Filmes: Ouro e Maldição (1924)

OURO E MALDIÇÃO
greed_1Título Original: Greed
País: Estados Unidos
Ano: 1924
Duração: 140 min.(239 min. na versão restaurada)
Direção: Erich von Stroheim
Elenco: Gibson Gowland, Zazu Pitts, Jean Hersholt, Chester Conklin, Sylvia Ashton, Dale Fuller, Joan Standing, Austin Jewel, Tempe Pigott, Chester Conklin.
Sinopse:
O filme mostra a transformação do caráter de três pessoas. John McTeague, um mineiro que se torna dentista, conquista a namorada do seu melhor amigo Marcus. Quando a moça ganha 5.000 dólares na loteria, por vingança, Marcus acusa McTeague de se casar por dinheiro e informa as autoridades que este não tem licença para exercer a profissão de dentista. Privado do seu magro rendimento e com a mulher obcecada por dinheiro, McTeague vê o seu casamento e a sua vida serem destruidos.

Com roteiro de Joseph Farnham, June Mathis e Erich von Stroheim, a partir do romance “McTeague” do escritor naturalista Frank Norris, foi o primeiro filme inteiramente filmado em locações (inclusive cenas internas) e levou dois anos em produção. Superprodução da MGM, este portentoso drama seria o melhor cartão de visita do grande diretor austríaco Erich von Stroheim, um ambicioso estudo sobre os desejos humanos de amor, cobiça e inveja, porém ficou mais famoso pelas brigas entre o realizador e os produtores do filme. No fim, estes obrigaram a redução da narrativa e a exclusão de outras duas histórias paralelas (dos vizinhos idosos que se amavam em segredo e da vendedora de bilhetes de loteria que é assassinada pelo desconfiado e sinistro companheiro), totalizando pouco mais de duas horas de projeção. Nos anos 90, uma versão restaurada, com quatro horas de duração, estabeleceu uma edição definitiva e a possibilidade de conhecer mais profundamente o gênio criativo de Stroheim.

A obra-prima incompreendida de Erich von Stroheim

Muitas lendas rondam o majestoso “Ouro e Maldição”, que Eric von Stroheim dirigiu na primeira metade da década de 20 e que ficou conhecido como “o grande filme perdido” ou “a obra-prima incompleta” mais importante do cinema. Não é preciso mencionar que a versão original tinha cerca de 8 horas ou mais de duração e que o produtor executivo Irving Thalberg mandou reduzir o filme a pouco mais de 2 horas, fato já trazido à tona por livros e sites especializados centenas de vezes. Naquela época era comum os estúdios reaproveitarem o nitrato de prata contido nas películas e dificilmente uma matriz original era preservada. Por conta disso, uma gigantesca porção de filmes mudos foi extinta para sempre. Esse foi o provável destino das 7 horas excedentes de “Ouro e Maldição”, ainda que muita gente prefira acreditar que o material ainda esteja num depósito qualquer, esperando ser descoberto algum dia. Seja como que for, felizmente existe uma versão restaurada de 4 horas, lançada nos anos 90 e contendo as sequências já conhecidas da versão oficial, acrescidas de fotos e legendas das cenas desaparecidas, permitindo aos cinéfilos terem uma noção do que o seu diretor tinha em mente.

Apaixonado pelo grandioso romance naturalista “McTeague”, de Frank Norris (1870-1902), publicado em 1899, Stroheim começou em 1923 a rodar uma adaptação do livro para a Metro-Goldwyn-Mayer. A mitologia em torno do filme diz que o desejo de Stroheim era fazer de “Ouro e Maldição” a sua obra-prima. Stroheim quis fazer uma adaptação fidelíssima da história de Frank Norris, porém, Irving Thalberg nunca acreditou no projeto. O chefe de produção da MGM julgava que as plateias não se interessariam pela história, que o filme seria extremamente obscuro e que o final era pessimista demais, mesmo assim resolveu bancar o projeto com base no prestígio que Stroheim ainda possuía na época. No total, teriam sido rodados 446 rolos de filme. A primeira versão editada pelo diretor, segundo algumas fontes, variava entre 42 e 47 rolos, algo entre 8 e 10 horas. A segunda versão de algo acima de quatro horas e que também foi recusada pelo estúdio, assim como a versão do montador Grant Whytock, que tinha três horas de duração. A MGM resolveu tirar o filme das mãos de Stroheim. “Greed” foi então montado à revelia do diretor e lançado em janeiro de 1925 em uma versão de 130 minutos. O resto do material teria sido queimado pelo estúdio anos depois, segundo se conta, para aproveitar as quantidades ínfimas de prata extraíveis a partir do nitrato com que se fazia os negativos. De qualquer forma, Stroheim nunca assistiu à versão exibida comercialmente na época do seu lançamento.

A MGM terminou por excluir os dois enredos paralelos da versão oficial, mantendo somente a história do minerador McTeague (Gibson Gowland). Por décadas, o público ignorou a história dos vizinhos idosos que se amavam em segredo ou da vendedora de bilhetes de loteria que é assassinada pelo desconfiado e sinistro companheiro. Na verdade, ambas as tramas não fazem falta, embora haja aquela sensação de que poderiam ser base para outros dois grandes filmes. O personagem principal de “Ouro e Maldição” não é totalmente mau, mas a decadência lhe extrai um pouco da moralidade. A origem de McTeague é humilde, ele trabalhava como minerador de ouro numa cidadezinha rural da Califórnia até aprender uma profissão com um dentista. McTeague resolveu ir a San Francisco e logo se viu numa boa situação ao herdar as economias da mãe e abrir uma clínica odontológica. Entre um cliente e outro, conheceu Trina, que já estava comprometida com um sujeito chamado Marcus (Jean Hersholt), amigo de McTeague. Contrariando as expectativas, os dois amigos não brigaram de imediato e Marcus praticamente ofereceu Trina ao falso dentista sem nenhum interesse. Tudo é conduzido de maneira leve e idílica até o momento em que a moça ganha na loteria. É quando a maldição do título de fato começa.

“Quando falta dinheiro, o amor sai pela janela”, diz um ditado popular francês. A mensagem de “Ouro e Maldição” é quase um inverso e, ao mesmo tempo, uma conclusão desse pensamento. O título original do filme (“Greed”) significa avareza, o pecado capital que permeia a história e que provoca a transformação radical de Trina (Zasu Pitts). Vista a princípio como uma moça ingênua, delicada e tímida, após receber o prêmio de 5.000 dólares e se casar com McTeague, ela se transforma em um poço de mesquinhez. Em determinado momento, ela chega a forrar a cama com moedas de ouro e dorme sobre a própria fortuna. A relação com o marido, de quem esconde cada centavo que acumula, vai se deteriorando aos poucos, ganhando proporções trágicas. O comportamento de McTeague também se modifica, mas em um plano quase metafísico. A agressividade o domina para saciar o desejo de passar o dia com os amigos no bar e de gastar com coisas inúteis tipicamente masculinas.

A história segue com McTeague, Trina e Marcus adquirindo novas personalidades. O ex-minerador segue como uma criança grande, fazendo o que os adultos lhe ordenam, reclamando às vezes e reagindo quando contrariado. A estranha sensibilidade de McTeague é simbolizada por uma paixão que cultiva pelos pássaros. No dia do casamento, oferece à esposa um casal de canários amarelos, animais que acabam representando o clima da casa em algumas tomadas (quando McTeague e Trina estão a sós na noite de núpcias, os pássaros dão a impressão de se beijar; quando McTeague e Trina estão discutindo, os pássaros parecem brigar). As intrigas levam o filme a um clímax ambientado na região desértica do Vale da Morte, entre os estados da Califórnia e Nevada. Os produtores queriam que o final fosse rodado em estúdio, mas Stroheim como sempre fez à sua maneira: levou toda a equipe de filmagem para o deserto, onde os equipamentos precisavam ser resfriados com toalhas geladas a todo instante. O ator Jean Hersholt chegou a passar mal devido o forte calor e a desidratação, precisando ser hospitalizado durante as filmagens.

Ironicamente, o enredo básico de “Ouro e Maldição” e toda a mitologia sobre o filme sublinham a história do próprio Erich von Stroheim: o efeito devastador que o dinheiro pode ter na vida das pessoas. Poeta da decadência moral e da prevalência da força sobre a generosidade, Stroheim também acabou vítima da própria ambição. Ator, roteirista e diretor de muitos talentos mas de métodos nada ortodoxos, Stroheim não conseguiu levar adiante seus planos de se tornar um dos maiores realizadores da história do cinema por conta de seu gênio excêntrico. Ele começou como ator e em seguida como assistente de D.W. Griffith. Seu gosto pela decoração e pelos figurinos levava o estúdio a estourar seus orçamentos na construção de cenários luxuosos. Sua visão psicológica das nuances do comportamento humano fez com que se interessasse por histórias pouco convencionais. Insatisfeito, rodava a mesma cena à exaustão e estendia seus filmes a tempos de duração absurdos. Antes de iniciar as filmagens de “Greed”, Stroheim tinha feito apenas quatro filmes, sendo que em um fora demitido por desavenças durante a montagem pelo mesmo Irving Thalberg (na época assistente de produção da Universal) e em outro seu nome foi retirado dos créditos por conta dos atrasos nas filmagens: “Esposas Ingênuas”, de 1922, e “Merry-go-Round”, de 1923. Stroheim também foi demitido em seus dois filmes posteriores a “Greed”: “The Wedding March”, de 1928, depois que os custos de produção chegaram a mais de um milhão de dólares, e em 1929 pela estrela Gloria Swanson devido aos seus excessos em “Minha Rainha”. Em 1924, quando chegou à Metro, a megalomania do diretor alcançou níveis estratosféricos.

Porém, um dos aspectos mais impressionantes em “Greed” é a construção dos personagens. Vemos apenas uma prévia das intenções de Stroheim na tela, e isso é suficiente para projetar na imaginação do público o que poderia ter sido esse seu estudo do comportamento humano se a visão artística do diretor tivesse sobrevivido completa. Como em todo bom romance naturalista, o comportamento dos personagens deriva menos das decisões que eles tomam de acordo com seu caráter e mais de um misto de conteúdo genético adquirido (McTeague é apresentado como tendo a ternura da mãe mas também a carga animal que herdou do pai) e responde de forma violenta ao meio em que vive. Ele se torna menos agressivo quando em companhia da jovem e delicada Trina. Contudo, mesmo com todos os inúmeros cortes que o filme teve, McTeague, Trina e Marcus revelam nuances de comportamento muito vastas e ricas, inéditas no cinema mudo até então e raras de se encontrar mesmo nos filmes contemporâneos, onde está cada vez mais difícil encontrar personagens que são reinventados a cada nova cena.

Presas dos instintos unicamente, os personagens de “Greed” são muitas vezes refletidos em animais, e não apenas no casal de pássaros que parecem reagir conforme a atitude de seus donos. Quando fica claro que foi Marcus que denunciou a falta de diploma de seu ex-colega, uma fusão o compara a um gato que covardemente pula sobre a gaiola dos pássaros para saciar sua fome. Ainda em outra situação, cobras e lagartos exprimem a aridez do ambiente e do comportamento dos personagens. Quanto à sequência final, filmada no Vale da Morte, nada a dizer a não ser que ela antecipa em quase 40 anos os planos exaustivos que fizeram de Antonioni um dos mestres do cinema moderno e a luminosidade abrasiva de muitos clássicos dos anos 50 e 60.

Quase 90 anos se passaram e “Ouro e Maldição” ainda motiva uma infinidade de histórias, reafirmando a própria lenda para as novas gerações. As moedas de ouro espalhadas pela terra árida do Vale da Morte encontram resposta na aclamação máxima da crítica que o filme receberia tardiamente. Embora mutilado, este é um filme de valor histórico incalculável e uma fonte inesgotável de ideias incompreendidas.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0015881/

Última Cena:

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