Arquivos Mensais: março \24\UTC 2013

Filmes: Alta Traição (1928)

ALTA TRAIÇÃO
patriot_2Título Original: The Patriot
País: Estados Unidos
Ano: 1928
Duração: 113 min.
Direção: Ernst Lubitsch
Elenco: Emil Jannings, Florence Vidor, Lewis Stone, Vera Veronina, Neil Hamilton, Harry Cording, Carmencita Johnson, Nicholas Kobliansky, Viacheslav Savitsky, Alexander Skonnikov.
Sinopse:
Século XVIII. Na Rússia Imperial, amor e traição rodeam o Czar Paulo I, cuja liderança é cada vez mais posta em causa.

Produzido como filme mudo, “Alta Traição” teve cenas com diálogos que foram acrescentadas à revelia do diretor Ernst Lubitsch, filmadas pouco antes da sua estreia com o advento do cinema sonoro. No entanto, este drama histórico pesado provou que o diretor alemão, mais conhecido pelas suas sofisticadas comédias românticas, sabia também contar uma história dramática e o filme foi nomeado para cinco prêmios Oscar, tendo ganhado o de melhor argumento para Hans Kraly, por sua vez baseada em peça de Alfred Neumann. Este é mais um dos grandes filmes do Cinema que está dado como “perdido”, e do qual só restam apenas alguns fragmentos e o trailer original.

Um dos grandes tesouros perdidos do cinema

No século 18, na Rússia, o Czar Paulo I (Emil Jannings), filho da Grande Catarina, vive cercado por conspiradores e só confia no Conde Pahlen (Lewis Stone). Pahlen quer proteger o amigo mas por causa dos atos tresloucados do monarca, decide alijá-lo do trono, para o bem da nação. Pahlen conta com a ajuda da sua amante, a Condessa Ostermann (Florence Vidor), mas esta porém, trai Pahlen e conta ao Czar todo o plano. Conduzido à presença do soberano, Pahlen convence-o de sua lealdade e, mais tarde, o assassina.

Depois de “O Príncipe Estudante”, Ernst Lubitsch deu a Josef von Sternberg a idéia de “A Última Ordem” (The Last Command, 1927), interpretado por Emil Jannings e, contratado novamente pela Paramount, abordou outra vez um assunto russo em “Alta Traição” (The Patriot, 1928), igualmente estrelado por Jannings. O filme é baseado na peça “Der Patriot” de Alfred Neumann, encenada nos palcos berlinenses em 1927. O escritor Hans Kraly ganhou o Oscar de Roteiro por seu trabalho neste filme, mas a história de Alfred Neumann foi publicada pela primeira vez como um romance. Em 19 de janeiro de 1928, uma versão em Inglês da peça, traduzido do alemão por Ashley Dukes, estreou na Broadway. Não foi determinado se a tradução de Dukes também foi a base deste filme dirigido por Ernst Lubitsch.

Este é talvez o mais procurado de todos os filmes “perdidos”. É também o único filme perdido premiado com o Oscar. Existem alguns fragmentos nos arquivos da UCLA, mas não se tem notícias de um negativo completo. Segundo o IMDb, existe uma bobina quase completa preservada nos arquivos da Cinemateca Portuguesa, contendo oito minutos do filme, parte de uma cópia do filme original quando de sua estreia em Portugal em novembro de 1929, e que estava em poder de um colecionador do Porto.

Somente há pouco tempo foi descoberto o seu trailer, apresentado no Festival de Pordenone em 1996, que dá uma idéia da suntuosidade dos cenários de Hans Dreier e da qualidade da fotografia de Bert Glennon. O filme recebeu críticas extraordinárias na época de seu lançamento e foi nomeado para cinco prêmios Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator (Lewis Stone), Melhor Diretor (Ernst Lubitsch), Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro. Estranhamente, ele ganhou o prêmio de Roteiro, fato estranho em se tratando de um filme mudo no primeiro ano do cinema falado. Na verdade, seqüências faladas foram adicionadas após o lançamento do filme nos cinemas, uma prática comum mas nem sempre bem sucedida nos primeiros meses do advento do cinema sonoro. Isso incluiu uma trilha sonora sincronizada e efeitos sonoros nos momentos culminantes, como no final onde o personagem de Emil Jannings gritava: “Pahlen! Pahlen!”, chamando o amigo que o traíra por amor à pátria.

Quem assitiu o filme em sua estreia afirmou que “Alta Traição” deveria conter uma das melhores performances de Emil Jannings – talvez o maior ator alemão de todos os tempos – em toda a sua carreira, no papel do enlouquecido Czar Paulo I. Jannings – que tinha ganhado o Oscar de Melhor Ator pelo filme “The Last Command”, de 1928 – regressou à Alemanha, onde viria a fazer, entre outros, “O Anjo Azul”, de Josef von Sternberg, contracenando com Marlene Dietrich. O diretor Lubitsch, por seu lado, converteu-se com sucesso ao cinema sonoro, especializando-se em musicais e comédias sofisticadas.

“Alta Traição” tornou-se uma daquelas lendas do cinema, um daqueles filmes que você deveria assistir antes de morrer, mas que provavelmente irá morrer sem poder assistir. Como curiosidade, algumas tomadas da multidão foram aproveitadas seis anos depois por Josef von Sternberg em “A Imperatriz Galante” (The Scarlet Empress”, 1934).

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0019257/

Trailer:

Galeria de Imagens:

Diretores: Rouben Mamoulian

ROUBEN MAMOULIAN

Nome: Rouben Zachary Mamoulian
Nascimento e local: 8 de Outubro de 1897, Tiflis, Rússia (atual Tbilisi, Georgia)
Falecimento e local: 4 de Dezembro de 1987, Hollywood, Califórnia
Ocupação: Diretor de Cinema e Teatro
Casamento: Azadia Newman (1945-1987)

Com a possível exceção de Stanley Kubrick, nenhum diretor que trabalhou no sistema de estúdios de Hollywood nunca exerceu mais influência sobre todo o campo do cinema, e as sensibilidades do público, do que Rouben Mamoulian.

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Uma carreira que influenciou toda a indústria do cinema

Com uma produção de apenas 16 filmes em 30 anos, Rouben Mamoulian, nascido russo descendente de armênios, trabalhando como diretor e produtor em grande parte do tempo, conseguiu gerenciar uma série de filmes clássicos entre musicais, dramas, ação e aventura, e também esteve envolvido no planejamento e tudo o mais referente a quase todos os filmes em que trabalhou.

Rouben Mamoulian nasceu em Tbilisi – território de maioria armênia – na Geórgia, região da Rússia, em 1897. Ele freqüentou uma universidade em Moscou, estudou direito, mas não por muito tempo, pois logo decidiu juntar-se ao Second Studio at the Moscow Art Theater. Foi durante o treinamento precoce de Mamoulian como ator e diretor que ele aprendeu a importância do ritmo – e sobretudo a “estrutura” do ritmo – na criação e na elaboração de uma obra para o palco. Ele foi inicialmente um ator, mas logo voltou-se para dirigir e produzir, e conseguiu essas suas primeiras atribuições em Londres em 1922. Mamoulian foi muito bem sucedido e ofertas de novos trabalhos não tardaram em chegar, entre elas uma totalmente inesperada, um convite vindo de Rochester, Nova York. A região à oeste de Nova York representava uma área de pessoas de grandes posses e grandes empresas, como a casa da Eastman Kodak Company. Rochester estava no meio de um processo furioso de impor-se artisticamente por seus próprios meios. Havia residentes ricos com todo o tempo em suas mãos e uma inclinação enorme para a cultura, vivendo de passeios ao meio-dia em Nova York, e eles queriam que a cultura chegasse até seu quintal, e o mais rico e mais ambicioso de todos os moradores da cidade foi George Eastman, fundador da empresa que levava seu nome de família. Ele estava no processo de elaboração do American Opera Company, em Rochester, e ofereceu a Mamoulian a grande oportunidade de organizar e direcionar a um novo tipo de teatro.

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Mamoulian passou mais de dois anos dirigindo óperas e operetas de Wagner, Debussy, Lehar, e Gilbert & Sullivan. Estas produções foram ferozmente inventivas, mais marcantes por suas apresentações do que por sua música, pois neles Mamoulian reuniu dança, teatro, música, poesia e tudo sob as concepções mais ousadas de iluminação, coreografia e cenografia já vistos até então. Seu trabalho em Rochester veio a se notar, em Nova Iorque e o levou a ser contratado pelo Theatre Guild – que brevemente retornou a Londres em meados dos anos 20, mas que estava de volta a Nova York para dirigir “Porgy”, a obra dramática somente com negros que tomou o mundo do teatro de assalto em 1927, e levou à criação da ópera de George Gershwin “Porgy and Bess”, que Mamoulian também dirigiu. Em seguida, ele conquistou um enorme sucesso com “Marco Millions”, de Eugene O’Neill, e tornou-se o diretor preferido de O’Neill a partir desse ponto.

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Foi essa série de trabalhos que pavimentou o caminho para a sua mudança para Hollywood com o advento do som no final da década. A meca do cinema estava na necessidade desesperada de diretores que pudessem trabalhar confortavelmente com essa nova tecnologia e ainda tivessem criatividade para desenvolver as produçõe dos novos filmes sonoros, e as produções levadas ao palco por Mamoulian estavam entre aquelas com o uso mais inventivo do som, bem como abordagens ousadas de contar suas histórias em narrativas que jamais tinha sido visto. Por recomendação de Walter Wanger, o futuro produtor de filmes (até então também no Theatre Guild), a Paramount Pictures contratou Mamoulian, oficialmente como revisor de roteiros. Ele imediatamente se insuflou do cargo insignificante e disse aos dois chefões da Paramount, Adolph Zukor e Jesse L. Lasky, que ele queria dirigir, e que ele iria trabalhar em todo o processo, observando como diretores estabelecidos e cinematografistas faziam seus trabalhos, como os técnicos de som realizavam seus trabalhos, e como funcionava o processo de montagem de um filme, e qualquer outra coisa que ele precisava saber e aprender sobre tudo que se elacionava à criação cinematográfica. Tal era a sua reputação a partir desta fase, que os dois chefões concordaram prontamente com sua idéia, pensando que em seis meses ou menos, ele voltaria até eles, disposto a colocar as próprias mãos na criação de um filme.

O primeiro filme foi também o primeiro grande êxito

Cerca de cinco semanas mais tarde, Mamoulian disse a eles que estava pronto para dirigir seu primeiro filme. O resultado foi “Applause” (1929), que provou estar entre os melhores, mais difíceis e mais complexos filmes do início da era do cinema falado. Era um musical dramático que se passava nos bastidores, envolvendo cerca de duas gerações de mulheres de uma família à margem do negócio do entretenimento e o circuito de pobreza do teatro burlesco. Helen Morgan, então entre as atrizes no topo do mundo, devido ao seu triunfo em “Show Boat”, foi a estrela, mas Mamoulian imaginou seu papel no filme de uma maneira que seria impensável para qualquer atriz que tivesse uma imagem a zelar. Ele tinha a mais glamorosa das atrizes para  assumir o papel de uma mãe bem-intencionada, porém descuidada, desleixada,  solteira e que sobrevivia como uma artista de terceira categoria num espetáculo burlesco decadente, sem um traço do glamour dos papéis aos quais estava acostumada e havia acostumado o público a reconhecê-la nas telas. Mas o que o público e o estúdio que ainda duvidava da escolha de Mamoulian testemunharam foi uma performance magnífica em um drama vivo, porém feio e decadente, um musical sem um único número musical completo nele, na qual os números musicais nada mais são do que panos de fundo incidentais para o drama e a narrativa convencional.

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Em 1929, ano em que muitos cineastas estavam lutando para descobrir a melhor forma de usar o som – e em que o componente sonoro de muitos filmes era inserido posteriormente, comprometendo seriamente a sua narrativa – Mamoulian estreou com um filme em que o som estava totalmente integrado em sua narrativa, e em que a câmera estava sempre em movimento, uma habilidade que tinha sido perdida para a maioria dos cineastas com a chegada do microfone. Em sua visão, ele quase perdeu a oportunidade de dirigir, devido a uma disputa com o cameraman George Folsey e do departamento de som sobre a filmagem de uma cena dramática fundamental – em vez disso, Mamoulian revolucionou a fotografia dos filmes sonoros com sucesso a partir da introdução de um segundo microfone na cena, para gravar o diálogo a partir de uma fonte separada que seria posteriormente misturada com o diálogo principal. E em meio a lisura técnica e toda essa  inovação, Mamoulian foi visualmente, estilisticamente inventivo e ousado -, ele ainda teve a coragem de em sua abordagem da história fazer as dançarinas e coristas parecerem gordas e feias, enquanto as freiras pareciam elegantes e graciosas.

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”Applause” era caro de fazer e complicado para o estúdio em alguns de seus atributos, mas foi um sucesso de crítica e de bilheteria. Ao longo dos anos seguintes, Mamoulian provou ser uma das vozes mais distintas na direção em Hollywood, e entre os mais originais realizadores, em uma indústria na qual o produtor e o estúdio tendem a dominar até mesmo alguns dos talentos mais criativos. Ao longo dos próximos anos, ele entregou alguns dos mais ousados e visualmente excitantes filmes nas áreas de thrillers  (“City Streets”, 1931), horror (“Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, 1931), musicais (“Love Me Tonight”, 1932) e dramas de época (“Queen Christina”, 1933), bem como uma das primeiras utilizações do recém-criado Technicolor já feitos em Hollywood, “Becky Sharp” (1935).

dr-jekyll-mamoulian-1931Muitos desses filmes apresentam impressionantes inovações estilísticas e técnicas que percebemos comumente hoje: o uso de voz em monólogos subjetivos, refletindo os pensamentos do personagem, como em uma dos momentos mais dramáticos de “City Streets”,  os planos em diagonal e efeitos split-screen em “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, e o desenho de cores ao longo de “Becky Sharp”, entre os primeiros usos das cores para o efeito dramático em um filme. E, ainda, para todos os seus conhecimentos sobre o lado técnico, estrutural e visual do cinema, Mamoulian também permitiu que os artistas se sobressaíssem da melhor forma que pudessem: Helen Morgan deu uma das melhores performances de sua carreira em “Applause” e Gary Cooper deu mais um passo importante em direção ao estrelato nas telas, como “The Kid” em “City Streets”; mostrando um grande carisma e uma atuação que ainda impressiona quase 80 anos depois, Fredric March ganhou o Oscar de melhor ator no filme de terror “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, e grande parte da persona que marcaria a carreira de Greta Garbo durante décadas, foi definido por seu trabalho em “Queen Christina”.

Há alguns temas marcantes e em comum nestes primeiros filmes de Mamoulian, em termos de assunto, que vão para a essência dos próprios filmes. Todos estes filmes apresentam lutas pessoais de seus personagens principais sobre a dualidade de sua natureza como seres humanos: a artista burlesca em “Applause”, que se vê como muito mais atraente do que ela realmente é, tentando ser uma mãe responsável, o herói e a heroína de “City Streets”, tentando permanecer incorruptos, o herói de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” arriscando sua reputação e, finalmente, a sua vida tentando provar a dualidade da natureza do homem, e da heroína em “Rainha Christina”, resistindo as obrigações de ser uma mulher de nobre nascimento. E mesmo em seus filmes posteriores, como “Golden Boy”, a escolha do assunto é clara – o personagem Joe Bonaparte de William Holden se esforça para prosseguir a vida como um violinista ou fazer dinheiro rápido no ringue de boxe. Como diretor, Mamoulian parecia ter sua criatividade estimulada por essas escolhas e dualidades, filme após filme.

De volta à Broadway e filmes ocasionais

Mamoulian interrompe com sua carreira no cinema para retornar à Broadway, onde ele continuou a gozar de uma seqüência ininterrupta de sucessos no palco, incluindo “Porgy and Bess” de Gershwin. Em Hollywood, por outro lado, a sua carreira fraquejou um pouco depois de “Becky Sharp”, pelo menos comercialmente, no final da década de 1930.

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Mamoulian foi levado à Columbia Pictures para dirigir a adaptação cinematográfica da “Golden Boy”, de Clifford Odets, o primeiro trabalho da companhia radical chamada o Group Theater a ser traduzido para a tela – foi um fracasso comercial, apesar da presença de Barbara Stanwyck e Adolphe Menjou nesse assunto parecendo pão com manteiga, um drama sobre boxe. Mas logo Mamoulian estava de volta ao comando de um grande sucesso um ano depois com “The Mark of Zorro” (1940), estrelado por Tyrone Power, Linda Darnell e Basil Rathbone, para a 20th Century Fox, considerado hoje como um dos melhores exemplos de filmes-diversão já feitos por esse grande estúdio. A este Mamoulian seguiu um ano mais tarde com sua criação mais deslumbrante em termos visuais, o drama “Blood and Sand” (1941), criado no contexto do século 19 sobre touradas espanholas, e, novamente estrelado por Power e Darnell. O uso que Mamoulian faz da cor no filme foi influenciado pela obra de Goya, El Greco e Murillo, constituindo-se em uma das experiências mais marcantes da sua carreira.

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Por todos esses sucessos – e ele tinha muito mais hits de bilheteria do que os perdedores de dinheiro, seja na década de 1930 e também ao longo de sua carreira – Mamoulian foi o tipo de talento que fez os chefões de estúdio nervosos. Eles amavam os resultados que ele entregava e apreciavam o seu gênio, mas também sentiam que ele arriscava muito em termos de dinheiro, com suas filmagens e edições complicadas, e que seu trabalho era muito experimental e muito na vanguarda do que as audiências  da época poderiam aceitar. Na década de 1930, que ainda eram tempos de crescimento da indústria cinematográfica após a crise inicial da Grande Depressão ter passado, tudo foi muito bem, mas durante a Segunda Guerra Mundial, com todo rigor sobre custos e reservas econômicas destinadas aos esforços de guerra, e depois da guerra (com o espectro da televisão ameaçando o negócio cinematográfico, em que pesquisas indicavam uma forte queda no comparecimento do público em um futuro próximo), os executivos dos estúdios tinham um pouco menos de confiança em sua maneira de trabalhar. Além disso, desde os seus primeiros dias na Paramount Pictures como diretor, Mamoulian era conhecido por sua natureza inflexível e sua vontade de tomar por si só o leme do barco, em busca de um objetivo mais criativo e desafiador, atributos que, mesmo para um profissional com um currículo de sucesso como o dele, nem sempre o deixavam como a primeira escolha para vários projetos, ou uma escolha insubstituível.

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Mamoulian foi escolhido para dirigir o clássico filme noir “Laura” (1944) na Fox, mas devido a um desentendimento com o produtor Otto Preminger sobre um elemento-chave do filme – a pintura de Laura Hunt, interpretada por Gene Tierney e que devia dominar a consciência de uma das outras personagens-chave da trama, e ser a peça central de muitas outras cenas – ele acabou renunciando e entregando o filme para Preminger dirigir. Entretanto, ao longo dos anos 40, Mamoulian ocupou-se do teatro, dirigindo a produção original da Broadway “Oklahoma!”, “Carrossel” (que lhe valeu o Prêmio Donaldson como Melhor Diretor de 1945), “Sadie Thompson”, “St. Louis Woman” e “Lost in the Stars”.

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Com a exceção de “Summer Holiday” (1948) – com base em “Ah, Wilderness”, de Eugene O’Neill – Mamoulian ficou ausente das telas do cinema para mais de uma década, embora no meio do período ele tenha sido estranhamente creditado. Em 1950, ele foi contratado por David O. Selznick para refazer partes de um filme britânico de Michael Powell e Emeric Pressburger chamado “Gone to Earth”, estrelado por Jennifer Jones e David Farrar, os escritores, produtores e diretores conhecidos por seu filme “The Red Shoes”, e seu chefe de estúdio, Sir Alexander Korda, tinha entrado em um acordo de co-produção com Selznick, mas este estava descontente com grande parte de “Gone to Earth” e exerceu seus direitos, relativos à liberação do filme nos Estados Unidos, e refazer partes do mesmo. A versão de Mamoulian (ainda creditada a Powell e Pressburger, mas nunca mencionando o nome dele), foi intitulada “The Wild Heart”, e é geralmente tratado como uma entidade cinematográfica separada de seu original britânico. Michael Powell, por seu lado, sempre elogiou o trabalho Mamoulian sobre as cenas refilmadas e lamenta que, se era para ser feito, então Mamoulian foi a melhor escolha para fazê-lo, dentro qualquer diretor em Hollywood.

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Em 1957, Mamoulian retornou a Hollywood para dirigir “Silk Stockings” (Meias de Seda”, famoso musical estrelado por Fred Astaire, Cyd Charisse e Janis Paige, adaptação para o cinema do que provou ser sucesso da última fase de Cole Porter, uma adaptação musical de “Ninotchka”. Foi um sucesso – foi também seu primeiro filme em Cinemascope, e provou que ele poderia trabalhar criativamente com a imagem widescreen da mesma forma que ele teve com o filme sonoro em seu começol. Infelizmente, também era para ser seu canto de cisne em Hollywood. Mamoulian foi contratado por Samuel Goldwyn para dirigir a adaptação para o cinema de “Porgy and Bess”, e ele fez um planejamento extenso sobre o filme, mas antes de começar a filmar, um incêndio destruiu os sets cuidadosamente preparados, e desentendimentos entre o diretor e Goldwyn forçaram a saída de Mamoulian – para ser substituído, como em “Laura”, por Otto Preminger, que engavetou a roteiro de Mamoulian. Mamoulian também foi o diretor original contratado para a produção conturbada de “Cleópatra”, estrelada por Elizabeth Taylor, mas a produção cheia de litígios e problemas orçamentais obrigou-o a sair do quadro, que eventualmente levou três anos para ser concluído por outras mãos, e que se tornou uma produção notoriamente cara, um fracasso colossal que quase levou a 20th Century Fox à falência.

Nas últimas décadas de vida Mamoulian passou a trabalhar no palco, e na escrita – em 1964, ele publicou um livro infantil, “Abigayil, The Story of the Cat at the Manger” – enquanto os filmes não surgiam. Como as gerências de estúdio mudaram, ele foi esquecido, apesar de seu registro único de sucessos, o diretor parecia ter pouca importância para os chefões da época. Mamoulian ocupou-se em escrever e colecionar livros e pinturas, compondo música (era era um exímio violinista), e se divertindo.

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Mamoulian faleceu em 1987, mas seus melhores filmes continuam a ser revistos e re-lançados em video. “Love Me Tonight”, talvez o melhor de seus filmes, é um exemplo de filmagem e narrativa cinematográfica e possui tantos aspectos positivos, em termos de narrativa visual e áudio, que ainda impressiona os espectadores do século e é considerado um forte candidato a melhor musical já feito, há cerca de oito décadas após seu lançamento. Mesmo a sua versão de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, que foi suprimida pela MGM logo após o estúdio ter adquirido os direitos para um remake estrelado por Spencer Tracy, também vem conquistando um novo público, após o seu relançamento em vídeo e redescoberta na década de 1980.

Filmografia
mamoulian-21929 – Applause
1931 – City Streets
1931 – Dr. Jekyll and Mr. Hyde
1932 – Love Me Tonight
1933 – Queen Christina
1933 – The Song of Songs
1934 – We Live Again
1935 – Becky Sharp
1936 – The Gay Desperado
1937 – High, Wide, and Handsome
1939 – Golden Boy
1940 – The Mark of Zorro
1941 – Blood and Sand
1942 – Rings on Her Fingers
1944 – Laura (não-creditado)
1948 – Summer Holiday
1952 – The Wild Heart
1957 – Silk Stockings

Filmes: Drácula (1931)

DRÁCULA
dracula_1Título Original: Dracula
País: Estados Unidos
Ano: 1931
Duração: 75 min.
Direção: Tod Browning
Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Charles Gerrard, Frances Dade, Herbert Bunston, Joan Standing, Anna Bakacs, Nicholas Bela, Daisy Belmore, Barbara Bozoky, Todd Browning, Moon Carroll, Geraldine Dvorak, Anita Harder, Carla Laemmle, Donald Murphy, Cornelia Thaw, Dorothy Tree, Josephine Velez, Michael Visaroff.
Sinopse:
Conde da Transilvânia, atormentado por uma maldição milenar que o obriga a sugar sangue humano, aterroriza a sociedade londrina.

Versão fiel ao livro de Bram Stoker, marco do cinema de terror graças à interpretação marcante do húngaro Bela Lugosi e que se tornou antológica. O filme, também pelo visual sombrio se tornaria referência para as produções do gênero no futuro. A peça de teatro “Drácula”, de Hamilton Deane e John L. Baldereston, fazia sucesso em apresentações pelo país depois de uma vitoriosa e longa temporada na Broadway. A Universal comprou os direitos de filmagens de Florence Stoker, viúva de Bram Stocker, intermediados pelo ator principal da peça na costa oeste, Bela Lugosi, que viria a ser também o ator no filme dirigido por Tod Browning. “Dracula” se transformou no filme de maior renda bruta do ano para a Universal e responsável por manter a empresa em funcionamento depois de dois anos de prejuízo. Motivados pelo sucesso de “Drácula”, o estúdio investiu em outros monstros: “Frankenstein” (1932), “A Múmia” (1932), “O Homem Invisível” (1933), “O Gato Preto” (1934), “A Noiva de Frankenstein” (1935), entre outros. A Universal ficou mundialmente conhecida como a produtora especialista em filmes de terror; Boris Karloff foi dividir o estrelato de filmes de terror com Bela Lugosi depois de interpretar o monstro de Frankenstein, uma das imagens mais conhecidas do século XX; Jack Pierce, o criador da maquiagem dos monstros, assim como o diretor James Whale (de “Frankenstein”, “O Homem Invisível” e “A Noiva de Frankenstein”), tornaram-se lendas. Os méritos principais do sucesso do filme, além da caracterização impressionante de Lugosi no papel-título, foi a atmosfera criada pelo diretor Tod Browning, ex-artista de circo e que fez carreira nos anos 30 dirigindo filmes de terror, e em parte também pela magistral composição fotográfica criada pelo especialista Karl Freund, o mesmo de clássicos como “Metropolis”, de Fritz Lang.

Uma obra-prima do horror gótico que vence o explícito com a mais profunda sutileza

O lançamento recentemente nos cinemas do péssimo “Van Helsing – O Caçador de Monstros”, trouxe de volta a nostalgia por aqueles antigos filmes de monstros que a Universal produziu durante a década de 30. Embora o filme quisesse homenagear aqueles clássicos do passado, o resultado ficou apenas na intenção. Melhor mesmo é assistir os filmes e verificar o quanto o cinema de artesanato produzido nos anos 30 era bastante superior em arte e técnica mesmo se levando em conta toda a parafernália moderna que Hollywood utiliza atualmente.

“Drácula”, lançado em 1931 (mesmo ano de Frankenstein), é baseado na obra-prima de Bram Stoker e na peça escrita por Hamilton Deane para a Broadway, em 1927. É impressionante como o tempo passou e há tantas características clássicas na obra, e mesmo assim ela continua tão bela e forte. Se deixou de ser aterrorizante pelas inúmeras cópias e versões ao longo do tempo, pelo menos continua incômoda e mantém muitas características marcantes que o definiram como símbolo de uma geração. Na história, quase nada foi alterado: Conde Drácula é um vampiro que mora em um castelo, na Transilvânia, com três esposas. Ele decide se mudar para Londres, onde conhece Mina e resolve transformá-la em uma morta-viva. Porém, ele não contava com a inteligência e a crença do doutor Van Helsing (que nada tem a ver com a recente caracterização de Hugh Jackman), um velho destemido a estragar os planos do perverso vampiro.

Toda aquela história clássica está por aqui: o medo de crucifixos, a marca dos dentes nos pescoços, a estaca de madeira que deve ser enfiada no peito, a metamorfose para morcego e lobo, etc. Uma coisa que o público pode sentir falta são os dois caninos do vampiro, que simplesmente não aparecem no longa. Mas há uma explicação para isso: trabalhando de forma incrivelmente eficiente com o subentendido, a obra estabelece contato com a imaginação de quem quer que esteja assistindo ao filme – e isso cria um clima muito mais competente do que o monstro correndo atrás de alguém (como no final de “Frankenstein”). E, nesse tipo de filme, clima é tudo. Além do mais, a obra acerta ao não apressar as coisas: tudo é lento, pensado, onde cada movimento está no seu tempo certo. Somado à falta de som, cria um clima pesado, onde tudo o que está sendo mostrado na tela não soa ridículo. Mérito também da convincente direção de arte, na hora de criar lindos cenários sujos, e da fotografia, que os ilumina de maneira amedrontadora, com várias sombras aderindo-se aos cenários de forma quase expressionista (só que com formas bem definidas). Há ainda umas duas ou três seqüências em locação, algo que é infinitamente mais agradável do que ver aqueles cenários mal feitos de paisagens abertas. O filme ainda pega emprestado alguns planos de filmes mudos, como, por exemplo, a pessoa falar “este crucifixo” e aparecer, estático na tela, um crucifixo na mão de alguém. Vestígios de um cinema que ainda estava se acostumando a falar.

Agora, tudo poderia ir por água abaixo caso o homem no papel principal de Conde Drácula não fosse convincente o suficiente. Revivendo o papel que havia feito nos palcos da Broadway por míseros 500 dólares semanais (culpa da recente depressão que os Estados Unidos vinham se recuperando; e pensar que ele recusou o papel de monstro em “Frankenstein” porque o personagem não tinha falas), Bela Lugosi dá vida a um dos maiores ícones que o cinema já viu. Drácula, com seu charme macabro e olhar fixo dominador, não precisa de exagero de sangue, de violência e nem de dentes gigantescos para marcar presença. O seu tempo de atuação é perfeito e cada movimento é milimetricamente encaixado para dar características ao personagem: veja, por exemplo, a mão contorcida quando Drácula levanta de seu caixão, ou então o jeito de olhar, com os olhos abertos em tamanhos diferentes, quando ele está fixo em alguém. Mas não é apenas o personagem principal que brilha ao criar uma figura bizarra e, até os dias de hoje, incômoda. Dwight Frye causa arrepios com seu mal compreendido Renfield, de olhos esbugalhados e sorriso macabro no rosto. Suas ações são sempre convincentes e, se não causa mais medo, é impossível não sentir um certo incômodo com seu personagem. Já Helen Chandler, que ganhou um papel que poderia ter sido de Bette Davis, ficou com a personagem Mina, a jovem que Drácula quer transformar em morta-viva.

Mas há defeitos, como o final, que é simples demais, dando uma idéia de que tudo era mais fácil do que parecia ser na verdade. Mas são meros detalhes perto de uma obra muito mais grandiosa. Alguns o fadaram ao tempo, mas não podemos condenar a obra por ter sido tão copiada, satirizada e recriada. Preservando o clima ainda perturbador, o importante é que ela ainda consegue causar deslumbramento, mesmo com tantos anos já passados desde sua realização. É uma obra-prima do horror gótico que vence o explícito com a mais profunda sutileza. O filme continha uma seqüência de abertura alertando para o terror contido na obra, igualzinho a “Frankenstein”, mas essa passagem foi retirada da versão em 1936. Hoje, essa pequena seqüência foi perdida com o tempo.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0021814/

Filme:

Galeria de Imagens: