Arquivos Mensais: maio \31\UTC 2013

Filmes: Ouro e Maldição (1924)

OURO E MALDIÇÃO
greed_1Título Original: Greed
País: Estados Unidos
Ano: 1924
Duração: 140 min.(239 min. na versão restaurada)
Direção: Erich von Stroheim
Elenco: Gibson Gowland, Zazu Pitts, Jean Hersholt, Chester Conklin, Sylvia Ashton, Dale Fuller, Joan Standing, Austin Jewel, Tempe Pigott, Chester Conklin.
Sinopse:
O filme mostra a transformação do caráter de três pessoas. John McTeague, um mineiro que se torna dentista, conquista a namorada do seu melhor amigo Marcus. Quando a moça ganha 5.000 dólares na loteria, por vingança, Marcus acusa McTeague de se casar por dinheiro e informa as autoridades que este não tem licença para exercer a profissão de dentista. Privado do seu magro rendimento e com a mulher obcecada por dinheiro, McTeague vê o seu casamento e a sua vida serem destruidos.

Com roteiro de Joseph Farnham, June Mathis e Erich von Stroheim, a partir do romance “McTeague” do escritor naturalista Frank Norris, foi o primeiro filme inteiramente filmado em locações (inclusive cenas internas) e levou dois anos em produção. Superprodução da MGM, este portentoso drama seria o melhor cartão de visita do grande diretor austríaco Erich von Stroheim, um ambicioso estudo sobre os desejos humanos de amor, cobiça e inveja, porém ficou mais famoso pelas brigas entre o realizador e os produtores do filme. No fim, estes obrigaram a redução da narrativa e a exclusão de outras duas histórias paralelas (dos vizinhos idosos que se amavam em segredo e da vendedora de bilhetes de loteria que é assassinada pelo desconfiado e sinistro companheiro), totalizando pouco mais de duas horas de projeção. Nos anos 90, uma versão restaurada, com quatro horas de duração, estabeleceu uma edição definitiva e a possibilidade de conhecer mais profundamente o gênio criativo de Stroheim.

A obra-prima incompreendida de Erich von Stroheim

Muitas lendas rondam o majestoso “Ouro e Maldição”, que Eric von Stroheim dirigiu na primeira metade da década de 20 e que ficou conhecido como “o grande filme perdido” ou “a obra-prima incompleta” mais importante do cinema. Não é preciso mencionar que a versão original tinha cerca de 8 horas ou mais de duração e que o produtor executivo Irving Thalberg mandou reduzir o filme a pouco mais de 2 horas, fato já trazido à tona por livros e sites especializados centenas de vezes. Naquela época era comum os estúdios reaproveitarem o nitrato de prata contido nas películas e dificilmente uma matriz original era preservada. Por conta disso, uma gigantesca porção de filmes mudos foi extinta para sempre. Esse foi o provável destino das 7 horas excedentes de “Ouro e Maldição”, ainda que muita gente prefira acreditar que o material ainda esteja num depósito qualquer, esperando ser descoberto algum dia. Seja como que for, felizmente existe uma versão restaurada de 4 horas, lançada nos anos 90 e contendo as sequências já conhecidas da versão oficial, acrescidas de fotos e legendas das cenas desaparecidas, permitindo aos cinéfilos terem uma noção do que o seu diretor tinha em mente.

Apaixonado pelo grandioso romance naturalista “McTeague”, de Frank Norris (1870-1902), publicado em 1899, Stroheim começou em 1923 a rodar uma adaptação do livro para a Metro-Goldwyn-Mayer. A mitologia em torno do filme diz que o desejo de Stroheim era fazer de “Ouro e Maldição” a sua obra-prima. Stroheim quis fazer uma adaptação fidelíssima da história de Frank Norris, porém, Irving Thalberg nunca acreditou no projeto. O chefe de produção da MGM julgava que as plateias não se interessariam pela história, que o filme seria extremamente obscuro e que o final era pessimista demais, mesmo assim resolveu bancar o projeto com base no prestígio que Stroheim ainda possuía na época. No total, teriam sido rodados 446 rolos de filme. A primeira versão editada pelo diretor, segundo algumas fontes, variava entre 42 e 47 rolos, algo entre 8 e 10 horas. A segunda versão de algo acima de quatro horas e que também foi recusada pelo estúdio, assim como a versão do montador Grant Whytock, que tinha três horas de duração. A MGM resolveu tirar o filme das mãos de Stroheim. “Greed” foi então montado à revelia do diretor e lançado em janeiro de 1925 em uma versão de 130 minutos. O resto do material teria sido queimado pelo estúdio anos depois, segundo se conta, para aproveitar as quantidades ínfimas de prata extraíveis a partir do nitrato com que se fazia os negativos. De qualquer forma, Stroheim nunca assistiu à versão exibida comercialmente na época do seu lançamento.

A MGM terminou por excluir os dois enredos paralelos da versão oficial, mantendo somente a história do minerador McTeague (Gibson Gowland). Por décadas, o público ignorou a história dos vizinhos idosos que se amavam em segredo ou da vendedora de bilhetes de loteria que é assassinada pelo desconfiado e sinistro companheiro. Na verdade, ambas as tramas não fazem falta, embora haja aquela sensação de que poderiam ser base para outros dois grandes filmes. O personagem principal de “Ouro e Maldição” não é totalmente mau, mas a decadência lhe extrai um pouco da moralidade. A origem de McTeague é humilde, ele trabalhava como minerador de ouro numa cidadezinha rural da Califórnia até aprender uma profissão com um dentista. McTeague resolveu ir a San Francisco e logo se viu numa boa situação ao herdar as economias da mãe e abrir uma clínica odontológica. Entre um cliente e outro, conheceu Trina, que já estava comprometida com um sujeito chamado Marcus (Jean Hersholt), amigo de McTeague. Contrariando as expectativas, os dois amigos não brigaram de imediato e Marcus praticamente ofereceu Trina ao falso dentista sem nenhum interesse. Tudo é conduzido de maneira leve e idílica até o momento em que a moça ganha na loteria. É quando a maldição do título de fato começa.

“Quando falta dinheiro, o amor sai pela janela”, diz um ditado popular francês. A mensagem de “Ouro e Maldição” é quase um inverso e, ao mesmo tempo, uma conclusão desse pensamento. O título original do filme (“Greed”) significa avareza, o pecado capital que permeia a história e que provoca a transformação radical de Trina (Zasu Pitts). Vista a princípio como uma moça ingênua, delicada e tímida, após receber o prêmio de 5.000 dólares e se casar com McTeague, ela se transforma em um poço de mesquinhez. Em determinado momento, ela chega a forrar a cama com moedas de ouro e dorme sobre a própria fortuna. A relação com o marido, de quem esconde cada centavo que acumula, vai se deteriorando aos poucos, ganhando proporções trágicas. O comportamento de McTeague também se modifica, mas em um plano quase metafísico. A agressividade o domina para saciar o desejo de passar o dia com os amigos no bar e de gastar com coisas inúteis tipicamente masculinas.

A história segue com McTeague, Trina e Marcus adquirindo novas personalidades. O ex-minerador segue como uma criança grande, fazendo o que os adultos lhe ordenam, reclamando às vezes e reagindo quando contrariado. A estranha sensibilidade de McTeague é simbolizada por uma paixão que cultiva pelos pássaros. No dia do casamento, oferece à esposa um casal de canários amarelos, animais que acabam representando o clima da casa em algumas tomadas (quando McTeague e Trina estão a sós na noite de núpcias, os pássaros dão a impressão de se beijar; quando McTeague e Trina estão discutindo, os pássaros parecem brigar). As intrigas levam o filme a um clímax ambientado na região desértica do Vale da Morte, entre os estados da Califórnia e Nevada. Os produtores queriam que o final fosse rodado em estúdio, mas Stroheim como sempre fez à sua maneira: levou toda a equipe de filmagem para o deserto, onde os equipamentos precisavam ser resfriados com toalhas geladas a todo instante. O ator Jean Hersholt chegou a passar mal devido o forte calor e a desidratação, precisando ser hospitalizado durante as filmagens.

Ironicamente, o enredo básico de “Ouro e Maldição” e toda a mitologia sobre o filme sublinham a história do próprio Erich von Stroheim: o efeito devastador que o dinheiro pode ter na vida das pessoas. Poeta da decadência moral e da prevalência da força sobre a generosidade, Stroheim também acabou vítima da própria ambição. Ator, roteirista e diretor de muitos talentos mas de métodos nada ortodoxos, Stroheim não conseguiu levar adiante seus planos de se tornar um dos maiores realizadores da história do cinema por conta de seu gênio excêntrico. Ele começou como ator e em seguida como assistente de D.W. Griffith. Seu gosto pela decoração e pelos figurinos levava o estúdio a estourar seus orçamentos na construção de cenários luxuosos. Sua visão psicológica das nuances do comportamento humano fez com que se interessasse por histórias pouco convencionais. Insatisfeito, rodava a mesma cena à exaustão e estendia seus filmes a tempos de duração absurdos. Antes de iniciar as filmagens de “Greed”, Stroheim tinha feito apenas quatro filmes, sendo que em um fora demitido por desavenças durante a montagem pelo mesmo Irving Thalberg (na época assistente de produção da Universal) e em outro seu nome foi retirado dos créditos por conta dos atrasos nas filmagens: “Esposas Ingênuas”, de 1922, e “Merry-go-Round”, de 1923. Stroheim também foi demitido em seus dois filmes posteriores a “Greed”: “The Wedding March”, de 1928, depois que os custos de produção chegaram a mais de um milhão de dólares, e em 1929 pela estrela Gloria Swanson devido aos seus excessos em “Minha Rainha”. Em 1924, quando chegou à Metro, a megalomania do diretor alcançou níveis estratosféricos.

Porém, um dos aspectos mais impressionantes em “Greed” é a construção dos personagens. Vemos apenas uma prévia das intenções de Stroheim na tela, e isso é suficiente para projetar na imaginação do público o que poderia ter sido esse seu estudo do comportamento humano se a visão artística do diretor tivesse sobrevivido completa. Como em todo bom romance naturalista, o comportamento dos personagens deriva menos das decisões que eles tomam de acordo com seu caráter e mais de um misto de conteúdo genético adquirido (McTeague é apresentado como tendo a ternura da mãe mas também a carga animal que herdou do pai) e responde de forma violenta ao meio em que vive. Ele se torna menos agressivo quando em companhia da jovem e delicada Trina. Contudo, mesmo com todos os inúmeros cortes que o filme teve, McTeague, Trina e Marcus revelam nuances de comportamento muito vastas e ricas, inéditas no cinema mudo até então e raras de se encontrar mesmo nos filmes contemporâneos, onde está cada vez mais difícil encontrar personagens que são reinventados a cada nova cena.

Presas dos instintos unicamente, os personagens de “Greed” são muitas vezes refletidos em animais, e não apenas no casal de pássaros que parecem reagir conforme a atitude de seus donos. Quando fica claro que foi Marcus que denunciou a falta de diploma de seu ex-colega, uma fusão o compara a um gato que covardemente pula sobre a gaiola dos pássaros para saciar sua fome. Ainda em outra situação, cobras e lagartos exprimem a aridez do ambiente e do comportamento dos personagens. Quanto à sequência final, filmada no Vale da Morte, nada a dizer a não ser que ela antecipa em quase 40 anos os planos exaustivos que fizeram de Antonioni um dos mestres do cinema moderno e a luminosidade abrasiva de muitos clássicos dos anos 50 e 60.

Quase 90 anos se passaram e “Ouro e Maldição” ainda motiva uma infinidade de histórias, reafirmando a própria lenda para as novas gerações. As moedas de ouro espalhadas pela terra árida do Vale da Morte encontram resposta na aclamação máxima da crítica que o filme receberia tardiamente. Embora mutilado, este é um filme de valor histórico incalculável e uma fonte inesgotável de ideias incompreendidas.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0015881/

Última Cena:

Galeria de Imagens:

10 Filmes mudos que você precisa assistir

O FIM DE UMA ERA DO CINEMA

napoleonO final da década de 20 coincide com o surgimento do cinema sonoro. Coincidentemente também foi o período que representou uma efervescência no modo como se faziam filmes até então, quando alguns realizadores mais ousados e outros mais visionários decidiram rasgar a velha cartilha da gramática cinematográfica que D.W. Griffith parecia ter escrito em louça desde que lançou o seu “O Nascimento de uma Nação”, em 1915. Desde aquela época todos os realizadores de filmes posteriores a Griffith trataram de estudar seus dogmas, seguindo à risca todos os detalhes da missa.

O crítico, historiador e posteriormente diretor de filmes Peter Bogdanovich chamou 1928 como o melhor ano da história do cinema. O diretor de “Lua de Papel” e “A Última Sessão de Cinema” sabia o que estava dizendo. Quando voltamos as atenções para aquele ano, e recuamos um ano antes e um ano depois, percebe-se que foram produzidos em três anos mais de 20 filmes que entrariam para a história da Sétima Arte por qualquer tipo de contribuição artística ou técnica que apresentaram, e que ajudariam a mudar a forma como se fazia cinema até então. Até mesmo o cinéfilo de memória mais curta vai lembrar em rápida passagem “Metropolis”, “Aurora”, “O Circo”, “A Turba”, “O Homem que Ri”, “Asas”, “A Paixão de Joana D’Arc”, “Vento e Areia”, “O Monstro do Circo”, “A General”, “Napoleão”, “O Cantor de Jazz”, “A Caixa de Pandora”, “A Última Ordem” e “Alta Traição” (os dois filmes perdidos do grande Emil Jannings).

lillian-gishNo final dos anos 20, um conjunto de fatores concorreu para fazer deste o melhor período da história do cinema como nos faz entender Bogdanovich (ou pelo menos o melhor período até 1939, outro importante ano para a indústria cinematográfica, na opinião de outros especialistas): a criação de novas técnicas de filmagem, a introdução de novos dispositivos para a captura e edição de imagens, grandes atores e grandes diretores ainda em atividade e outros já dando os primeiros passos para se tornarem grandes também. Garbo nunca foi mais popular, Gloria Swanson ainda era uma estrela de brilho intenso, Mary Pickford ainda era a namoradinha número 1, Lillian Gish a grande dama das telas e ainda tínhamos Louise Brooks. Do lado dos atores, Rodolfo Valentino e John Gilbert disputavam os corações do público feminino, Emil Jannings ainda não havia se convertido ao Nazismo, Lon Chaney estava no auge da carreira, John Barrymore ainda não havia afogado sua carreira no alcoolismo, e Chaplin e Keaton nos brindavam com performances de tirar o fôlego. Ao lado das estrelas de primeira grandeza, outras surgiam e já ameaçavam ofuscar todas as outras: Gary Cooper e Joan Crawford, por exemplo.

chaplin-the-circusMurnau, Dreyer, Sjöstrom, Gance, Lang, Chaplin, Keaton estavam no seu ápice como cineastas, e outros nomes vinham surgindo como grandes realizadores de filmes, entre eles Lubitsch e Mamoulian. O público da época tinha um leque tão amplo de grandes filmes para ver que era difícil chegar a uma conclusão de qual filme ver primeiro, já que as estreias era extremamente concorridas. A indústria de cinema tinha atingido o maior nível de qualidade até então, e essa afirmação vale tanto para Hollywood quanto para a Europa, uma vez que grandes realizadores do Velho Continente estavam sendo convidados para filmar na América. Todos eles, cada um à sua maneira, deixando para sempre uma importante contribuição para o cinema norte-americano.

Mas é claro que estou falando do cinema mudo. 1927 foi o ano que marcou o início do fim dos grandes espetáculos silenciosos. Quando Al Jolson disse a famosa frase “Vocês não viram nada ainda” o cinema nunca mais seria o mesmo. Depois de “O Cantor de Jazz”, nenhum estúdio por mais poderoso e por mais estrelas que tivesse sob seu contrato era capaz de comprar o interesse do público se este não fosse capaz de ouvir diálogos e música nos filmes. O surgimento do cinema sonoro provocou também o fim de uma profissão em Hollywood: a do criador dos intertítulos, os quadros de legendas que davam a entender o que o personagem dizia ou do que se tratava a história. Os filmes silenciosos eram melhores do que nunca, mas ainda eram silenciosos. “Vento e Areia”, o grande filme do sueco Victor Sjöstrom e estrelado pela maior atriz da época, Lillian Gish, foi um fracasso total de público. Por sua vez, “O Cantor de Jazz”, que era uma história banal e de qualidade duvidosa, tornou-se a maior bilheteria do período por uma simples razão: não era um filme mudo.

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Os demais filmes silenciosos foram convertidos em sonoros através de efeitos de som e dublagens, com resultados pouco satisfatórios, em uma tentativa desesperada de os estúdios atraírem o público e escaparem do prejuízo certo. Atrizes e atores que foram surpreendidos pela mudança brusca eram obrigados a rever seus métodos de atuação e a usar um instrumento que até então não era necessário porque nas palavras de Norma Desmond eles tinham rostos: a voz. Os atores europeus foram os que mais sofreram, pois além de serem obrigados a atuar em um idioma que não dominavam, tinham um sotaque que não raras vezes soava ridículo aos ouvidos atentos das novas plateias. Garbo foi a única grande estrela que escapou ilesa ao tsunami que varreu o Cinema porque a Metro-Goldwyn-Mayer que a tinha sob contrato exclusivo a protegeu de forma paternalista. Enquanto todos os demais estúdios atiravam seus astros aos leões, a Metro permitiu à Garbo um longo período de adaptação. Ela ainda estrelou seis filmes mudos entre 1928 e 1929, antes de estrear num “talkie” em 1930 dizendo suas primeiras linhas de diálogo em “Anna Christie”: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”.

maria-falconetti-passion-of-jeanne-darcGrandes filmes silenciosos fracassaram, enquanto produções baratas e outras conduzidas à toque de caixa ganhavam a atenção do público por conta de alguns poucos efeitos sonoros e alguns míseros diálogos. O Cinema tornava-se previsível de uma forma quase contemporânea, como se o Museu do Louvre convidasse o público para uma visita e em um dos salões, o mais concorrido e por isso lotado, mostrasse uma exposição de fotos do novo filme de Robert Pattinson, enquanto no salão ao lado e vazio, uma exposição semelhante mostrasse fotos raras das estrelas Lillian Gish, Mary Pickford e Gloria Swanson. Mas um dos aspectos mais negativos que vieram com o advento do cinema sonoro foi o retrocesso nas técnicas de filmagem. Em vez da câmera capaz de se mover ao longo dos cenários, os filmes agora eram obrigados a permanecer presos a cenas estáticas porque as câmeras e os microfones eram grandes e pesados demais para permitir que fossem deslocados de um canto a outro dos sets. Durante quase cinco anos, poucos filmes conseguiram escapar do estigma de “teatro filmado”. O cinema precisou ser reaprendido, primeiro engatinhando e em seguida caminhando a passos tímidos até Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland mostrarem que era possível alçar vôos, como provaram na abertura de “Cidadão Kane” mais de uma década depois.

Para ver ou rever, eis uma pequena lista do que eu considero os melhores filmes mudos lançados justamente nos últimos meses de vida do cinema mudo. Com exceção de “A Paixão de Joana D’Arc”, “O Circo” e “Napoleão”, os demais já foram comentados no Blog:

1. O Circo, 1927, de Charles Chaplin, comédia delicada sobre o vagabundo que fugindo da polícia vai trabalhar em um circo e se apaixona por uma trapezista.

2. A Turba, 1928, de King Vidor, melodrama sobre um jovem na cidade grande para o qual o sonho americano de vida se transforma em pesadelo.

3. Aurora, 1927, de F.W. Murnau, sobre um casamento em crise.

4. Metropolis, 1927, de Fritz Lang, sobre uma sociedade futurista de ricos que explora os pobres, forçando-os a trabalhos sobre-humanos.

5. Napoleão, 1927, de Abel Gance, que, à maneira de Griffith, criou um épico monumental sobre o general francês.

6. A Paixão de Joana D’Arc, 1928, de Carl Theodor Dreyer, sobre os últimos momentos de vida da heroína francesa em uma atuação antológica de Maria Falconetti.

7. A General, 1927, de Buster Keaton, que estrela a maior comédia de ação de todos os tempos como o maquinista de uma locomotiva durante a Guerra Civil norte-americana.

8. Vento e Areia, 1928, de Victor Seastrom, drama ao mesmo tempo tenso e poético sobre a sexualidade e a necessidade humana de se adaptar a um ambiente inóspito.

9. Meu Único Amor, 1927, de Sam Taylor, comédia romântica em que Mary Pickford é a garota pobre que se apaixona por um colega de trabalho sem saber que ele é filho de milionários.

10. Sedução do Pecado, 1928, de Raoul Walsh, estrelado por Gloria Swanson como uma prostituta que desperta o desejo de um missionário em uma ilha tropical.

Filmes: Asas (1927)

ASAS
wings_1Título Original: Wings
País: Estados Unidos
Ano: 1927
Duração: 139 min.
Direção: William A. Wellman
Elenco: Clara Bow, Charles “Buddy” Rogers, Richard Arlen, Gary Cooper, Jobyna Ralston, Arlette Marchal, El Brendel, Henry B. Walthall, Roscoe Karns, Hedda Hopper, Richard Tucker, Roscoe Karns.
Sinopse:
A aviação americana na I Guerra Mundial é vista sob o ponto de vista de dois pilotos, de classes sociais diferentes e que amam a mesma mulher.

Primeira produção a ganhar o Oscar de Filme, e único filme sem diálogos a ganhar o prêmio até “O Artista”, de 2012, “Asas” tem seu interesse restrito a aspectos históricos do cinema, como o Oscar dado ao técnico Roy Pomeroy pelos efeitos especiais pioneiros. A sua história banal, é valorizada pelas sequências de ação, com música e efeitos de som sincronizados. Roteiro de Hope Loring e Louis D. Lighton, é baseado na história de John Monk Saunders. Numa época em que os efeitos especiais eram rudimentares, “Asas” tem por base cenas de ação e acrobacias aéreas extraordinárias, que, ainda hoje, surpreendem pelas tomadas espetaculares. O realizador William A. Wellman (ex-piloto e veterano da I Guerra Mundial) filmou as cenas de ação como se tratasse de uma operação militar, comandando um “exército” de 3.500 figurantes (na sua maioria militares, resultado do apoio do exército norte-americano ao filme), 65 pilotos e 17 operadores de câmera, para além de atores e técnicos da Paramount. O resultado, após um ano de produção e 2 milhões de dólares de orçamento, é um filme com cenas de ação impressionantes onde é possível perceber o perigo real pelo qual os pilotos passaram durante as filmagens. “Asas” fica também na história do cinema como o filme que lançou a carreira de Gary Cooper. Muito embora apareça brevemente no filme (apenas três minutos em cena) a sua presença impressionou o público e o ator ganhou uma exposição que lançou a sua carreira. Durante anos, “Asas” foi dado como perdido, mas a descoberta de uma cópia em nitrato na Cinémathèque Française permitiu que o filme voltasse a ser exibido e em 1987, a Biblioteca do Congresso Norte-Americano procedeu ao restauro do filme, que se encontra no programa de salvaguarda da Biblioteca.

Um clássico que vale pelos efeitos pioneiros

“Wings” se tornaria o primeiro de muitos filmes sobre aviação dirigido por William A. Wellman, que era um piloto e um veterano do renomado Esquadrão francês Lafayette Flying Corp da Primeira Guerra Mundial. O avião pilotado por ele foi batizado de “Celia”, em honra à sua mãe e a ele são dados os créditos de três registros de derrubada de aviões inimigos, além de cinco outras prováveis derrubadas. o avião de Wellman foi abatido e ele sobreviveu à queda, mas se tornaria manco pelo resto da vida. Após a guerra, Wellman serviu ao Exército americano por dois anos e ensinou táticas de combate aos cadetes de Rockwell Field em San Diego.

“Wings” é baseado em uma história original de John Monk Saunders, com roteiro de Hope Loring e Louis D. Lighton e títulos de Julian Johnson. O escritor Byron Morgan manteve constante correspondência com a Famous Players-Lasky entre 1925 e 1926 através da qual apresentou suas ideias para um filme sobre a aviação na Primeira Guerra Mundial. Apesar de ter recebido um pagamento de 3 750 dólares por sua contribuição, Morgan não recebeu créditos no filme.

Embora “Wings” tenha tido a sua estréia em 1927 e continuado em compromissos de contrato em “road show” durante o ano de 1928 ele não foi registrado pelos direitos de autor até 5 de janeiro de 1929, momento em que uma partitura musical e efeitos sonoros foram adicionados para o seu lançamento nacional. As seqüências aéreas foram projetadas em Magnascope e, de acordo com fontes da época, eram colorizadas de uma forma não natural, com céu e nuvens coloridas habilmente e uma chama disparando dos aviões. A mesma fonte indicou que o filme tinha quatorze bobinas de comprimento quando foi mostrado primeiramente para uma plateia de San Antonio, mas foi cortado antes do lançamento oficial e que o tempo de execução de 139 minutos foi dividido por um intervalo depois de 65 minutos. Além disso, um efeito de tela dividida horizontalmente foi usado durante uma das cenas de batalha aérea.

Na primeira cerimônia de entrega do Oscar, “Wings” ganhou o prêmio de Melhor Produção, enquanto “Aurora” recebeu o de Melhor Qualidade Artística. Os dois prêmios foram eliminados no ano seguinte e desde então um único prêmio passou a ser entregue na categoria principal do Oscar. Curiosamente, “Wings” se tornou o único filme mudo a vencer o Oscar de Melhor Filme até “O Artista” receber o mesmo prêmio em 2012.

De acordo com o diário de produção encontrado pela AMPAS, a filmagem de várias cenas foi remarcada para acomodar a conclusão por parte da atriz Clara Bow do filme “Rough House Rosie”. Embora houvesse uma trama romântica na história, a presença de Clara Bow neste filme interpretando a enfermeira Mary Preston foi apenas uma forma de o estúdio explorar a sua enorme popularidade na época. Sua participação em “Asas” é meramente decorativa, o que desagradou a atriz, que além disso detestou o uniforme que precisou usar no filme. Richard Arlen, que interpreta David Armstrong, e era um veterano da Força Aérea Real na I Guerra Mundial, e Charles “Buddy” Rogers, que interpreta Jack Powell e que aprendeu a pilotar durante as filmagens, fizeram os seus próprios vôos em algumas das sequências vistas no filme. Vários pilotos militares e dublês civis realizaram proezas no filme e de acordo com várias fontes, o dublê de piloto Dick Grace sofreu uma grave torção no pescoço ao executar uma acrobacia aérea precisando permanecer internado em um hospital durante seis semanas até se recuperar. Grace também foi identificado como o aviador norte-americano que se encolhe quando é beijado por uma francesa ao ser condecorado. Margery Chapin Wellman e Gloria Wellman, esposa e filha do diretor Wellman, aparecem no filme como uma camponesa francesa e sua filha, respectivamente, proximo ao final do filme. O próprio Wellman faz uma participação durante a batalha final, onde é visto sendo baleado.

De acordo com algumas fontes, Richard Johnston atuou como assistente do diretor, Frank Blount como gerente de produção, Edith Head como figurinista e Otto Dyar como fotógrafo. Fotógrafos de cenas adicionais no filme foram E. Burton Steene, L.B. “Bill” Abbott, George Stevens e o sargento Ward. As seguintes pessoas supervisionaram as seqüências de vôo: S.C. Campbell, Ted Parsons, Carl von Hartmann e James A. Healy. O Brigadeiro F.P. Lahm e o Major F.M. Andrews comandaram os pilotos militares. O Brigadeiro-General Paul B. Malone estava no comando da construção em Camp Stanley, e o Capitão P.E. Ketchum, um engenheiro militar, supervisionou a reprodução técnica e histórica dos sistemas de trincheira retratados no filme. O Tenente Hap Arnold, que mais tarde se tornaria um general, serviu como consultor técnico, o Major P.M. Jones supervisionou as manobras de tropas do solo, o Capitão Robert Mortimer atuou como supervisor de munições e o oficial de comunicações foi o capitão Walter Ellis. O Tenente-Comandante Harry Reynolds e o Capitão Bill Taylor ajudaram a preparar os planos para a filmagem.

Todas as cenas foram pensadas ao pormenor, no entanto, tal preparação não impediu alguns acidentes graves e a perda de aviões. Um piloto do exército morreu em uma queda e Wellman temia que isso forçasse a interrupção das filmagens. Após uma perícia, o exército culpou o piloto pelo acidente e não o diretor. A produção do filme foi feita com contribuições importantes do Departamento de Guerra dos Estados Unidos. A recriação da batalha de St. Mihiel foi rodada em locações em Camp Stanley, perto de San Antonio, no Texas, e sequências aéreas foram filmadas em Kelly Field. A produção comandada por Wellman gastou um ano em pesquisas na escola de Brooks Field para garantir a autenticidade das cenas. Além dos locais de filmagens, o Departamento de Guerra disponibilizou desde aviões a pilotos aéreos de todo o país. Militares atuaram como soldados em terra, e também ajudaram a equipe de produção através da construção de trincheiras e a produzir explosivos.

Além do Oscar de Melhor Filme, “Asas” recebeu um prêmio especial dado a Roy Pomeroy pelos efeitos especiais e técnicos. Apesar da exímia reconstituição histórica, da ótima fotografia a cargo de Harry Perry e das cenas impressionantes de combate, “Wings” é mais lembrado pela primeira cena de beijo entre dois personagens masculinos e pela breve cena de Gary Cooper como o cadete White, que ajudou a lançar sua carreira e foi o início de seu relacionamento amoroso com a atriz Clara Bow. Em 1987, técnicos da Biblioteca do Congresso norte-americano concluiram uma cópia restaurada de “Wings” que foi encontrada na Cinemateca de Paris depois de o filme ter sido dado como perdido durante muitos anos. Charles Rogers, um dos poucos veteranos do filme que ainda viviam nessa época, assistiu à estréia da nova impressão realizada no Teatro Mary Pickford da Biblioteca, nomeado assim para a sua falecida esposa.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018578/

Trailer Versão Restaurada:

Cenas do Filme:

Galeria de Imagens: