Arquivos Mensais: abril \30\UTC 2013

Atrizes: Clara Bow

Nome: Clara Gordon Bow
Nascimento e local: 29 de julho de 1905, Brooklyn, Nova York
Falecimento e local: 27 de setembro de 1965, Culver City,Califórnia
Ocupação: Atriz
Casamento: Rex Bell (de 1931 a 1962)

clara-bow-wall

A menina do Brooklyn superou a miséria e os traumas da infância para se tornar um dos primeiros símbolos sexuais do cinema, ainda no período silencioso. Apelidada de “It Girl” – a garota que tinha “aquilo” que ninguém sabia explicar, mas que era potencialmente sedutora -, Clara Bow foi a principal estrela dos estúdios Paramount na década de 20, mas seu brilho intenso durou muito pouco. Ela se retirou das telas em 1933, aos 28 anos.

“IT GIRL”, A GAROTA QUE O MUNDO ESQUECEU
Uma infância marcada pela miséria, uma carreira meteórica em Hollywood e uma vida prejudicada por problemas de saúde

clara-bow-young-1Nos anos 20, muitas estrelas disputavam a luz dos holofotes na meca do cinema: Gloria Swanson, Janet Gaynor, Louise Brooks, Mary Philbin. Nenhuma delas, porém, atingiu a fama alcançada por Clara Bow. Talvez você não se lembre dela, talvez nunca tenha visto nenhum filme estrelado por ela, mesmo que este seja “Asas” ou “It”, seus dois filmes mais conhecidos. Mas com certeza conhece a personagem dos cartoons Betty Boop. Betty Lou, personagem de Clara Bow no filme “It”, de 1927, foi quem inspirou a personagem criada por Max Fleischer para a Paramount em 1930. A despeito de alguns que dão à cantora Helen Kane os traços que inspiraram Betty Boop, eu prefiro creditar à Clara Bow a sua criação.

Esta é uma das muitas lendas envolvendo a menina pobre nascida no Brooklyn em 29 de julho de 1905. Outras fontes dão o ano de seu nascimento como 1906 ou 1907 – dada gravada em sua lápide. Clara Gordon Bow foi a terceira de três filhas do casal Sarah e Robert Gordon, e a única que sobreviveu. Sua mãe havia sido advertida por um médico para que não engravidasse novamente, pois a criança corria grave risco de também vir a falecer. Apesar do alerta, Sarah engravidou durante o outono de 1904. Clara Bow teve uma infância infeliz, marcada pela pobreza e pela violência. Sua mãe era uma prostituta ocasional que sofria de psicose e epilepsia, aparentemente provocadas por uma queda sofrida aos 16 anos de idade. Além das convulsões freqüentes, a doença provocava pensamento desordenado, desilusão, paranóia e comportamento agressivo. Clara cuidava de si e da mãe na maior parte do tempo. Robert, o pai de Clara, vivia a maior parte do tempo fora de casa e há registros de que também sofria de doença mental. Quando estava em casa, tinha um comportamento violento, gritando e agredindo mãe e filha. Ele estuprou Clara quando ela tinha cerca de 15 anos de idade. “Eu acredito que minha mãe nunca amou meu pai. Ele sabia disso. E isso o deixou muito infeliz pois ele a amava muito, o tempo todo”, afirmou Clara anos mais tarde.

A infância foi terrível para ela, além da doença dos pais e a violência, Clara era discriminada pelas meninas da vizinhança que riam das suas roupas surradas e de seu cabelo de “cenoura”. Clara lembraria que nessa época quase não tinham o que comer muito menos o que vestir. Ela preferia a companhia dos rapazes para as brincadeiras, o que de certo modo a tornou popular na escola. Um desses coleguinhas, um rapaz mais novo que morava em seu prédio, foi queimado até a morte em sua presença durante um acidente.

clara bow 1921 - by nickolas murayNo colégio, Clara provou ser uma atleta natural – ela ganhou cinco medalhas em corridas – e teria seguido uma carreira como instrutora de atletismo se o Cinema não tivesse surgido em sua vida. Sua feminilidade começou a despontar e ela deixou de lado as gangues de garotos que freqüentava. Clara foi descoberta quando participou de um concurso de uma revista de grande tiragem na época, onde o prêmio era justamente uma participação em um filme. Sua mãe era contra, mas com o apoio do pai, Clara participou do concurso. Os seus testes de atriz impressionaram os jurados de tal forma que ela tirou o primeiro lugar. “Pela primeira vez na minha vida eu sabia que havia beleza no mundo. Pela primeira vez eu vi terras distantes, serenidade, lindas casas, romance, nobreza, glamour”, afirmou. Aos dezesseis anos, ela sabia que se tornaria uma estrela de cinema mesmo que segundo ela não passasse de uma garota “esquálida, esquisita e com uma cara engraçada de menino”.

A vitória no concurso lhe deu um vestido novo, um troféu de prata e uma promessa da editora de que ela seria escalada em algum filme, mas isso não aconteceu. O pai aconselhou Clara a fazer visitas constantes ao escritório da revista – que ficava no Brooklyn: “Para se livrarem de mim ou talvez porque estavam mesmo interessados em me ajudar, mas estavam muito ocupados até então”, Clara foi apresentada ao diretor Christy Cabanne, que a escalou para o filme “Beyond the Rainbow”, estrelado por Billie Dove e produzido em Nova York , em 1921. Ela aparecia somente em cinco cenas e impressionou Cabanne com sua cena de choro, mas acabou sendo cortada da versão final. A menina começou a achar que sua mãe estava certa sobre o mundo do cinema. Ela havia abandonado a escola no último ano por conta da promessa de uma carreira no cinema e agora trabalhava em um escritório ordinário.

clara-bow-down-to-the-seaAo contrário do que ela acreditava, a participação de Clara no filme não foi cortada de todo, e seu nome continuou constando dos cartazes de “Beyond the Rainbow”, como a “Brewster magazine beauty contest winner” (a “beleza vencedora do concurso da revista Brewster”). Clara visitava agências e escritórios quase diariamente, mas sempre voltava para casa desolada: “Havia sempre alguma coisa. Ou eu era muito jovem, ou muito pequena, ou muito gorda. Geralmente eu era muito gorda”. A grande chance surgiu quando o diretor Elmer Clifton precisou de um “tomboy” para seu filme “Down to the Sea in Ships”, e viu uma foto de Clara, acreditando que ela seria perfeita como uma menina que se passa por menino para viver uma vida de aventuras no mar. Mesmo não tendo idade para viver a menina, ela disfarçou jogando o cabelo para cima e fez seu teste usando um vestido que pegou emprestado da mãe. Clifton achou tanta graça na sua apresentação que a contratou, com um salário de 50 dólares por semana. O filme era uma produção independente filmada em Massachusetts em ritmo de documentário sobre a vida de caçadores de baleia, mas a presença de Clara Bow no filme foi tamanha que ela se destacou mais do que os principais atores em cena.

Em fevereiro de 1922, pouco antes de ter sido internada em um sanatório, Sarah tentou matar a própria filha enquanto ela dormia. Clara acordou com uma faca de açougueiro no pescoço, mas foi capaz de repelir o ataque e de trancar sua mãe em um cômodo. Na manhã seguinte, Sarah não se lembrava do ocorrido. A mãe de Sarah morreria um ano depois vítima da epilepsia.

Seguiram alguns convites para filmar, em participações não creditadas, como dançar semi-nua sobre uma mesa em “Enemies of Women” (1923). No mesmo ano, ela participou de “The Daring Years” e se tornou amiga da atriz Mary Carr, que a ensinou como usar maquiagem. Em “Grit”, de 1924, filme sobre deliquência juvenil escrito por F. Scott Fitzgerald, ela ganhou outro papel de “tomboy”. Durante as filmagens, ela conheceu o cameraman Arthur Jacobson, que foi seu primeiro namorado, e o diretor Frank Tuttle, com quem trabalharia em outros cinco filmes. É Tuttle quem afirma: “Suas emoções eram tão próximas à superfície que ela podia chorar por demanda, abrindo uma represa de lágrimas quase tão rápido quanto eu pedisse a ela que o fizesse. Ela era uma dinamite, cheia de energia nervosa e vitalidade e desagradavelmente ansiosa em querer agradar a todos.”

clara-bow-the-wild-party

Durante as filmagens de “Grit”, Clara conheceu o produtor independente Jack Bachman, que a convidou para trabalhar em Hollywood por um período de experiência, a 50 dólares por semana. Ela deixou o pai, o namorado e Nova York para trás em julho de 1923 para trabalhar na Preferred Pictures, fundada por B.P. Schulberg, ex- gerente de publicidade na Famous Players-Lasky. Quando aquele estúdio entrou em colapso, Schulberg perdeu o emprego e fundou sua própria companhia em 1919, aos 27 anos de idade. O primeiro filme de Clara Bow na Preferred foi “Maytime”, uma adaptação da popular opereta, na qual interpretou Alice Tremaine. Ao fim das filmagens, a atriz foi emprestada à First National Pictures para atuar em duas produções: “Black Oxen”, uma adaptação do best-seller de Gertrude Atherton, co-estrelado por Corinne Griffith e Conway Tearle, e “Painted People”, co-estrelado pela atriz Colleen Moore.

O diretor Frank Lloyd estava escalando jovens atrizes para o papel de Janet Ogelthorpe em “Black Oxen”, e mais de 50 moças, a maioria com experiência de tela, estavam sendo testadas. “Ele não sabia exatamente o que estava procurando e finalmente alguém me sugeriu para ele. Quando eu fui ao escritório dele, um grande sorriso surgiu em seu rosto e ele parecia que ia morrer de tanto rir”. Segundo Lloyd, ele havia encontrado a atriz perfeita para viver a personagem Janet, uma jovem aristocrática de língua afiada, temperamento forte, gênio irascível e profundamente emotiva.

clara-bow-forbes-wedding-night

“Painted People” (também conhecido como “The Swamp Angel”) gerou problemas por conta do estrelismo da atriz Colleen Moore, contratada a 1.200 dólares a semana (Clara recebia 200 dólares). Clara não queria fazer o papel da irmã da personagem e sim o papel de Moore, uma jovem que se passava por rapaz para jogar beisebol. Quando esta impediu que o diretor Clarence G. Badger fizesse cenas em close-up com Clara, temendo que ela lhe “roubasse” as cenas, furiosa, Clara foi ao médico pedindo que ele lhe fizesse às pressas uma cirurgia nos seios. No dia seguinte, ela voltou ao set coberta de ataduras, forçando o estúdio a descartar sua participação no filme e a refazer todas as suas cenas com outra atriz.

Agenciada por Maxine Alton, que controlava a sua carreira e com quem dividia um apartamento, Clara Bow decidiu desafiar a autoridade dela e trazer seu pai para Hollywood. Segundo a atriz, o reencontro foi emocionante: “Eu só me joguei em seus braços e o beijei e beijei, e nós dois choramos como um casal de crianças idiotas”. Para Clara, Maxine Alton era uma mentirosa e tinha abusado de sua confiança. A atriz mudou-se com o pai e o namorado Arthur Jacobson, mas quando Schulberg soube da situação despediu Jacobson, que também trabalhava na Preferred, temendo que um escândalo arruinasse a carreira da sua “grande estrela em potencial”. Quando a atriz descobriu, ela rasgou seu contrato e o atirou na cara de Schulberg. Segundo Jacobson, “Clara era a garota mais doce do mundo, mas desde que você não pisasse nela e não fizesse algo contra ela”.

clara-bow-fredric-march-the-wild-party

Em 1924, Clara Bow atuou em oito filmes, entre os quais “Poisoned Paradise”, “Daughters of Pleasure”, co-estrelado por Marie Prevost, e “Wine”, produção da Universal em que ela tem seu primeiro papel como protagonista, esbanjando sex appeal no papel de uma garota que se envolve com o tráfico de bebidas durante a Lei Seca. O ano seguinte foi ainda mais prolífico: foram 14 filmes, sendo seis sob contrato com a Preferred e oito como atriz “emprestada”. Desse período, os destaques são para “Empty Hearts”, “Helen’s Babies”, “Kiss Me Again” e “The Plastic Age”. Clara lembrou essa época: “Todo esse tempo eu estava como um animal selvagem, eu acho, no sentido de tentar me divertir… Talvez isso tenha sido uma coisa boa, porque eu acho que muito do excitamento, daquela alegria da vida, acaba indo para dentro da tela”.

A Preferred estava enfrentando problemas financeiros e emprestava Clara Bow para outros estúdios por 1.500 a 2.000 dólares por semana. Pressionado pelo monopólio da MPPA, que tentava bloquear os produtores independentes, Schulberg decretou a falência da Preferred e dias depois se uniu a Adolph Zukor na Paramount, muito graças ao fato de ele ainda ter a atriz sob seu contrato. “The Plastic Age” foi o último filme de Clara para a Preferred Pictures e também o seu maior sucesso na época. No filme, a atriz conheceu o ator Gilbert Roland, de quem acabou ficando noiva. Segundo Zukor declarou em suas memórias, “por mais habilidosos que sejam os diretores e por mais que soem os tambores dos agentes, nenhum deles é capaz de criar uma estrela, apenas o público pode fazer isso”, e para o público, Clara Bow era a grande estrela do momento. Para os donos de cinemas, garantia absoluta de casa cheia em qualquer filme estrelado por ela.

clara-bow-mantrap

Clara Bow não era o modelo de diva que o público estava acostumado a ver nas telas. Muito longe do glamour de suas colegas Greta Garbo, Norma Shearer ou Gloria Swanson. Fora das telas, Clara fazia o gênero “girl next door”, mas tinha uma presença de cena que encantava e seduzia como poucas estrelas da época. Por mais diferentes que fossem seus personagens (no auge da carreira ela chegou a trabalhar em três filmes ao mesmo tempo), Clara Bow era sempre a atriz escolhida para viver garotas más da alta classe, temperamentais e emotivas. Em cena, a atriz nunca perdia o foco, suas atuações sempre eram intensas, seu olhar sempre eloqüente e suas emoções sempre a flor da pele. Certa vez, o diretor Victor Fleming comparou Clara Bow a um violino Stradivarius: “Toque-a e ela responderá com genialidade”.

O ano seguinte, 1926, foi excepcional para a atriz. Ela atuou em cinco produções da Paramount, incluindo a versão do musical “Kid Boots”, com Eddie Cantor, e mais outras três produções para as quais foi emprestada. Um dos grandes sucessos neste ano foi a comédia romântica “Mantrap”, dirigida por Victor Fleming, na qual Clara interpretava Alverna uma manicure envolvida com um homem de coração partido (Ernest Torrence) e um advogado divorciado (Percy Marmont). Sobre a personagem, Clara comentou: “Alverna era má no livro, mas – que diabo! – é claro que eles não podiam fazê-la daquele jeito no filme. Então eu a interpretei como uma paqueradora”. O filme foi um estrondoso sucesso de público e de crítica. Clara Bow renegociou seu contrato com a Paramount, passando de 700 para 1.700 dólares semanais.

“IT”, “WINGS” & “TALKIES”

Em 1927, Clara Bow foi escalada para a comédia romântica “It”, dirigida por Clarence G. Badger, sobre uma garota apaixonada pelo chefe da loja em que ela trabalha. Por causa do filme e do sucesso que ele alcançou, a atriz seria para sempre conhecida como a “It girl”. Ruiva e de olhos expressivos, Clara Bow era de fato a garota que tinha “aquilo” que ninguém sabia explicar, mas pelo qual era seduzido. A atriz se tornou um mito sexual, ajudada pelo papel de suas personagens sempre irresistíveis e sexualmente atrativas das quais não há possibilidade de fuga por causa do “it” que elas tinham.

clara-bow-antonio-moreno-it

No mesmo ano, Clara Bow foi escalada para “Asas”, o seu filme mais famoso. Porém, sua personagem nunca esteve no roteiro, tendo sido incluído às pressas para aproveitar a fama da atriz e criar um interesse romântico em um filme com um elenco totalmente masculino. “Asas” é a história de dois pilotos da Força Área, Jack Powell (Charles “Buddy” Rogers) e David Armstrong (Richard Arlen), rivais na cidade em que moram, pois ambos estão apaixonados por Sylvia Lewis, uma menina rica. Jack, porém é amado por Mary Preston (Clara Bow) sem saber. Quando os dois partem para a França durante a Primeira Guerra Mundial, Marie se alista e vai servir como motorista de ambulância para tentar encontrar Jack em Paris.

clara-bow-charles-rogers-wings-1Marie o reencontra, mas ele está bêbado demais para reconhecê-la. Ela acaba sendo mandada de volta à América e o grande momento do filme é a batalha de Saint-Mihiel, onde David é abatido e dado como morto. Ele sobrevive, rouba um avião alemão e voa em direção às linhas aliadas. No caminho, pensando tratar-se do inimigo, Jack o ataca, derruba seu avião e quando pousa descobre que se trata de seu colega. Ao fim da guerra, Jack volta para casa e pede perdão à família do amigo morto. A mãe de David diz que ele não é responsável pela morte de seu filho, e sim a guerra. Jack se reencontra com Marie e ela realiza seu amor por ele.

Clara Bow nunca quis atuar em “Asas”. Ela afirmou: “Asas é um filme de homens e eu sou apenas a cereja no topo do bolo”. De fato, “Asas” entrou para a história pelo prêmio de melhor filme que recebeu na primeira cerimônia de entrega do Oscar. Um enredo banal valorizado pelas excelentes cenas de ação. O diretor William Wellman (que combateu durante a Primeira Guerra Mundial) realizou um exímio trabalho obtendo sequências de combate verdadeiramente espetaculares, auxiliado pelos excelentes efeitos especiais de Roy Pomeroy, que adaptou câmeras às asas dos aviões. Pomeroy foi premiado com um Oscar especial e o filme entrou para a história também pela cena de três minutos que lançou à fama um certo ator chamado Gary Cooper. William Wellman, diretor do filme, declarou sobre a atriz: “Ser estrela de cinema não significa ter habilidade de atuar – isso é personalidade e temperamento… Certa vez eu dirigi Clara Bow, e ela era louca e furiosa, mas que personalidade!”

clara-bow-wings-3

clara-bow-wings-2

clara-bow-wings-1

Apesar de seu papel pequeno em “Asas”, Clara Bow se destaca o tempo todo, como se estivesse em um filme só seu, e é o que o público de hoje enxerga ao assistir o filme e que não mudou em mais de 80 anos. Quando Clara Bow está na tela, você simplesmente não consegue tirar os olhos dela. Quando ela sai de cena, a única coisa que você pensa é quanto tempo vai levar até ela retornar. Clara não era a mulher mais bonita do cinema, e dividiu a tela com atrizes mais bonitas do que ela, mas ela tinha algo que toda grande estrela tem, uma qualidade de atrair a atenção não importa o papel em que está atuando. No caso de Clara Bow, havia algo mais. Havia um desejo de superação e de aproveitar todas as chances que lhe caíram aos pés após uma infância de misérias, tragédias e privações. Por mais que atuasse como a garota moderna do Jet set, havia logo abaixo do glamour e da maquiagem certa vulnerabilidade e uma carência que ficam bem caracterizados na personagem Marie em “Asas”.

Aqueles que trabalharam com ela diziam que sempre que uma cena pedisse por lágrimas, Clara Bow pedia para alguém cantar “Rock-A-Bye Baby” e logo em seguida as suas lágrimas fluíam de verdade. Dada a sua infância, fica fácil imaginar o que a música significava para ela. Para a roteirista Adela Rogers St. John, Clara Bow oscilava de uma emoção para outra, sem ganhar nada, nem guardar nada para o futuro. Ela vivia o presente, não o hoje, mas o momento, ela nunca estava conformada, e o que ela queria, conseguia, se fosse possível. O que desejava ela fazia: “Ela tem um grande coração, uma mente brilhante e um enorme desprezo pelo mundo como um todo. O tempo não existe para ela, exceto por ela pensar que ele vai parar amanhã. Ela tem muita coragem, e vive com ousadia. Quem somos nós, afinal, para dizer que ela está errada?”

clara-bow-the-saturday-night-kid

clara-bow-dancing-mothers

clara-bow-gary-cooper-children-of-divorce

Com os “talkies” “The Wild Party”, “Dangerous Curves” e “The Saturday Night Kid” Clara Bow manteve o prestígio tanto como chamariz de bilheteria como a rainha do cinema. A voz ou mesmo o conhecido sotaque do Brooklyn nunca foi problema para ela, para a Paramount ou para seus fãs. Entretanto, assim como Chaplin e Louise Brooks, Clara Bow também odiava os filmes falados: “Eu odeio os talkies”, ela disse, “eles são duros e restritivos. Você perde muito de sua candura porque não há nenhuma chance para a ação, e ação é a coisa mais importante para mim”. Enquanto a Metro deu a Garbo dois anos para se preparar para atuar em um filme falado, a Paramount deu a Clara Bow duas semanas. O microfone no set de filmagem a deixava nervosa, desviava a sua atenção e tirava a sua concentração: “Eu não posso deter o progresso, apenas tentar fazer o melhor que eu posso”, dizia. Em “The Wild Party”, de 1929, seu primeiro filme falado, a atriz já começou a dar demonstrações de estafa, ao ter que repetir um sem número de takes durante as filmagens. Clara estava atingindo o que ela chamou mais tarde de “ponto de ruptura”, e convivendo com ampolas de sedativo ao redor da sua cama.

1930 Clara Bow Frederic March True to the Navy

1930 Clara Bow Frederic March True to Navy

Ela ainda era certeza de bilheteria em filmes como “True to the Navy”, “Love Among the Millionaires” e “Her Wedding Night”, perdendo apenas para sua colega de estúdio Joan Crawford. Porém, logo sua carreira entraria em declínio. A pressão da fama, os escândalos públicos, o excesso de trabalho e um processo judicial contra sua secretária pessoal Daisy De Voe (que expôs ao público sua vida particular), abalaram ainda mais o frágil estado emocional da atriz. Cada vez mais próxima de um colapso, Schulberg passou a chamá-la de “Crisis-a-day-Clara”, e em abril de 1931 ela foi levada para um sanatório e a seu pedido a Paramount a liberou de um último compromisso, o filme “City Streets”, dirigido por Rouben Mamoulian. Silvia Sydney, namorada de Schulberg, acabou ficando com o papel destinado a Clara Bow e, aos 25 anos, a sua carreira em Hollywood parecia estar encerrada. Logo em seguida, a Paramount perderia o posto de maior estúdio de Hollywood para a MGM e B.P. Schulberg seria despedido.

clara-bow-rex-bell-sons

Clara Bow deixou Hollywood para morar no Rancho do ator Rex Bell em Nevada, segundo ela o seu “paraíso no deserto”. Eles se casaram em dezembro de 1931, e aos poucos Clara recuperou a saúde, segundo ela com “boas noites de sono, exercícios físicos e boa comida”. Exceto a Paramount, todos os estúdios de Hollywood e de além-mar queriam Clara Bow. Mary Pickford dizia que Clara era uma grande atriz e a queria em seu filme “Secrets”. Howard Hughes ofereceu-lhe um contrato para três filmes e a MGM a queria como estrela em “Red Headed Woman”. Clara gostou do roteiro, mas acabou recusando porque Irving Thalberg só a aceitaria se ela assinasse um contrato de longo tempo com o estúdio.

Em 1932, ela assinou contrato com a Fox Film Corporation para dois filmes, ambos estouros de bilheteria: “Call Her Savage”, de 1932, e “Hoop-La”, de 1933. O público e a crítica viram uma nova Clara Bow nas telas. Segundo a revista Variety “uma atriz mais madura, mas que continuava deslumbrante e fotografando extremamente bem”. Apesar do sucesso, os tempos agora eram outros, e Clara Bow encerrou sua carreira em 1933, aos 28 anos. “Um símbolo sexual é uma carga pesada demais para se carregar”, ela escreveu mais tarde, “quando você está cansado, magoado e confuso”. Com Rex Bell – que mais tarde se tornou governador do estado de Nevada –, Clara teve dois filhos, Tony e George, nascidos em 1934 e 1938, respectivamente.

clara-bow-hoopla

clara-bow-call-her-savage-1

clara-bow-gilbert-roland-call-her-savage

Progressivamente, a atriz começou a demonstrar sintomas de doença mental. Ela também se negava a sair de casa e a acompanhar o marido em seus compromissos públicos. Em 1944, durante uma das ausências de Bell, ela tentou se suicidar, deixando uma nota em que dizia que preferia a morte a uma vida pública. Clara foi internada diversas vezes e fez inúmeros exames para descobrir a causa dos distúrbios, inclusive tratamento de choque, quase todos inconclusivos. As dores que dizia foram diagnosticadas como ilusões devido à esquizofrenia, a despeito da ausência relatada de visões ou alucinações. Ela abandonou o tratamento e passou a morar sozinha em um bangalô em Los Angeles, de onde raramente saía, sob cuidado constante de uma enfermeira.

Clara Bow morreu de ataque do coração em 27 de setembro de 1965, aos 60 anos. Uma autópsia revelou que ela sofria de arteriosclerose, uma doença do coração. Em 1999, o historiador de cinema Leonard Maltin disse: “Você pode pensar em Greta Garbo, Lillian Gish, e todos esses grandes nomes e grandes atrizes, mas Clara Bow foi a mais popular em termos de bilheteria, em termos de consistência em trazer o público para os cinemas. Ela esteve o tempo todo no topo.”

Filmografia:

Hoop-La (1933)
Call Her Savage (1932)
Kick In (1931)
No Limit (1931)
Her Wedding Night (1930)
Love Among the Millionaires (1930)
True to the Navy (1930)
The Saturday Night Kid (1929)
Dangerous Curves (1929)
The Wild Party (1929)
Three Weekends (1928)
The Fleet’s In (1928)
Ladies of the Mob (1928)
Red Hair (1928)
Get Your Man (1927)
Hula (1927)
Wings (br: Asas) (1927)
Rough House Rosie (1927)
Children of Divorce (1927)
It (1927)
Kid Boots (1926)
Mantrap (1926)
The Runaway (1926)
Fascinating Youth (1926)
Dancing Mothers (1926)
Two Can Play (1926)
Shadow of the Law (1926)
Dance Madness (1926)
My Lady of Whims (1925)
The Ancient Mariner (1925)
The Plastic Age (1925)
The Best Bad Man (1925)
Free to Love (1925)
The Primrose Path (1925)
The Keeper of the Bees (1925)
Kiss Me Again (Beija-me Outra Vez) (1925)
Parisian Love (1925)
My Lady’s Lips (1925)
The Scarlet West (1925)
The Lawful Cheater (1925)
Eve’s Lover (1925)
The Adventurous Sex (1925)
Capital Punishment (1925)
Black Lightning (1924)
This Woman (1924)
Helen’s Babies (1924)
Empty Hearts (1924)
Wine (1924)
Daughters of Pleasure (1924)
Poisoned Paradise (1924)
Grit (1924)
Black Oxen (1923)
Maytime (1923)
The Daring Years (1923)
Enemies of Women (1923)
Down to the Sea in Ships (1922)
Beyond the Rainbow (1922)

Tributo:

Galeria de Imagens:

Filmes: O Ladrão de Bagdá (1924)

O LADRÃO DE BAGDÁ
thiefofbagdad_3Título Original: The Thief of Bagdad
País: Estados Unidos
Ano: 1924
Duração: 155 min.
Direção: Raoul Walsh
Elenco: Douglas Fairbanks Sr., Julanne Johnston, Anna May Wong, Snitz Edwards, Charles Belcher, Brandon Hurst, Noble Johnson, SoJin, Tote Du Crow.
Sinopse:
Adaptado do livro “As Mil e Uma Noites”, o filme mostra a missão de um jovem e esperto ladrão em derrotar um feiticeiro e devolver ao sultão o trono, com a ajuda de um “Gênio” que lhe concederá três desejos quando for libertado da garrafa.

Em “O Ladrão de Bagdá”, Douglas Fairbanks Sr. atingiu o auge da sua carreira como herói estonteante e fanfarrão em espetáculos de aventuras, históricos ou fantasistas. A nível visual, este filme é sem dúvida a película mais deslumbrante alguma vez realizada até aquele momento e por muitos anos a frente, cuja concepção única se deve a esse gênio da cenografia cinematográfica que foi William Cameron Menzies. Num terreno de seis acres e meio – o maior de toda a história de Hollywood -, Menzies decidiu recriar a Bagdá mítica, como se esta fosse um mundo mágico, onírico, inesquecível, simultaneamente real e irreal, com os seus tapetes voadores, os seus cavalos alados, os seus minaretes altivos, os seus pavimentos luminosos e dragões ferozes. Ao interpretar Ahmed, um ladrão em busca da sua princesa, Fairbanks – de peito nú e com roupas sedosas que se lhe colavam ao peito – explora, como nunca tinha feito antes na grande tela, um erotismo sensual. Anna May Wong, a jovem escrava mongol, dá-lhe réplica adequada. Apesar de Raoul Walsh, cineasta telentoso e capaz, receber o título de realizador de “O Ladrão de Bagdá”, a sua concepção geral é da responsabilidade de Fairbanks, que, dada a sua ambição artística desmedida, nele participou como produtor, argumentista, estrela principal e dublê de suas próprias cenas mais arriscadas.

Um filme que continua visualmente impressionante e divertido mais de 80 anos depois

Houve uma época, tão em moda quanto nos dias de hoje, em que os anti-heróis eram os favoritos do público e nenhum daqueles atores de tela foi mais popular ou mais romântico do que Douglas Fairbanks, o primeiro modelo masculino ideal do cinema mudo. E mesmo que não possa ser inteiramente de acordo com o gosto da crítica, entre tantos outros trabalhos memoráveis do ator, que se afirme que o melhor de seus filmes foi sem dúvida “O Ladrão de Bagdá”, produzido em 1924. Contudo, não pode ser desconsiderado que Fairbanks foi, à sua maneira ingênua, um dos principais contribuidores e responsáveis pela evolução do cinema. Ninguém da sua geração foi capaz de igualar suas performances nas telas. De Tom Mix a William S. Hart, de Rudolph Valentino a John Gilbert e John Barrymore, nenhum deles eram algo mais do que simples intérpretes ou apenas uma imagem projetada nas telas, ou tinham mais personalidade do que Fairbanks. Nenhum deles também se esforçava um pouco mais para criar um estilo de cinema. E ninguém mais do que Fairbanks recebeu tanto apoio e carinho dos fãs.

Quanto a “O Ladrão de Bagdá”, o filme nos traz Fairbanks no auge de seu estilo extravagante, o que é francamente e, neste caso, abertamente, dedicado ao mito de fabricação. E ainda é um exemplo brilhante da mágica do cinema, produzido como um espetáculo mudo. O interessante é que Fairbanks tinha uma personalidade de base sólida que ele conscientemente tinha evoluído e adaptado para diversas finalidades de entretenimento, entre os muitos filmes de aventura que estrelou desde que percebeu a enorme potencialidade dos filmes de fantasia para atrair o público aos cinemas, como fez anteriormente em “A Marca do Zorro” ou “Robin Hood”. Para muitos, porém, a sua realização suprema em termos de atuação no cinema é o seu filme seguinte “O Ladrão de Bagdá”, para o qual ele dedicou a maior parte de 1923 se preparando para o filme. Nesta composição eclética de vários dos contos das “1001 e Uma Noites” em uma história verdadeiramente romântica das aventuras de um malandro cínico que se apaixona pela filha do califa e, finalmente ganha seu amor por feitos de bravura, Fairbanks dá um salto completo na área da fantasia pictórica absoluta que tinha sido aberto por Georges Méliès em França, mas foi quase totalmente negligenciado até então pelos fabricantes de filmes americanos.

Para superar o castelo normando que ele construiu para Robin Hood, Fairbanks e seu diretor de arte William Cameron Menzies chegaram ao extremo de construir uma cidade fantástica e um palácio, com cúpulas e minaretes cintilantes, escadarias e pontes que sobem para fora do cenário. Eles não tinham pretensão de simular a realidade oriental. A cidade de seus sonhos é uma compilação de ilustrações de livros de histórias infantis. As paredes de prata foram construídas e pintadas de forma que parecessem flutuar acima de pavimentos sólidos. A decoração foi criada para sugerir que era sem substância e peso. E os projetos para as “Adventures of the Seven Moons”, que compõem a última parte do filme, eram misturas inéditas de cenários animados e truques de fotografia.

“O Ladrão de Bagdá” é a história de um malandro bonito, charmoso, musculoso e aventureiro que corre sobre as ruas apinhadas de Bagdá em pantalonas revoltas, com o torso nu e um lenço de pirata amarrado em sua cabeça. Uma noite, ele se atreve a entrar no palácio do califa, e desliza do alto, por meio de uma corda mágica. Uma vez lá dentro, ele encontra um colar de pérolas em um baú e se depara com o quarto da filha do califa, dormindo com suas damas ao seu redor. A partir deste momento, o ladrão fica encantado pela beleza da princesa, e inventa várias formas enganosas de atingir a sua atenção e favor. O mais bem sucedido é disfarçar-se como um dos pretendentes principescos que vieram a Bagdá para pedir sua mão. Ele consegue ser escolhido (pelo acidente de ser lançado de seu cavalo para a roseira muito que, como uma linha de meta, deve ser tocada primeiro por um pretendente para ganhar), mas seu disfarce é descoberto, e as ordens do califa são que ele seja açoitado e atirado às feras. No entanto, a princesa, agora apaixonada pelo deslumbrante e bravo ladrão, consegue a sua liberação para que ele possa participar de um novo concurso promovido pelo califa para arranjar um pretendente: trazer de volta o mais raro tesouro de terras distantes e mágicas.

Trata-se de uma série de aventuras do ladrão e de seus rivais, enquanto lutam para invadir sortidas regiões fabulosas, como o Vale dos Monstros e a Cidadela da Lua, e a obtenção de tesouros como a maçã mágica, o tapete voador e o cavalo alado, que a imaginação de Fairbanks e de seus colaboradores dão vida nas telas. A criatividade e o humor das suas criações são deliciosos e quase profética na realidade pelo como eles previram que o cinema iria recorrer à fantasia nos anos seguintes, como um prelúdio para filmes como Horizonte Perdido”, “King Kong” ou “O Mágico de Oz”. Desnecessário dizer que tudo termina com o ladrão conquistando a princesa e os dois viajando pelo céu a bordo do tapete mágico, quando as estrelas cintilam e formam um título onde se lê “Happiness Must Be Earned” (“A felicidade deve ser conquistada”).

É claro que há uma incongruência completamente despreocupada com a coisa toda, uma indiferença feliz com a lógica e com o personagem, onde o ladrão das arábias é um óbvio super-homem anglo-saxão sorridente e galanteador, a princesa (interpretada por Julanne Johnston) é uma bela loira nórdica. O pai dela (interpretado por Brandon Hurst), bem poderia ser um próspero banqueiro ou dono de empresas, e o príncipe mongol representa um conceito ocidental sobre a típica vilania oriental encarnada no ator Sojin. “O Ladrão de Bagdá” é uma pictórica e deslumbrante aventura de amor e puro entretenimento, uma exibição franca e completa de Fairbanks para feitos mirabolantes dentro de um ambiente espectacular de artifícios cênicos e cinematográficos que ele mesmo construiu para si e que até então representam o ápice de sua carreira como ator e realizador de filmes. Nem mesmo a longa duração, mais de duas horas e meia de projeção, um exagero em se tratando de filmes silenciosos, preocupa.

Estranhamente, “O Ladrão de Bagdá” nunca foi tão popular como “Robin Hood”, apesar de ter sido reconhecido como um trabalho mais imperativo. Depois disso, Fairbanks continuou a fazer filmes de espetáculo em trajes de época, embora não em escala tão ambiciosa ou extravagante como este. Seu filme seguinte, “The Black Pirate”, também merece créditos especiais por ter sido o primeiro a abordar os filmes de piratas, criando um novo cenário para os filmes de ação e muitas oportunidades para que o ator desempenhasse um novo herói e exibisse seus dotes atléticos e seu talento de espadachim. Em 1930, ele e Mary Pickford fizeram sua primeira produção juntos em seu primeiro filme falado. Foi uma adaptação mais sangrenta de “A Megera Domada”, de Shakespeare. Profissionalmente, foi o começo do fim para ambos. Seus filmes, estimados no período de silêncio, não sobreviveram ao som. Fairbanks fez quatro filmes antes que ele e Miss Pickford se divorciassem em 1936. Isso foi o fim para ele, que morreu em 1939, aos 56 anos, deixando para trás uma carreira magnífica e valiosas contribuições para a Sétima Arte.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0015400/

Filme (Parte 1):

Galeria de Fotos:

Filmes: O Médico e o Monstro (1931)

O MÉDICO E O MONSTRO

drjekyll-1931_3Título Original: Dr. Jekyll and Mr. Hyde
País: Estados Unidos
Ano: 1931
Duração: 98 min.
Direção: Rouben Mamoulian
Elenco: Fredric March, Miriam Hopkins, Rose Hobart, Holmes Herbert, Edgar Norton, Halliwell Hobbes, Tempe Pigott, Sam Harris, Tom London, Arnold Lucy, Murdock MacQuarrie, G.L. McDonnell, John Rogers, Douglas Walton, Eric Wilton.
Sinopse:
O cientista Henry Jekyll, fascinado pela dualidade entre o bem e o mal, desenvolve um elixir que o transforma num perigoso assassino, que passa a ser conhecido como Sr. Hyde, revelando o lado sombrio que se esconde dentro dele.

Estreando no mesmo ano de “Frankenstein” e “Dracula”, esta produção de Adolph Zukor (que aparece em pessoa na abertura do filme e também foi o produtor da versão de 1920) para a Paramount é a primeira versão sonora da história de Robert Louis Stevenson “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, publicada em 1886. A versão silenciosa, de 1920, foi estrelada por John Barrymore e dirigida por John S. Robertson, mas este filme, produzido a poucos anos do advento do cinema sonoro, revela-se um excelente exercício, quer do realizador Rouben Mamoulian, quer do ator Fredric March, que acabou levando o Oscar de Melhor ator, mas tendo que dividir o prêmio com Wallace Beery devido à uma diferença de apenas um voto – o único empate até hoje nessa categoria. O diretor Rouben Mamoulian faz um trabalho memorável utilizando câmera subjetiva e close-ups para enfatizar as mudanças físicas e morais do protagonista, ajudado pela ótima fotografia do mestre Karl Struss. Esta versão esteve fora de circulação durante várias décadas depois que foi comprada pela MGM, que lançou sua própria versão da história em 1941, dirigida por Victor Fleming e com Spencer Tracy no papel principal, e só foi redescoberta na década de 70.

Um grande clássico sobre a dualidade da alma humana

“O Médico e o Monstro”, desde que foi publicado pela primeira vez, se tornou em pouco tempo um dos grandes clássicos da literatura, simbolizando a dualidade entre o bem e o mal de todo o ser humano. Este filme de Rouben Mamoulian – um dos mais talentosos e perfeccionistas cineastas que já passaram por Hollywood – impressiona pela fotografia de Karl Struss e pela antológica caracterização do ator Fredric March, o que lhe ajudou a vencer o Oscar naquele ano, embora tivesse que dividir o prêmio com Wallace Beery (“O Campeão”), até hoje o único empate nessa categoria. A diferença entre eles foi de apenas um voto, o que até então estabelecia o empate na categoria.

Rouben Mamoulian foi um cineasta formado dentro dos estúdios, e desde muito jovem aprendera vários dos ofícios principais, em especial o cuidado com a iluminação, a edição e a fotografia, tendo desenvolvido grande cuidado com os enquadramentos e gosto pelos movimentos de câmera. Mamoulian já tinha provado antes, nomeadamente com “Applause” e “City Streets”, que o som não limitava a sua criatividade e volta a prová-lo em “O Médico e o Monstro”. Do trabalho do realizador neste filme em especial sobressai, essencialmente, a fluidez da câmera, com especial destaque para os close-ups e a câmera subjetiva, que parecem perfeitos para a duplicidade do personagem principal. Muito do interesse do filme está, também, no trabalho de Fredric March, que interpreta dois personagens completamente opostos. A sua interpretação é de tal forma intensa que o ator esteve à beira de um colapso físico.

A equipe de maquiagem da Paramount construiu uma prótese que dava ao personagem do Sr. Hyde um aspecto Neanderthal, mas os efeitos de maquiagem eram tão pesados que chegavam a causar ferimentos no rosto do ator Fredric March. As cenas de transformação de Jekyll para Hyde continuam notáveis. Mamoulian usou de muita criatividade e inventou uma técnica particular que mostrava as mudanças do personagem através da manipulação de uma série de filtros de várias cores na frente da lente da câmara. Por conta disso, a maquiagem de Fredric March como Hyde era em várias cores, e de uma forma que a sua aparição no filme dependia de qual cor de filtro estava sendo usada para filmar cada uma das cenas. Durante a primeira cena da transformação, os ruídos que acompanham a trilha sonora incluem um sino soando ao fundo e supostamente uma gravação com a batida do coração do diretor Rouben Mamoulian. Foi somente no final da década de 60 que Mamoulian revelou como esses efeitos haviam sido produzidos.

A despeito da sua atuação magistral, o ator Fredric March nunca foi a primeira escolha. John Barrymore, que interpretou o protagonista na versão silenciosa de 1920 chegou a ser convidado para o filme, mas recusou. O chefe do estúdio Adolph Zukor queria Irving Pichel – ator de pouca experiência até então e que atuaria e dirigiria diversos filmes B nas décadas seguintes. Mamoulian recusou por querer um ator que pudesse convencer nos dois papéis e achava que Pichel não poderia atuar como Hyde. Foi Mamoulian quem surgiu com o nome de Fredric March, contra a vontade de Zukor, que alegava que o ator – que vinha de papéis menores e personagens leves – não possuía experiência suficiente para interpretar um vilão como Hyde. A escolha de Mamoulian mostrou-se mais do que acertada e March não só provou que era perfeito para o papel. O Oscar que ele ganhou fez seu nome ser levado mais a sério em Hollywood e aumentou a oferta de bons papéis.

Curiosamente, os personagens de Muriel Carew e seu pai não aparecem no romance de Robert Louis Stevenson. Ambos são baseados em personagens similares criados pelo dramaturgo T.R. Sullivan para a sua versão para os palcos de 1887. A atriz Miriam Hopkins inicialmente recusou o papel de Ivy Pearson, alegando que ela queria mesmo interpretar Muriel Carew. Hopkins acabou convencida a aceitar viver Ivy quando foi informada pelo diretor que diversas outras atrizes estavam disputando aquele papel. Rose Hobart acabou ficando com o papel de Muriel. Infelizmente, a personagem de Hopkins acabou sendo prejudicada na narrativa e diversas de suas cenas tiveram que ser removidas. “O Médico e o Monstro” não escapou do famigerado Código Hays, que restringia diversos aspectos morais, sexuais ou legais nos filmes produzidos no período de sua vigência. Através de seu secretário Will H. Hays, o chefe do estúdio B.P. Schulberg foi advertido a suprimir cenas ou modificar várias linhas de diálogo por serem, segundo o próprio, “muito sugestivas”: o diálogo entre Ivy e Hyde, quando ela diz “Take me!” e ele responde “I am going to take you”. O mesmo valeu para a cena em que Hyde faz observações à liga usada por ela, fazendo referência à forma como apertavam (no original) sua carne macia e bonita (“It will bruise your pretty tender flesh”), bem como a cena em que Ivy se despe diante de Hyde. Feitas essas alterações e supressões, o filme estreou em junho de 1935 com enorme sucesso.

Em 1941 a Metro-Goldwyn-Mayer produziu uma nova versão da história de Robert Louis Stevenson, com Spencer Tracy como protagonista e direção de Victor Fleming, e tendo comprado esta versão de “O Médico e o Monstro”, o estúdio a retirou de circulação. O filme de Mamoulian ressurgiu somente nos anos 70 numa versão censurada, que tinha sido produzida para o relançamento do filme em 1938. A atual edição em vídeo o restaurou à sua versão original, com diversas cenas que se pensavam desaparecidas.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0022835/

A Cena da Transformação:

Galeria de Fotos:

Download O Médico e o Monstro AVI Legendado 665MB*:

BitshareDepositfiles

* Os links para download foram disponibilizados por outras pessoas em outros locais da Internet e estão submetidos a leis de direitos autorais, podendo ser removidos de seus locais de origem a qualquer momento. O blog apenas utiliza os links já existentes.