Grandes Clássicos: O Encouraçado Potemkin (1925)

O ENCOURAÇADO POTEMKIN
Título Original: Bronenosets Potyomkin
País: União Soviética
Ano: 1925
Duração: 74 min.
Direção: Sergei Eisenstein
Roteiro: Nina Agadzhanova e Sergei Eisenstein
Produção: Jacob Bliokh
Música: Edmund Meisel
Fotografia: Vladimir Popov e Eduard Tisse
Direção de Arte: Vasili Rakhals
Edição: Sergei Eisenstein
Elenco:
Aleksandr Antonov (Vakulinchuk)
Vladimir Barsky (Comandante Golikov)
Grigori Aleksandrov (Oficial Giliarovsky)
Mikhail Gomorov (Marujo)
Ivan Bobrov (Marujo)
Sergei Eisenstein (Cidadão de Odessa)
Julia Eisenstein (Cidadã de Odessa)
Beatrice Vitoldi
N. Poltavseva
Sinopse:
Em junho de 1905 a Rússia é sacudida pela febre revolucionária. O encouraçado da frota do czar, “Príncipe Potemkin de Táurida”, encontra-se fundiado em frente ao porto de Odessa. Vakulinchuk e Matuchenko, dois marinheiros da tripulação, membros do movimento revolucionário clandestino, incitam seus companheiros a protestarem pela dureza com que são tratados pelos oficiais, pelas más condições de vida e aderem à revolução. O capitão Golikov ameaça castigar os rebeldes, mas sua guarda se nega a atirar nos marinheiros, os quais tomam o barco rapidamente. Vakulinchuk morre no motim, traído covardemente. O seu cadáver é levado ao porto e velado no cais, e a população de Odessa desfila em solidariedade diante do corpo do marinheiro e envia alimento aos rebeldes. Quando a bandeira vermelha é içada no encouraçado, o almirantado ordena que o exército resolva a situação, promovendo uma carnificina entre os cidadãos de Odessa que estavam no cais. Os amotinados respondem bombardeando a sede do almirantado, enquanto a esquadra czarista se dirige à Odessa para destruir o navio rebelde.

O diretor Eisenstein foi convocado para dirigir uma obra em comemoração aos 20 anos da Revolução de 1905, mas em suas mãos o filme virou um marco do cinema, uma obra que permanece impressionando pela força de suas imagens.Libelo contra a opressão do sistema contra os miseráveis e exercício inovador da narrativa em tempo estendido – a cena antológica na escadaria de Odessa, onde populares são massacrados pelas tropas do governo – fazem deste um clássico imortal. Eisenstein foi um dos rostos mais visíveis das teorias soviéticas da montagem e defendia que o impacto de um filme estava, não no desenrolar das imagens, mas na sua justaposição: a montagem devia ter como base o ritmo e não a história. A sequência da escadaria Odessa, uma das mais míticas e imitadas da história do cinema, é um excelente exemplo das teorias do realizador e onde este as utiliza para “manipular” a emoção dos espectadores. Durante muitos anos considerado como o melhor filme de todos os tempos, “O Encouraçado Potemkin” é, hoje, essencialmente uma referência histórica: pelos acontecimentos que relata, pelas circunstâncias em que foi produzido e, principalmente, pela linguagem inovadora (à época) que utiliza. Indispensável a todos que se interessam pela história da sétima arte.

Leia mais sobre “O Encouraçado Potemkin” clicando aqui.

Uma obra-prima que estabeleceu padrões para a montagem narrativa

Alguns filmes são mais do que simples histórias; eles são a própria História. Quando, em 1925, o diretor e teórico russo Sergei Eisenstein lançou “O Encouraçado Potemkin”, ele sabia exatamente o que estava fazendo, mas talvez não imaginasse que sua pretensão desse tão certo. Hoje, mais de oitenta anos depois de seu lançamento, tudo o que Eisenstein defendia na época é a mais básica técnica que uma pessoa tem que saber para contar uma história em um filme. Pode parecer idiota você afirmar hoje que, ao colocar dois planos juntos, completamente diferentes, em seqüência, eles criam um sentido conseqüente, dialogando com o seu público (montagem dialética), mas, para a época, cheia de planos gerais ou mega-ultra-closes, a idéia foi uma inovação importantíssima para o cinema.

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Se hoje esse diálogo narrativo, regido com maestria pela montagem inovadora, tornou-se tão óbvio com a idade, é só mais uma prova da importância e visão que Eisenstein teve. Autor de alguns dos livros mais interessantes (e complicados de se ler) sobre a teoria da sétima arte, é muito curioso ver, na prática, tudo o que ele pensa. Em “O Encourçado Potemkin”, ele alcançou o seu ápice, sua grande obra, seu grande clichê histórico de arte. Gostar de Potemkin é um clichê, mas um clichê justificado da melhor e mais poderosa maneira possível.

Talvez a cena mais famosa do longa não seja a melhor – a Escadaria de Odessa, onde vários cidadãos são cruelmente assassinados por Cossacos (perceba no jogo de câmera inteligentemente utilizado para o diretor tomar parte no conflito; as vítimas, sempre em close, os malvados, sempre escondidos nas sombras) e, no meio do conflito, desce um carrinho de bebê pelos degraus. Mas, com certeza, é uma das mais impactantes da história e uma das mais homenageadas também (seu primo mais famoso está em “Os Intocáveis”, de Brian De Palma; referência impossível de não ser comentada).

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Isso dito porque o filme é lotado de grandes momentos, grandes passagens, tanto técnicas quanto dramáticas. Não é preciso entender muito de cinema para ver os grandes movimentos ousados que Eisenstein faz com o seu brinquedo chamado câmera: diversas panorâmicas, elevações (com destaque para a que dá dimensão à fila do corpo velado por causa da sopa), alguns planos absurdamente bonitos, enfim, um primor técnico impressionante (e que, até nos dias atuais, poucos tem a sensibilidade de captar).

A cena da escadaria não é a melhor do filme, talvez seja a mais contundente pelas imagens fortes, mas curiosamente devo dizer que a titular desse posto ocorre, também, na mesma passagem (mas em momentos diferentes): como não lembrar do desespero tocante da mãe ao perceber que seu bem mais precioso havia sido levado por causa de uma briga tão injusta e cruel? É o tipo de cena que fica martelando sua cabeça, fazendo pensar sobre os conflitos que por tantos e tantos anos assombram a história da humanidade (e que, assustadoramente, não parecem ter data para se encerrar).

Mas não se engane: “O Encouraçado Potemkin” não vale apenas pelo seu primor técnico. Dotado de uma posição política forte, você conhecerá a história do navio Potemkin e seus tripulantes mais humildes que, cansados de serem tratados como lixo pelos superiores (até carne com vermes eles eram obrigados a comer), resolvem começar um motim, que acabará gerando o grande massacre. A coragem nos acontecimentos está presente a todo momento (quem imagina, ao assistir ao longa pela primeira vez, que aquele personagem tão importante – que não direi qual – teria um fim tão precoce?). O final então, bem encaixado com a mensagem que o longa pretende passar, é correto e satisfatório, apesar de, com tantos finais parecidos ao longo dos anos (uma desvantagem em ser um criador de clichês) ele acabe tendo se tornado previsível demais.

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O modo como Eisenstein prepara seu público para os acontecimentos é digno de uma análise mais cuidadosa. Sempre pensando na melhor maneira de dramatizar suas passagens, o diretor cria diversos momentos de tensão para valorizar as explosões chaves de seu roteiro. Como não citar, por exemplo, a expectativa que ficamos quando alguns marinheiros estão para ser fuzilados pela elite do navio? Nesse plano, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a precisão com que Eisenstein dividiu sua tela com os canos dos canhões, na mais perfeita simetria. Outro ponto importante a ser comentado é a excelente noção de continuidade do longa. Com tantos cortes, seria fácil encontrar erros e mais erros logísticos nessa ousada e inovadora estética que ele vinha usando. Mas não é o que acontece. “O Encouraçado Potemkin” prima por ter pouquíssimos erros de continuidade (verdade, alguns bastante visíveis), principalmente se comparado à pretensão estética requerida por ele.

Contando com atuações extremamente dramáticas e reais (e isso é uma forte virtude do longa, sua capacidade de ser por demais realista), Eisenstein construiu uma obra-prima firme, política, esteticamente estupenda e que sobrevive até hoje entre as listas e mais listas dos melhores filmes já feitos das pessoas mais entendidas do assunto no mundo. Se você também for capaz de separar clichê do criador de clichê e, principalmente, conseguir embarcar na difícil narrativa do cinema mudo (interpretações constantes, a cada nova seqüência de planos, histórias diretas e rasas demais), pode ter certeza que não irá se arrepender. Não tem para “Outubro” e nem para “A Greve” – o título de melhor filme do diretor é “O Encouraçado Potemkin”. 1925 foi o ano em que o mundo conheceu o poder do encouraçado russo, que até hoje consegue navegar nas difíceis águas da pós-modernidade cinematográfica.

Um detalhe a ser levado em conta, com relação às legendas do filme: sem elas, é praticamente impossível entender tudo o que está se passando na história (afinal, ela retrata um acontecimento de 1905). E aí aproveito para levantar uma questão para aqueles que gostam de pensar no bom cinema: quando o som foi inventado, Eisenstein escreveu o “Manifesto do Som”, que dizia que, quando utilizado, ele não deveria reproduzir o que a imagem estava mostrando para não cometermos um pleonasmo, e sim que ele deveria trazer um novo sentido se somado à imagem. Porém, o que diferencia, além da obviedade de sentido, as legendas das falas? Ambos estão, teoricamente, repetindo aquilo que a imagem quer mostrar – e, também, ambos servem para melhor entender a idéia das cenas. Ao colocar a legenda, seria como se a imagem não conseguisse falar por si só; justamente a crítica que o diretor e teórico fazia ao novo recurso cinematográfico. Afinal, Eisenstein é um teórico fantástico, mas hoje já é provado que o som é um elemento importantíssimo, quando bem utilizado, para o sucesso ou não de algum filme. Parece até birra de gente intelectual, que não gosta de se render a novidades. O seu medo era que as pessoas ficassem preguiçosas e que o cinema fosse banalizado – o que muitos cineastas de Hollywood têm um talento enorme para fazer nos dias de hoje.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0015648/

O Mestre Eisenstein

A vida de Eisenstein foi marcada por um paradoxo: enquanto no Ocidente era considerado um dos artífices do cinema revolucionário soviético, na ex-URSS, a partir da ascensão de Stalin ao poder, foi considerado cúmplice da burguesia nefasta. Em vinte anos de trabalho só realizou quatro longa-metragens completos e estreados sob a sua responsabilidade: Stachka (1924), Bronenosets Potiomkim (1925), Alexandre Nevski (1938) e Ivan Grozni (1943).

Sergei Mijailovich Eisenstein nasceu em Riga (Letônia), em 1898, filho de um engenheiro de origem judia e uma jovem da alta burguesia ortodoxa russa. Em 1918 abandonou os estudos para alistar-se no exército vermelho, onde se ocupou de montagem teatrais. Dispensado em 1920, continou dedicando-se ao teatro, onde conseguiu alguns sucessos, e atuou como assistente, em 1924, na montagem da versão cinematográfica russa de “Dr. Mabuse, o jogador”, de Fritz Lang. A partir daí, o cinema se tornaria a sua grande paixão. Seus primeiros longa-metragens, “A Greve” e “O Encouraçado Potemkin”, consagraram-no como o grande diretor soviético aos 27 anos.

A fama trouxe-lhe problemas: seus filmes começariam a ser censurados e seus projetos recusados. Em 1930 teve a oportunidade de trabalhar em Hollywood, mas a experiência foi terrível. Durante os seis meses que durou o seu contrato, nenhum dos seus roteiros foi aceito. Uma nova oferta fez com que ele fosse para o México filmar “Que Viva México!” (1931), mas as filmagens foram suspensas e Eisenstein afastado do projeto. Em 1935, quando voltou à União Soviética, passou a receber violentas críticas e suas teorias sobre o cinema taxadas de “inexatas” e desprezadas.

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Encarregado de filmar “O Prado de Bejin” (Beztin lug, 1935-1937), a produção também foi interrompida. O prestígio de Eisenstein dentro do partido comunista ajudou-o a conseguir a realização de “Alexandre Nevski” (1938), que recuperou o prestígio do cineasta na URSS. De 1940 a 1944 realizou aquele que seria seu último grande filme, “Ivan Grozni”, cuja primeira parte estreou em janeiro de 1945. Um mês depois, Eisenstein sofreu um infarte. Em setembro, uma comissão do partido comunista censurou a segunda parte do filme, considerando-a “anti-histórica” por criticar o poder despótico de Stalin. Os dois anos seguintes foram dedicados à carreira docente, trabalhando com escritos técnicos e teóricos. Em 1947, finalmente pôde ver a montagem feita com o materia filmado no México, ao que seguiu-se uma profunda depressão. Morreu sozinho em 1948, mas foi enterrado com honras de herói nacional. Em agosto de 1958, já em pleno período de desestalinização, estreou em Moscou a Segunda parte de “Ivan Grozni”. A crítica recebeu este filme como uma das obras-primas de Eisenstein e, consequentemente, da filmografia mundial.

FILMOGRAFIA DE SERGEI EISENSTEIN:
1946 – Ivan, o terrível – Parte II (Ivan Grozny Part II)
1943 – Seeds of freedom
1943 – Ivan, o terrível – Parte I (Ivan Grozny Part I)
1939 – Ferghana canal
1938 – Alexandre Nevski (Aleksandr Nevski)
1937 – Bezhin lug
1931 – Que viva México (Que viva Mexico)
1930 – Romance sentimentale (curta-metragem)
1929 – Sturm uber la sarraz (curta-metragem)
1929 – A linha geral (Generalnaya linya)
1928 – Outubro (Oktyabar)
1925 – O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin)
1924 – A greve (Stachka)
1923 – Kinodnevik glumova

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