Filmes: Luzes da Cidade (1931)

LUZES DA CIDADE
citylights_1Título Original: City Lights
País: Estados Unidos
Ano: 1931
Duração: 86 min.
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myer, Allan Garcia, Hank Mann, Eddie Baker, Henry Bergman.
Sinopse:
O vagabundo se apaixona por florista cega que pensa que ele é milionário e salva a vida de um ricaço que só o reconhece quando está embriagado. Apesar das dificuldades, ele consegue o dinheiro para pagar-lhe a cirurgia que lhe devolve a visão, mas o reencontro entre eles só vem numa das cenas de reconhecimento mais simples e emocionantes de todos os tempos.

Em pleno cinema falado, Chaplin insistia em fazer filmes mudos, fiel à arte que o consagrou – a pantomima. Aqui, em um de seus momentos mais inspirados, ele constrói uma obra prima, uma comédia de situações inteligentes e de fino humor, como o milionário salvo por Carlitos do suicídio mas que só o reconhece quando está bêbado, e as tentativas frustradas de conseguir dinheiro para pagar a cirurgia que devolverá a visão à sua amada. Encantador e inesquecível, o filme é embalado por uma bela trilha sonora. A música de “Luzes da Cidade” inclui “Beautiful Wonderful Eyes”, “Tomorrow the Sun Will Shine”, “Happy Romance”, “Promenade” e “Orientale”, compostas por Charles Chaplin especialmente para o filme, além da inclusão da canção “La Violetera”.

“Uma comédia romântica em pantomima”

Os créditos de abertura de “Luzes da Cidade” referem-se ao filme como “a comedy romance in pantomine” (“uma comédia romântica em pantomima”). A estréia de “Luzes da Cidade” abriu o Los Angeles Theater. Foi a primeira vez que uma estréia de gala foi realizada no centro de Los Angeles e não em Hollywood. Charles Chaplin participou, acompanhado por Georgia Hale e Albert Einstein e sua esposa.

Segundo sua autobiografia, Chaplin sentiu que o cinema era essencialmente uma arte da pantomima e expressões, e que o som limitava a arte gestual do ator. Quando ele começou os preparativos para o filme em 1928, imaginava lançá-lo como um filme completamente silencioso, mas por volta de 1931 filmes falados já eram tão populares que ele acrescentou uma trilha sonora musical criada de acordo com as imagens do filme. Numa das primeiras cenas, Chaplin ridiculariza o som metálico dos primeiros filmes falados durante o discurso em que as vozes dos atores soam misturadas ao som de instrumentos musicais. Para Chaplin, o acompanhamento musical deveria agir como um contraponto para a comédia contida no filme e usou efeitos especiais de som em algumas cenas: a cena em que ele engole um apito, as vozes dos políticos durante o discurso, tiros de pistola e o soar do gongo no ringue de boxe.

Chaplin gastou mais de 1,5 milhões de dólares de seu próprio bolso para fazer o filme. Um rio foi construído no estúdio de Chaplin, que cobriu uma área de cinco hectares e custou US $ 15.000 para construir. Duas ruas que representam uma seção de negócios do centro da cidade também foram construídas a um custo de 100.000 dólares. Segundo sua autobiografia, Chaplin ficou irritado com a omissão da United Artists de realizar a publicidade do filme e decidiu expor o filme por si próprio. Ele alugou o George M. Cohan Theatre e fez anúncios de meia página para divulgar seu filme. Em sua permanência de doze semanas no Cohan, o filme obteve um lucro de mais de 4 milhões de dólares.

Henry Clive foi originalmente escalado como o milionário, mas quando ele se recusou a cair na água em uma cena importante, Chaplin o demitiu e contratou Harry Myers. Fontes afirmam que Chaplin, que exigia tanto de si mesmo quanto de todos os que trabalhavam com ele, em um certo ponto das filmagens, descontente com Virginia Cherrill, chegou a substitui-la por Georgia Hale, que atuara no seu filme de 1925 “Em Busca do Ouro”.

Perfeccionista como sempre, Chaplin queimou dezenas de rolos repetindo inúmeras vezes a mesma cena, até que ela fosse considerada perfeita. É o caso da cena em que a florista cega chama Carlitos, confundindo-o com um milionário, depois que ouve o bater da porta de um carro, bem como a cena final do reconhecimento, um dos mais simples e emocionantes desenlaces do cinema em todos os tempos.

Encantador, inesquecível e com um dos mais comoventes finais de todos os tempos

Charles Chaplin sempre fora considerado um dos grandes inconformistas do cinema. Sua trajetória no mundo cinematográfico aponta veementemente para isso: durante a década de 1920, fundara a United Artists, estúdio de cinema cujo mote era a liberdade artística total de seus membros, anteriormente sofredores de represálias dos grandes chefões da indústria fílmica hollywoodiana. Alguns anos mais tarde, com o advento do cinema falado, Chaplin se negara durante exatos treze anos a deixar de fazer filmes mudos, fato que ocorrera apenas no ano de 1940, com “O Grande Ditador”. Ademais, ainda mergulhava suas obras em críticas severas ao sistema, às desigualdades e outros diversos problemas sociais – principalmente em sua maior obra-prima, o inigualável “Tempos Modernos”.

Apesar de todos estes fatos, embora sempre trajasse esse manto de rebeldia, de discórdia e de inconformismo, Chaplin não passava mesmo era de um romântico. Um romântico inveterado. Não apenas em relação ao amor, de pai para filho ou de homem para mulher, mas também no tocante ao modo de enxergar e viver a vida. E não há nada que comprove isso com tanta clareza quanto seu trabalho no maravilhoso “Luzes da Cidade”, possivelmente uma das histórias de amor mais singelas e comoventes já mostradas no cinema.

Apontada por alguns como sendo sua obra-prima, essa produção de Chaplin é tão simples que, por outros, pode ser considerada até mesmo simplória e, no caso dessa pessoa possuir alguns traços de insanidade mórbida, ordinária. Porém, o filme passa longe, muito longe disso. É de fato um conto de amor bastante simples, mas construído com uma paixão tão intensa que se torna uma fita apaixonante como poucas feitas até os dias de hoje. Não obstante, também possui fortes traços da genialidade cômica que marcara todas as produções de Chaplin, acrescentando momentos verdadeiramente hilários em meio à trama doce, leve e deliciosamente comovente.

A história do filme utiliza-se do icônico personagem do Vagabundo, que, desta vez, se apaixona por uma florista cega. A moça, em razão de um mal entendido, acredita que ele seja rico, e Carlitos tentará fazer de tudo para manter essa “imagem”. Aproxima-se de um ricaço, que tentara suicídio e fora salvo por ele, e começa a utilizar-se de todas as suas regalias, procurando sempre encontrar um modo de ajudar a pobre moça, ora com dinheiro, ora com carinho. Ao descobrir que um médico havia descoberto a cura para a cegueira, Carlitos fará de tudo para conseguir o dinheiro necessário ao pagamento da operação, mesmo que, por isso, precise trabalhar ou até mesmo disputar uma luta de boxe.

Enquanto em “Tempos Modernos” Chaplin expressara toda sua ira (o que o estigmatizou como comunista) acerca do regime capitalista, cujas características acabaram criando um colossal abismo entre a parte nobre e a proletária da sociedade (utilizada constantemente para expressar sua engajada crítica social), em “Luzes da Cidade” o gênio ainda demonstrava um amor transcendental a respeito do mundo, uma visão romantizada do ser humano e da própria vida. É um filme que exala inocência e ternura em cada centímetro de celulóide (algo parecido com o que fez em “O Garoto”, mas englobando uma vertente diferente, desta feita o amor entre homem e mulher), sem deixar que o melodrama adentre suas entranhas e transforme tudo em um simplório emaranhado de cenas que visam à manipulação emotiva do espectador. Tudo é muito orgânico, e essa naturalidade é sentida na pele por quem assiste à obra.

Porém, a genialidade de Chaplin na composição do filme não se resume apenas ao equilíbrio emocional e à inocência de sua narrativa. Em “Luzes da Cidade”, um dos grandes méritos do diretor é a forma como consegue demonstrar fluência e, ao mesmo tempo, muita economia na transcrição de sua maneira de contar histórias, durante um período no qual o cinema passava por um momento de mudanças abruptas em sua composição. Tudo isso, vale lembrar – e remeter também à questão do inconformismo comumente empregado à persona de Chaplin, deve-se ao fato de que o diretor fora um dos autores que se propuseram a ir contra a introdução do som no cinema, mantendo, na concepção de suas obras, a estrutura utilizada na época do cinema mudo (que estava em plena borda da cova, pronto para ser enterrado).

Chaplin sabia que a figura que criara no cinema, e que já havia importado para todo o mundo como sendo sua marca registrada, era necessariamente uma cria do cinema mudo. Tentar imaginar uma voz ao inesquecível personagem do Vagabundo, um mímico por natureza, seria atentar contra a própria veracidade do personagem. Essa talvez tenha sido a principal razão para que Chaplin não incluísse em “Luzes da Cidade” (e, posteriormente, em “Tempos Modernos”), elementos de fala, sejam eles diálogos ou meras frases soltas. E é aí que chegamos ao mérito da questão, onde justamente se encontra a maior curiosidade da obra: embora tenha renegado esse novo advento do cinema (o som), ele é importantíssimo para a funcionalidade do filme em vários momentos.

“Luzes da Cidade” seria, a exemplo de “Tempos Modernos” (este sim, um produto assumido do inconformismo, tanto na parte moral quanto na cinematográfica – onde Chaplin faz aquela que talvez seja sua maior crítica ao cinema falado, a canção de letra ininteligível que o Vagabundo canta em um cabaré), um elemento de transcrição na filmografia do diretor. Embora não tenha incluído sequer uma linha de diálogo durante toda a metragem da obra, Chaplin utilizara o som como um elemento imprescindível de sua narrativa, uma atitude que demonstrara sua inigualável inteligência. É só lembrar de uma das cenas com maior potencialidade cômica do filme, na qual Carlitos engole um apito, para constatarmos a grande influência dos efeitos sonoros no resultado final da obra.

Mesmo assim, este não é o único momento da obra no qual Chaplin incluíra passagens sonoras, ou melhor, elementos sonoros em meio à estrutura de filme mudo utilizada por ele para a composição do filme. A começar pela trilha-sonora, composta pelo próprio diretor, que pôde ser incluída diretamente na película e fazer parte de sua narrativa, acrescendo ainda mais em charme romântico a história que, por si só, já é um trabalho de encher os olhos de lágrimas. É uma trilha belíssima, da qual seus acordes certamente permearão a mente do ouvinte durante um bom tempo. Mas, afora a música, outro bom exemplo é a cena da luta de boxe, onde a campainha de chamada também é simbolizada pelo som – e começa a tocar incessantemente.

“Luzes da Cidade” não apenas é o filme mais comovente de Chaplin, em especial por sua cena final, que é uma das mais deliciosas já filmadas pelo diretor, passando uma sensação de esperança apaixonante e extremamente singular, como também uma das fitas mais importantes de sua carreira. Servindo como uma espécie de marco em sua filmografia, já que é a primeira obra feita por ele após o advento do cinema sonorizado e falado, também serve para demonstrar que a insistência de Chaplin em não aderir aos “talkies” não era pura implicância, mas sim uma escolha fundamental na carreira de um dos mais relevantes artistas do século passado, e, por que não, de toda a história da humanidade. Uma demonstração de inteligência pura que só poderia ser provinda de uma mente genial.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0021749/

Trailer:

Filme Completo:


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Download: “Luzes da Cidade” Legendado RMVB

Galeria de Imagens:

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