Filmes: Monstros (1932)

MONSTROS
freaks_1Título Original: Freaks
País: Estados Unidos
Ano: 1932
Duração: 64 min.
Direção: Tod Browning
Elenco: Wallace Ford, Josephine Joseph, Violet Hilton, Daisy Hilton, Rose Dione, Daisy Earles, Harry Earles, Henry Victor, Roscoe Ates, Leila Hyams, Olga Baclanova, Prince Randian.
Sinopse:
Em um circo de atrações bizarras, a linda trapezista Cleopatra é cortejada pelo anão Hans, mas o rejeita até descobrir que este herdou uma fortuna. Seu plano, forjado com o amante Hercules, é casar para depois envenenar o pequeno, mas logo a armação é descoberta e os diferentes se unem pela vingança.

Com o prestígio em alta pelo sucesso obtido com “Drácula”, do ano anterior, o diretor Tod Browning decidiu resgatar um pouco de suas memórias do tempo em que era artista de circo (ele teria fugido de casa quando jovem ao apaixonar-se por uma artista circense e acabou tornando-se contorcionista), e criou este filme curioso, que flerta com o horror, o drama e o humor negro ao trazer para as telas artistas de circo reais e seres humanos com deformidades, algumas realmente chocantes aos olhos do espectador moderno, que dirá ao público da época em que o filme foi lançado. Por conta disso, “Freaks” gerou reações adversas, que acabaram fazendo com que o estúdio MGM fosse obrigado a remover as cenas que eram consideradas mais chocantes, reduzindo em muito a duração do filme. O número excessivo de cortes, porém, não foi suficiente e “Freaks” acabou sendo banido em vários países. Depois que a poeira da polêmica baixou, o filme de Tod Browning acabou caindo no esquecimento e só foi redescoberto décadas mais tarde.

O mais polêmico e visionário filme do mestre do horror Tod Browning

Segundo consta em sua biografia, o bem nascido Tod Browning teria fugido de sua casa no Kentucky aos 16 anos para se juntar a um circo, graças à paixão juvenil que nessa época nutria por uma bailarina. Essa página de sua história é tão relevante que as experiências vivenciadas por ele reverberam nos seus filmes posteriores e, claro, em “Freaks”, sua obra mais controversa.

Censurado, impactante e único. Esses são alguns dos adjetivos que podem ser facilmente veiculados ao filme de 1932. Tod Browning já havia impressionado o mundo do cinema um ano antes com o lendário “Drácula” com Bela Lugosi, mas nada naquele filme – ou em outros que ele havia dirigido ainda no período silencioso – como “O Monstro do Circo”, estrelado por Lon Chaney – havia preparado o público para o que se veria nas telas, sobre um grupo de seres humanos deformados, expostos como aberrações num circo. “Freaks” é baseado em uma história chamada “Spurs” de autoria de Tod Robbins, cujos direitos pertenciam à MGM desde o começo da década de 20. O sucesso da Universal com seus filmes de horror levou a MGM a decidir filmar a história, contratando Tod Browning, que até então era o maior especialista do gênero.

“Freaks” não é um filme de horror como seus contemporâneos “Drácula” e “Frankenstein”, mas utiliza elementos do horror como parte do poderoso e trágico drama de seus personagens, que não são monstros de verdade, mas aos olhos das pessoas “normais” acabam sendo chamados de “monstros” ou “esquisitos”, como o título original “Freaks” sugere. A memória recente do drama dos mutilados da Primeira Guerra Mundial ofereceu a reação emocional que os produtores queriam suscitar no público e que em parte ajudou a tornar esses filmes tão populares. O chefe de produção Irving Thalberg deu carta branca à Browning, que pessoalmente selecionou pela Europa e América do Norte os artistas de circo vistos no filme: Violet e Daisy Hilton, as famosas gêmeas siamesas, os irmãos anões Harry e Daisy Earles, Johnny Eck “The Half Boy”, Josephine Joseph, hermafrodita, Peter Robinson “O Esqueleto Humano”, Elvira e Jenny Lee Snow “As Irmãs Pinhead”, Elizabeth Green “Bird Girl”, Randian “O Torso Vivo” e Frances O’Connor “The Armless Girl”, entre outros seres humanos que permanecerão vivos por muito tempo na mente de todos que assistiram o filme.

Em uma interessante inversão de conceitos entre aberrações e “normais”, onde a grande vilã é uma mulher de muita beleza e nenhuma riqueza moral, a trapezista Cleópatra, interpretada pela esquecida Olga Baclanova. Cleopatra tem em seu amante Hércules (Henry Victor) o par perfeito para explorar o anão Hans (Harry Earles, que era de fato um ator brilhante e também atuou em “The Unholy Tree”, também dirigido por Browning), dono do circo de aberrações onde ela trabalha, em busca dos níqueis herdados por ele. Cleópatra seduz, manipula, e envenena o pequeno pouco a pouco, e até se casa com ele. Ela o humilha durante o jantar de casamento perante seus outros colegas “monstros”, que até aquele momento a aceitavam de braços abertos aos brados de “Nós a aceitamos, como uma de nós”. Mas como nos é revelado no prólogo do filme, entre as criaturas do circo, existe um sério código de proteção mútua, já que a união é a única forma de se defenderem das ofensas, dos maus tratos e da marginalidade, ao qual estão sujeitos desde o nascimento. Cleópatra acaba se tornando vítima de sua própria arrogância e se transformando naquilo que ela mais odiava.

Quando foi lançado em janeiro de 1932, a reação do público foi de repulsa e choque. Uma mulher chegou a acusar o filme de tê-la feito sofrer um aborto espontâneo durante a sua exibição, e assim “Freaks” recebeu da MGM um corte de cerca de 30 minutos na sua duração, tendo perdido trechos que nunca mais seriam recuperados. Entre as cenas removidas estaria uma sequencia final mostrando o vilão Hercules cantando como soprano após ser castrado pelos colegas de picadeiro. Os cortes não ajudaram o filme, que acabou sendo proibido em vários estados americanos e pelo mundo todo até os anos 60, quando foi redescoberto pelos cinéfilos e finalmente reconhecido por suas qualidades cinematográficas. O nome de Browning, até então limitado ao êxito de “Drácula”, passou a ser reverenciado como um dos diretores pioneiros e mais visionários do início dos filmes de horror hollywoodianos, ao lado de outro mestre do gênero, James Whale, o realizador de “Frankenstein” e “A Noiva de Frankesntein”.

Para os papéis principais de Hercules e Cleopatra o estúdio tinha sugerido Victor McLaglen e Myrna Loy, com Jean Harlow atuando como Venus. Devidos aos cortes, muitos dos detalhes da história passam despercebidos, envolvendo cada um dos personagens. Mesmo Cleopatra, em toda a sua beleza, parece esconder algum tipo de deformidade que a teria obrigado a refugiar-se ali. Por usar artistas de circo verdadeiramente deformados, Browning foi acusado de explorador e oportunista, mas não é isso que se observa. O romance entre os anões Hans e Frieda é abordado de forma discreta porque estavam sendo vividos por um casal de irmãos na vida real, Harry e Daisy Earles, e todos os artistas ali parecem estar felizes atuando no filme. Claramente se percebe o enorme carinho e cuidado com que Browning os retrata. Mas sem perceber, esse diretor tão talentoso e ousado dava seu primeiro passo para o ostracismo. Depois de “Freaks” ele faria apenas mais quatro filmes, sendo dois não creditados, e encerraria a carreira em 1939.

A atriz principal do filme, a russa Olga Baclanova, que vinha de bons filmes ainda no período silencioso, como “The Man Who Laughs”, de Paul Leni, e “The Docks of New York”, de Josef von Sternberg, teria sua carreira praticamente destruída após o filme. A atriz mais tarde lembrou como foi seu primeiro encontro com o elenco de apoio: “Tod Browning os apresentou um a um, e eu não podia olhar para eles, eu quase desmaiei. Eu queria chorar quando os vi. Eles tinham rostos bonitos, mas eram muito pobres, você sabe. Browning me segurou e disse para eu ser forte e não desmaiar novamente porque eu teria que trabalhar com eles. E foi muito dificil na primeira vez. Cada noite eu me sentia muito mal porque eu não conseguia olhar para eles. Eu estava muito deprimida e eu não conseguia… aquilo me feria como ser humano”.

Como curiosidade, o anão Angelo Rossitto, que atua como Angeleno, teve uma bem sucedida carreira na TV e em filmes, que incluem uma participação no seriado “Baretta” e como parte do gigante “Master Blaster” que enfrenta Mel Gibson na arena da morte em “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão”.

Por toda essa bagagem que o filme possui, fica claro que “Freaks” não é para qualquer espectador. Não são muitos os dotados de sensibilidade e capazes de observar uma obra que carrega em si o preconceito que se tem em relação ao que é comumente tido como disforme ou diferente e que faz um inusitado estudo psicológico sobre o que é mais terrível aos olhos de todos: um corpo deformado ou uma alma deformada? Tendo incomodado por décadas “Freaks” se tornou um espinho difícil de ser arrancado. E através de sua ousadia e humor negro mordaz, sua contemporaneidade vai continuar instigando os cinéfilos por muito tempo ainda.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0022913/

Filme:

Galeria de Imagens:

3 Respostas

  1. Ricardo de Brito | Responder

    Muito interessante a review.

    Stephen King uma vez disse que começar a falar sobre Freaks era uma boa técnica para reduzir o grupo de aficionados por horror. Quando vários deles deixavam a sala, você sabia que estava agora com os verdadeiros fãs de filmes de horror e podia evoluir com a conversa sobre o gênero. Acredito que ele estava certo.

    1. Sim, imagine vc se o filme tivesse sobrevivido completo ou se as cenas removidas pudessem ser reintegradas à narrativa, que filme não teríamos hoje, o que mostra o quanto Browning era visionário. Revendo o filme para o blog, percebi muitas coisas subentendidas e o final, infelizmente, foi terrivelmente mutilado, resultando num anti-clímax. Mesmo assim, é um filme que permanece impressionando. Obrigado pelo comentário.

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