Filmes: Minha Rainha (1929)

MINHA RAINHA
queenkelly_1Título Original: Queen Kelly
País: Estados Unidos
Ano: 1929
Duração: 101 min.
Direção: Erich von Stroheim
Elenco: Gloria Swanson, Walter Byron, Seena Owen, Sylvia Ashto, Wilson Benge, Sidney Bracey, Rae Daggett, Florence Gibson, Madge Hunt, Tully Marshall.
Sinopse:
A vida da jovem Kitty Kelly é completamente alterada depois que o Príncipe Wolfram a vê caminhando com suas amigas de convento. O Príncipe a seqüestra e obriga Kelly a se submeter aos seus desejos. Depois de desonrada, Kelly vai para África onde acaba virando a “Rainha” em um bordel que herdara de uma tia falecida.

Uma das grandes divas do cinema mudo, a atriz Gloria Swanson caiu em desgraça com o advento do som, mais em razão de seu gênio difícil. Ela chegou a ser indicada ao Oscar três vezes, por “Sedução do Pecado” e “Tudo pelo Amor” (realizados no auge da carreira), além de “Crepúsculo dos Deuses”, realizado nos anos 50. O cineasta austríaco Erich von Stroheim tinha especial predileção pela atriz, tanto que ambos voltariam a contracenar no filme “Crepúsculo dos Deuses”, que Billy Wilder dirigiu em 1950 em papéis quase autobiográficos. Aqui ele a dirige no último filme silencioso estrelado por ela, antes de ambos se retirarem das telas, mas as filmagens foram tumultuadas. Gloria, que era uma das produtoras do filme, despediu Stroheim e mandou concluir o filme às pressas, tentando evitar um prejuízo ainda maior. “Minha Rainha”, assim como “Sedução do Pecado”, não sobreviveu completo: a versão restaurada utiliza fotos e legendas para substituir as cenas perdidas.

Um pequeno tesouro para se conhecer dois grandes mitos do cinema

Erich von Stroheim nasceu em Viena, em 1885, durante o Império Austro-Húngaro, emigrou para a América em 1909 e começou a carreira em Hollywood por volta de 1914, como consultor em filmes sobre a cultura alemã. No ano seguinte, já estava atuando em filmes, incluindo um papel não creditado em “Intolerância”, de D.W. Griffith. Ao fim da Primeira Guerra, Stroheim escrevia roteiros e dirigiu seu primeiro filme em 1919. Em pouco tempo, ganhou fama de diretor durão e autoritário, ganhando a antipatia de seus atores, mas construindo uma carreira de respeito graças aos filmes que dirigiu na época, sobretudo “Esposas Ingênuas” e “A Viúva Alegre”. Em 1923, durante as filmagens de “Merry-Go-Round” Stroheim foi despedido por um jovem assistente de produção chamado Irving Thalberg. Seu filme seguinte e o mais famoso que dirigiu, “Greed”, foi mutilado e montado à revelia do diretor pelo recém-criado estúdio MGM. Era o começo do fim da carreira de um dos maiores diretores que Hollywood já conheceu.

Muitas lendas envolvem a figura de Erich von Stroheim, ator, diretor, cenografista, roteirista e diretor de filmes, mais conhecido pelo papel que desempenhou do mordomo de Gloria Swanson no filme de Billy Wilder “Crepúsculo dos Deuses”. Não fosse pela participação deles neste filme em especial, as carreiras de Stroheim e de Gloria Swanson teriam sido esquecidas para sempre. O filme motivou críticos e cinéfilos dos anos 50 a voltarem seus olhos para algum momento dos anos 20, durante o período silencioso, onde os nomes de Stroheim e de Gloria eram disputados pelos grandes estúdios de Hollywood. Porém, quando se reuniram para as filmagens de “Minha Rainha”, de 1929, as carreiras de ambos já estavam em franco declínio. Stroheim notabilizou-se por sua postura aristocrática, sua obsessão pelos detalhes, pelo comportamento autoritário, por exigir o controle criativo total de seus filmes e por conta disso levar os estúdios à beira da falência com o alto custo de suas produções. O temperamento difícil de Stroheim surpreendentemente parecia encontrar adversário à altura em Gloria Swanson, e talvez por isso ambos compartilhassem uma admiração mútua.

“Minha Rainha” foi desde o início um projeto maldito, fadado ao fracasso. O filme era uma produção do magnata Joseph P. Kennedy – pai do futuro presidente John F. Kennedy – e amante de Gloria Swanson na época, que decidiu investir parte de sua fortuna comprando pequenos estúdios em Hollywood para produzir filmes baratos acreditando que seriam lucrativos. Um desses estúdios acabaria se tornando a célebre RKO. Durante seu envolvimento com Gloria Swanson, Kennedy bancou dois filmes para a atriz, “The Love of Sunya” (1927) e “Minha Rainha” (1928), mas esta produção que consumiu dois anos foi prejudicada por muitos problemas. O filme é baseado em uma historia de gosto duvidoso de Marian Ainslee, responsável pelos roteiros e títulos de filmes mudos importantes como “A Carne e o Diabo”, “Hallelujah!”, “Esposas Ingênuas” e “A Viúva Alegre”, esses dois últimos também dirigidos por Stroheim.

Outro problema crucial para o filme foi que Stroheim (também responsável pelo script) não tinha um roteiro pronto desde o início. Segundo consta, Gloria Swanson investiu seu dinheiro e prestígio conhecendo apenas a sinopse do filme, que envolvia um príncipe mulherengo, uma rainha louca e uma jovem que é seduzida por ele: o Príncipe Wolfram (Walter Byron) está para casar-se com a Rainha Regina V de Kronberg (Seena Owen) e governa o país com mão de ferro. Mulherengo e sem caráter, ele vê a jovem Kitty Kelly caminhando entre suas colegas de convento e, tomado pelo desejo, a sequestra, possuindo-a em seu quarto no palácio. Na manhã seguinte, eles são surpreendidos por Regina que manda açoitar a moça e a expulsa, e em seguida manda Wolfram para a prisão quando ele se recusa a casar-se com ela. Kitty viaja para a África para visitar uma tia que está doente e lá é forçada a se casar com um homem que ela odeia. Quando sua tia morre após o casamento, a moça abandona o marido e passa a comandar um bordel que herdou da tia. Com o tempo seu estilo e extravagâncias dão a Kitty o apelido de “Rainha Kelly”. Nisso, Wolfram recupera a liberdade e parte em busca da amada.

Esse roteiro absurdo mais tarde seria contestado pela atriz que alegou que assumiu o papel sem saber que seria na verdade a rainha de um bordel. A primeira opção para o papel de Wolfram seria o ator Norman Kerry, que trabalhou com Stroheim em “Merry-Go-Round”, mas quem ficou com o personagem foi Walter Byron, por uma escolha pessoal de Gloria Swanson e que desagradou Stroheim, que mais tarde reclamou que a atuação de Byron no filme deixou muito a desejar. Após o primeiro dia de filmagens, o cinegrafista Gordon Pollack foi demitido e substituído por Paul Ivano depois que os testes de luz para os figurinos feitos por Ivano se mostraram com resultados muito superiores aos obtidos por Pollack para a cena da Kambach Road, justamente onde se dá o primeiro encontro entre o Príncipe Wolfram e Kitty Kelly. O método obsessivo de Stroheim de fimar e as exigências que fazia à equipe de produção rapidamente elevaram os custos do projeto, que beirou os 800 mil dólares, uma verdadeira fortuna para a época. A ideia de Stroheim a princípio seria realizar um épico como tentou fazer em “Greed”, e se o filme tivesse seguido a sua ideia original teria mais de 4 horas de duração.

Como os custos de produção não paravam de subir e achando o filme todo de profundo mau gosto e acrescentando a isso os excessos autorais de Stroheim (a gota d’água para ela teria sido a cena do casamento em que a atriz se sentiu humilhada pelo ator Tully Marshall, segundo uma ordem que ele recebeu de Stroheim para cuspir o tabaco na mão da atriz), profundamente irritada, Gloria Swanson chamou Joseph Kennedy e ambos decidiram despedir Stroheim imediatamente. Uma das lendas sobre “Minha Rainha” dizia que a atriz adentrou o set do estúdio gritando que havia “um louco na direção”. Percebendo que muito possivelmente “Minha Rainha” não passaria pela censura norte-americana, Gloria decidiu encerrar o filme às pressas em uma tentativa desesperada de evitar um prejuízo ainda maior.

Além de Stroheim, que teria rodado cerca de um terço do filme, “Minha Rainha” teria cenas filmadas por outros diretores, entre eles Edmund Goulding e Sam Wood, além da contribuição de vários diretores de fotografia, entre os quais Hal Morh e o lendário William H. Daniels, todos não creditados. A produção ficou parada durante algum tempo até que um material adicional fosse criado para completar a história. Em 1931, Gloria Swanson escolheu pessoalmente o cinegrafista Gregg Toland, um dos maiores fotógrafos em atividade na época, para tentar recuperar seu filme.

Como Stroheim detinha os direitos de propriedade sobre o material filmado, ele se recusou a concedê-los para que uma versão “bastarda” de seu filme fosse exibida nos Estados Unidos e em outros países. Uma das cenas filmadas por Tolland e dirigidas pela própria Gloria Swanson em novembro de 1931 para o lançamento do filme na Europa consistia na sequência final em que o príncipe Wolfram vê o corpo afogado de Kelly e comete suicídio. Esta versão (conhecida como “Swanson Ending”) eliminou toda a parte do filme passada na África e não faz parte da versão restaurada lançada pela Kino nos anos 80, na qual a história continua no continente africano e utiliza fotos e legendas para completar o que não chegou a ser filmado. Por conta disso, “Minha Rainha” pode ser encontrado com 75 minutos ou 101 minutos de duração, respectivamente.

O filme foi lançado primeiramente na Europa e depois na América do Sul e permaneceu inédito nos Estados Unidos até os anos 50, quando “Crepúsculo dos Deuses” despertou a curiosidade de todos sobre aquelas duas figuras esquecidas do cinema mudo, Gloria Swanson e Erich von Stroheim. Em uma das cenas do filme de Billy Wilder, enquanto planeja seu retorno às telas com a ajuda do roteirista e amante Joe Gillis, Norma Desmond e ele assistem a um dos antigos filmes estrelados por ela no passado. O filme é nada menos do que “Minha Rainha”, e segundo Wilder, a ideia de mostrar um trecho deste filme em especial foi sugestão de Stroheim, que interpreta Max von Mayerling, o diretor que descobriu Norma na juventude e por capricho do destino tornou-se seu mordomo, como uma alusão de que “Crepúsculo dos Deuses” o tempo todo é “a arte imitando a vida”. O “filme dentro do filme” foi a primeira vez que uma cena de “Minha Rainha” era vista pelo público norte-americano até aquele momento.

Em 1966, para a primeira exibição do filme pela TV dos Estados Unidos, a versão europeia de “Minha Rainha” foi apresentada pessoalmente pela própria Gloria Swanson que contou detalhes sobre a sua produção, que pode ser conferida em duas partes no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=acwhHgCjOtk e http://www.youtube.com/watch?v=t1N0c5hJEjA.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0020298/

Queen Kelly: Kitty e Wolfram

Queen Kelly: O Açoitamento

Galeria de Imagens:

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