Grandes Diretores: Elia Kazan

ELIA KAZAN
Foi um dos maiores gênios do cinema americano, fenomenal na direção de atores, mas até sua morte carregou o fardo da mágoa de muitos colegas

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Nome: Ilías Kazantzóglu
Nascimento e local: 7 de setembro de 1909, Constantinopla, Império Otomano
Falecimento e local: 28 de setembro de 2003, Nova York
Ocupação:Ator, Diretor, Produtor, Roteirista
Casamento: Molly Day Thacher (1932–1963; morte do cônjuge), Barbara Loden (1967–1980; morte do cônjuge), Frances Rudge (1982–2003; morte de Kazan)

Filho de gregos e nascido na Turquia, Elia Kazan foi um dos mais importantes diretores da Broadway, montando obras dos principais roteiristas americanos, entre eles Tenessee Williams, e foi um dos co-fundadores do Actors Studio que teve em Marlon Brando seu aluno mais famoso. Foi um enorme diretor de atores e um fabricante de estrelas – James Dean e Warren Beatty foram seus protegidos -, sua escolha de material, que inclui “A Luz é Para Todos” e “O Que a Carne Herda” sugere uma consciência humana e liberal. Os Oscar de melhor diretor e melhor filme que recebeu por “A Luz é Para Todos” e “Sindicato de Ladrões” representam menos de dez por cento das honras que recebeu da Academia: 46 indicações e 16 premiações.

Elia Kazan conviveu por muitos anos com o conflito de ter colaborado com o macarthismo. No livro com a entrevista que deu a Michael Ciment, Elia Kazan diz no fim algo muito forte. “Não fiz tudo o que gostaria, não gosto de tudo o que fiz, mas aqui estou eu, com meus defeitos”. Ele queria ser avaliado só pelos filmes que fez a partir de “Viva Zapata!”, de 1952, para ele os únicos que contavam. Ele considerava o filme sobre o revolucionário mexicano, o verdadeiro marco zero de sua obra, uma das mais extraordinárias do cinema americano e mundial de todos os tempos.

O difícil começo

kazan2Ilías Kazantzóglu nasceu em Constantinopla, capital do antigo Império Otomano, filho de pais ortodoxos gregos, em 7 de setembro de 1909. Elia Kazan, como mais tarde passou a ser chamado, chegou a Nova York aos 4 anos. Houve um tempo em que a atual Turquia pertenceu à Grécia. Depois que os turcos se instalaram na Anatólia, os descendentes de gregos passaram a ser uma minoria oprimida e aterrorizada. A mais antiga lembrança que Kazan admitia ter era dele no colo da avó, que lhe contava as histórias dos massacres dos armênios. Além de cineasta e dramaturgo, Kazan foi autor de cinco romances, dois dos quais (“A Terra do Sonho Distante” e “Movidos Pelo Ódio”) eram parcialmente autobiográficos. Mais tarde, ele contou essas e outras histórias em “Terra do Sonho Distante” (America America), de 1963, quando se voltou para as suas origens para tentar entender quem era e por que, filho de emigrantes, ele se sentia um estrangeiro nos EUA. “Movidos Pelo Ódio” também viraria filme, em 1969.

Em seu livro, Kazan conta como a família fugiu da Turquia e se mudou para a América: “É tudo verdade. Toda a riqueza da família foi colocada no lombo de um burro e meu tio, que ainda era muito jovem, foi para Istambul para aos poucos trazer a família enquanto tentávamos escapar da opressão. É verdade que meu tio perdeu o dinheiro no caminho, e quando chegamos na cidade ele varria tapetes em uma pequena loja”. Um dos aspectos mais controversos do filme de 1963 “Terra do Sonho Distante” foi a cena em que um ator interpretando seu tio Avraam, beija o chão ao chegar à alfândega dos Estados Unidos, com a Estátua da Liberdade e a bandeira americana ao fundo. “Eu costumava dizer para mim mesmo que a América era um sonho de liberdade total, em todas as áreas”, explica Kazan: “Eu hesitei sobre isso por um longo tempo. Um grande número de pessoas não entendia como essas pessoas estavam desesperadas, e me aconselhou a cortar a cena. Quando os críticos me acusam de ser excessivo, eles estão falando de momentos como esse. Mas eu não iria cortar a cena, pois ela realmente aconteceu. Acredite, se um turco conseguiu sair da Turquia e vir até aqui, ele iria beijar o chão. Para os povos oprimidos, a América ainda é um sonho”. Kazan confessou que “Terra do Sonho Distante” era o seu filme favorito: “O primeiro filme que fiz que era inteiramente meu”.

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Kazan sempre foi um emigrado. Como toda criança pobre, começou seus estudos em escolas públicas de Nova York. Em sua biografia, Kazan descreve sua família como “alienada”. Sua mãe importava algodão da Inglaterra para revender enquanto seu pai, um próspero comerciante de tapetes, esperava que o filho seguisse na profissão. Mas Kazan queria tudo, menos trabalhar em comércio. No início, foi lavador de pratos e garçom na juventude, e escreveu um dia que a solidão e a infelicidade lhe criaram um profundo antagonismo aos privilegiados. As peças teatrais e os filmes que dirigiu refletem bem esse sentimento.

kazan-tennessee-williamsFoi o destino que o encaminhou a Escola de Arte Dramática de Yale, onde estudou de 1932 a 1939. Nova York ia conviver com um Kazan persistente, talentoso e batalhador. Sua estreia no teatro aconteceu justamente em 1932, num pequeno papel. Frequentou outros teatros e esteve sempre alinhado com artistas considerados “inconformistas”. Porém, ainda nos anos 30, integrou o Group Theatre, cujos quadros eram formados predominantemente pelos esquerdistas. Dirigiu sua primeira peça em 1934 em Nova York. Sua amizade com outros integrantes do Group Theatre foi fundamental para que se tornasse comunista, principalmente sua amizade com o lendário Lee Strasberg, que parecia mais uma figura paterna. O Group Theater tinha sua sede em Connecticut, e além de Kazan e Strasberg, incluía outros numerosos artistas, tais como Harry Morgan, John Garfield, Luise Rainer, Frances Farmer, Will Geer, Howard Da Silva, Clifford Odets, Lee J. Cobb e Irwin Shaw.

kazan-arthur-miller-death-of-a-salesman-production“O Grupo foi a melhor coisa, profissionalmente falando que já me aconteceu. Eu conheci dois homens maravilhosos, Lee Strasberg e Harold Clurman, ambos em torno dos 30 anos de idade, e que eram os líderes destemidos e magnéticos. Durante o verão, eu era apenas um aprendiz, e eles estavam atuando em um acampamento para judeus, e no final da estação, eles me disseram que eu tinha talento para alguma coisa, mas certamente não era para a atuação”, relembra Kazan em sua biografia. Sobre Lee Strasberg, Kazan relembra que ele tinha uma aura de profeta, mago, bruxo ou psicanalista, e de pai temido de uma casa de judeus: “Ele era a força que mantinha os membros do Grupo unidos, e o fazia permanentemente.”

O primeiro sucesso veio como diretor de teatro, embora no início Kazan tentasse ser ator, ele próprio reconhecia que não tinha a capacidade necessária para atuar. Mesmo assim, os críticos elogiaram suas atuações. Entre os temas que escolhia estavam preferencialmente a alienação pessoal e uma indignação com a injustiça social, e as peças que começou a dirigir para o Group Theater refletem bem essa preocupação social e política. Aos poucos Kazan foi ganhando fama e prestígio na Broadway ao dirigir peças de autores contemporâneos e clássicos que entraram para a história, como “The Skin of Our Teeth” (Por um triz, 1942), de autoria de Thornton Wilder, “A Streetcar Named Desire” (Um bonde chamado Desejo, 1949), de Tennessee Williams, e “Death of a Salesman” (Morte de um caixeiro-viajante, 1949), de Arthur Miller, entre outras.

O Actor’s Studio

Kazan escreveu livros de sucesso e os vários espetáculos que dirigiu na Broadway reafirmaram seu talento na direção de atores assim como a sua predileção por peças com temas polêmicos, e logo começou a atuar em filmes como “City for Conquest” (Dois Contra uma Cidade Inteira, de 1940) e “Blues in the Night” (Uma Canção Para Você, de 1941), e que não demoraria muito o levariam à Hollywood. Quando chegou a Hollywood, ostentava a reputação de enfant terrible da Broadway, onde montara “A Morte de um Caixeiro Viajante” e “Um Bonde Chamado Desejo”. Em 1944, seu batismo de fogo foi o filme “Laços Humanos” (A Tree Grows in Brooklyn), uma de suas primeiras tentativas em explorar dramas que centralizam em preocupações contemporâneas, que se tornaria o seu ponto forte como cineasta, e que agradou a críticos, produtores e exibidores na época.

Os primeiros filmes tratavam de temas polêmicos: “Mar Verde” (The Sea of Grass, 1947) enfocava a luta desigual de grandes contra pequenos colonos; em “O Justicieiro” (Boomerang, 1947) o foco central estava num erro jurídico, baseado em fato verídico; o racismo foi o tema em “O Que a Carne Herda” (Pinky, 1949) e a paranóia causada por uma epidemia de peste bubônica em “Pânico nas Ruas” (Panic in the Streets, de 1950), no qual Kazan também retratava de forma quase documental os miseráveis de Nova Orleans.

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Em 1947, Kazan e Strasberg fundaram o Actor’s Studio, por onde passaram nomes como Marlon Brando, Montgomery Clift, James Dean, Karl Malden, Patricia Neil, Paul Newman, Robert De Niro e Al Pacino, entre muitos outros. O ensino baseava-se no famoso “Método”, um estilo de teatro e atuação envolvendo “total imersão do ator em seu personagem”. Em pouco tempo, todos queriam estudar no Actor’s Studio, principalmente pela chance de serem orientados e dirigidos por Eliza Kazan. E foi nesse mesmo ano que Kazan ganhou o seu primeiro Oscar, com “A Luz é para Todos” (Gentleman’s Agreement), estrelado por Gregory Peck. A sua abordagem do anti-semitismo, retratado de forma inédita e corajosa por ele neste filme, na figura do jornalista Phil Green (interpretado por Gregory Peck) que para escrever um artigo sobre anti-semitismo se faz passar por judeu e percebe os terríveis preconceitos que existem à sua volta, deram a consagração como diretor. Amparado por um roteiro brilhante de Moss Hart, Kazan realizou um clássico ousado, rico em observações sociais e diálogos pertinentes. Além de vencer o Oscar nas categorias de Filme e Direção, o filme ganhou o de Atriz Coadjuvante para Celeste Holm.

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“Pânico nas Ruas’ foi o mais importante da carreira de Kazan dentro do período, por várias razões. A primeira por ter sido filmado em locações, o que deu à narrativa um aspecto documental e autêntico. Segundo, o ritmo tenso e enérgico das cenas de ação mostraram que Kazan também podia dirigir thrillers de suspense eficientes. Terceiro, a escalação do ator Zero Mostel no filme foi uma vitória pessoal do cineasta, uma vez que Mostel estava na famigerada “lista negra” dos artistas acusados pelo Comitê de Atividades Anti-Comunistas. “Cada diretor tem um ator favorito em seu elenco. O meu naquela ocasião era Zero Mostel. Eu o achava um ator maravilhoso e um companheiro extraordinário, e um dos homens mais engraçados e originais que eu conheci. Eu sempre procurava a sua companhia. Ele era uma das três pessoas que eu salvei da indústria da lista negra, pois por um longo tempo Zero não foi capaz de conseguir trabalho em filmes, mas eu tive a chance de tê-lo no meu filme”, relembrou o cineasta. “Pânico nas Ruas” ganhou o Festival de Veneza e foi premiado com o Oscar de Roteiro Original.

Revelando talentos

Em 1951, ele chocaria a moral da época com a transposição para as telas da peça “A Streetcar Named Desire”, de Tennessee Williams, que já havia encenado na Broadway. Marlon Brando estrelara a peça nos palcos e obteve uma performance arrasadora, e agora Kazan repetia a parceria com Brando, segundo o diretor,  um dos mais brilhantes atores formados no “Método” do Studio. O filme recebeu no Brasil o título de “Uma Rua Chamada Pecado”. Nele, Vivien Leigh, que estrelara a peça em Londres, vivia a neurótica e frágil Blanche du Bois, e com um elenco de coadjuvantes em que se destacavam Karl Malden e Kim Hunter (ambos premiados com o Oscar) Elia Kazan realizou uma das suas obras mais marcantes, transformando Marlon Brando até então um ator pouco conhecido, aos 27 anos, definitivamente no novo ídolo do Cinema americano.

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Apesar do sucesso, a crítica considerou o filme como um retrocesso na forma como Kazan adaptou para a linguagem cinematográfica uma peça de teatro. Kazan reconheceu as falhas de estrutura do filme, confessando que tentou levar à história para um ambiente mais “aberto”, mas que depois foi obrigado a retornar para a atmosfera de palco para permanecer fiel à história. “Nós trabalhamos muito para ampliar as cenas, mas em seguida, tivemos que voltar à peça porque estávamos perdendo a sua essência. Na peça, aquelas pessoas estão presas em uma sala uma com as outras. Eu tive que reduzir o set e fazer um conjunto menor para que a história progredisse, em sets cada vez menores”.

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Em 1952, Kazan realizou a cinebiografia do revolucionário mexicano Emiliano Zapata em “Viva, Zapata!”, e embora flertasse com a idéia primordial da busca da liberdade, o cineasta não esqueceu os aspectos e contradições eminentemente humanos do revolucionário interpretado por Marlon Brando e seus aliados, vividos por Jean Peters (Josefa, sua esposa), Anthony Quinn (seu irmão Eufemio) e Alan Reed (Pancho Villa). “Os Saltimbancos” (Man on a Tightrope), do ano seguinte, foi uma das primeiras vezes em que o diretor trocou farpas com os regimes comunistas, mesmo sendo filiado ao Partido Comunista na época.

Mas foi com “Sindicato de Ladrões” (On the Waterfront) que Elia Kazan ganhou o seu segundo Oscar, em 1954. Mais uma vez, o diretor apostou no carisma e no talento de Marlon Brando para estrelar este drama tenso e vigoroso, filmado com um realismo exarcebado – característica do cineasta – e que perdura até hoje nas antologias dos melhores filmes americanos de todos os tempos. No filme, a lealdade do estivador e ex-boxeador Terry Malloy ao irmão que trabalha para o gangster que controla o sindicato local é posta à prova quando ele se apaixona pela irmã de uma de suas vítimas. No total o filme recebeu oito estatuetas, entre as quais Melhor Filme, Diretor, Ator para Marlon Brando e Atriz Coadjuvante para a estreante Eve Marie Saint.

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Para alguns críticos, Marlon Brando tem o melhor desempenho de um ator na história do Cinema norte-americano. Curiosamente, o próprio ator declarou mais tarde que ele estava muito desapontado com a sua atuação após assistir uma prévia das primeiras cenas filmadas: “Eu fiquei tão deprimido com a minha atuação que me levantei e deixei a sala de exibição. Eu achava que aquilo seria um enorme fracasso, e sentia vergonha de mim mesmo. Sou grato a Elia por tudo o que aprendi. Ele era um professor maravilhoso”.

A partir daí, a carreira de Kazan passou a alternar bons e maus filmes, dos quais se destaca o filme seguinte “Vidas Amargas” (East of Eden, de 1955), com James Dean, uma espécie de Caim e Abel revisitado e escrito por John Steinberg, sobre dois irmãos que disputam entre si o amor do pai, que ficou para sempre marcado por ser um dos três únicos filmes estrelados por Dean pouco antes de sua morte. Adaptado da novela de John Steinbeck, o filme foi a oportunidade perfeita para Kazan lançar, à maneira que fez com Brando, outro de seus discípulos, o novato James Dean, um jovem e promissor ator que Kazan vira atuar nos palcos de Nova York e que graças ao cineasta ganhava um contrato com a Warner. Diz a lenda, que aquela viagem de avião de Nova York para Hollywood foi a primeira de sua vida e que James carregava suas roupas em uma sacola de papel.

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O trabalho inicial de filmar com James Dean foi complicado para Kazan no início por conta do temperamento difícil e das atitudes rebeldes do ator, que gostava de dirigir sua motocicleta perigosamente e possuía amizades desagradáveis, o que obrigou Kazan a mantê-lo sob constante vigilância para que ele não fugisse dos sets. Um diamante em estado bruto, Dean estava alheio aos métodos de Hollywood e talvez por isso sua atuação neste filme tenha sido tão marcante. O próprio ator ficou impressionado com seu desempenho quando viu uma exibição particular do filme ao lado do diretor Nicholas Ray, que procurava um ator para estrelar seu próximo filme “Juventude Transviada”. Ray, nem ninguém, podia acreditar que aquele jovem sentado ao seu lado, tímido e retraído, era o mesmo que preenchia a tela com uma atuação tão poderosa.

“Vidas sem Rumo” utilizou ótimas cenas ao ar livre, e tem momentos de rara poesia e pronfunda dramaticidade, provando o quanto Kazan não era apenas um dos maiores diretores que Hollywood já conheceu, mas também era um mestre ao expor na tela os dramas e os conflitos internos de seus personagens. James Dean morreria no ano seguinte em um acidente com seu carro esporte, e este filme foi o único dos três filmes que estrelou que ele conseguiu assistir por completo.

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Seguiram-se “Boneca de Carne” (Baby Doll, 1956) e “Rio Violento” (Wild River, 1960), que não alcançaram grande repercussão. Foi somente em “Clamor do Sexo” (Splendor in the Grass, 1961) que o talento de Kazan para revelar jovens atores mais uma vez fez a diferença. Baseado em novela de William Inge sobre a repressão sexual nos anos 20, o filme foi a estreia nas telas de Warren Beatty. Beatty era um jovem ator que procurou Kazan na esperança de aprender com ele tudo que pudesse. A arrogância e a juventude daquele jovem impressionou o diretor desde o início: “Era óbvio desde a primeira vezque eu o vi que Warren queria tudo e o queria à sua maneira, e por que não? Ele tinha energia, uma inteligência muito forte, e mais ousadia do que qualquer judeu que eu conheci. Mais do que eu. Brilhante, intrépido e com aquilo que faz as mulheres o respeitarem secretamente, uma total confiança em sua força sexual, uma confiança tão grande que ele nunca precisou fazer publicidade de si mesmo”.

Mais uma vez, a figura paterna que o diretor exercia sobre seus atores foi exigida. Durante a primeira semana de filmagem, Beatty irritou-se profundamente com algo que Kazan disse para ele, e o desafiou, tentando atingi-lo da forma mais dura possível. Beatty mais tarde relembrou o episódio como “uma tentativa parricida de enfrentar o grande Elia Kazan, em que eu o desafiei de forma arrogante e estúpida”. Kazan agarrou o braço do ator e o arrastou para um pequeno camarim, onde ficaram por duas horas. Mais tarde, durante uma homenagem a Elia Kazan, Beatty confessou que naquelas duas horas “Kazan havia me dado a pausa mais importante de minha carreira”.

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Outra dificuldade para Kazan foi fazer a transição da estrela infantil Natalie Wood em uma atriz adulta, em seu primeiro filme interpretando uma personagem adulta, Wilma Dean “Deanie” Loomis, que se apaixona pelo jovem Bud Stamper (Beatty), contra a vontade dos pais de ambos. A carreira de Natalie estava ameaçada por conta de papéis ruins que vinha fazendo. Em uma primeira entrevista com o diretor, Kazan percebeu por trás dos olhos desesperados da jovem atriz o material humano que ele precisava para a sua co-protagonista. O trabalho com Elia Kazan neste filme não só recuperou a carreira de Natalie, como a experiência forneceu-lhe maturidade emocional suficiente para que ela enfrentasse alguns demônios pessoais em cenas importantes no filme. Segundo um crítico de cinema, “a magia de Kazan produziu uma histeria em Natalie Wood que pode ter sido o seu momento mais poderoso como atriz”.

Vieram em seguida “Terra do Sonho Distante” (America, America, 1963) e “Movidos pelo Ódio” (The Arrangement, 1969), dois filmes de implicações autobiográficas. Depois de passar a década de 70 praticamente sem filmar – seu único filme no período, “Os Visitantes” (The visitors, 1972), não obteve grande repercussão -, Kazan retornou para trás das câmeras com o seu derradeiro trabalho cinematográfico: “O Último Magnata” (The Last Tycoon), de 1976, estrelado por Robert Redford e baseado na obra de F. Scott Fitzgerald.

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Dedo duro

Ao contrário de Billy Wilder, que virou uma rara unanimidade, Elia Kazan foi sempre motivo de discórdia. Em 1999, Kazan foi homenageado pela Academia de Hollywood com um Oscar honorário, pelo conjunto da obra. Em geral, o público se levanta para aplaudir de pé esses artistas que são sempre recompensados por sua contribuição à arte e à indústria do cinema. Kazan não foi vaiado, como se temia que fosse, mas poucos se levantaram (entre os quais Kathy Bates, Meryl Streep e Warren Beatty) e a maioria sequer aplaudiu, entre eles Ed Harris, Nick Nolte, Holly Hunter, Ian McKellen e Ed Begley Jr. Outros artistas, como Sean Penn (cujo pai foi vítima do macartismo), Richard Dreyfuss e Rod Steiger foram a público declarar sua oposição à decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

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Essa hostilidade tem a ver com o que houve com ele no começo dos anos 50, quando Kazan aceitou colaborar com o macarthismo, entregando os nomes de alguns comunistas ao Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas do Senado, alguns deles seus colegas do tempo de Group Theater, como Clifford Odets, J. Edward Bromberg e Paula Miller, que mais tarde se casaria com Lee Strasberg. Outros artistas da época, como John Huston e Humphrey Bogart, resistiram à pressão do Comitê. Na verdade, embora pressionado, Kazan dedurou seus colegas não só para ver-se livre dos interrogatórios, mas também em protesto contra os rumos que tomara o Partido Comunista Americano, cujos quadros integrou. Kazan abominava o stalinismo e quando fez seu retrato do revolucionário Zapata, o personagem que saiu era trotskista. Os defensores de Kazan consideram absurdo dizer que ele pessoalmente tenha destruído carreiras com a sua delação pois os nomes que forneceu já estavam na lista negra do Comitê, e sua delação foi muito mais simbólica, enquanto outros acreditam que, ao confirmar tais informações, ele tacitamente deu seu apoio ao macartismo.

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De qualquer forma, Kazan plantou e colheu o ódio de vários colegas ao longo das décadas, fazendo com que perdesse muitos amigos, entre eles o escritor Arthur Miller. Sobre seu testemunho no Comitê, Orson Welles teria dito: “Kazan trocou a alma por uma piscina”. Muitos atores e diretores que aceitaram colaborar com o macarthismo foram destruídos como artistas e até como indivíduos, mas Kazan transformou sua delação em uma espécie de armadura moral. O resultado foram filmes cada vez mais críticos do estilo americano, como se ele quisesse deixar claro que não delatou para ganhar pontos em Hollywood. Por isso, considerava os filmes posteriores a “Viva Zapata!” os que melhor expressavam suas idéias, os únicos pelos quais gostaria de ser lembrado: “Aqui estou eu, tal como sou. Pensem o que quiserem, mas me avaliem pela obra. Quem tem de gostar da minha vida sou eu.”

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Elia Kazan foi casado três vezes. Sua primeira esposa foi a dramaturga Molly Day Thacher, com quem se casou em 1932, permanecendo casados até a morte dela em 1963. Este casamento deu a Kazan duas meninas e dois meninos. Seu segundo casamento foi com a atriz Barbara Loden, e durou de 1969 até a morte dela em 1980. A união gerou um único filho. Por último, Kazan casou-se com Frances Rudge, com a qual ficou casado de 1982 até a morte do cineasta, em 2003.

Afastado do cinema desde o final dos anos 70, Elia Kazan ainda recebeu no Festival de Berlin de 1996 um Urso de Ouro Honorário, além do Oscar Especial em 1999, que reavivou as velhas feridas de seu passado como delator. Elia Kazan tem seu nome na Calçada da Fama, no número 6800 do Hollywood Boulevard. Ele faleceu aos 94 anos, em 30 de setembro de 2003.

Filmografia:

1976 – The Last Tycoon (O último magnata)
1972 – The Visitors (Os visitantes)
1969 – The Arrangement (Movidos pelo ódio)
1963 – America, America (Terra de um sonho distante)
1961 – Splendor in the Grass (Clamor do sexo)
1960 – Wild River (Rio violento)
1957 – A Face in the Crowd (Um rosto na multidão)
1956 – Baby Doll (Boneca de carne)
1955 – East of Eden (Vidas amargas)
1954 – On the Waterfront (Sindicato de ladrões)
1953 – Man on a Tightrope (Os saltimbancos)
1952 – Viva Zapata! (Viva Zapata!)
1951 – A Streetcar Named Desire (Uma rua chamada pecado)
1950 – Panic in the Streets (Pânico nas ruas)
1949 – Pinky (O que a carne herda)
1947 – Gentleman’s Agreement (A luz é para todos)
1947 – Boomerang! (O justiceiro)
1947 – The Sea of Grass (Mar verde)
1945 – A Tree Grows in Brooklyn (Laços humanos)
1937 – The People of the Cumberland (curta-metragem)

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