Filmes: Ladrões de Bicicleta (1948)

ladri_1LADRÕES DE BICICLETA
Título Original: Ladri di Biciclette
País: Itália
Ano: 1948
Duração: 93 min.
Diretor: Vittorio De Sica
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carrell, Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Carlo Jachino, Fausto Guerzoni, Michele Sakara.
Sinopse:
Em Roma um trabalhador de origem humilde, Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), é razoavelmente feliz e trabalha para sustentar a família. Precisando ter uma bicicleta para pegar um emprego, com sacrifício ele consegue recuperar a sua bicicleta, que estava empenhada. Entretanto ela é roubada, para seu desespero. Juntamente com seu filho Bruno (Enzo Staiola), Antonio a procura pela cidade. Como não consegue encontrá-la, ele resolve cometer o mesmo crime.

Premiado com o Oscar de Filme Estrangeiro, este clássico tornou-se um dos grandes momentos do cinema, marcando o ressurgimento do cinema italiano em meio às cinzas do fascismo e estabeleceu os alicerces do neo-realismo que se estenderia durante os anos 50 na Itália graças a Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica, que aqui conta com o roteiro de Cesare Zavattini para oferecer um quadro autêntico de um país devastado e pobre, utilizando-se de atores não profissionais, filmagens nas ruas e sem recursos de estúdio para atingir o realismo próprio dos filmes desse período – expor a realidade como ela é vista e vivenciada pelos personagens. É o segundo filme de uma trilogia do cineasta, iniciada com “Vítimas da Tormenta” (Sciuscia, de 1946) e concluída com “Umberto D.” (1952). O ponto de partida foi o romance homônimo de Luigi Bartolini, bastante modificado por Zavattini e De Sica, que transformaram a obra original em uma odisséia carregada de metáforas onde a bicicleta é a mola que move a história. Ao contrário do primeiro filme, de Sicca contou com uma grande equipe de técnicos, envolvidos em um elaborado processo de filmagem para criar cenas de multidão e até chuva artificial, nunca escondendo que suas influências são King Vidor e Charles Chaplin. De qualquer modo, embora pertença a um perído histórico e seja encaixado em uma estética cinematográfica, os questionamentos que surgem com a trama de “Ladrões de Bicicletas” são atemporais e relevantes: é impossível não se emocionar com as situações constrangedoras que pai e filho passam durante a procura pela bicicleta roubada. Um filme cruel em sua observação crítica e social, mas humanista no que se reserva aos sentimentos que expõe e acima de tudo extremamente verdadeiro, o principal momento da carreira de Vittorio De Sica e um dos melhores filmes de todos os tempos.

Um marco do neo-realismo italiano

“Não há mais atores, não há mais história, não há mais encenação, isto é, finalmente, na ilusão estética da realidade, dizer que não há mais cinema”. Assim, nas palavras do crítico francês André Bazin, estaria definido o neo-realismo italiano, que tem no filme “Ladrões de Bicicleta” o maior modelo de sua estética e narrativa.

O neo-realismo italiano teve seu ínicio com o fim da 2ª Guerra Mundial. Vários filmes da época encaixam-se num programa a príncipio político, opondo-se radicalmente ao regime fascista e a sua produção artística. O cenário social é uma Itália destruída pela guerra, que busca o seu presente, que exige uma discussão sobre a situação do povo, oprimido e cansado. O cinema coloca em debate assuntos políticos, a guerra, o fim do fascismo, as dificuldade impostas pelo capitalismo. Contudo, escolhas estéticas dos cineastas vinculados ao movimento apontam para além desse contexto histórico simplório, promovendo uma nova relação entre o cinema e o espectador, esboçando as bases de um cinema moderno.

Para falar de neo-realismo, invariavelmente é necessário evocar a figura de André Bazin, teórico e crítico de cinema, co-fundador da revista francesa Cahiers du Cinéma e maior entusiasta do poder realista do filme. Bazin vê nas novas tecnologias (principalmente com o surgimento do cinema sonoro) uma evolução rumo a um estilo narrativo mais próximo do real, que se distancie tanto da montagem clássica convencional, quanto da vanguarda anti-realista. Para ele, o cinema é a realização máxima do fetiche humano de mimetizar a realidade, a obssessão pelo realismo satisfeita através da reprodução mecânica. Tem fé na verdade da imagem, condenando a trucagem que a montagem promove, admitindo apenas como válido o que seja construído, em duração, na frente da câmera. As teorias do francês apontam para uma representação justa da realidade, onde ela possa falar por si própria, com todas as suas ambigüidades. E terá no cinema neo-realista seu modelo maior, apontando no seu uso de planos-sequências e profundidade de campo mais que um estilo inovador, uma vontade expressa de revelar o que existe de realidade no filme, fazer um cinema à imagem e semelhança da realidade.

Eis aqui as características básicas: a filmagem em externas e em cenários naturais; o uso de atores não-profissionais, normalmente pessoas locais; roteiros com personagens simples, pobres, retratando o cotidiano e a psique italiana; produções pequenas e modestas. Nesse sentido, “Ladrões de Bicicleta” é um ícone, resultado do trabalho conjunto de Vittorio de Sica com Cesare Zavattini (escritor e um dos principais pensadores do neo-realismo). A busca de Ricci por sua bicicleta roubada, garantia de seu trabalho, numa Itália em reconstrução, vítima do desemprego generalizado, foge de elucubrações políticas rasas através de um humanismo paciente. A construção elaborada de um discurso direcionado não é o alvo, mas a ambigüidade defendida por Bazin e Zavattini, para quem a vida vale mais que a imaginação. A mise-en-scene seria um empecilho frente ao retrato justo da dor humana. A realidade deve bastar, ser observada com cuidado, sem grandes fantasias, ater-se à contemplação, reduzindo a montagem e a dramaturgia ao mínimo necessário.

Estaria nessa idéia o conceito de uma nova relação da obra com o espectador, ao diminuir o poder de persuação da montagem o espectador tomaria uma atitude menos passiva, agiria junto ao filme, intrigado por um autor que se recusa a manipular a natureza. Bazin teria encontrado em “Ladrões de Bicicleta” um embrião para suas idéias, pois o filme ainda exala uma carga dramática certa. É sensível o sentimento de pai e filho ao abrigarem-se da chuva, mas também é manipulado. É díficil ver o cineasta como uma simples testemunha dos eventos que ele elaborou. A mise-en-scene do filme ainda é clara, uma trajetória quase kafkiniana, com múltiplos obstáculos, sejam os modernos carros e caminhões nas ruas cruzando a tela, sejam as incontáveis bicicletas em todos os cantos, ou a multidão, crescente, apertando os personagens e, por fim, engolindo-os.

“Ladrões de Bicicleta” continua uma fábula social tão comovente hoje quanto o era há mais de 60 anos atrás.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0040522/

Filme Completo:

Galeria de Imagens:

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