Filmes: O Monstro do Circo (1927)

O MONSTRO DO CIRCO
unknown_3Título Original: The Unknown
Ano: 1927
País: Estados Unidos
Duração: 63 min.
Direção: Tod Browning
Elenco: Lon Chaney, Joan Crawford, Norman Kerry, Nick De Ruiz, John George, Frank Lanning, Polly Moran, Bobbie Mack.

Filme mudo e mais um exemplar do gênero de suspense/horror em que o diretor Tod Browning (Dracula) se especializou, contando ainda com outro especialista, o ator Lon Chaney (O Fantasma da Ópera). Durante muitos anos, este filme foi considerado perdido, e só existia em uma cópia em 9.5mm, quando foi descoberta, em 1968, entre vários outros filmes empilhados em latas, uma cópia em boas condições por Henri Langlois e sua equipe da Cinematheque Français. Analisado por James Card, arquivista da George Eastman House, descobriu-se tratar-se do clássico da Metro-Goldwyn-Mayer “O Monstro do Circo”, um dos primeiros papéis de destaque da atriz Joan Crawford. O filme representou para ela uma virada na carreira, e uma lição que a atriz afirmou ter aprendido observando Chaney atuar, a sua incrível capacidade de concentração, o que ela definiu como “a diferença entre estar à frente da câmera e saber agir diante da câmera”. De fato, mais uma vez, Chaney, o grande astro da época, é o atrativo principal, talvez o único, deste filme, em que o diretor Browning utiliza as lembranças de seu tempo de circo para criar um história curiosa, sobre um homem que nasceu sem mãos e uma mulher com fobia por mãos masculinas, uma alusão às violências praticadas contra as mulheres, e uma metáfora para a difícil aceitação e inclusão social de pessoas mutiladas nos campos da batalha da Primeira Guerra, e em cima disso Browning construiu todo um clima mórbido, tendendo para o macabro, como um ensaio para seu filme “Freaks”, realizado cinco anos mais tarde.

Mais uma grande atuação de Lon Chaney

De todos os aspectos marcantes presentes em “O Monstro do Circo”, a performance de Lon Chaney é a que mais impressiona. Dificilmente teremos a oportunidade de ver uma atuação tão impressionante, visceral e comovente como a de Lon Chaney, em qualquer outro filme de terror. Trata-se do melhor vilão já visto numa produção de terror. Outros grandes atores já encarnaram personagens memoráveis e assustadores, porém nenhum com toda a potência e carga dramática que Alonzo, o atirador de facas sem os membros superiores interpretado por Chaney, carrega em sua faceta.

A história do filme poderia ser confundida com uma tragédia de Shakespeare ou um romance de Vitor Hugo, tamanha sua força emotiva: Alonso é um artista de circo que não possui os braços. Ele é apaixonado por Nanon (Joan Crawford), filha do dono do circo. Nanon possui uma fobia bastante incomum: ela tem medo das mãos dos homens, gerando uma repulsa por parte dela, sobre o homem forte do circo, Malabar (Norman Kerry), que é apaixonado por ela. Desta forma, Nanon confia apenas em Alonso. O detalhe é que Alonso guarda um terrível segredo de sua amada e de todos que o rodeiam, compartilhado apenas pelo seu fiel ajudante Cojo (John George). É esse segredo que causará toda a complicação da trama, magistralmente escrita por Tod Browning e Waldemar Young.

“O Monstro do Circo” é muito bom por uma reunião de fatores: uma produção bem cuidada da MGM (com destaque para os cenários de Cedric Gibbons e Richard Day, além de fotografia esmerada de Merritt B. Gerstad), um elenco excelente, um ótimo argumento e um diretor no auge de sua criatividade e em sua melhor fase. Aliás, Tod Browning é um diretor que merece ter sua filmografia revisitada urgentemente tanto pela crítica quanto pelo público. Nascido em uma família financeiramente bem situada, Charles Browning se apaixonou aos 16 anos por uma bailarina de circo e fugiu de casa para ir atrás dela, trabalhando no universo circense como palhaço, cavaleiro e, depois, como diretor de uma variedade de teatros, atividade que encerrou quando conheceu D. W. Griffith e tornou-se ator. Sua estreia nas telas se deu no clássico “Intolerância”, que Griffith dirigiu em 1916. Mais tarde, Browning passou a trabalhar como diretor, e obteve sucesso comercial com “The Unholy Three”, de 1925, após 25 outros trabalhos anteriores sem expressão, ao qual já inserira seu estilo típico misturando fantasia, mistério e horror. Seu grande êxito e grande clássico do cinema de todos os tempos foi “Drácula”, estrelado por Bela Lugosi em 1931.

Um parágrafo a mais deve ser dado para Lon Chaney. Tratava-se de um ator conhecido pelos papeis difíceis que pegava – e que lhe valeram a alcunha de o “Homem das Mil Faces” pela variedade de tipos e maquiagem que era obrigado a utilizar em cena. Era o ator preferido de Tod Browning e, juntos, realizaram várias obras. Mesmo levando-se em conta a sua filmografia repleta de performances épicas, em “O Monstro do Circo”, Chaney supera-se sob todos os aspectos, numa atuação soberba. O ator Burt Lancaster considerava a interpretação de Chaney neste filme como a mais convincente da história do cinema. E não é para menos: Chaney utilizava melhor do que ninguém suas expressões faciais para transmitir os sentimentos dos personagens que interpretava. Como Alonzo, ele atinge uma atuação que beira a perfeição.

Um dos fatores mais interessantes em “O Monstro do Circo” é a proposta de análise da natureza humana. Alonso é, apesar de tudo, um homem loucamente apaixonado. Seus questionáveis métodos para conquistar Nanon são, no mínimo, compreensíveis. Eis aí, uma das maiores forças da obra: apesar de todo o teor fantástico da história, no fundo há muita realidade na trama. Em alguns momentos, pode lembrar uma tragédia grega – temos elementos fantasiosos para contar uma trágica história que, debaixo de todas as camadas, pode acontecer com qualquer pessoa. Nesse sentido, “O Monstro do Circo” encaixa-se, com suas devidas restrições, como uma obra extremamente romântica, pois a história desenrola-se dessa maneira devido ao triângulo amoroso existente entre Alonso, Nanon e Malabar.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018528/

Filme (versão alternativa):

Galeria de Imagens:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: