Grandes Diretores: Orson Welles

ORSON WELLES: O MITO E OS MITOS

Enfant terrible, mentiroso ou incompreendido, o criador de Cidadão Kane ensinou ao cinema como extrair um sentido da ilusão

Orson Welles são vários mitos em um só. O primeiro, é o do golden boy que aos 25 anos pisou na RKO com plenos poderes (inclusive sobre a montagem final de seus filmes) e mudou para sempre a história do cinema com Cidadão Kane. Em torno desse mito fundamental, gravitam outros mitos.

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Um cidadão chamado Orson Welles

Um desses mitos é o próprio Cidadão Kane: das estátuas que derretiam entre um plano e outro, de tanta luz que Gregg Toland acendia para obter a profundidade de campo contínua, até o sacrossanto mistério de Rosebud – tudo ali remonta à mitologia. A narrativa descontínua, em flashback, contrariava o princípio da linearidade clássica. A locução introduzia em cena a herança radiofônica de Welles, mas também servia para dar ao som outro sentido e outro uso que não os habituais. As contra-plongées atrevidas contrariavam o princípio da neutralidade narrativa, em que o diretor apaga as diferenças entre o que existe e o que representa, entre o verdadeiro e o ilusório.

Inútil dizer que antes a profundidade de campo já existia. Nunca antes a identidade entre o campo focal e o conjunto da cena fora tão ligada ao sentido da história. Inútil dizer que o flashback já existia. Em Cidadão Kane ele não estava lá só para remeter a narrativa do presente ao passado, e vice-versa, mas para criar um labirinto. Assim como os planos longos e a clareza das cenas, tudo serve para nos mostrar que uma vida é tão permeada de verdades e mentiras que, quanto mais conhecemos a história de um homem, mais ela nos escapa. Além disso, em Cidadão Kane percebe-se a matriz de toda a estética do cineasta, cujas realizações se caracterizaram por intensa pesquisa formal, agudo senso de plasticidade e respeito ao expressionismo alemão.

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George Orson Welles nasceu em 6 de maio de 1915 em Kenosha, Wisconsin, Estados Unidos. Aos 11 anos já dera a volta ao mundo duas vezes e, por intermédio do pai, industrial morto em 1928, conheceu artistas e desportistas famosos. Estudou arte em Chicago e trabalhou como jornalista antes de estrear no palco em Dublin, Irlanda, em 1931, interpretando Hamlet. Em 1936 dirigiu uma versão de Macbeth, somente com atores negros, para o Negro People’s Theatre. No ano seguinte formou o Mercury Theatre e apresentou uma versão de Júlio César, de Shakespeare, com figurinos modernos. Radialista a partir de 1934, Welles começou a produzir em 1938, com o grupo do Mercury, peças de radioteatro adaptadas de romances famosos.

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A fama nacional veio com o programa de 30 de outubro de 1938, que, baseado em War of the Worlds (Guerra dos mundos) de H. G. Wells, usou o formato de um noticiário simulado no qual era anunciado um ataque a New Jersey por invasores de Marte. Não percebendo tratar-se de uma encenação, milhares de ouvintes saíram às ruas em pânico. Em 1940, Welles escreveu, dirigiu, produziu e atuou em Citizen Kane (Cidadão Kane), crítica severa ao estilo de vida americano e um dos filmes mais influentes da história do cinema. Essa biografia disfarçada do empresário William Randolph Hearst, cujos jornais tentaram banir a película, empregava uma técnica expressiva que lembrava a do expressionismo alemão.

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Seguiram-se os sucessos de “The Magnificent Ambersons” (Soberba, 1942), versão de um romance de Newton Booth Tarkington, “The Stranger” (O estrangeiro, 1946), “The Lady from Shanghai” (A dama de Xangai, 1948) e uma versão revolucionária de “Macbeth” (1948). Welles viveu então vários anos na Europa, onde produziu, dirigiu e atuou em “Othello” (1952), “Le Procès” (O processo, 1962;) e “Falstaff” (1966), e encenou peças de Shakespeare. Voltou aos Estados Unidos para dirigir e atuar em “Touch of Evil” (A marca da maldade, 1958). A inteligência brutal de seu criador pode ter sido a causa de Cidadão Kane ter sido um relativo fracasso. O certo é que logo Orson Welles perderia seus poderes. Soberba foi montado à sua revelia. É Tudo Verdade foi simplesmente interrompido. Nascia aí outro mito, o do artista incompreendido.

Nessa altura, o casamento com Rita Hayworth, em 1943, acabou caindo como uma luva em sua vida: era a união da beleza com a sabedoria, do encanto com o cérebro. Mas rendeu, em todo caso, um filme e uma história: a da conversa telefônica entre Welles e Harry Cohn. O diretor falava de uma cabine telefônica, quando o chefão da Columbia lhe perguntou qual o nome do filme que ia fazer. Welles olhou numa banca de livros e deu com um título: A Dama de Shanghai. A companhia comprou os direitos. Orson leu o livro e descobriu que era péssimo. Ficou apenas com o nome e escreveu outra história.

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O fato é que, se não valesse por mais nada, A Dama de Shanghai valeria só pelo labirinto de espelhos que o autor cria a horas tantas e quase resume sua obra: são imagens que remetem a outras imagens, fantasmas que remetem a outros fantasmas. A idéia geral de Cidadão Kane retorna neste filme, e de algum modo está em todos os outros filmes que Welles dirigiria. Em vez de mostrar a história de um homem, mostra a impossibilidade de conhecer um homem, uma vida, uma história.

Dessa impossibilidade derivam outros mitos. O do mentiroso, por exemplo. Porque Orson Welles, entediado com os estudos, um belo dia embarcou com um grupo de teatro para a Irlanda, onde estreou fazendo-se passar por um grande ator de Nova York… Uma grande mentira, claro. Mas, de certa forma, uma verdade que só faltava ser comprovada. O tempo se encarregou disso, mas o fascínio de Welles passa, em boa parte, por esse namoro com a mistificação. Quem mais poderia fazer uma montagem radiofônica der A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, com tal convicção que boa parte dos ouvintes entrou realmente em pânico, pensando tratar-se de uma invasão alienígena verdadeira?

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Com o fim dos anos de glória, chega o tempo das necessidades: os trabalhos como ator para ganhar a vida, os projetos nunca concluídos. O artista em desgraça, que só conseguiu fazer A Marca da Maldade graças à influência de Charlton Heston. Mesmo assim, só ganhou como ator. Welles dirigiu o filme de graça. Não há o que falar desse filme: Welles está todo ali, no filme e na figura que interpreta, o decaído inspetor Quinlan, que procura forjar uma mentira para ocultar todas as mentiras que o envolvem, mas que haviam criado o mito do policial infalível, que resolve qualquer caso. Mas o que a sociedade pede da polícia senão uma aparência de ordem que a tranquilize? Em A Marca da Maldade, mais uma vez Welles cria seus mitos e também destrói outros, como o longo e genial plano-sequência que abre o filme, pontuado pela música insinuante de Henry Mancini, além de outras excentricidades, como reescrever o roteiro e transformar o policial vivido por Heston em mexicano, transpondo a história para a fronteira dos Estados Unidos com o México. Entre os mitos que destrói, estão as atrizes Marlene Dietrich e Zsa Zsa Gabor, além do próprio Welles, assustador na figura corpulenta do policial corrupto.

Decaído ou não, Welles era o único capaz de encarar os grandes gênios – Shakespeare, Kafka, Cervantes – sem usá-los como muleta. Era um leitor no sentido moderno da palavra: aquele que lhes restitui sua verdade, não permite que se deixem embalsamar. Ao mesmo tempo, de todos os grandes cineastas, é o mais tocado pela idéia do autor maldito, o que não consegue realizar seus projetos, o que deixa trabalahos incompletos (Quixote, É Tudo Verdade), o que tem de recorrer à Europa para obter financiamentos: enfim, um personagem do século 19, um “artista” à moda romântica.

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Se toda a obra de Orson Welles situa-se na intersecção entre falso e verdadeiro, entre genialidade e megalomania, talvez venha ao caso perguntar qual dos inúmeros papéis que fez para outros diretores melhor o expressa. Sem dúvida o ilusionista de O Homem de Duas Vidas, de um Brian De Palma em começo de carreira, ainda desconhecido: isso é o que Orson Welles era e gostava de ser. Alguém que praticava o cinema e ao mesmo tempo o pensava e criticava, que via nele uma máquina de ilusões.

É justamente este o paradoxo do cinema: tirar a verdade do falso ao mesmo tempo que, a partir da mentira, procurar a verdade. Orson Welles soube, com mais clareza, intensidade e angústia do que ninguém apontar o rumo do cinema: a passagem da ilusão ao real. Não o real como coisa dada, mas como sentido de algo que se conquista. Orson Welles morreu em Los Angeles em 10 de outubro de 1985.

Saiba mais: http://www.orsonwelles.org/

Filmes como diretor:

1984 The Spirit of Charles Lindbergh (curta)
1981 Filming ‘The Trial’ (documentário)
1979 The Orson Welles Show (filme para TV)
1978 Filming ‘Othello’ (documentário)
1973 Verdades e Mentiras (documentário)
1972 The Other Side of the Wind
1971 London (curta)
1970 The Deep
1970 The Golden Honeymoon (curta)
1969 The Southern Star (cena de abertura – não creditado)
1969 The Merchant of Venice (filme para a TV)
1968 História Imortal (The Immortal Story) (filme para a TV)
1968 Vienna (curta)
1965 Falstaff – O Toque da Meia Noite (Chimes at Midnight)
1964 Nella terra di Don Chisciotte (documentário para a TV)
1962 O Processo (The Trial)
1962 No Exit (não creditado)
1960 David e Golias (não creditado)
1958 The Fountain of Youth (curta para a TV)
1958 A Marca da Maldade (Touch of Evil)
1958 Portrait of Gina (documentário para a TV)
1956 Orson Welles and People (filme para a TV)
1955 Volta ao Mundo Com Orson Welles (série de documentários para a TV)
1955 Orson Welles’ Sketch Book (série de TV, não creditado)
1955 Grilhões do Passado (Mr. Arkadin)
1955 Moby Dick Rehearsed (filme para a TV)
1952 Othello
1950 The Unthinking Lobster (curta)
1949 Black Magic (não creditado)
1948 Macbeth
1947 A Dama de Shanghai (não creditado)
1946 O Estranho (The Stranger)
1943 Jornada do Pavor (não creditado)
1942 Soberba (The Magnificent Ambersons)
1941 Cidadão Kane (Citizen Kane)
1938 Too Much Johnson (curta)
1934 The Hearts of Age (curta)

Galeria de Imagens:

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