10 Filmes mudos que você precisa assistir

O FIM DE UMA ERA DO CINEMA

napoleonO final da década de 20 coincide com o surgimento do cinema sonoro. Coincidentemente também foi o período que representou uma efervescência no modo como se faziam filmes até então, quando alguns realizadores mais ousados e outros mais visionários decidiram rasgar a velha cartilha da gramática cinematográfica que D.W. Griffith parecia ter escrito em louça desde que lançou o seu “O Nascimento de uma Nação”, em 1915. Desde aquela época todos os realizadores de filmes posteriores a Griffith trataram de estudar seus dogmas, seguindo à risca todos os detalhes da missa.

O crítico, historiador e posteriormente diretor de filmes Peter Bogdanovich chamou 1928 como o melhor ano da história do cinema. O diretor de “Lua de Papel” e “A Última Sessão de Cinema” sabia o que estava dizendo. Quando voltamos as atenções para aquele ano, e recuamos um ano antes e um ano depois, percebe-se que foram produzidos em três anos mais de 20 filmes que entrariam para a história da Sétima Arte por qualquer tipo de contribuição artística ou técnica que apresentaram, e que ajudariam a mudar a forma como se fazia cinema até então. Até mesmo o cinéfilo de memória mais curta vai lembrar em rápida passagem “Metropolis”, “Aurora”, “O Circo”, “A Turba”, “O Homem que Ri”, “Asas”, “A Paixão de Joana D’Arc”, “Vento e Areia”, “O Monstro do Circo”, “A General”, “Napoleão”, “O Cantor de Jazz”, “A Caixa de Pandora”, “A Última Ordem” e “Alta Traição” (os dois filmes perdidos do grande Emil Jannings).

lillian-gishNo final dos anos 20, um conjunto de fatores concorreu para fazer deste o melhor período da história do cinema como nos faz entender Bogdanovich (ou pelo menos o melhor período até 1939, outro importante ano para a indústria cinematográfica, na opinião de outros especialistas): a criação de novas técnicas de filmagem, a introdução de novos dispositivos para a captura e edição de imagens, grandes atores e grandes diretores ainda em atividade e outros já dando os primeiros passos para se tornarem grandes também. Garbo nunca foi mais popular, Gloria Swanson ainda era uma estrela de brilho intenso, Mary Pickford ainda era a namoradinha número 1, Lillian Gish a grande dama das telas e ainda tínhamos Louise Brooks. Do lado dos atores, Rodolfo Valentino e John Gilbert disputavam os corações do público feminino, Emil Jannings ainda não havia se convertido ao Nazismo, Lon Chaney estava no auge da carreira, John Barrymore ainda não havia afogado sua carreira no alcoolismo, e Chaplin e Keaton nos brindavam com performances de tirar o fôlego. Ao lado das estrelas de primeira grandeza, outras surgiam e já ameaçavam ofuscar todas as outras: Gary Cooper e Joan Crawford, por exemplo.

chaplin-the-circusMurnau, Dreyer, Sjöstrom, Gance, Lang, Chaplin, Keaton estavam no seu ápice como cineastas, e outros nomes vinham surgindo como grandes realizadores de filmes, entre eles Lubitsch e Mamoulian. O público da época tinha um leque tão amplo de grandes filmes para ver que era difícil chegar a uma conclusão de qual filme ver primeiro, já que as estreias era extremamente concorridas. A indústria de cinema tinha atingido o maior nível de qualidade até então, e essa afirmação vale tanto para Hollywood quanto para a Europa, uma vez que grandes realizadores do Velho Continente estavam sendo convidados para filmar na América. Todos eles, cada um à sua maneira, deixando para sempre uma importante contribuição para o cinema norte-americano.

Mas é claro que estou falando do cinema mudo. 1927 foi o ano que marcou o início do fim dos grandes espetáculos silenciosos. Quando Al Jolson disse a famosa frase “Vocês não viram nada ainda” o cinema nunca mais seria o mesmo. Depois de “O Cantor de Jazz”, nenhum estúdio por mais poderoso e por mais estrelas que tivesse sob seu contrato era capaz de comprar o interesse do público se este não fosse capaz de ouvir diálogos e música nos filmes. O surgimento do cinema sonoro provocou também o fim de uma profissão em Hollywood: a do criador dos intertítulos, os quadros de legendas que davam a entender o que o personagem dizia ou do que se tratava a história. Os filmes silenciosos eram melhores do que nunca, mas ainda eram silenciosos. “Vento e Areia”, o grande filme do sueco Victor Sjöstrom e estrelado pela maior atriz da época, Lillian Gish, foi um fracasso total de público. Por sua vez, “O Cantor de Jazz”, que era uma história banal e de qualidade duvidosa, tornou-se a maior bilheteria do período por uma simples razão: não era um filme mudo.

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Os demais filmes silenciosos foram convertidos em sonoros através de efeitos de som e dublagens, com resultados pouco satisfatórios, em uma tentativa desesperada de os estúdios atraírem o público e escaparem do prejuízo certo. Atrizes e atores que foram surpreendidos pela mudança brusca eram obrigados a rever seus métodos de atuação e a usar um instrumento que até então não era necessário porque nas palavras de Norma Desmond eles tinham rostos: a voz. Os atores europeus foram os que mais sofreram, pois além de serem obrigados a atuar em um idioma que não dominavam, tinham um sotaque que não raras vezes soava ridículo aos ouvidos atentos das novas plateias. Garbo foi a única grande estrela que escapou ilesa ao tsunami que varreu o Cinema porque a Metro-Goldwyn-Mayer que a tinha sob contrato exclusivo a protegeu de forma paternalista. Enquanto todos os demais estúdios atiravam seus astros aos leões, a Metro permitiu à Garbo um longo período de adaptação. Ela ainda estrelou seis filmes mudos entre 1928 e 1929, antes de estrear num “talkie” em 1930 dizendo suas primeiras linhas de diálogo em “Anna Christie”: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”.

maria-falconetti-passion-of-jeanne-darcGrandes filmes silenciosos fracassaram, enquanto produções baratas e outras conduzidas à toque de caixa ganhavam a atenção do público por conta de alguns poucos efeitos sonoros e alguns míseros diálogos. O Cinema tornava-se previsível de uma forma quase contemporânea, como se o Museu do Louvre convidasse o público para uma visita e em um dos salões, o mais concorrido e por isso lotado, mostrasse uma exposição de fotos do novo filme de Robert Pattinson, enquanto no salão ao lado e vazio, uma exposição semelhante mostrasse fotos raras das estrelas Lillian Gish, Mary Pickford e Gloria Swanson. Mas um dos aspectos mais negativos que vieram com o advento do cinema sonoro foi o retrocesso nas técnicas de filmagem. Em vez da câmera capaz de se mover ao longo dos cenários, os filmes agora eram obrigados a permanecer presos a cenas estáticas porque as câmeras e os microfones eram grandes e pesados demais para permitir que fossem deslocados de um canto a outro dos sets. Durante quase cinco anos, poucos filmes conseguiram escapar do estigma de “teatro filmado”. O cinema precisou ser reaprendido, primeiro engatinhando e em seguida caminhando a passos tímidos até Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland mostrarem que era possível alçar vôos, como provaram na abertura de “Cidadão Kane” mais de uma década depois.

Para ver ou rever, eis uma pequena lista do que eu considero os melhores filmes mudos lançados justamente nos últimos meses de vida do cinema mudo. Com exceção de “A Paixão de Joana D’Arc”, “O Circo” e “Napoleão”, os demais já foram comentados no Blog:

1. O Circo, 1927, de Charles Chaplin, comédia delicada sobre o vagabundo que fugindo da polícia vai trabalhar em um circo e se apaixona por uma trapezista.

2. A Turba, 1928, de King Vidor, melodrama sobre um jovem na cidade grande para o qual o sonho americano de vida se transforma em pesadelo.

3. Aurora, 1927, de F.W. Murnau, sobre um casamento em crise.

4. Metropolis, 1927, de Fritz Lang, sobre uma sociedade futurista de ricos que explora os pobres, forçando-os a trabalhos sobre-humanos.

5. Napoleão, 1927, de Abel Gance, que, à maneira de Griffith, criou um épico monumental sobre o general francês.

6. A Paixão de Joana D’Arc, 1928, de Carl Theodor Dreyer, sobre os últimos momentos de vida da heroína francesa em uma atuação antológica de Maria Falconetti.

7. A General, 1927, de Buster Keaton, que estrela a maior comédia de ação de todos os tempos como o maquinista de uma locomotiva durante a Guerra Civil norte-americana.

8. Vento e Areia, 1928, de Victor Seastrom, drama ao mesmo tempo tenso e poético sobre a sexualidade e a necessidade humana de se adaptar a um ambiente inóspito.

9. Meu Único Amor, 1927, de Sam Taylor, comédia romântica em que Mary Pickford é a garota pobre que se apaixona por um colega de trabalho sem saber que ele é filho de milionários.

10. Sedução do Pecado, 1928, de Raoul Walsh, estrelado por Gloria Swanson como uma prostituta que desperta o desejo de um missionário em uma ilha tropical.

Uma resposta

  1. Adorei! Gosto também de Nosferatu, e O Golem.

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