Ciclo o Expressionismo Alemão: A Caixa de Pandora (1928)

A CAIXA DE PANDORA
pandora_1Título Original: Die Büchse der Pandora
Título em Inglês: Pandora’s Box
País: Alemanha
Ano: 1928
Duração: 131 min.
Direção: Georg Wilhelm Pabst
Elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, Franz Lederev, Carl Goetz, Krafft-Raschig, Alice Roberts, Daisy d’Ora, Gustav Diessl, Michael von Newlinsky.
Sinopse:
A dançarina e prostituta Lulu torna-se a protegida e depois esposa de um editor de jornal, mas a relação entre eles terá conseqüências inesperadas.

Marco na história do cinema mudo, este clássico do expressionismo alemão, escrito e dirigido por G.W.Pabst, grande descobridor de atrizes talentosas (inclusive Greta Garbo), reúne duas obras de Franz Wedekind e mistura drama e sexualidade, apoiada na magnífica interpretação de Louise Brooks como Lulu. Uma das mais notáveis e geniosas divas do cinema mudo, Louise Brooks caiu em desgraça ao abandonar Hollywood para ir à Europa filmar a convite de Pabst, que a dirigiu em dois monumentos cinematográficos e que ainda hoje permanecem pouco conhecidos: “Diário de uma Garota Perdida” e “A Caixa de Pandora”. Ao voltar aos Estados Unidos, a atriz encontrou as portas dos grandes estúdios fechadas para ela, e sua carreira no cinema acabou. Além da atuação magistral de uma das atrizes mais fascinantes que o cinema já nos apresentou – e em sua melhor atuação -, e além da bela fotografia de Günther Krampf, “A Caixa de Pandora” nos brinda com uma direção inspiradíssima de Pabst, que cria uma atmofera quase mitológica em torno de sua personagem, e que o título empresta de uma lenda grega. Longo demais para filmes silenciosos, o que prejudica um pouco o ritmo da narrativa, “A Caixa de Pandora” mantém o interesse sobretudo graças ao fascínio que a personagem de Louise transmite ao longo dos seus 131 minutos (na versão restaurada). Poucas vezes na história do cinema, um filme deveu tanto à sua atriz principal.

A genial e geniosa Louise Brooks em um clássico do expressionismo alemão

“A Caixa de Pandora” é livremente adaptado de duas peças de teatro alemão escritas por Franz Wedekind compreendendo a tragédia “Lulu”. A história lida com uma mulher bela e amoral que destrói todos aqueles que estão sob seu feitiço. A personagem Lulu é a encarnação de um feminino primordial, pré-moral, pulsando vida e morte. A carga sexual de suas histórias valeu a Wedekind problemas constantes com a censura da época, resultando em uma obra que pode ser vista como uma rara mistura de elementos satíricos, grotescos e trágicos. O cineasta não só mantém a ambigüidade do comportamento de Lulu como também reforça a ambivalência das figuras masculinas, que se colocam como vítimas dos poderes e caprichos dela. O advogado compara Lulu ao mito grego de Pandora, a “insensata mulher” que abriu a caixa com todos os males do mundo, corporificando a ambigüidade de anjo e demônio da mulher. Se a análise do enredo politicamente incorreto, sempre sob a ótica contemporânea, parece pouco favorável à Pabst, ao menos de algo o cineasta jamais poderá ser acusado: falta de sutileza. O diretor alemão trata com leveza rara um tema áspero como o deste filme. O erotismo acentuado pela personagem de Louise Brooks jamais escorrega à vulgaridade. Ao contrário. Ele está presente no rosto inocente da atriz, nos gestos suaves e na interpretação carregada de ambigüidade da atriz. Pabst e o fotógrafo Günther Krampf criaram uma atmosfera sensual e expressionista, valorizadas pela atuação de Brooks que por si só torna o filme inesquecível.

“A Caixa de Pandora” é uma obra-prima de atmosfera, com movimentos de câmera e recursos de edição bastante notáveis, e é também um dos filmes mais sexualmente carregados de todos os tempos, devido principalmente ao desempenho incendiário de Louise Brooks. Tudo aquilo que a história de Wedekind expõe, e o diretor Pabst percebeu isso desde o início, são espelhos de dois lados. Em “A Caixa de Pandora”, Louise Brooks, é a impassível e enigmática Lulu, um espelho de olhos bem abertos a refletir a depravação sexual que a beleza dela parece inspirar nos homens e que, no final, a assombra. A sua indiferença é ao mesmo tempo distanciada e magnética, duas qualidades que Pabst usou engenhosamente. Na cena mais brilhante do filme, em meio à febre, a sensualidade cintilante da agitação nos bastidores, Brooks surge (como o estudioso Lotte Eisner escreveu certa vez) “como algum ídolo pagão”, jogando o fundo para fora do foco, talvez porque todo o filme estivesse contido na medida do seu rosto.

Louise Brooks pode nunca ter estudado teatro, mas cada ator de teatro ou cinema deveria estudá-la. O quanto eles podem aprender com ela são medidas inquestionáveis. A dançarina corista que virou estrela do cinema mudo era uma daquelas criaturas raras que provavelmente não deixariam ninguém lhe dizer o que fazer, mesmo que fosse para o seu próprio benefício. E Brooks era uma mulher inteligente e articulada. Como uma grande atleta natural, ela simplesmente poderia fazer o que quisesse, e fazê-lo melhor do que quase qualquer outra pessoa. “A Caixa de Pandora” é o maior registro existente de sua técnica e de seu talento notáveis.

Na superfície, em que pairam as primeiras impressões, esta é só mais uma história sobre uma mulher fatal que destrói os homens ao seu redor. Mas este filme de G.W. Pabst é muito mais do que isso. É complexo, escuro, pessimista e, aparentemente, embalado com mensagens contraditórias. Muito bem dirigido por Pabst, ainda assim teria sido esquecido há décadas, se não fosse por sua estrela, tão cadente na constelação de Hollywood quanto poderia ter sido (e de fato o foi) em outras instâncias. Ao cair em desgraça por seu gênio difícil e por criar inimigos no meio cinematográfico, ela foi praticamente expulsa por Hollywood e filmou na Alemanha a convite de Pabst, as duas obras que permanecem até hoje como os sublimes representantes de uma genial artista, tão a frente do seu tempo que somente as novas gerações de cinéfilos estão sabendo compreender: “Diário de uma Garota Perdida” e “A Caixa de Pandora”. Brooks foi uma das mais belas e mais fotogênicas atrizes que já apareceram na tela. De alguns ângulos, o rosto dela é tão notável que quase não parece real. Sua personalidade ultrapassa a simples beleza física, e ela era a personalidade ideal para capturar aquele lado infantil, petulante e egoísta que uma criança aparentemente doce e inocente tem, e que é a personificação de toda garota bonita que quer o que ela quer, independentemente das consequências.

O filme de Pabst é também um fascinante olhar sobre a obsessão sexual masculina, sobre como os homens são incapazes de controlar sua luxúria e por conta disso querem destruir o objeto de seu desejo antes que ele os destrua. No entanto, é simplesmente o desempenho totalmente natural de Louise Brooks que, no final, vai ser lembrado aqui. Ironicamente, ela era muito mais do que uma estrela do cotidiano americano do cinema mudo e precisou apenas de três filmes europeus para elevar o seu nome acima do título de cada um deles. E os filmes mal foram vistos nos Estados Unidos em sua época. Enquanto Brooks beneficiou-se posteriormente de uma biografia bem escrita e da adoração de grande parte da imprensa, um exame atento de “A Caixa de Pandora” prova que ela era muito mais do que apenas um mero anacronismo de rebeldia em uma geração de estrelas bem comportadas.

Este filme é um dos grandes tesouros do cinema, e com ele Louise Brooks provou que era uma das atrizes mais talentosas e mais fascinante que alguma vez apareceu em filmes, em ambos os lados do Atlântico.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018737/

Filme Completo:

Galeria de Imagens:

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