Filmes: Chantagem e Confissão (1929)

CHANTAGEM E CONFISSÃO
blackmail_1Título Original: Blackmail
País: Inglaterra
Ano: 1929
Duração: 84 min.
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Anny Ondra, John Longden, Sara Allgood, Charles Patton, Donald Calthrop, Cyril Ritchard, Hannah Jones, Harvey Braban, Joan Barry (dubladora), Johnny Butt.
Sinopse:
Um detetive da Scotland Yard e a sua namorada brigam e ela acaba por aceitar o convite de um artista para visitar o seu estúdio. Quando este lhe pede para posar nua, ela se recusa e perante a tentativa de violação, acaba por matar o artista. A moça fica com remorsos e para piorar a situação, começa a ser chantageada por um homem que testemunhou o assassinato.

Este foi o primeiro filme falado produzido na Grã-Bretanha, e coube a Hitchcock (na época com cerca de 30 anos) realizar aqui um exercício de suspense em que valoriza o conteúdo psicológico dos personagens e realiza uma narrativa tensa, incrivelmente moderna. Pouco familiarizada com o inglês, a atriz tcheca Anny Ondra foi dublada por outra atriz, a inglesa Joan Barry. O filme é baseado na peça com o mesmo nome de Charles Bennett, colaborador habitual de Hitchcock, mas foi o realizador (em conjunto com Benn W. Levy) que fez a adaptação para as telas. O filme contou ainda com a participação de outros dois habituais colaboradores de Hitchcock: Emile de Ruelle, responsável pela montagem, e Michael Powell. Powell, que viria a tornar-se um dos mais importantes realizadores ingleses, fez de tudo um pouco nos três filmes em que colaborou com Hitchcock: operador de câmara, diretor de fotografia, desenho de produção e até colaborou no argumento de “Chantagem e Confissão”.

O primeiro filme sonoro de um mestre do cinema

O primeiro filme sonoro de Alfred Hitchcock foi também o primeiro a ser produzido na Inglaterra logo após o advento do cinema sonoro, o que possibilitou ao cineasta utilizar a nova tecnologia de som de uma maneira bastante criativa. O filme, porém, mostrou o quão dificil seria para alguns realizadores e artistas das telas fazerem essa transição de um estado para outro absolutamente novo. Por conta dessas dificuldades, o filme peca pela baixa qualidade do áudio, sendo que toda a primeira bobina (equivalente aos 8 primeiros minutos do filme) foi filmada ineiramente sem som.

Na verdade, “Chantagem e Confissão” já havia sido concluído em quase toda a sua totalidade quando a novidade sonora chegou à Inglaterra e revolucionou a indústria de cinema do país. Hitchcock foi forçado a refilmar algumas cenas e adicionar outras para que o filme aparentasse ser falado a maior parte do tempo, algo que se tornou comum naqueles primeiros anos de cinema sonoro. Mas o uso do som também implicava em novos desafios, e também alguns obstáculos para um cineasta que sempre prestigiou as imagens em primeiro lugar. Hitchcock provou isso ao longo de sua carreira, engendrando sequências formidáveis em que o jogo espetacular de closes e planos vai criando todo um suspense genial com um mínimo ou nenhum diálogo. Algumas passagens são mais curiosas e divertidas do que qualquer outra coisa, como a cena em que os personagens repetem várias vezes a palavra “Knife” (faca) para desespero da personagem principal, atormentada pela culpa de ter esfaqueado um homem.

Entre as maiores dificuldades enfrentadas pelo diretor estava o fato de a atriz principal, Anny Ondra, ter um sotaque do Leste Europeu forte demais e que era difícil para o público entender. Isso nunca tinha sido um problema para ela atuando em filmes mudos, mas para um filme sonoro mostrou-se um problema terrível, e a solução de Hitchcock era ter a atriz britânica Joan Barry dublando as linhas de diálogo de Ondra fora da câmera. Um truque relativamente simples já que a dublagem era um recurso desconhecido na época, mas para que o efeito correspondesse ao desejado, a câmera de Hitchcock estava confinada a uma cabine à prova de som, e assim a mobilidade da câmera foi severamente limitada. Isso fica claro em algumas passagens do filme quando a tela estática começa a provocar um ligeiro desconforto aos olhos do espectador.

O filme diz respeito a uma mulher que mata um homem que tenta estuprá-la. Ondra interpreta Alice Branco, que, enquanto jantava em um clube noturno inglês com o noivo, o detetive da Scotland Yard Frank Webber (John Longden), começa a flertar com um artista (Cyril Ritchard) sentado na mesa ao lado. O artista a convida para ver o seu estúdio, e ela vai, mas hesita quando o artista pede que ela pose nua. Quando a solicitação se torna uma exigência, Alice o apunhala até a morte. Ela reencontra o noivo e tenta esquecer o assassinato, mas sua consciência continua incomodando. Para piorar a situação, ela é chantageada por Tracy (Donald Calthrop) que conhece seu crime.

Durante uma longa seqüência, Cyril Ritchard como Crewe, o artista, se senta e faz um solo de piano, aparentemente para manter o público interessado, mas o filme termina com uma perseguição emocionante através do Museu Britânico, realizada na sua maioria por meio de miniaturas, e do Processo Schüfftan, que permitiu que fundos de larga escala pudessem ser direcionados para a lente da câmera através de uma série de espelhos. Um dos grandes méritos do filme é dosar muito bem o suspense com um certo humor – algo que Hitchcock iria aprimorar em seus filmes futuros. Em uma cena, o detetive da Scotland Yard Frank Webber zomba de um novo filme sobre crime nos cinemas, mas Alice rebate: “Ouvi dizer que eles têm um verdadeiro criminoso a dirigi-lo, só para estar do lado seguro”.

“Chantagem e Confissão” é interessante sobre muitos aspectos, mas principalmente para que os fãs possam observar como Hitchcock lida com o som, quando foi claramente empurrado em cima dele no último minuto, e mesmo não sendo um Hitchcock de primeira categoria, ainda é um notável documento histórico de um artista que começava a encontrar seu caminho através de um meio que de repente foi transformado pelo avanço da tecnologia. Para os fãs que buscam por ele em seus filmes, Hitchcock faz a sua tradicional aparição, em uma cena no vagão do metrô.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0019702/

Cena do Assassinato (Versão Silenciosa):

Cena do Assassinato:

Cena da Perseguição no Museu:

Galeria de Imagens:

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