Os Grandes Clássicos do Terror – Parte II

O CINEMA DE TERROR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – PARTE II

“Na verdade, aqueles suplícios que dizem existir no profundo Inferno, estão todos aqui, nas nossas vidas.”
Lucrécio, em “Da Natureza”

Inferno, Bruxas e Demônios

The Temptation of St.Anthony by Martin SchöngauerLúcifer, o Anjo Caído, o grande adversário do Criador e de sua criação, o homem, é uma das figuras mais emblemáticas da cultura judaico-cristã. O anjo que desafiou Deus, e foi banido do paraíso celeste por sua ousadia, travando desde então uma batalha pela alma humana, tem sido uma metáfora milenar para ilustrar e expiar os males que assombram a humanidade. Com a ascensão do cristianismo, sincretismos religiosos e outras formas de assimilação cultural acabaram gerando inúmeros nomes e formas para designar as múltiplas facetas desta criatura mítica que representa o contra peso da balança na eterna dualidade entre o bem e o mal. Lúcifer, Satanás, Belzebu, Mefistófeles, Pazuzu, seja qual for a nomenclatura utilizada, é o termo grego “daemon” (δαίμων), que origina a sua designação genérica mais comum, Demônio.

Lilith by John CollierDa serpente que seduz Eva no Genesis, passando pelo dragão do Apocalipse e das lendas medievais até a figura popular do homem com chifres e cascos no lugar dos pés, esta entidade maléfica ultrapassa os limites do contexto bíblico e dos delirantes sermões admoestatórios sobre os tormentos do inferno, para fazer parte de uma mitologia universal, gerando uma fonte de inspiração inesgotável para reflexões artísticas sobre a natureza humana.

O cinema em seus primórdios, assim como ocorreu com a pintura, a fotografia e outras formas de arte, também foi considerado por muitos uma ferramenta diabólica. Religiosos alertavam os fiéis sobre a ilusão demoníaca e a permissividade moral da nova invenção, como lembra Jean-Claude Carrière em seu ensaio “A Linguagem Secreta do Cinema”, espectadores muçulmanos fechavam seus olhos diante da tela, pois “uma antiga e severa tradição proibia – os de representar a forma e a face humanas, criações de Deus”. A imitação do mundo era, portanto, obra do Demônio.

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Pois o cinema parecia realmente uma ferramenta ideal para a ação do mítico mestre da mentira e da ilusão, e não tardou para que ele desse as caras na nova invenção, que assombrava e seduzia o público no final do século XIX. O pioneiro cineasta francês Georges Méliès (1861-1938), foi um dos precursores ao utilizar a figura do Demônio em suas produções. Diabos de traços picarescos, herança das sátiras medievais, infestavam suas produções, como “Le Diable au Convent” (1899), “Le Cake Walk Infernal” (1903) e “Le Chaudron Infernal” (1903).

Amparado por trucagens visuais nunca antes vistas pelo público, Méliès, segundo Jean Tulard, “rompeu com o aborrecido cinema-verdade de Lumière, criando o cinema-espetáculo”. Ao fornecer ao público demônios e outras maravilhas, além de uma fascinante viagem à Lua, o experimentalismo de Méliès auxiliou a conceber a linguagem cinematográfica que hoje conhecemos.

Outros pioneiros do cinema, como o americano D.W. Griffith, tido como o pai da linguagem cinematográfica por conta de seus monumentais “O Nascimento de uma Nação” e “Intolerância”, se aventuraram na exploração de figuras diabólicas, e Griifth o fez em “The Devil” (EUA, 1908), assim como os italianos Francesco Bertolini e Adolfo Padovan, que em 1911, inspirando-se esteticamente nas ilustrações de Gustav Doré, realizaram “L’Inferno” (Itália, 1911), uma impressionante adaptação da primeira parte da obra “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri.

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“O Inferno” é o mais antigo filme em longa-metragem a sobreviver até nossos tempos. No filme, os atores Salvatore Papa e Arturo Pirovano interpretam Dante e Virgilio, respectivamente:

Imortalizado na obra Goethe, o mito de Fausto, o homem que em busca de juventude e de conhecimento vende sua alma para o demônio Mefistófeles, foi levado às telas pela primeira vez em 1904, num curta-metragem do francês Georges Fagot, mas sua representação mais marcante encontra-se em uma obra crepuscular do expressionismo alemão, “Fausto” (Faust – Eine Deutsche Volkssage), de 1926, dirigido por F.W. Murnau.

Haxän, a Feitiçaria Através dos Tempos

haxan1Entre as obras seminais no tratamento do tema, talvez seja o filme sueco “Häxan, a Feitiçaria Através dos Tempos”(Häxan), de 1922, de Benjamin Christensen, a que melhor sobreviveu à evolução da narrativa cinematográfica, apresentando um pesadelo de beleza lúgubre, que emula visualmente a obra do pintor holandês Hieronymus Bosch, num universo repleto de demônios, sadismo, sacrifícios, nudez e sexualidade, bruxas medievais e freiras possuídas numa trama que mescla a ficção e o documental, explorando teorias tanto místicas como racionais para relatar a influência de entidades maléficas em nosso mundo. Em “Häxan”, religiosidade, medos e superstições medievais se confrontam com as teorias psicanalíticas em voga na época.

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“Häxan” foi o filme mais transgressor de sua época. Embora no começo pareça extremamente didático e desinteressante para as novas gerações por conta do registro que faz da feitiçaria e focando-se na estreita relação entre bruxas, demônios e o papel da Igreja Católica em disseminar o medo e a ignorância ao longo dos séculos, aos olhos do público de sua época “Häxan” se tornou um atentado, uma autêntica heresia e o filme mais assombroso até então produzido. Os censores suecos obrigaram o diretor a realizar diversos cortes antes de autorizarem a sua exibição: o close-up de um dedo sendo arrancado da mão de um homem enforcado, o pisoteio da cruz durante a cena do sabá das bruxas, a cena de uma criança sendo sacrificada, uma cena do demônio abraçando uma mulher nua e o close do rosto de uma mulher que está sendo torturada além dos instrumentos de tortura vistos na cena. Mais tarde, essas cenas foram acrescentadas à versão restaurada.

haxan5Misturando naturalismo com efeitos especiais curiosos (inclusive uma técnica pioneira de stop motion) e narrativa em tom de documentário, o filme traz o próprio diretor no papel de Satã em sua apresentação clássica, com chifres, barba e garras. O diretor também atuou como Cristo em uma rápida passagem do filme. Uma das cenas mais importantes mostrava bruxas voando pelos céus da cidade em vassouras, efeito obtido pelo diretor de fotografia Johan Ankerstjerne com o uso de uma maquete com 2 metros de altura e uma plataforma giratória operada por 20 técnicos. Cerca de 80 atores fantasiados foram filmados nas vassouras um a um contra um motor de avião para dar o efeito do vento, e depois reunidos na tela graças a um complicado efeito de sobreposição. O filme está em domínio público atualmente e pode ser assistido completo no YouTube:

“Häxan” foi dividido em sete segmentos, que se iniciam em 1488 e terminam em 1922. Apoiando-se em vasta documentação, como livros, diagramas e ilustrações, o diretor Christensen queria a colaboração de especialistas em ocultismo no roteiro, mas foi obrigado a escrever sozinho todos os seguimentos uma vez que a maioria deles se negou a participar do filme. Para obter melhores resultados e criar uma atmosfera sombria, a maior parte do filme foi filmada à noite com o diretor contando histórias de terror para impressionar seus atores. Uma delas, de que a atriz Maren Pedersen, que interpreta uma das feiticeiras, teria visto um demônio sentado ao lado de sua cama. O diretor gostou tanto da ideia que a incluiu em seu filme. A influência de “Häxan” se perpetuou ao longo das décadas, inspirando outros realizadores graças ao seu visual opressivo e cenários macabros.

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Em seus primeiros anos, a abordagem do Diabo no cinema bebeu diretamente da fonte literária (Goethe, Dante), nas lendas medievais e nos conceitos bíblicos. Seres demoníacos, munidos de rabo e chifres, pululavam nas telas fazendo caretas, seduzindo mulheres incautas ou barganhando a alma de homens gananciosos, e mesmo que sua essência fosse claramente maléfica para a audiência da época, vistas hoje, essas criaturas burlescas soam ingênuas, gerando mais risos do que temor. Curiosamente, a figura mais representativa daquilo que seria a “encarnação do mais puro mal”, pouco foi explorada nos primórdios de um gênero que tem por natureza o objetivo de assustar as pessoas, o cinema de horror.

Continua na Parte 3.

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