Filmes: O Homem que Ri (1928)

O HOMEM QUE RI
manwholaughs_1Título Original: The Man Who Laughs
Ano: 1928
País: Estados Unidos
Duração: 110 min.
Direção: Paul Leni
Elenco: Conrad Veidt, Brandon Hurst, Olga Baclanova, Mary Philbin, Stuart Holmes, Julius Molnar Jr., Cesare Gravina, Sam De Grasse, George Siegmann, Josephine Crowell, Charles Puffy.
Sinopse:
O filme mostra como, em 1690, na Inglaterra, Gwynplaine, o herdeiro de um ducado se transformou em uma atração de circo. Seqüestrado quando garoto, foi desfigurado num perpétuo riso forçado por ordem do rei James II em vingança pela traição de seu pai. Já adulto, ele se apaixona por Dea, uma moça cega, com quem atua em espetáculos populares.

Drama de época com toques de terror, baseado em romance de Victor Hugo, com produção da Universal Pictures, traz Conrad Veidt (de “O Gabinete do Dr. Caligari” e “Casablanca”) em uma difícil atuação, por ter que interpretar o personagem principal com uma incômoda prótese em forma de dentadura com ganchos de metal puxando os cantos de sua boca, para simular um sorriso perpétuo. Os criadores de Batman, Bob Kane e Jerry Robinson afirmaram que a inspiração para a criação do célebre arquiinimigo do herói, o Coringa, partiu do personagem Gwynplaine. Os filmes de Paul Leni são difíceis de se encontrar hoje em dia, mas este diretor formado na escola expressionista alemã desenvolveu apurado bom gosto visual através de um elaborado jogo de luz e sombras que remetem a estética sombria da época, mas também um interesse pelo jogo de interpretações e emoções de seus personagens. O filme foi produzido pouco antes do advento do cinema mudo, e traz alguns efeitos sonoros e uma tímida trilha sonora, mas nenhum diálogo. Paul Leni, que morreu de envenenamento de sangue em 1931, mantém o ritmo do filme, mas este se apoia basicamente na atuação de Veidt e na participação de Mary Philbin, que alguns anos antes estrelou “O Fantasma da Ópera”, ao lado de Lon Chaney.

Antes do Coringa, houve Gwynplaine

“O Homem que Ri” é antes de mais nada, uma história de amor, ainda que com toques macabros que a remetem ao cinema expressionista alemão. Tudo começa na Inglaterra, em 1690, com a ordem do Rei James II ao cirurgião, o Dr. Hardquanonne, em desfigurar o rosto do menino Gwynplaine, esculpindo uma espécie de sorriso que irá acompanhá-lo pelo resto da vida. Foi o castigo imposto pelo monarca inglês à traição de seu pai, o Lorde Clancharlie. Quando ele se desprende de seus captores, os quais são banidos da Inglaterra, Gwynplaine, perdido numa paisagem desolada, resgata um bebê dos braços da mãe morta e bate à porta de Ursus, um homem solitário, dono de uma companhia mambembe de teatro. A criança que ri e o bebê (uma menina cega) são adotados por Ursus. As crianças crescem e passam a trabalhar em um circo de horrores. Gwynplaine evita a todo o custo o contato com outros seres humanos, exceto a jovem cega Dea, sua parceira de palco e que o ama desde menina. Apesar de corresponder aos sentimentos de Dea, ele não se entrega por não se sentir merecedor de seu amor. Através de uma série de reviravoltas imaginadas pela mente brilhante de Victor Hugo – cujo romance “L’Homme qui Rit” serviu de base para o roteiro de J. Grubb Alexander – Gwynplaine retorna para reclamar a herança e o título de nobreza que lhe cabem por direito de nascimento.

Personagens desfigurados ou com deformações físicas que por conta disso são impossibilitados de amar ou serem amados, é um dos motes mais recorrentes no cinema. “O Corcunda de Notre Dame” (1923), “O Fantasma da Ópera” (1925) e “O Homem que Ri” (1928), têm em comum serem clássicos da literatura mundial, mas também clássicos absolutos do cinema. Mas o que diferencia o personagem de Gwynplaine do corcunda Quasímodo ou de Erik, o Fantasma, é que aquele não é um personagem cuja felicidade é negada pelas circunstâncias da vida. Gwynplaine possui uma natureza invertida, já que, embora seja amado, “o homem que ri” recusa a ideia de felicidade porque considera injusto se aproveitar do fato de que sua amada é incapaz de visualizar a sua deformidade. Por mais que o destino lhe dê chances de amar, ele as rejeita. Essa condição de seu personagem dá ao ator Conrad Veidt diversas oportunidades de brilhar. As cenas de intimidade e de sedução com Dea (Mary Philbin, que estrelou em um filme de temática semelhante, “O Fantasma da Ópera”, de 1925) e com a Duquesa Josiana (Olga Baclanova) são espetaculares. Ambas se entregam completamente em seus braços, apaixonadas. Gwynplaine experimenta várias sensações ao mesmo tempo, do desejo intenso, embora contido, passando pelo horror à sua própria imagem, à vergonha e à frustração por não se permitir consumar sua paixão, tudo com um sorriso gigantesco estampado no rosto. Em suma, o estupendo ator alemão (mais lembrado por sua atuação como o sonâmbulo Cesare em “O Gabinete do Dr. Caligari”) não tinha sua voz e tampouco sua boca como instrumentos de trabalho, mas expressou todas suas emoções, em sua maior parte negativas, o que engrandece ainda mais o seu mérito, utilizando apenas olhos, gestos e músculos da face. O efeito é desconcertante e macabro.

“O Homem que Ri” porém, peca pelo excesso de melodrama imposto pela direção de Paul Leni. Enquanto acompanhamos com interesse a brilhante primeira parte da história, o filme quase se perde em uma carga melodramática incômoda a partir da metade. Fica evidente que Conrad Veidt sabia chorar como poucos atores em cena, mas o excessivo tom folhetinesco prejudicou o ritmo da narrativa. Alguns momentos, entretanto, são inspirados, como a cena em que Dea encontra uma carta da duquesa Josiana endereçada a Gwynplaine e tem um ataque de ciúmes. Sem poder ver o conteúdo da carta, Dea reconhece o cheiro de seu perfume contido no envelope. Outra cena brilhante é a do banho da Duquesa, enquanto ela é espiada pelo mensageiro do vilão Barkilphedro, através do buraco da fechadura, e vemos um close do reflexo dela na água assim que ela entra na piscina mas as ondulações tornam a sua figura irreconhecível. O grande momento, porém, acontece no castelo da Rainha Anne, entre os nobres, quando Gwynplaine está para se casar com a Duquesa Josiana. Quando ele revela seu sorriso e recebe o riso de todos os presentes, a raiva substitui a auto-piedade e Gwynplaine se afirma como homem. É o momento de redenção do personagem, que rejeita o título e o casamento para ir em busca de sua família adotiva, prestes a fugir da Inglaterra.

O filme possui muitos detalhes técnicos interessantes, alguns bastante inovadores, como a utilização de efeitos sonoros em diversas cenas, tendo sido um dos pioneiros a usar o sistema de som Movietone, introduzido por William Fox. Embora tenha sido finalizado em abril de 1927, “O Homem que Ri” só foi lançado um ano depois, para se adaptar às exigências do público, que começava a tomar gosto pelas produções sonoras. À trilha sonora foi acrescentada a canção “When Love Comes Stealing”, de Walter Hirsch, Pollack Lew e Rapee Erno. Outro aspecto marcante do filme é o seu tratamento estilizado, com uma sofisticada movimentação de câmara e o uso de luzes e sombras que nos lembra a estética expressionista alemã, da qual o diretor Paul Leni era um de seus adeptos. Na Alemanha, Leni trabalhou para diretores como Joe May, Alexander Korda, Richard Oswald e Ernst Lubitsch, antes de emigrar para os Estados Unidos em 1927 a convite de Carl Laemmle. Sua estreia no cinema americano foi com “O Gato e o Canário”, filme que serviria de modelo para as produções de terror e mistério que fariam a fama dos estúdios Universal nos anos seguintes. Em “O Homem que Ri”, o diretor demonstra um profundo bom gosto na criação dos cenários, herança de sua experiência anterior como diretor de arte na Alemanha. Leni faria apenas mais um filme, “The Last Warning”, de 1929. Em setembro daquele ano, ele morreria devido a um envenenamento de sangue.

Para tornar o filme mais comercial, os produtores da Universal mudaram o final trágico do romance de Victor Hugo – no qual Dea e Gwynplaine morrem afogados – por um outro mais otimista. Com todas as suas qualidades técnicas e artísticas, o que mais atraiu a atenção de estudiosos de cinema sobre o filme foi a semelhança do personagem principal Gwynplaine com o Coringa, o arquiinimigo do Homem-Morcego. O criador do Batman, Bob Kane, ou o ilustrador Jerry Robinson, teriam criado o vilão – interpretado na TV por Cesar Romero e no cinema por Jack Nicholson e Heather Ledge -, a partir de uma fotografia de Conrad Veidt em “O Homem que Ri”. Verdade ou não, fica bem evidente a bizarra semelhança entre ambos. Apesar de ter sofrido algumas mudanças desde a sua criação em 1940, o Coringa sempre manteve o grotesco sorriso permanente no rosto, exatamente como Conrad Veidt – que atuou o filme todo com uma prótese dentária que repuxava os cantos da boca simulando um sorriso perpétuo – nos acostumou a lembrá-lo. A maquiagem que o ator utiliza no filme, ainda que não tenha sido creditada na época, é de autoria de Jack Pierce, um dos mais importantes artistas da época e o chefe do departamento de maquiagem da Universal desde então, e cuja fama seria alcançada nos anos seguintes com filmes como “Drácula”, “Frankenstein”, “A Noiva de Frankenstein” e “A Múmia”.

Embora tenha sido fracasso de público e de crítica, “O Homem que Ri” permanece um dos mais importantes filmes do período, seja por suas inovadoras técnicas sonoras, seja pela atuação magistral de Conrad Veidt, seja por ajudar a Universal a se tornar a principal referência no gênero terror e mistério no cinema norte-americano nos anos 20 e 30.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0019130/

Filme Completo:

Galeria de Imagens:

Uma resposta

  1. Até hoje esse sorriso é inesquecível!

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