Grandes Clássicos: Frankenstein (1931)

FRANKENSTEIN
frankenstein_1Título Original: Frankenstein
País: Estados Unidos
Ano: 1931
Duração: 71 min.
Direção: James Whale
Elenco: Colin Clive, Mae Clarke, John Boles, Boris Karloff, Edward Van Sloan, Frederick Kerr, Dwight Frye, Lionel Belmore, Marilyn Harris, Arletta Duncan, Francis Ford, Cecilia Parker, Michael Mark.
Sinopse:
Cientista obcecado pela origem da vida recria em seu laboratório uma criatura à qual dá vida, meio monstro meio homem. Quando a criatura foge e mata uma criança, a comunidade local tenta destrui-la.

O filme que transformou Boris Karloff, então um ator secundário, num dos grandes intérpretes do cinema de terror depois que Lugosi, anteriormente cotado para o papel, não o aceitou por este não ter falas. A escolha de Karloff, então com 44 anos e uma longa carreira por trás, foi bastante acertada, já que a sua interpretação, em conjunto com a imagem do monstro criada pelo chefe do departamento de maquilagem da Universal, Jack Pierce, tornaram a personagem memorável. Seu sucesso motivou uma sequência igualmente celebrada, “A Noiva de Frankenstein”, além de derivações, como “O Filho de Frankenstein”, “O Fantasma de Frankenstein” e “Frankenstein Meets the Wolf Man”. O roteiro de John L. Balderston, Francis Edward Faragoh e Garrett Fort, é baseado na peça de 1927 “Frankenstein”, de Peggy Webling, por sua vez baseada no livro “Frankenstein, ou o Moderno Prometeu” de Mary Wollstonecraft Shelley, de 1818.

Um clássico que habita o inconsciente coletivo de toda a humanidade

Influenciado pelo filmes do expressionismo alemão como “Gollem” e “O Gabinete do Dr. Caligari”, especialmente na fotografia opressiva em preto e branco e no modo de interpretar, repleto de gestos bruscos, este marco do terror definiu o modelo de narrativa a se imitar no gênero nos anos seguintes. No final da década de 20, a Universal Pictures era apenas um pequeno estúdio de Hollywood, tendo ganhado reputação e sucesso graças a filmes de terror como “O Fantasma da Ópera” e “Dracula”. Em particular este último, que fez de Bela Lugosi uma estrela, e levou os responsáveis do estúdio a apostar na história de “Frankenstein”, cuja adaptação teatral estava em cena.

Curiosamente, durante os créditos iniciais “O Monstro” é apresentado como interpretado por “?”. No final do filme, o “?” é substituído pelo nome de Boris Karloff. Além disso, o nome de Mary Shelley é dado nos créditos de tela como Sra. Percy B. Shelley. Como o romance de Shelley era do domínio público, a Universal comprou os direitos de uma mais recente série de adaptações teatrais de Frankenstein por John L. Balderston, uma “composição” que era uma adaptação teatral para uma produção latente de Peggy Webling na Inglaterra, e que foi produzida pela mesma empresa que apresentou a versão teatral de “Drácula”, uma outra peça que a Universal adaptou para as telas nos anos 30.

Robert Florey foi originalmente definido para dirigir o filme, e quem escreveu o esboço inicial e colaborou no roteiro com Garrett Fort de maio a junho de 1931. Mais tarde, James Whale assumiu o projeto, substituindo os prospectos que incluíam o ator Bela Lugosi e o cinegrafista Karl Freund, que foram transferidos juntamente com Florey para a produção de “Murders in the Rue Morgue”. Registros do estúdio revelam que o roteiro de Florey e Fort foi então revisto por John Russell, em julho de 1931, e que este introduziu no enredo o famoso “plot” da troca dos cérebros criminoso e normal. Russell acabou substituído por Francis Edwards Faragoh, que completou o seu roteiro em agosto de 1931. Faragoh deu voz a Fritz, amoleceu um pouco a brutalidade do monstro, e acrescentou humor.

As filmagens, porém, ultrapassaram as previsões de cronogramas e de orçamento, com um custo final de mais de 290 mil dólares. Um custo relativamente alto em se tratando de um estúdio menor como a Universal, mas que se evidencia no extremo cuidado dos cenários e nos aparatos cenográficos, desde a recriação da aldeia local, ao castelo do Barão Victor Frankenstein e principalmente em seu laboratório repleto de peças, instrumentos e aparelhagens que ajudaram a compor o cenário para inúmeros outros filmes do gênero. Inclusive a célebre paródia “O Jovem Frankenstein”, realizada por Mel Brooks nos anos 70, que utiliza os mesmo cenários e apetrechos do filme de 1931.

O famigerado Código Hays mais uma vez fez menção à necessidade de se efetuar cortes no filme, temendo que a exposição de cenas terríveis pudesse agredir e ofender de forma chocante o público da época. Cuidados especiais foram pedidos às cenas em que um homem é visto enforcado, e em outra um anão está pendurado por uma corrente. Outros cortes no filme ficaram a cargo de censores locais, nos estados em que o filme era exibido. Na Irlanda do Norte, Suécia, Itália e na Tchecoslováquia o filme foi proibido. Em uma nova reunião, ficou estabelecida a retirada de qualquer menção ao nome de “Deus”, além de reduzir a cena em que Fritz atormenta o monstro com uma tocha acesa e eliminar a cena em que o monstro atira a menina Maria dentro d’água. Esta última foi a cena mais importante a ser removida da versão final. “Frankenstein” permaneceu mutilado até meados de 1986, quando três desses segmentos excluídos foram descobertos e incorporados à sua montagem, incluindo a cena do afogamento de Maria, que ganhou uma notoriedade considerável. A duração do filme ficou estabelecida em 71 minutos e a Universal o relançou em vídeo como uma “versão restaurada”.

Filmes anteriores, com base na história de Shelley foram “Frankenstein”, produzido por Edison Corp. em 1910 e dirigida por J. Searle Dawley, e “Life Without Soul”, produzida pela Ocean Film Corp. em 1915 e dirigida por Joseph W. Smiley. Uma versão em italiano chamada “Il Mostro di Frakestein”, dirigida por Eugenio Testa, foi lançado em 1920. A primeira das inúmeras continuações para o “Frankenstein” de 1931 foram “A Noiva de Frankenstein”, novamente dirigido por James Whale e estrelado por Colin Clive e Boris Karloff, e “O Filho de Frankenstein”, dirigido por Rowland V. Lee e estrelado por Karloff, Bela Lugosi e Basil Rathbone. O “Frankenstein” de 1931 foi relançado primeiramente em 1937. Outras versões do romance de Shelley incluem “The Curse of Frankenstein”, produzido na Inglaterra em 1957 e dirigido por Terence Young, um filme de 1973 feito para a televisão, “Frankenstein: A True Story”, dirigido por Jack Smight, e a paródia de Mel Brooks “Young Frankenstein”, de 1974. Na década de 90, Kenneth Branagh dirigiu uma nova versão, estrelando como o cientista e Robert de Niro como a Criatura. A seqüência de abertura do filme de 2004 da Universal “Van Helsing”, dirigido por Stephen Sommers e estrelado por Hugh Jackman, é quase uma replicação de uma seqüência do filme de 1931 trazendo seu monstro para a vida. A imagem do monstro de Frankenstein tem sido repetida várias vezes desde o lançamento do filme em quadrinhos, filmes e desenhos. Karloff mesmo assumiu o aspecto parcial do monstro na peça da Broadway “Arsenic and Old Lace”, e Raymond Massey fez o mesmo na adaptação cinematográfica da peça.

“It’s alive!”

O grande problema da crítica moderna é tentar analisar os clássicos do cinema pelos olhos do público contemporâneo. Em mais de 80 anos desde o lançamento deste filme, é claro que o cinema evoluiu, assim como o público. Truques e recursos tão eficientes até então usados para deflagrar o terror hoje já não fazem quase ou nenhum efeito. É claro que “Frankenstein” já não causa hoje o mesmo furor que causou na década de 30, quando foi lançado. Porém, se analisarmos a importância do filme para o gênero horror, fica impossível negar o seu status de obra-prima. Vendo pelo olhar atual, pode parecer bobo e clichê, mas aos lentos passos da evolução, podemos dizer que, de clichê, ele não tem nada; muito pelo contrário, este foi um dos primeiros a adaptar a ousada obra de Mary Shelley para as telas de cinema, em uma iniciativa muito positiva da Universal, dando continuidade à sua série de filmes de monstros que acabou sendo o formador de tais clichês, muitos copiados por outras mídias, mas poucos igualados.

A história vem do livro clássico de Shelley escrito em 1816, quando a autora tinha apenas 19 anos, baseado em um sonho que tivera aos 18. Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive) está recluso em seu castelo, ao contrário do que seu pai, Baron Frankenstein (Frederick Kerr), e sua bela noiva, Elizabeth (Mae Clarke), desejam. Tentando fazer com que ele volte para casa, eles não imaginam a experiência insana que o doutor está fazendo em seu laboratório: recriar a vida através de um corpo todo costurado, com vários pedaços de diversas pessoas. O problema é que o cérebro roubado para a experiência é de um ex-assassino, o que torna o novo vivo um verdadeiro perigo para a sociedade.

O terror de “Frankenstein” não está no explícito, mas sim nos textos subentendidos através das palavras ou ações. O ato de abertura do filme, em que uma pessoa vem e diz sobre o horror contido na obra, já preparava o público para o que vinha a seguir – e, da sua forma, já tornava tudo mais assustador. Um dos momentos mais fortes é quando o doutor, na presença de sua amada e de seu cunhado, explica que sua criação é feita de pedaços de várias pessoas. O que é imaginado pela mente do público se torna mais assustador do que aquilo que ele testemunha. Em contraponto, nos momentos onde o horror tenta ser mais explícito, como quando a criatura fica no mesmo quarto de Elizabeth ou então no final, com o boneco sendo jogado do moinho em fogo, acabaram não surtindo o mesmo efeito e fardaram o longa ao tempo. Hoje, diante do ultra-realismo utilizado para explicitar cada morte nos filmes e fazer o público ter medo, em “Frankenstein” isso não era necessário. Ao mesmo tempo em que foi um dos primeiros filmes a brincar com o medo do público no cinema falado (o cinema mudo possui suas obras-primas do gênero, muito mais chocantes, por sinal), um dos fascínios de “Frankenstein”, responsável pelo seu poder como arte, está nos pequenos detalhes da obra, nos singelos movimentos da criatura: maltratado pelo criado do doutor, quando a criatura encontra a menina Maria, sua vontade era apenas brincar, e não fazer o que fez.

Fora que a magistral direção de James Whale (que tem até um filme sobre sua vida, chamado “Deuses e Monstros”) contribui para que o trabalho, além de tudo, seja incrivelmente belo. Nessa mesma cena da menina, a paisagem ao fundo é simplesmente explêndida, fora os enquadramentos, que já são de uma composição invejável para o período anterior a “Cidadão Kane”. E o filme parecia estar mesmo predestinado a se tornar um clássico, uma vez que o personagem se tornou imortal para a história do cinema (todos o relacionam à caracterização deste filme, seja em homenagens, desenhos, sátiras, etc), além de uma série de seqüências clássicas que entraram para a antologia do cinema – uma das mais famosas é quando o doutor, enlouquecido pelo sucesso de sua experiência, começa a gritar a frase “It’s alive!”; outra também marcantel (e podemos dizer que pode ter sido copiada de “O Encouraçado Potemkin”) é quando o pai, horrorizado pela morte da filha, caminha com ela nos braços pelo meio da cidade.

O filme também traz alguns aspectos ilógicos, claramente forçados para romantizar e manipular a experiência emocional do público. Como explicar, por exemplo, as mortes tão simples dos coadjuvantes enquanto os protagonistas, que sofreram ataques muito mais graves, conseguem sobreviver? É evidente que apesar de seus crimes e desvios morais, Victor tem a simpatia do público que torce para que ele consiga sobreviver à sua criação. Outro detalhe é a morte da menina. Se Maria de fato se afogou, como um personagem pode afirmar que ela foi assassinada e acusar a criatura pelo ocorrido, iniciando assim a caçada ao monstro – uma vez que a cena em que a menina é atirada ao rio foi censurada das cópias exibidas na época, e nem o público tinha o testemunho do acontecido?  Quando a cena foi recolocada à narrativa na versão restaurada, percebe-se que a criatura não tinha intenção de matar a menina. A sua morte funciona como background para justificar o clímax do filme, não que isso seja uma falha gritante de um roteiro que foi reescrito diversas vezes por várias mentes, mas mostra uma preocupação com a lógica que não existia na época, mas que viria a ser aperfeiçoada com o tempo.

Ao final de “Frankenstein”, o que sobra a sua fonte interminável para pesquisas sobre cinema, além de se manter fiel à sua proposta de entretenimento, especialmente como modelo de horror e suspense típico de sua época. Sua característica mais marcante, porém, continua a personificação do monstro em si (apresentando o ator como ? na abertura, mas dando os devidos créditos a Boris Karloff no final), que pode não ser tão real ou assustadora como nos dias de hoje, mas é a caricatura perfeita do charme de uma era que não existe mais.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0021884/

Trailer:

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