dos ambientes de seus filmes do que no seu talento como contador de histórias. Talvez Stroheim tivesse escolhido fazer filmes grandiosos a partir de histórias banais que não tinham o potencial necessário para se adequarem à tamanha megalomania. Talvez Stroheim tenha sido apenas um excêntrico que acreditou que o público ficaria à sua disposição durante nove horas seguidas vendo o desfile de excessos promovidos por ele nas telas. Ou talvez Stroheim tivesse sido mesmo um gênio e um visionário que anteviu a época atual em que o cinema finalmente se rendeu aos grandes espetáculos que precisam de muitas horas e vários capítulos para serem contados.

Mas é verdade que Stroheim queimou toneladas de negativos e gastou rios de dinheiro em filmes que poderiam ter sido feitos com um mínimo de recursos. Mas também é verdade que Cecil B. DeMille rotineiramente gastava mais dinheiro do que Stroheim para fazer seus filmes, como é verdade que os filmes de DeMille davam muito mais lucro também. A carreira de Stroheim foi marcada justamente por ter sido um dos primeiros exemplos do quanto sempre foi difícil equilibrar a balança entre a visão criativa dos realizadores e o interesse financeiro dos produtores. A eterna questão que permanece até os nossos dias a esperar por uma definição se o cinema é de fato arte ou apenas mais uma indústria.

Filmografia como Diretor:

1934 Fugitive Road/Dois Suspeitos (não creditado)
1933 Hello, Sister!/Alô, Belezas!
1929 The Great Gabbo (não creditado)
1929 Queen Kelly/Minha Rainha
1928 The Wedding March
1928 The Honeymoon
1925 The Merry Widow/A Viúva Alegre
1924 Greed/Ouro e Maldição
1923 Merry-Go-Round (não creditado)
1922 Foolish Wives/Esposas Ingênuas 
1920 The Devil’s Passkey
1919 Blind Husbands

2 Respostas

  1. assisti o filme Sunset Boullevard,e nao conhecia a biografia desse diretor ator e roteirista.

    1. Com a mesma rapidez com que cria seus ídolos, Hollywood os destrói e esquece. A maioria que assistiu Crepúsculo dos Deuses não o conhecia ou não lembrava dele achando que os personagens de Stroheim e de Gloria Swanson fossem reais, que se tratasse de alguma biografia e que ela era de fato Norma Desmond, sua personagem no filme.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: