Frances Marion

FRANCES MARION: UMA DAS MAIORES ROTEIRISTAS DO CINEMA

Nome: Marion Benson Owens
Nascimento e local: 18 de novembro de 1888, San Francisco, Califórnia
Falecimento e local: 12 de maio de 1973, Los Angeles, Califórnia
Ocupação: Escritora, jornalista, roteirista
Nacionalidade: Norte-americana
Casamentos: Fred C. Thomson (1919-1928); George W. Hill (1930-1933)

Talvez o cinéfilo mais inveterado se lembre de algumas mulheres que ficaram famosas por algum roteiro que assinaram, como Melissa Mathison (“E.T. – O Extraterrestre”), mas no final dos anos 20 e início dos anos 30, nenhum outro roteirista de Hollywood tinha maior prestígio e muito menos um salário igual ao da escritora Frances Marion, que ganhava cerca de 3 mil dólares por semana, isso no auge da Grande Depressão. Os filmes baseados em suas histórias ajudaram a moldar as imagens de alguns dos maiores astros de sua época, como Mary Pickford, Lillian Gish, Greta Garbo, Wallace Beery e Marie Dressler. Em Hollywood, adotou o pseudônimo Frances Marion e iniciou como assistente de script e roteirista de alguns sucessos de Mary Pickford e inclusive dirigindo e fazendo participações em alguns de seus filmes. Marion conquistou duas vezes o prêmio máximo da Academia, de roteiro adaptado por “O Presídio” e de melhor roteiro por “O Campeão”, tonando-se a primeira mulher a vencer o Oscar nessas categorias.

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Nascida Marion Benson Owens, Frances Marion era filha de uma das famílias mais ricas de São Francisco. Ela nasceu em 18 de novembro de 1888, e trabalhou como jornalista e correspondente durante a Primeira Guerra Mundial. Em seu retorno para casa, ela abandonou a vida de moça rica e mudou-se para Los Angeles, acreditando que na indústria de Hollywood teria oportunidades de trabalho que eram negadas às mulheres em outras esferas da vida. Sua beleza logo possibilitou a ela trabalhos como atriz e como modelo, mas ela desprezou o trabalho na frente da câmera por acreditar que seu futuro profissional seria à margem dos holofotes. Marion buscou emprego nos bastidores, conseguindo primeiramente pintar cartazes publicitários de filmes para os estúdios de cinema, e em seguida começou a escrever para os próprios filmes. Ela começou como assistente de roteiro para a Lois Weber Productions, uma companhia de filmes pertencente e comandada por uma mulher, a pioneira Lois Weber.

frances-marion-3Já assinando como “Frances Marion”, ela se tornou amiga íntima de Mary Pickford já por volta de 1917. Muitos atribuem a Frances Marion ter moldado a imagem de Mary Pickford de modo que ela se tornaria a primeira “America’s Sweetheart”, com roteiros para seus filmes “Poor Little Rich Girl”, “Rebecca of Sunnybrook Farm”, “Stella Maris”, “Pollyanna” e “Amarilly of Clothes-Line Alley”. Além de escrever as histórias, Marion ocasionalmente dirigia e atuava nos primeiros filmes estrelados por Mary Pickford. Ambas eram tão próximas que ela, Mary e seus respectivos maridos, os atores Fred Thomson e Douglas Fairbanks, desfrutaram de uma lua-de-mel simultânea. Por sua vez, Thomson tinha sido co-estrela do filme de Mary Pickford de 1921, “The Love Light”, um dos muitos escritos e dirigidos por Marion.

A insistência de Mary Pickford para que Frances Marion escrevesse o roteiro para “Poor Little Rich Girl” apesar da objeção do diretor Cecil B. de Mille pode certamente ser considerada a primeira ocasião na história do cinema em que um ator ou atriz é responsável direto pela demissão de um diretor. O filme, baseado em peça de Eleanor Gates, ganhou ainda mais com a visão criativa do diretor francês Maurice Tourneur, que empregnou de envolvente magia e fantasia momentos importantíssimos da história. Mary Pickford, então com 24 anos, interpretava uma menina de 11. Apesar disso, o resultado foi tão bem sucedido que a atriz obrigou o estúdio a renegociar seu contrato, a partir daí ela passou a ganhar US$ 10.000 por semana, mais metade dos lucros de todos os seus filmes e total controle criativo dos mesmos.

Roteiristas que podiam contar suas histórias somente através de imagens eram altamente valorizados durante a era silenciosa e nenhum escritor foi mais valorizado do que Frances Marion. Em 1926, o lendário produtor Irving Thalberg aproximou-se de Marion para que ela adaptasse uma versão de “A Letra Escarlate” para a tela para a sua grande estrela Lillian Gish. Até então a produção estava emperrada porque nenhum outro escritor conseguiu resolver o problema de como trazer o clássico romance de Nathaniel Hawthorne para a tela, sem ser obrigado a fazer concessões ao texto original. Marion bateu o pé em sua ideia de permanecer fiel à história, mas dando à sua heroína Hester Pryne o desejo de uma mulher moderna capaz de fazer suas próprias escolhas.

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O filme foi um sucesso tão grande que o estúdio decidiu reunir Lillian Gish com a mesma equipe de produção, incluindo o ator Lars Hanson, o diretor Victor Sjöström, o produtor Irving Thalberg e a roteirista Frances Marion para adaptar o romance de Dorothy Scarborough “Vento e Areia” para a tela. O resultado foi um conto de desejo reprimido que explode em violência, e o último grande filme do período silencioso, tão a frente de sua época que somente décadas depois receberia as honras de clássico do cinema.

A diferença entre escrever romances e escrever filmes naquela época era que os filmes eram principalmente visuais: o roteirista tinha que pensar em contar histórias como uma série de imagens que transmitissem informações sem qualquer diálogo ou o mínimo de intertítulos possíveis. Um diálogo rápido poderia permitir uma certa quantidade de informação extra para quem está acompanhando a história, mas não era uma necessidade. De fato, em um filme mudo, a inserção de diálogos (que exigia o corte da narrativa para a inserção dos cartões com o texto) deixava de ser um bônus para a história para se tornar um fardo para o público, que não só poderia se entediar se o recurso fosse usado em excesso como se distrair da ação que estava acompanhando.

Nesse aspecto, pode-se dizer que Frances Marion encontrou uma maneira eficiente de dizer o que era essencialmente importante para a história que estava sendo contada, sempre com um apurado cuidado no aspecto psicológico dos personagens, mas também valorizando sempre a ação através de imagens fluentes, apenas raramente recorrendo aos cartões de diálogo. A maior prova de sua habilidade como contadora de histórias foi que ela era a mais requisitada escritora da era silenciosa, e também a mais bem paga, chegando a ganhar 150 mil dólares por ano. “Vento e Areia”, por sua vez, é considerado o seu melhor roteiro.

A obra prima “Vento e Areia” e um punhado de roteiros memoráveis

“Vento e Areia” é sobre uma órfã, a virginal Letty Mason (Lillian Gish), cujo desejo reprimido lentamente a conduz à insanidade em um ambiente hostil isolado e árido. Frances Marion estabelece um padrão visual que liga a presença sempre constante do vento na pradaria do Texas e as tempestades de areia, a um lugar onde os cavalos selvagens enlouquecem, com a ameaça representada pela sexualidade de Letty tanto para si própria quanto para a ordem socialmente estabelecida. O vento também cria armadilhas para os habitantes desta terra desolada e através de imagens simples e poderosas, é fácil interpretar os símbolos contidos no roteiro de Marion, que estabelece que a paixão e a paranóia fervente são um resultado natural. Em um cena um pouco cômica, um casal adentra um salão de dança seguido de uma meia dúzia de meninas vestidas de forma idêntica, cada uma mais curta meia cabeça do que a anterior, como um conjunto de bonecas russas alinhadas, uma forma visual de dizer que, naquele maldito lugar onde o vento sopra 24 horas por dia, o sexo é a única maneira de passar o tempo.

lillian-gish-the-wind-1928Logo em seguida, Cora, a esposa do primo de Letty se convence de que ela está ali para tomar seu lugar e dá a Letty a escolha de se casar com um homem que ela não ama ou se tornar uma sem-teto. Os homens chegam a fazer apostas para ver quem se casa com Letty, e ela é assediada por um homem que conheceu na viagem de trem. Forçada a escolher um deles, Letty se casa com Lige Hightower (Lars Hanson), que é um bronco mas tem bom coração. Na noite de núpcias, Letty tem o rosto cheio de areia, ela deixa seu cabelo cair e começa a retirar seu vestido, enquanto o vento continua batendo, mas até a repetição da batida do vento e a sua justaposição com momentos onde Letty e seu marido caminham em cômodos separados está para a satisfação do desejo assim como estabelece tanto em sua mente quanto na mente do público que o sexo representa um perigo de morte.

O roteiro inicialmente previa um final obscuro onde Letty é vista vagando insana em meio à uma tempestade de areia que parece que vai consumi-la em pleno deserto, mas quando os chefões do estúdio viram o primeiro corte do filme, eles insistiram em um final feliz. O elenco e a equipe de filmagem relutantemente criaram um novo final, mas o resultado, porém, já não importava muito. As audiências rapidamente adquiriram o gosto pelos “talkies” e não estavam mais interessados em cinema mudo, ou mais do que isso, não estavam mais interessados em Lillian Gish, que passava a ser vista como uma relíquia de uma era anterior que já não existia. O filme foi um fracasso de bilheteria. No entanto, “Vento e Areia” passou a ser considerado como um dos maiores filmes do cinema mudo e quase de certeza o melhor filme da longa carreira da atriz Lillian Gish.

Apesar do fracasso comercial deste filme em especial, a carreira de Frances Marion disparou. Ela foi chamada para adaptar o roteiro para o primeiro filme falado de Greta Garbo, “Anna Christie”, cuja primeira linha de diálogo tornou-se antológica por ter sido a primeira vez que o mundo conhecia a voz da estrela sueca: “Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don’t be stingy, baby”. Marion ganhou um Oscar de roteiro adaptado por sua exposição sem retoques da vida na prisão em “O Presídio” (The Big House, 1930), estrelado por Wallace Beery, e depois um outro Oscar, de roteiro original, pelo clássico melodrama “O Campeão” (The Champ, 1931), novamente estrelado por Wallace Beery, que ainda levou o Oscar de ator, ainda que o prêmio fosse dividido com Fredrich March por “O Médico e o Monstro”.

Ao lado de suas colegas Anita Loos (“Gentlemen Prefer Blondes”, “Red-Headed Woman”) ou June Mathis (“Ben-Hur”, “The Sheik”) que também obtiveram grande sucesso como roteiristas, a carreira de Frances Marion foi muito mais prolífica. Ela escreveu cerca de 300 roteiros, entre eles o de “Lírio do Lodo” (Min e Bill, 1930), estrelado por Wallace Berry e Marie Dressler, que ganhou o Oscar de atriz por sua atuação neste filme que a tornou uma das maiores estrelas da época. Outro grande filme com roteiro de Frances Marion foi “Jantar às Oito” (Dinner at Eight, 1933), dirigido por George Cukor e que ajudou a consagrar uma certa atriz chamada Jean Harlow. Seu Oscar por “O Presídio” foi o primeiro a ser entregue a uma mulher em uma categoria de não atuação. Outro filme importante escrito por ela foi “A Dama das Camélias” (Camille, 1936), adaptação do romance de Alexandre Dumas, e considerado a melhor atuação da carreira de Greta Garbo, que foi inclusive indicada ao Oscar.

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O sucesso profissional de Marion, no entanto, veio acompanhado por uma tragédia pessoal. No dia de Natal de 1928, o terceiro marido de Marion, Fred Thomson (que montado em seu cavalo Silver King se tornara a maior estrela de cowboy do cinema mudo), morreu de tétano, de repente, deixando Marion viúva e com dois filhos pequenos para criar. O casal havia adotado dois meninos, Frederick e Richard. Ela se casaria em 1930 com o diretor George W. Hill, mas se divorciaria dele três anos depois.

Em 1933, no topo de seu poder criativo e realizada profissionalemente, Frances Marion foi a primeira vice-presidente da Associação de Roteiristas da América. Em retaliação por seu sindicato que organizava greves e protestos por melhores condições de trabalho para a categoria, a MGM rescindiu o contrato com Marion e quando Irving Thalberg morreu três anos depois, a carreira de Marion em Hollywood foi abruptamente encerrada. Mais uma vez, a indústria machista de Hollywood não admitia a interferência feminina em seu sistema de manipulação e poder. Foi um final comum para Frances Marion e muitas das outras mulheres em Hollywood durante a Grande Depressão, quando os estúdios passaram de meras empresas de entretenimento para verdadeiras máquinas capitalistas, quando metade do corpo de roteiristas que trabalhavam para eles era formada por mulheres e também havia mulheres atuando na direção, mas a partir desse momento, Hollywood se tornava uma fábrica patriarcal, um clube fechado onde as mulheres – por mais capacitadas que fossem – não eram consideradas aptas a exercer qualquer dos cargos oferecidos.

Frances Marion abandonou Hollywood em meados dos anos 40, e voltou à escultura e à pintura. Em 1972, ela publicou seu livro de memórias “Off With Their Heads: A Serio-Comic Tale of Hollywood”, e morreu em 1973, em Los Angeles, aos 84 anos de idade vítima de um aneurisma. Tudo dito, ela escreveu mais de 300 roteiros, dos quais 130 viraram filmes e ainda é considerada como um dos maiores escritores de todos os tempos que já trabalhou em Hollywood, seja homem ou mulher.

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