Filmes: Do Mundo Nada se Leva (1938)

DO MUNDO NADA SE LEVA
youcanttakeit_1Título Original: You Can’t Take It With You
País: Estados Unidos
Ano: 1938
Duração: 126 min.
Direção: Frank Capra
Elenco: Com James Stewart, Jean Arthur, Lionel Barrymore, Edward Arnold, Mischa Auer, Ann Miller, Spring Byington, Samuel S. Hinds, Donald Meek, H.B. Warner, Mary Forbes.
Sinopse:
A família Vandehof acredita em só fazer o que se gosta, mas a harmonia do casarão em que vivem é abalada pelo romance da filha do patriarca com o filho de um ganancioso empresário que pretende comprar a propriedade para ampliar sua fábrica de armas.

Frank Capra volta a trabalhar com um roteiro de Robert Riskin, adaptando a peça de Moss Hart e George S. Kaufman, premiada com o Pulitzer. O espírito otimista, sensível e encantador do cineasta explora as diferenças entre duas famílias distintas que vêem seus membros mais jovens apaixonados um pelo outro nesta situação clássica de Romeu e Julieta. A tragédia, porém, é substituída por um final feliz característico dos filmes de Frank Capra. Oscar de Filme e Diretor, o terceiro de Capra. A química perfeita entre James Stewart e Jean Arthur seria repetida no ano seguinte, em “A Mulher Faz o Homem”.

Possivelmente a obra-prima de Frank Capra

Frank Capra se tornou ao longo das gerações, o diretor favorito de muitos cinéfilos. “It Happened One Night” é o seu primeiro grande filme. “Mr. Deeds Goes To Town”, “Mr. Smith Goes To Washington” e “Meet John Doe” são exemplos perfeitos de como fazer grandes filmes sobre o homem simples e comum. “It’s A Wonderful Life” é o filme de Natal preferido de quase todo mundo. “You Can’t Take It With You” é possivelmente a obra-prima de Frank Capra. Como é costumeiro do cinema de Capra, a moral aqui é clara como a água, repetida até dizer chega. Hoje em dia isso seria simplesmente ruim (“falta de originalidade”, diriam os críticos), mas o estilo de Capra é tão agradável que fica quase impossível recriminá-lo pelas suas lições de moral totalmente óbvias, mesmo no tempo de seu lançamento.

A história, adaptando “Romeu e Julieta” para os anos da Grande Depressão, é perfeita, a direção é brilhante e é impossível não encher os olhos de lágrimas com a doçura e simplicidade de Martin Vanderhof. O personagem é o ponto máximo deste clássico: Lionel Barrymore, um dos mais grandes atores da história do cinema. Se em “A Felicidade não se Compra” seu personagem, Sr. Potter, é cruel, insensível, desprezível e um dos maiores vilões do cinema, graças à sua atuação fascinante, o que lhe faltava naquele filme, sobra em Martin Vanderhof, um homem adorado por todos, que vive cercado de amigos (a cena na sala do tribunal é magnífica), mas é preciso lembrar a presença brilhante de Jean Arthur como Alice Sycamore, e igualmente o retrato do bom e jovem Jimmy Stewart como Tony Kirby. Sem esquecer é claro de Edward Arnold e seu ganancioso Anthony P. Kirby, que tenta a todo custo comprar o casarão dos Vanderhof. Ver o vovô Lionel Barrymorre ensiná-lo em um dueto de gaita é maravilhoso, assim como é apreciar este filme delicioso e simples. Mas todos os personagens são igualmente inesquecíveis, a mãe escritora (Spring Byington), a irmã dançarina Essie (Ann Miller), o professor russo de dança (Misha Auer) que chega sempre na hora do jantar, além do falido Sr. Ramsey, vivido pelo quase esquecido H.B. Warner, antigo astro das comédias silenciosas.

O que mais impressiona em “Do Mundo Nada se Leva” não é apenas a maneira encantadora com que Capra conta uma história de amor assustadoramente simples e bela, mas a delicadeza com que ele faz de seus personagens, por mais excêntricos e exagerados que sejam, seres humanos totalmente convincentes. Desde o início, fica claro o tom shakespeariano imposto ao roteiro, que apresenta as duas famílias como opostas uma à outra: os Kirby, milionários, gananciosos e pomposos, e os Vanderhof/Sycamores, simples, generosos e humildes, que dividem um casarão onde vivem do jeito que querem, fazem apenas o que gostam e estão sempre dispostos a aceitar um novo hóspede que compartilhe de seu modo de vida. Mas ao contrário da peça de Shakespeare, a tragédia se presta a um final feliz, conforme se espera de um filme de Frank Capra, e não só Tony e Alice conseguem levar adiante seu romance como promovem a integração harmoniosa de suas famílias.

Embora como filme honre as suas origens teatrais – o que fica fácil de identificar vendo que a maior parte dele passa-se em uma sala de estar – e mesmo as origens mais remotas inspiradas em “Romeu e Julieta”, “Do Mundo Nada Se Leva” é, antes de qualquer coisa, uma simples e bela comédia sobre a família – em especial uma família, os Vanderhof – um tanto quanto excêntrica, que vive à sua própria maneira. Mesmo os Kirby, apesar de toda ambição e pompa que ostentam, são vistos de forma simpática pela câmera de Capra, diferentemente de outros personagens seus, como os políticos de “A Mulher Faz o Homem” ou o Sr. Potter de “A Felicidade não se Compra”. Desde o início, Capra deixa bem claro que este é um filme de Frank Capra. Assim como a moral do filme, vilões e mocinhos são bem definidos, não há dualidade no coração dos personagens. Não há dúvida que uma lição de moral vai aflorar ao final de alguma forma, como o próprio Capra nos acostumou em seus filmes. Como esquecer os finais otimistas e arrebatadores de “A Mulher faz o Homem” ou “A Felicidade não se Compra”? Nos filmes de Capra não existe lugar para a tristeza e a maldade, ainda que se insinue durante suas histórias, nunca haverá de triunfar.

“Do Mundo Nada Se Leva” é um filme de situações muito bem elaboradas e Capra presenteou seu público com outro trabalho notável, fácil de se acompanhar e de ótimo ritmo. Não chega a ser tão vigoroso quanto “A Mulher Faz o Homem”, onde os pequenos problemas de roteiro daquele filme aqui não existem, mas os diálogos e situações são tão deliciosos quanto os apresentados lá. James Stewart tem um papel muito mais contido pelo simples fato de haver muitos mais personagens em cena que também precisam de tempo para serem desenvolvidos. Novamente fazendo par romântico com Jean Arthur, ambos têm poucas cenas juntos, mas estas estão entre os melhores momentos do filme. Aliás, a personagem de Jean Arthur, Alice, funciona como um elo entre a família aloprada e o “mundo real”, tendo que lidar com os dois lados. É a personagem mais complexa do filme, e mesmo assim dona de uma simplicidade notável.

Estranho é notar que esse filme possui muitas familiaridades com “A Felicidade Não se Compra”, como ter vencido o Oscar de melhor filme e ainda assim ser bem menos comentado do que o filme de 1946. Aqui, porém, o foco é muito mais cômico, com apenas uma leve veia dramática. Mas há muito mais originalidade e vitalidade em “Do Mundo Nada Se Leva”, é um filme o tempo todo vivo, cheio de energia. Os Vanderhof têm a força de contagiar seus espectadores, e mesmo sabendo que sua pureza moral é utópica e só poderia existir no cinema, fica difícil não torcer pela felicidade dessa família.

Existe em “Do Mundo Nada se Leva” uma dezena de cenas memoráveis, seja por conta dos diálogos seja por conta das situações, seja por conta dos personagens, que tornam a história um todo coerente e irresistível. A maioria envolvendo o casal Tony e Alice, entre elas aquela no palco onde ele age como se ambos estivessem em um balé ou quando dançam com as crianças da vizinhança. É difícil bater a cena no tribunal também, quando Capra externa o mesmo sentimento que utilizaria em seu filme seguinte “It’s a Wonderful Life”, quando todos os amigos de Vanderhof vêm em seu socorro para pagar a multa.

“Do Mundo Nada se Leva” é doce, é real, e é cheio de sentimentos e situações que você realmente desejaria que ainda possam acontecer neste mundo. Mesmo as mais pequenas coisas como as orações do Vovô Vanderhof durante o jantar são o suficiente para lembrar o espectador de que o mundo poderia ser ainda melhor se mantivéssemos os nossos valores mais simples, os nossos desejos satisfeitos, e felizes por apenas sermos nós mesmos. E também se ainda tivéssemos mais filmes de Frank Capra.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0030993/

Trailer:

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