Os Grandes Clássicos do Terror – Parte III

O CINEMA DE TERROR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – PARTE III

A ciência ainda não nos provou se a loucura é ou não o mais sublime da inteligência.
Edgar Allan Poe

Terror expressionista

O cinema de terror ou o mais adequadamente chamado “cinema de horror” só viria a se pronunciar ao final da década de 1910, depois que o movimento Expressionista ganhou vulto graças a artistas de vanguarda que decidiram romper com a arte tradicional e criar um modelo que faria escola sobretudo na França e na Alemanha. Surgido como reação ao positivismo, ao impressionismo e ao naturalismo, o expressionismo propunha uma visão pessoal e intuitiva na qual a visão interior do artista – a sua “expressão” – ganhava maior destaque, em oposição à mera visão da realidade – a “impressão”. Para tanto, os artistas expressionistas distorciam a realidade para expressar de forma subjetiva a natureza e o ser humano.

dersturmFruto das mudanças sociais, culturais e políticas do início do século XX, o Expressionismo ganhou destaque por conta do progresso tecnológico no campo das artes, sobretudo da aparição da fotografia e do cinema, que ao lado da pintura, literatura e teatro, eram os seus principais instrumentos de manifestação. A imitação da realidade deixou de fazer sentido quando novas técnicas tornaram o processo mais fácil e rápido de ser reproduzido. As teorias científicas de Einstein, a psicanálise de Freud ou as pesquisas sobre o tempo de Bergson abriram as portas para noções subjetivas da realidade. O termo “Expressionismo” foi usado pela primeira vez pelo pintor francês Julien-Auguste Hervé, em 1901. Os alemães adaptaram a expressão “expressionismus” diretamente do francês “expressionisme”, e por volta de 1911 ela foi usada pelo crítico Kurt Hiller e depois popularizada pelo escritor Herwarth Walden, editor da revista “Der Sturm” (A Tormenta), o principal veículo de divulgação do movimento na Alemanha.

Quando o Expressionismo chegou ao cinema após a Primeira Guerra Mundial, o movimento já vinha perdendo o fôlego e sendo substituído pela Nova Objetividade. Contudo, a expressividade emocional e a distorção formal do expressionismo tiveram uma perfeita tradução à linguagem cinematográfica, sobretudo graças à contribuição do teatro expressionista, cujas inovações cênicas foram adaptadas com grande sucesso no cinema. O cinema expressionista passou por diversas etapas: do expressionismo puro – chamado por vezes “caligarismo” – evoluiu para um certo neo-romantismo (Murnau), e deste para o realismo crítico (Pabst, Siodmak, Lupu Pick), para terminar no sincretismo de Lang e no naturalismo idealista do Kammerspielfilm. Entre os principais cineastas expressionistas caberia destacar-se Robert Wiene, Paul Wegener, Friedrich Wilhelm Murnau, Fritz Lang, Georg Wilhelm Pabst, Paul Leni, Josef von Sternberg, Lupu Pick e Robert Siodmak.

Murnau

O cinema expressionista alemão impôs um estilo subjetivista que oferecia em imagens uma deformação expressiva da realidade, traduzida em termos dramáticos mediante a distorção de cenários, maquiagens, e a criação de atmosferas aterrorizantes ou, pelo menos, inquietantes. O cinema expressionista caracterizou-se pela sua recorrência ao simbolismo das formas deliberadamente distorcidas com o apoio dos diferentes elementos plásticos. A estética expressionista tomou como seus temas comuns à fantasia e ao terror como reflexo moral do angustiante desequilíbrio social e político que agitou a República de Weimar naqueles anos. Com forte influência do romantismo, o cinema expressionista refletiu uma visão do homem característica da alma “fáustica” alemã: a natureza dual do homem, a sua fascinação pelo mal, a fatalidade da vida e a inexorabilidade do destino. Podemos assinalar como finalidade do cinema expressionista a tradução simbólica, mediante linhas, formas ou volumes, da mentalidade dos personagens, o seu estado de ânimo, as suas intenções, de modo que tudo à sua volta apareça como a tradução plástica do seu drama.

golemOs primeiros modelos expressionistas no cinema alemão surgiram por volta de 1915, destacando-se a obra de Paul Wegener, iniciador do cinema fantástico, gênero habitualmente considerado o mais tipicamente expressionista. Em 1917 foi criada a UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft), apoiada pelo Deutsche Bank e a indústria alemã, para promover o cinema alemão fora das suas fronteiras. O selo UFA caracterizou-se por uma série de inovações técnicas, como a iluminação focal, os efeitos especiais – como a sobreposição –, os movimentos de câmara, o desenho de produção, etc. Era um cinema de estudo que assegurava um claro controle do diretor. Por outro lado, as suas montagens lentas e pausadas, as suas elipses temporárias, criavam uma sensação de subjetividade, de introspecção psicológica e emocional.

As primeiras obras do cinema expressionista nutriram-se de lendas e antigas narrações de corte fantástico e misterioso: “O Estudante de Praga”, dirigido por Paul Wegener e Stellan Rye, de 1913, “O Golem”, dirigido por Paul Wegener e Henrik Galeem, de 1914, “Homunculus”, dirigido por Otto Rippert, de 1916, foram os pioneiros desse modelo cinematográfico e já traziam em sua estética recursos cênicos e técnicos que se tornariam padrão como a cenografia sofisticada, os contrastes em branco e preto e os choques de luz e sombra.

Caligarismo

caligari-posterUm dos pontos mais marcantes do cinema de horror é o clássico de 1919 “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, exemplar máximo do Expressionismo alemão. Supostamente, Wiene não teria passado de um diretor contratado quando Fritz Lang, que mais tarde faria também grandes filmes expressionistas, não pôde aceitar a direção por conta de obrigações previamente assumidas. De qualquer forma, embora se questione os méritos autorais de Wiene, “O Gabinete do Dr. Caligari” expõe o mais forte horror da primeira metade do século passado: o horror que vem de dentro, o horror produzido pela mente humana.

Com os desenvolvimentos da pesquisa psicanalítica e a publicação dos primeiros trabalhos de Freud e posteriormente de Jung, abriu-se um novo campo de estudos na ciência humana: o inconsciente. Agora, doenças como histeria e esquizofrenia passaram a ser vistas como distúrbios psíquicos, e não mais como possessão demoníaca ou outras interpretações mitológicas. Isso, porém, suscitou na sociedade uma gama de temores: se temos um inconsciente, então há uma parte de nossa alma fora de nosso controle. A mente humana torna-se o nosso próprio medo, um local inóspito e habitado pelos mais terríveis monstros que a psique é capaz de criar.

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Toda a perspectiva de “O Gabinete do Dr. Caligari” é irregular e inconstante: os cenários de aspecto estranhamente anguloso e geométrico com paredes inclinadas, janelas em forma de flecha, portas cuneiformes, chaminés oblíquas, a iluminação de efeitos dramáticos inspirada no teatro de Max Reinhardt, e a maquiagem e o vestuário salientavam o ar misterioso que envolvia todo o filme, tudo convergindo em um cenário distorcido que nos remetem ao caos e à insanidade mental. Cada curva é uma perturbação da mente, cada sombra irregular é uma alegoria às neuroses psíquicas.

Não é para menos que causou forte impressão a história de um interno de asilo que narra suas vivências por meio de uma visão distorcida e fragmentada do mundo, tecendo uma bizarra trama sobre um sonâmbulo e seu mestre maligno que o obriga a assassinar pessoas durante o sono. O medo em “O Gabinete do Dr. Caligari” vem da estranha descoberta de que nosso inimigo pode estar em nós mesmos. O que aterroriza o homem do início do século XX é saber que não tem mais o total domínio sobre si mesmo. O Dr. Caligari pode ser encarado como uma metáfora do inconsciente nos obrigando a realizar nossos desejos proibidos e não reconhecidos. Assim como o sonâmbulo Cesare que obedece aos comandos de seu amo, nós também não temos escolha.

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A Europa havia acabado de passar pela traumática experiência da Primeira Guerra Mundial, e a Alemanha, particularmente sofrida no evento, sucumbia aos momentos mais terríveis desde a sua unificação. Há quem veja, no filme, a sugestão de que as autoridades foram criminosas e insanas, exigindo que soldados cegamente obedientes cometessem milhares de assassinatos e lançassem a si mesmos à morte. Por outro lado, o filme quebrava com o realismo e o naturalismo vigentes no cinema até então com o cinema transcendendo o realismo fotográfico e ousando com imagens abstratas e irreais da arte moderna. Esse tipo de cinematografia de certa forma continua pouco explorado até hoje. Conrad Veidt ficou assustador como Cesare, com sua fantasmagórica maquiagem branca e roupa preta, e Werner Krauss está magnífico e diabolicamente sinistro como Caligari. Não perca mais essa chance de assistir esse fantástico filme:

Paradoxalmente, “O Gabinete do Dr. Caligari” foi mais o final de um processo do que o começo de um cinema expressionista, pois o seu caráter experimental era dificilmente assimilável por uma indústria que buscava produtos mais comerciais. As produções posteriores continuaram com maior ou menor intensidade os argumentos do filme de Robert Wiene, com histórias geralmente baseadas em conflitos familiares e uma narração efetuada com flashbacks, e uma montagem oblíqua e anacrônica, especulativa, fazendo com que o espectador interprete a história a seu modo; por outro lado, perderam o espírito artístico de “O Gabinete do Dr. Caligari”, a sua revolucionária cenografia, a sua expressividade visual, em favor de um maior naturalismo e um foco mais objetivo da realidade. Por tudo que representa, “O Gabinete do Dr. Caligari” permanece até hoje um marco do cinema, e um dos pilares do horror psicológico. Leia mais sobre o Expressionismo Alemão e sobre O Gabinete do Dr. Caligari.

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A esse primeiro expressionismo, de caráter teatral e chamado “caligarismo”, seguiu um novo cinema, o de Lang, Murnau e Wegener – que se inspirava mais no romantismo fantástico, deixando de lado o expressionismo literário ou pictórico. Esses autores buscavam uma aplicação direta do expressionismo nos filmes, deixando os cenários artificiais e inspirando-se mais na natureza. Assim surgiu o Kammerspielfilm, orientado para um estudo naturalista e psicológico da realidade cotidiana, com personagens normais, mas tomando do expressionismo a simbologia dos objetos e a estilização dramática. O Kammerspielfim era baseado num realismo poético, aplicando a uma realidade imaginária um simbolismo que permite atingir o senso dessa realidade. A sua estética baseava-se num respeito, embora não total, das unidades de tempo, local e ação, numa grande linearidade e simplicidade de temas, que fazia desnecessária a inserção de rótulos explicativos, e na sobriedade interpretativa. A simplicidade dramática e o respeito pelas unidades permitiam criar algumas atmosferas fechadas e opressivas, nas quais se movimentariam os protagonistas.

Continua na Parte 4.

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