Os Grandes Clássicos do Terror – Parte I

O CINEMA DE TERROR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – PARTE I

“Aqui está a verdade final sobre os filmes de horror. Eles não amam a morte, como alguns têm proposto, amam a vida. Eles não celebram a deformidade, mas, ao habitá-la, cantam a saúde e a energia. Eles são os purificadores da mente, tirando não rancor, mas ansiedade.”
Stephen King, Dança Macabra.

No princípio, era a escuridão…

horror-moviesDesde os imemoriais tempos das cavernas, o homem, atraído pelo que não podia entender, retratou o que temia. Não raro os desenhos e rabiscos rupestres demonstravam o perigo das florestas e das caçadas. Trovões, relâmpagos, chuvas, erupções vulcânicas, terremotos, tufões, eclipses, enfim, toda sorte de intempéries eram interpretadas como sinais dos deuses (ou de demônios); indícios vingativos, de aproximação do fim, punições, castigos místicos indecifráveis. A floresta não passava de uma enorme ratoeira humana. Lá, na escuridão, entre folhas, animais sibilantes e olhos escarlates sempre atentos, vivia o verdadeiro mal. Os homens das cavernas exorcizavam seus temores em pinturas ou faziam amuletos de ossos e pedras para agradar os deuses e afugentar os maus espíritos. Assim como as florestas escuras, o mar também era um ambiente inóspito, turvo, escuro e incerto, povoado por estranhas criaturas.

Cada momento histórico teve seus horrores. Se pudéssemos inalar o ar medieval, com certeza, nossas narinas sentiriam o inquietante fedor de carne queimada. Na Idade Média, temeu-se o demônio e deflagraram-se mitos e lendas em torno de seres malignos prestes a corromper e danar humanidade. Mais tarde, a Santa Inquisição disseminou o terror para manter a hegemonia da Igreja Católica com suas torturas e mortes. Milhares de pessoas – a maioria mulheres – perderam a vida sendo queimadas vivas após condenados por bruxaria, provavelmente todas elas inocentes. O medo e o terror são estados ideais a serem retratados pelo cinema. Que outra mídia poderia captar, de maneira fidedigna, os sons, as imagens, os climas e as situações que compõe o genuíno terror? Na sala escura há um certo desprendimento, uma disposição para aceitar o improvável. É quando aflora o inconsciente e o torpor faz extravasar nossas fantasias irracionais. Talvez, por isso, o cinema fantástico seja visto como escapismo de pouca importância. No entanto, se o cinema nos permite esse escape de nossa realidade cotidiana, o destino são invariavelmente os nossos medos, o proibido, o tabu e as patologias de nossos tempos.

O horror literário

mary-shelleyO terror da vida real sempre inspirou os artistas. Cada qual em sua época criou poemas e contos assustadores, desde Homero e as aventuras de Ulisses em “A Odisséia”, a Dante com sua visão impressionante do Inferno. O que dizer, então, dos contos dos irmãos Grimm e Han Christian Andersen que nada mais são do que histórias de terror criadas para assustar crianças? O cinema, por sua vez, sempre tentou retratar o horror, e a maneira como ele nos atinge. Desde a exploração do indizível e do desconhecido na literatura de horror do século XIX – de Stoker, Shelley, Poe, Lovecraft ou Maupassant ao horror moderno e futurista de Stephen King, Clive Barker ou William Gibson – uma coisa sempre foi constante nas películas: o medo. Medo do desconhecido, mas, sobretudo medo de algo que não podemos ver, mas que sabemos que está ali, à espreita, aguardando o momento de se manifestar.

Desde meados do século XIX, quando se realizaram os primeiros experimentos com sais de prata, levando à descoberta da fotografia, e o aperfeiçoamento da captação de luz que resultaram no cinema, o imaginário popular passou a conviver com um rico gênero literário transformado em imagem na telas, o chamado horror gótico. O termo gótico foi aplicado a este tipo de horror muito depois de seu apogeu. Trata-se de uma modalidade com classe e estilo, tipicamente europeu, de cadeiras de couro, cortinas de veludo e mortes com pouco sangue. De maneira geral, centra-se em cenários típicos do medievalismo como castelos longínquos, mansões amaldiçoadas, pequenos vilarejos, homens de cartola e fraque, damas de vestidos longos e cabelos bem arrumados, velas cuja luz amarelada afasta (mas não muito) a escuridão, carruagens, capas negras, teatros mal-assombrados, sequestros, lutas de espada, festas à fantasia com máscaras aterrorizantes, fantasmas nos esgotos, assassinatos misteriosos, corvos negros e sempre um delicado filete de sangue rubro.

bram-stoker

Temos como obra literária marcante do horror gótico os conhecidos “Frankenstein ou o  Moderno Prometeu”, de Mary Shelley, publicado no remoto ano de 1818 e que instigou gerações pela sua ideia de recriar a vida a partir de matéria inanimada, e “Drácula”, de Bram Stoker, publicado em 1897 e que estabeleceu o modelo tradicional (e mais tarde estereotipado) para as histórias de vampiros. O romance de Stoker, curiosamente veio à luz apenas dois anos depois de os irmãos Lumiére realizarem a primeira exibição pública de seus filmes, em 1895, ano que se convencionou marcar como o nascimento do cinema. Desde então, os escritos de Ambroise Bierce, Edgar Alan Poe, Guy de Maupassant, Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Anatole France, Gastón Leroux e muitos outros autores forneceram a base para o surgimento dos primeiros fotogramas de terror.

O nascimento do cinema de terror

O nascimento do terror enquanto gênero cinematográfico coincide com o nascimento do próprio Cinema, pois de certa forma a primeira exibição pública de filmes feita pelos irmãos Lumiére teve na desavisada audiência da época o efeito de um filme de terror.

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Quando “A Chegada do Trem à Estação” foi exibido no Grand Café de Paris em 28 de dezembro de 1895 causou frenesi e inquietação entre os presentes. Muitos tentaram se proteger do bólido, que parecia invadir o recinto, fugindo ou escondendo-se nos cantos da sala. Esse elemento chocante sempre estaria presente no cinema, a função de surpresa e de quebra da tradição, de emulação da realidade com a intensificação da catarse e da participação do público em seus momentos agradáveis e, em se tratando dos filmes de terror, nos mais desagradáveis também, e que se tornariam parte da própria definição daquilo que se deve chamar de cinema: a arte de convencer as pessoas de algo que no fundo elas sabem que é pura ilusão.

O primeiro filme de terror propriamente dito talvez tenha sido “The Haunted Castle” (Le Manoir du Diable), de George Mélies, lançado em 1896 e que felizmente conseguiu sobreviver aos nossos dias, em uma cópia com três minutos de duração, onde o demônio Mefistófeles (de maneira um tanto quanto cômica) assume a forma de um morcego para invadir um castelo e lançar suas maldições mas acaba sendo expulso graças a um crucifixo:

Mélies, que era um mágico de carreira famoso e dono do Teatro Robert-Houdin em Paris, entrou em contato com o cinema logo na primeira exibição pública feita pelos irmãos Lumiére, naquele mesmo dia 28 de dezembro de 1895. Em fevereiro do ano seguinte, ele adquiriu sua primeira câmera, e, em maio, já começou a fazer seus filmes.

A tecnologia no cinema estava apenas engatinhando, o que obrigou Mélies a estudar o novo instrumento que tinha em mãos e a inventar inúmeros mecanismos para criar os mais diversos efeitos de ilusão que uma vez transpostos para a tela pareciam incrivelmente verdadeiros. Seus estudos de múltipla exposição são conhecidos até hoje e criam o efeito de se ver objetos e pessoas aparecendo e desaparecendo à distância ou mudando de forma. Foi o primeiro cineasta a se envolver de maneira séria no cinema fantástico e a obter resultados interessantes na tela. Sua abordagem de lendas e histórias sobrenaturais, vampiros, viagens espaciais e outras ficções improváveis permanecem como exemplos clássicos e estabeleceram, na época, o conceito de efeitos especiais que serviriam de base para uma infinidade de realizadores que enveredaram pelo gênero nos anos seguintes.

melies

As experiências de George Mélies no cinema ainda incipiente foram vagamente cômicas. O intuito do antigo mágico de circo era entreter, valendo-se dos efeitos e maquinários para realizar seus filmes (cenários gigantescos, luas com rosto, foguetes em forma de bala de canhão e criaturas saltitantes). Somente com o passar dos anos, o gênero terror pôde amadurecer e expandir-se no que se convencionou chamar de “cinema de terror”. O tempo trouxe novas obras tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e Mélies, que era muito mais um mágico do que um cineasta, sofreu com o paralelo desenvolvimento das técnicas de filmagem por outros realizadores e a falta de uma política capitalizadora por parte de seu estúdio. Mélies se tornou, lentamente, obsoleto diante de nomes como Edwin S. Porter e David W. Griffith, que investiram pesado no desenvolvimento da narrativa cinematográfica e de novas técnicas de montagem. Mélies terminou seus dias após a falência de sua produtora, em 1913, vendendo pequenos brinquedos e jogos de mágica em banquinhas nas ruas de Paris, e vindo a falecer em 1938.

It’s Alive!

Em 1910, Thomas Edison produziu a primeira versão cinematográfica de “Frankenstein”, um filme curto de 15 minutos dirigido por J. Searle Dawley. Neste filme bastante interessante, o monstro não é recriado a partir de partes de cadáveres, mas criado diretamente através de poções e produtos químicos (o truque para essa cena foi filmar um manequim que era consumido pelo fogo e depois reproduzir a cena de trás para frente).

frankenstein1910

O filme era dado como perdido, quando uma cópia em nitrato foi descoberta na metade dos anos 70, restaurada e agora está disponível na Internet em domínio público:

Como fica bem entendido no romance original de Mary Shelley, temos um tema agregado ao próprio conceito de cinema: O Dr. Frankenstein, obcecado com a idéia de manipular a vida, desenvolve um experimento revolucionário que o levará à ruína. O cinema também era um experimento revolucionário surgido ao final do século XIX por conta do impressionante e vertiginoso avanço na criação de máquinas e dispositivos, alavancados pela revolução industrial e seguidos do desenvolvimento de máquinas cada vez mais potentes e de motores a explosão que não só impressionavam como assustavam as pessoas que não estavam preparadas para lidar com as conseqüências dessas novas descobertas tecnológicas.

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Atualmente, vivemos uma situação semelhante. Com o desenvolvimento da engenharia genética, podemos manipular o mapa cromossômico do ser humano, o DNA está a nossa mercê para que possamos criar quantos transgênicos quisermos. Assim como o Dr. Frankenstein no distante ano de 1816, a humanidade desenvolveu a capacidade de brincar de Deus, de manipular a vida, de criar novas espécies e a forma como elas virão a ser. Ao monstro de Frankenstein a vida é dada, mas ele não tem consciência própria, é apenas um teste bem-sucedido, um experimento que sente, sofre e chora, e se vinga quando seu criador se esquece disso motivado pelo instinto mais básico: o de sobrevivência.

O horror do texto de Mary Shelley se mostrou visionário com o passar do tempo. Sua história de terror não apenas conseguiu capturar de maneira consistente nossos medos, ambições desmedidas e ansiedades coletivas como criou o modelo tradicional de cientista louco que veríamos desde então em muitos outros livros e filmes. Histórias como a de “Frankenstein” mostram que, muitas vezes, o inimigo vem de dentro, e não do desconhecido. Eis aí a grande crítica à prepotência e à arrogância do autocentrismo que não admite questionamento ou reavaliação. O ser humano elevado à condição de deus, ao final acaba sucumbindo diante de sua ânsia pelo poder e ambição cega.

Continua na Parte 2.

Uma resposta

  1. Amei o post, parabéns pelo trabalho.

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