Filmes: A Mulher Faz o Homem (1939)

A MULHER FAZ O HOMEM
mrsmithgoestowashington_1Título Original: Mr. Smith Goes to Washington
País: Estados Unidos
Ano: 1939
Duração: 127 min.
Direção: Frank Capra
Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Harry Carey, Thomas Mitchell, Edward Arnold, Guy Kibbee, Beulah Bondi, Eugene Pallette, H.B. Warner, Grant Mitchell.
Sinopse:
Jefferson Smith, ingênuo e íntegro chefe de escoteiros, é chamado a Washington para ocupar a vaga de senador por políticos corruptos que planejam manipulá-lo. Ele descobre a farsa, mas acusado de corrupção precisa armar sua defesa na célebre seqüência do discurso no Congresso.

Um dos maiores clássicos de Frank Capra que, a exemplo de seu outro filme, “Adorável Vagabundo”, expõe um conflito ético apoiado em uma luta quase individual contra todo um sistema, um tema no qual Capra era mestre. Indicado ao Oscar em várias categorias, inclusive Filme, Direção e Ator, ganhou apenas o de melhor roteiro para Sidney Buchman, baseado em uma história de Lewis R. Foster. Em atuação magistral, James Stewart faz o herói clássico do diretor, uma espécie de Quixote moderno e solitário contra o sistema político perverso e corrupto. No ano seguinte, reconhecendo o erro ao entregar o Oscar de ator para Robert Donat por “Adeus Mr. Chips”, a Academia tentou reparar a injustiça premiando Stewart por sua atuação em “Núpcias de Escândalo”. Como Jefferson Smith, o ator tem possivelmente a melhor performance de sua carreira. Jean Arthur como sua namorada e Claude Rains como o senador que se arrepende de seus crimes no clímax do filme também estão perfeitos. Destaque para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin e a fotografia de Joseph Walker.

Um dos maiores clássicos de Frank Capra

Um ou outro aspecto de “A Mulher Faz o Homem” pode ter envelhecido, e mesmo a trama pode parecer simplista e até mesmo ingênua, mas não há como não se render ao apelo heróico de Jefferson Smith ou perceber como a sua mensagem permanece atual, assim como a conduta corrupta de certos políticos, muito bem retratados pelo roteiro de Sidney Buchman. Competindo com “E o Vento Levou”, o filme foi finalista em várias categorias do Oscar, inclusive a de melhor filme e direção, mas ganhou apenas o de história original para Lewis R. Foster. James Stewart não levou o Oscar, entregue a Robert Donat por “Adeus Mr. Chips”, possivelmente uma das maiores injustiças da Academia até hoje.

Junte James Stewart e Frank Capra, e ninguém nos anos 30 e 40 precisaria saber muito mais coisas para ter certeza de que um filme com eles seria uma experiência agradável e inesquecível. Juntos, eles realizaram uma das maiores comédias dramáticas de todos os tempos sobre um jovem ingênuo que chega a Washington designado para o Senado e que se vê enfrentando sozinho toda uma rede de políticos corruptos. Jefferson Smith (James Stewart) é nomeado para substituir um dos senadores de seu estado que morre. Ele é escolhido porque as raposas da política precisam de alguém que não parece ser um amigo íntimo, mas que não vai ficar no caminho de um esquema de corrupção de uma barragem que fará Jim Taylor (Edward Arnold) ganhar milhões de dólares. Smith descobre tardiamente os planos, pois a barragem vai ficar no caminho de sua própria proposta de lei para um acampamento de crianças. Quando tenta parar o projeto, os políticos ligados a Taylor usam sua máquina corrupta para fazer com que Smith seja acusado de toda a corrupção que ele ousou denunciar. Isso leva ao confronto dramático no Senado, onde Jefferson Smith, uma vez tomada a palavra, inicia um longo discurso em sua defesa, uma tentativa desesperada de revelar toda a verdade.

Embora a premissa básica seja construir uma narrativa quase épica sobre David contra Golias, a história é totalmente original e foi provavelmente uma das primeiras vezes que o cinema abordou a corrupção no governo, uma vez que o próprio Capra se identificava com a política popular do New Deal de Roosevelt e utilizava seus filmes para exaltar os mais altos valores dos cidadãos para ajudar a América a sobreviver durante os tempos difíceis da Grande Depressão. Mas Capra construiu um filme maravilhoso. A história é uma disputa clássica entre o bem e o mal. No estilo típico de Capra, o protagonista e os antagonistas são exagerados propositadamente, de modo que logo de início não haja dúvida sobre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. Se há uma mensagem clara nos filmes de Capra é que nunca as pessoas com a fibra moral forte devem desistir da esperança. Ele gostava de criar situações absolutamente impossíveis para os personagens de seus filmes e de testar toda a sua integridade, sua honestidade e a firme adesão a valores e princípios básicos que no final deverão triunfar contra todas as probabilidades contrárias.

Por conta disso, James Stewart está brilhante como sempre. O jovem e íntegro chefe de escoteiros idealista e abismado que parte do interior e que se deixa dominar pela glória de Washington, com seus monumentos e história. O roteiro de Lewis R. Foster nos traz um confronto entre a conveniência política e seus princípios abstratos com a mensagem de que os homens verdadeiramente grandes são aqueles que não comprometem seus princípios para se manter no poder. Em sua atuação, James Stewart se utiliza de um arsenal de trapalhadas e ingenuidades que o ajudam a tornar seu personagem ainda mais adorável, conquistando o carinho do público que permanecerá ao seu lado durante os momentos mais duros que ele enfrentará em seu caminho. Sem dúvida, uma jogada de mestre de Capra, que assim consegue manipular as emoções da plateia com a mesma eficiência que vemos em outros de seus filmes, como “Do Mundo Nada se Leva” e “A Felicidade não se Compra”, ambos também estrelados por James Stewart, o ator mais perfeito para incorporar esse típico herói de seus filmes.

No papel de Clarissa Saunders, uma jornalista experiente mas desiludida com a política de Washington que acaba se convertendo às ideias nobres de Jefferson Smith e encontra em sua defesa um novo alento para continuar a carreira, Jean Arthur está fabulosa, repetindo a química perfeita que teve ao atuar ao lado do ator um ano antes, em “Do Mundo Nada se Leva”. Claude Rains também está magistral como o senador que vendeu sua alma à corrupção por uma chance na presidência do Senado. O ator habilmente joga com o sentimento de culpa e a simultânea ambição como um tormento que é claramente sentido rasgando seu coração de dentro para fora, e o poder de tantas emoções retratadas em seu desempenho faz com que seu personagem se torne ainda mais repugnante e desprezível. Mesmo seu arrependimento e sua confissão no úiltimo momento, tão esperados por todos, não soa forçado nem artificial quanto pareceria hoje em dia, não só porque Rains foi um grande ator, mas principalmente porque Frank Capra era um mestre na condução de atores e da emoção em seus filmes. Todo o elenco secundário também está perfeito, mas um destaque precisa ser dado a Harry Carey, que interpreta o Presidente do Senado, um personagem que serve de contraponto cômico para toda a sequência tensa em que Smith mantém a palavra. Suas rápidas intervenções funcionam como uma pausa para que o público respire profundamente, somente para retornar em seguida a um estado de sufocante expectativa.

“A Mulher Faz o Homem” é um título que soa estranho em português, e que desvia toda a concepção que o espectador menos informado poderia ter sobre a história na ideia de uma comédia romântica, o que não é o caso. O filme é uma verdadeira instituição americana, uma história sobre corrupção na política e sobre a grandeza dos homens que resistem a ela e que é atemporal e não seria anacrônica nem incoerente se fosse realizada hoje retratando os políticos da atualidade. Resta saber se algum diretor hoje em dia conseguiria repetir o êxito triunfal que Frank Capra conseguiu, há quase sete décadas atrás. Muitos até tentaram imitá-lo. Nenhum, porém, conseguiu igualar-se a ele.

Os críticos de Capra apontam suas histórias como inverossímeis nos dias de hoje, seja por conta de seu anti-cinismo, do seu otimismo, de suas imagens reconfortantes, pelo o modo como exalta os valores mais altos do ser humano, seja por conta de suas mensagens morais. Muitos dirão que os filmes de Capra envelheceram em um mundo cada vez mais cínico e cruel, onde o bem estar individual se mostra mais importante do que o conforto coletivo, como se a exceção da época em que Frank Capra e seus heróis de celulóide viveram se tornasse a regra dos dias de hoje, o que é uma constatação muito triste, dando a ideia de que o ser humano regrediu ao longo de todas essas décadas, não só dentro das telas, como fora delas. Personagens como Jefferson Smith, George Bailey ou Longfellow Deeds são cada vez mais raros de se encontrar nas telas ou na vida real e a audiência moderna necessita de mais diretores como Frank Capra e mais heróis do povo como Jefferson Smith. Quem diz que os filmes de Frank Capra “envelheceram” não entende nada sobre cinema, muito menos sobre os temas que eles abordam. Considerado o ano em que foi produzido (1939 foi um ano mágico para o cinema americano), “Mr. Smith Goes to Washington” permanece não só atemporal, mas um modelo de cinema imune à passagem do tempo, como são “Aconteceu Naquela Noite”, “Do Mundo Nada se Leva” e “A Felicidade não se Compra”.

A imagem vitoriosa de Jefferson Smith ao final é impecável em todos os aspectos e torna “A Mulher Faz o Homem” um verdadeiro clássico, com suas idéias instigantes, seu humor, algumas pitadas de romance platônico, uma excelente fotografia, uma ótima trilha sonora e atuações inesquecíveis de todo o seu elenco.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0031679/

Trailer:

Cena Final:

Galeria de Imagens:

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