Grandes Clássicos: Aurora (1927)

AURORA
sunrise_3Título Original: Sunrise – A Song Of Two Humans
País: Estados Unidos
Ano: 1927
Duração: 95 min.
Direção: F.W. Murnau
Elenco: George O’Brien, Janet Gaynor, Margareth Livingstone, Bodil Rosing, Eddie Bolland.
Sinopse:
A esposa de um simplório camponês, vê o marido seduzido por uma mulher da cidade que tenta convencê-lo a matá-la.

“Aurora” é um filme do período mudo que serviu de modelo para outros grandes clássicos que lhe seguiram. Ajudou a consolidar o cinema como linguagem específica e, ao mesmo tempo, através de sua viagem pelas emoções humanas estabeleceu o gênero melodramático. Foi o primeiro filme americano de Murnau, o mestre do expressionismo alemão, ganhou o Oscar de fotografia (Charles Rosher e Karl Struss), Atriz (Janet Gaynor, também indicada por “Sétimo Céu” e “Anjo das Ruas”) e um especial para a Fox Studio pela qualidade artística da obra. Foi o chefão William Fox que convidou o cineasta para filmar nos Estados Unidos, e realizar esta que foi a primeira produção de sua nova empresa, a Fox Film Corporation, que mais tarde viria a ser a 20th Century Fox. Parte do filme foi produzido na Alemanha, e embora sem diálogos, foi o primeiro filme a ter sua trilha sonora gravada em sincronia com a ação. Além da bela fotografia que faz um excelente jogo de luzes e sombras, e recursos revolucionários (travellings, fusões, contrastes e enquadramentos criativos) a sua força se mantém no drama vigoroso e atual, com o diretor Murnau mostrando que teria na América o mesmo sucesso que obteve em seu país não fosse o fatídico acidente automobilístico que interrompeu sua carreira em 1931, pouco antes do lançamento de “Tabu”, seu último filme. “Aurora” permanece um belo filme, simples no seu conteúdo dramático mas narrado com lirismo e sofisticação, através de recursos narrativos com os quais Murnau sonda as profundezas do casamento e faz uma análise psicológica de uma alma em crise.

A brilhante estreia de Murnau no cinema americano

sunrise-set

Por toda a parte onde se levante e se ponha o sol, no turbilhão das cidades ou no ar puro de uma quinta, a vida é sempre a mesma, breve na sua amargura, breve na sua doçura, breve nos seus riscos, breve nas suas lágrimas.
F.W. Murnau

F.W. Murnau emigrou para os Estados Unidos em 1926 a convite de William Fox. Em Hollywood, o seu primeiro filme seria o seu melhor trabalho até então: “Aurora”. Baseado no romance de Herrman Suderman, “Die Reise Nach Tilsit”, com argumento do austriaco Carl Mayer, foi a mais cara produção da Fox Films, que mais tarde viria a ser a 20th Century Fox, e tornou-se um fracasso comercial, a que também não foi alheia a má opinião da crítica da época. O tempo viria a confirmar as qualidades do filme e “Aurora” é hoje, uma importante obra-prima da sétima arte: não só pelos aspectos visuais e técnicos, mas, essencialmente, como o expoente máximo do cinema mudo, com uma linguagem própria e que faz dele, no seu conjunto uma experiência cinematográfica única.

Devido à sua reputação pelos filmes alemães que realizou, Murnau beneficiou-se de um orçamento considerável, escolheu sua própria equipe de produção e recebeu carta branca do chefão do estúdio, William Fox, para inovar. “Aurora” ganhou o Oscar de melhor “produção artística” (categoria que logo em seguida iria desaparecer) para os estúdios Fox, fotografia (Charles Rosher e Karl Struss) e atriz, para Janet Gaynor. “Aurora” centra-se na história de um casal (Janet Gaynor / George O’Brien) que vive no campo, cuja união é ameaçada pela amante proveniente da cidade (Margaret Livingston) que desperta no marido o sonho pela agitação urbana. Esta mulher da cidade que tenta convencer o jovem camponês a assassinar a esposa representa bem o modelo feminino clássico da década de 20 com seus cabelos curtos, cigarrilhas, vestido colante preto e ar diabólico. Por sua vez, Janet Gaynor, é o oposto absoluto: vestido de algodão, cabelos loiros em coque (o que causou estranheza nos fãs, acostumados aos cabelos castanhos da atriz), é o anjo que nos remete à figura mítica de Lillian Gish, e um bebê em seus braços.

Por essa simples diferença, o bem e o mal encarnados em uma figura de mulher, o contraste entre o cenário paradisíaco do campo e o caos urbano, percebe-se a sutileza com que Murnau confronta as duas realidades que irão tentar seduzir o personagem de George O’Brien. É na espantosa sequência no lago (mais tarde imitada por tantos, desde Sternberg a George Stevens) que Indre percebe as intenções do marido e foge apavorada. A partir de certo momento, já na cidade grande, “Aurora” adquire traços totalmente inocentes em que cenas singelas criam um contraste vibrante com as cenas de terror presenciadas até então. O casal se reencontrando, se apaixonando novamente, com diversões banais como uma foto romântica e um passeio no parque de diversões são exemplos dessas cenas. Murnau criou uma boa diferenciação com o conflito campo versus cidade, e os dois lugares são tratados como mundos totalmente opostos. A cidade é tratada como uma vilã (a amante do marido mora lá), enquanto o campo é um lugar apaziguador, com pessoas colaborativas. A diversão que o casal encontra na cidade parece sempre artificial, conquistada somente com o dinheiro, basta reparar na quantidade de cenas que mostram o marido pagando pelo entretenimento às outras pessoas.

Os cenários são densos, escuros, aterradores, como o Expressionismo declarava que deviam ser. Em todo o filme há sombras, e mesmo o parque de diversões possui aspecto que lembra um lugar aterrador, ainda que de forma quase subliminar. Ao mesmo tempo em que temos essa parte do filme situada para a comédia e para o romance, o clima nunca é leve, o que traz uma sensação de estranhamento única, porém previsível para um filme do estilo e do diretor Murnau. Não é algo necessariamente bom, as cenas cômicas parecem ter sido feitas sob encomenda pela Fox para o diretor, somente para agradar ao público. Elas não se encaixam na estética de forma alguma, e alguns trechos como um porco ficando bêbado são absolutamente gratuitos. A partir de então, há uma reviravolta interna no coração do marido e da qual o filme se aproveita para criar uma fábula emocionante sobre reconciliação e redenção. Esta mudança abrupta no tom da obra e que transforma suspense em lirismo, é quase um testemunho da habilidade de Murnau como diretor: sem se preocupar com diálogos – toda a trama é claramente compreendida através das reações dos personagens -, e embora utilize recursos pouco realistas, ao contrário de “A Última Gargalhada”, por exemplo, “Aurora” mantém-se através de emoções reais que justificam tais recursos.

A princípio, “Aurora” mais se parece com uma ópera trágica, e o subtítulo “Uma canção de dois seres humanos” já demonstra certa subjetividade que se observa na sua narrativa e que o aproxima muito do modelo expressionista que Murnau produzia na Alemanha: mais do que o jogo de claro e escuro e cenários opressivos e abstratos, o expressionismo se caracterizava por evocar uma resposta emocional na audiência. Murnau atinge com “Sunrise” uma simbiose perfeita entre o expressionismo alemão dos anos 20 e as raízes do cinema clássico norte-americano. E nesse feliz enlace coloca toda a sua mestria no tratamento do espaço fílmico, na organização da cenografia, na profundidade de campo, nas sobreposições de imagens e na sutileza dos movimentos de câmera. Mas a modernidade de Murnau não se esgota na utilização técnica. O que mais interessa é o seu olhar, impregnado de poesia, que torna o seu cinema tão límpido e tão único. Neste aspecto particularmente, Murnau opõe a eternidade do amor entre os protagonistas – simbolizada no casamento na igreja, seguida da inserção de travellings do casal caminhando em imagem de rua movimentada (de maneira que carros e bondes literalmente passam através deles, como se estivessem para além daquele lugar), até o beijo que paralisa o mundo, em uma sequência das mais extraordinárias do cinema – à efemeridade do meio urbano, mundano e frívolo por excelência. O filme tem algo do “romance de formação” (Bildungsroman), gênero tipicamente alemão, que tem como conclusão à formação da personalidade humana, onde o indivíduo, através de seus erros, se transforma num homem de verdade. São romances cuja única conclusão é o crescimento humano em direção à maturidade.

Além de ter sido incompreendido em sua época, o fracasso comercial de “Aurora” abalou o prestígio de Murnau dentro dos estúdios da Fox, que passou a exercer maior controle criativo sobre os seus filmes seguintes. Irritado, Murnau abandonaria o estúdio durante a produção de “City Girl”, de 1930. Hoje, “Aurora” é aceito como um dos melhores filmes já produzidos. É quase um testamento autoral desse cineasta que nunca mais faria outro grande filme. Seus dois filmes seguintes na Fox foram remontados e sonorizados à sua revelia, e seu último filme, o projeto independente “Tabu”, de 1931, nem de longe lembraria seus grandes trabalhos. Alguns dias antes da estreia do filme, Murnau morreria em um acidente de automóvel, na Califórnia.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018455/

Filme Completo:

Galeria de Imagens:

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