Filmes: Agonia de Amor (1947)

AGONIA DE AMOR
paradinecase_3Título Original: The Paradine Case
País: Estados Unidos
Ano: 1947
Duração: 114 min.
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Gregory Peck, Ann Todd, Alida Valli, Charles Laughton, Charles Coburn, Ethel Barrymore, Louis Jourdan, Leo G. Carroll.
Sinopse:
Anthony Keane, advogado famoso e bem casado, é chamado para defender Madalena Paradine, uma bela mulher acusada de assassinar o marido milionário, mas durante o complicado processo judicial acaba se apaixonando por ela.

Quando se mudou para os Estados Unidos para trabalhar em Hollywood, Alfred Hitchcock acabou preso a um contrato de sete anos com o chefão David O. Selznick – que costumava tomar o controle criativo de quase todos os filmes que produzia. Drama de tribunal com elenco all-star, inclusive com a presença de astros europeus (o inglês naturalizado norte-americano Charles Laughton, o francês Louis Jordan e a italiana Alida Valli), “Agonia de Amor” foi o último dos filmes que Hitch dirigiu para Selznick, um fracasso de bilheteria muito por conta da imposição do produtor em ter suas ideias colocadas no filme. Apesar da produção bem cuidada e de todo o esforço da direção, quase não há suspense e o clima dramático se perde em meio ao excesso de diálogos e de reviravoltas na trama. Destaque para a música composta por Franz Waxman e a fotografia de Lee Garmes.

Um drama de tribunal sem muito brilho, mas com a marca de um mestre

Quem nunca assistiu “O Homem Errado”, “Um Barco e Nove Destinos” ou “Um Casal do Barulho” tem a falsa impressão de que Alfred Hitchcock era somente um ótimo diretor de filmes de suspense ou que seus filmes eram superficiais, que não levantavam questões sociais ou discutiam temas polêmicos. “Agonia de Amor” não é nem de longe um dos melhores exemplares da sua filmografia, mas se servisse para apenas uma coisa, seria para mostrar como Hitchcock discutia sim várias questões, sem nunca deixar de lado aquilo tudo que conhecemos como características técnicas de suas obras mais famosas.

A maneira de filmar, de costurar os planos e de trabalhar com os enquadramentos está presente como marca distinta de Hitchcock, parte de uma característica autoral, como apontariam os críticos da Cahiers du Cinema. Mas em “Agonia de Amor” o mestre vai além, trabalhando como tema principal o amor não correspondido. Os personagens e a trama giram em torno deste ponto focal. A começar pelo forçado amor de Gregory Peck por Alida Valli, algo crucial para a trama, mas que não convence (principalmente por acontecer de forma precoce). A partir desse momento, temos uma série de relacionamentos frustrados pelo resto do filme. Cada personagem tem um pouco de seu amor e dedicação renegados pelo próximo e isso acontece com Ann Todd em relação a Gregory Peck, Ethel Barrymoore com seu marido Charles Laughton e com Alida Valli e Louis Jordan. E a única pessoa que sai ilesa de toda esta negação é justamente aquela que toma uma conduta de compreender o que se passa com o outro.

Se o filme não chega a figurar entre os de maior suspense do mestre, ele se mostra interessante a partir da cena do tribunal, quando as melhores atuações afloram: Laughton se mostra um juiz intolerante e frio, Peck um obstinado advogado, mas que coloca os pés pelas mãos, enquanto Alida Valli e Louis Jordan entram com o pé direito no cinema americano, ela ainda creditada apenas como Valli. Um dos problemas do filme é tentar convencer que o personagem de Peck, o advogado maduro e bem casado Anthony Keane, poderia se interessar de imediato por sua cliente, a Sra. Paradine, e cair de amores por ela, por mais bela que fosse, em apenas uma ou duas visitas a ela na prisão. O amor que se apodera dele e o torna cego é a mola que move o resto do roteiro, que teve diversas mudanças desde a versão original escrita por Alma Reville, esposa de Hitchcock, e James Bridie, com a colaboração de Ben Hecht nos diálogos, por sua vez baseada em novela de Robert Smythe Hichens.

“Agonia de Amor” representa bem a fase intermediária da filmografia de Alfred Hitchcock, que vinha de ótimos filmes realizados na Inglaterra no final dos anos 30, entre eles “A Dama Oculta” e “os 39 Degraus” e posteriormente iria emendar uma série de grandes clássicos a partir do começo dos anos 50: o período em que o diretor ficou preso a um contrato com David O Selznick. Famoso por um único grande sucesso, o seu filme mais famoso “E o Vento Levou”, Selznick não media esforços nem recursos, mas gostava de ter o controle total dos filmes que produzia. Tanto que “Agonia de Amor”, um filme menor, custou o equivalente a “E o vento Levou”, grande parte gasta em uma réplica da corte de Old Bailey, no restante dos cenários e na enorme quantidade de material filmado e que era descartado devido a constantes mudanças na história.

Não satisfeito com o roteiro, Selznick resolveu reescrever toda a história, mudando nomes e alterando diversas cenas. Isso obrigou também a mudanças de última hora no elenco. Hitchcock queria Laurence Olivier ou Ronald Colman como Anthony Keane, Greta Garbo como a Sra. Paradine e Robert Newton como André Latour, personagem que ficou com Louis Jordan. Garbo também foi a primeira escolha de Selznick quando este comprou os direitos da história antes de o livro ser publicado, em 1933, mas na época em que o filme começou a ser planejado a atriz já estava decidida a se retirar das telas. Movida também por uma questão pessoal, a de nunca interpretar mamães ou assassinas, Garbo acabou não aceitando o papel.

O cineasta tentou trazer Ingrid Bergman para o papel da Sra. Paradine, mas a atriz não queria voltar a trabalhar com Selznick depois das tumultuadas gravações de “Interlúdio” e “Sob o Signo de Capricórnio” por conta das interferências dele no processo criativo dos filmes. Selznick então decidiu contratar Alida Valli, considerada na época uma das mais promissoras atrizes italianas. A escolha de Ann Todd para o papel de Gay Keane foi uma das poucas escolhas pessoais de Hitchcock para o filme. Curiosamente, ela foi a integrante do elenco a receber os maiores elogios da crítica especializada na época, uma vez que o filme foi um estrondoso fracasso comercial.

Após as primeiras sessões-testes, a versão original de Alfred Hitchcock com 132 minutos de duração foi descartada por Selznick, que montou o filme à sua maneira até chegar a um corte de 114 minutos. Uma das cenas removidas mostrava Keane e Simon Flaquer (Charles Coburn) entrando no Lincoln’s Inn, parte do complexo de advocacia de Londres construído no século XIV, e filmada em um único, meticuloso e extenso plano-sequência, e que já antecipava a narrativa de “Festim Diabólico”, o filme seguinte de Hitchcock. Ignorante do significado histórico do Lincoln’s Inn e achando a sequência toda muito longa, Selznick simplesmente a retirou do filme. Em 1980, a versão original de 132 minutos foi perdida durante uma inundação no depósito em que se encontravam os negativos. “Agonia de Amor” foi remontado utilizando-se outras versões, o que fez com que o filme possa ser encontrado com diferentes tempos de projeção, que variam de 94 minutos (versão para a TV) a 125 minutos (versão de relançamento).

Como curiosidade, Selznick tentou trazer Bernard Herrmann para compor a trilha sonora, mas este não se interessou. Fraz Waxman acabou contratado. Em uma das cenas do filme, quando Keane vai à casa da Sra. Paradine, que está ao piano interpretando uma pequena peça, a partitura é mostrada pela câmera e nela podemos ler: “Apassionata Op. 69 by Francesco Ceruomo”. Francesco Ceruomo é uma espécie de versão em italiano do nome do compositor Franz Waxman e faz parte da trilha sonora composta por ele para o filme. Hitchcock faz aqui uma das suas tradicionais aparições-relâmpago: saindo de um trem na estação de Cumberland carregando um violoncelo.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0039694/

Filme Completo:

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