Filmes: Em Busca do Ouro (1925)

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Título Original: The Gold Rush
País: Estados Unidos
Ano: 1925
Duração: 82 min./72 min.
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Georgia Hale, Mack Swain, Tom Murray, Henry Bergman, Malcoml Waite.
Sinopse:
Durante a corrida do ouro, Carlitos vai ao Alasca, faz amizade com um outro aventureiro e conhece a mulher da sua vida, que trabalha num cabaré mas de início o esnoba. Quando ele descobre o ouro, ambos se reencontram em um navio, sem que ela saiba que ele agora é um milionário.

Um dos filmes mais importantes de Chaplin, exercício de humor irresistível com situações geniais (a casa balançando à beira do abismo), inusitadas (Carlitos vira um frango gigante na imaginação do amigo faminto e ele mesmo come a própria bota para matar a fome) e encantadoras, como a dança com os pãezinhos, toda uma técnica na qual Chaplin foi insuperável – a pantomima. Chaplin e seu companheiro de cena realmente comeram as botinas, feitas de alcaçuz por um confeiteiro especialmente contratado para a tarefa. Perfeccionista, Chaplin fez dezenas de tomadas e mais de vinte pares de botinas saíram do forno, antes de a cena ser aprovada. A personagem “Georgia” foi escrita por Chaplin especialmente para sua nova esposa, Lita Grey, que posteriormente teve que desistir da personagem por ter engravidado. Há duas versões de “Em Busca do Ouro”, a primeira de 1925 e a outra de 1942. A versão original sem som tem 82 minutos de duração, enquanto a versão sonorizada tem 72 minutos de duração e uma trilha sonora totalmente nova.

A alegoria definitiva de Chaplin sobre a degradação pela competição por capital entre os homens

Em se tratando de Charles Chaplin, é comum que sua filmografia seja classificada em dois momentos distintos. Um primeiro, mais alegre e festivo, voltado para a vivacidade e os trejeitos do personagem Carlitos, sobretudo com ênfase na comédia. A segunda fase de sua carreira seria supostamente a mais amarga, pessimista, trazendo uma reflexão taciturna sobre o mundo e a sociedade. Ainda que aparentemente tal classificação faça algum sentido, trata-se de um grande engano. Em todas as suas obras há, é claro, o humor, mas a grande sacada de Chaplin, o grande discurso que jaz por trás de seus filmes agridoces, é a luta de classes. Nesse sentido, seja em “O Garoto”, de 1921, em que narra o apego entre Carlitos e um menino de rua, seja em “Monsieur Verdoux”, de 1947, em que vive um inescrupuloso golpista de mulheres, Chaplin estava sempre trazendo a tona a opressão, o totalitarismo, as mazelas do capitalismo, o drama dos excluídos.

No filme “Em Busca do Ouro”, o filme pelo qual Chaplin disse que gostaria de ser lembrado, o multitalentoso criador talvez tenha elaborado o grande ponto de equilíbrio de sua carreira, um filme em que dosou bem a comédia, o melodrama, a crítica social e sua simbologia. A história é relativamente simples: narra as desventuras de Carlitos em sua jornada ao Alasca, quando lá havia a busca de garimpeiros por ouro, todos sedentos por riqueza, cegos pela ambição, ao passo que tal jornada descamba para um total estado de delírio das pessoas.

E, justamente neste contexto, Chaplin compôs o filme onde concentram-se mais cenas antológicas suas numa só fita– inclusive a que é, provavelmente, a sua mais famosa, ao lado daquela “outra” de “Tempos Modernos”. Um dos garimpeiros, desnorteado por sua fome e cobiça desenfreada, passa a imaginar Chaplin tal como um frango, a ponto de sacar uma arma na intenção de matá-lo para depois saciar sua fome – uma menção a idéia de detração por meio da competição, o canibalismo sob sua pior forma: o que faz alegoria ao capitalismo selvagem (convém lembrar que Chaplin era de orientação esquerdista).

Outras sequências, beirando o grotesco e o escatológico, como a que faz uma refeição comendo suas próprias botas, após estas terem sido devidamente cozinhadas em um fogão. E, é claro, a mais famosa das cenas do filme: a dança dos pãezinhos. “Em Busca do Ouro” se tornou conhecido pelo exacerbado perfeccionismo, pelo fato de que estas seqüências mencionadas terem acarretado dezenas e dezenas de tomadas até sua completa satisfação, de um homem que foi ao mesmo tempo diretor/produtor/roteirista/ ator/compositor. Não por acaso, neste caso o material gravado foi quase 30 vezes maior do que o tempo de duração que o trabalho final editado. A cena em que Carlitos e seu parceiro Big Jim cozinham uma bota para o jantar levou mais de 60 takes. Johnny Depp, que refilmou a dança dos pãenzinhos, declarou no documentário “Vida e Arte de Charles Chaplin” que esta foi umas das coisas mais difíceis que já fez na vida como ator.

Chaplin tinha a preocupação que seu cinema fosse, ainda que entretenimento voltado ao grande público, um manifesto que evidenciasse a degradação dos homens quando ludibriados pela cobiça e pelo poder. Entretanto, o esforço de Chaplin aos dias atuais parece ter sido, de certa forma, em vão, uma vez que isso lhe rendeu o ostracismo na América (que só se redimiria com seu Oscar tardio), e hoje seja muito mais lembrado – injustamente – como um autor de comédias do que um militante de seus ideais, e os estudos de Chaplin em livros sobre a história do cinema, mesmo na academia, sejam relegados a um segundo plano.

Glauber Rocha, ao saber da morte de Chaplin em 25 de dezembro de 1977 (quando filmava “A Idade da Terra”) declarou que a morte de Chaplin representava a morte do humanismo no século XX. De fato, Glauber, talvez o cineasta brasileiro mais engajado politicamente na história, viu no fato e naquela data um desafio simbólico na civilização contemporânea. Mas o prenúncio de Glauber persiste: desde Chaplin, quando o cinema conseguiu ser tão entretenimento, tão “massa”, e mesmo assim tocar em questões humanísticas e em feridas sociais com retórica tão refinada?

Mesmo que muitos não considerem filmes mudos como a melhor diversão para um sábado à noite de chuva, e muitos considerem os filmes do período como uma espécie de teatro kabuki enfadonho ou uma má apresentação de Power Point com trilha repetitiva em sequência midi, “Em Busca de Ouro” também não tem o humor escatológico nem as piadas sobre pênis de Adam Sandler ou Seth Rogen em seu roteiro – fundamentais nas comédias modernas. Além disso, o seu formato em fullscreen (lembrando que o widescreen só foi inventado em 1953) vai obrigar você a ajustar a tela da sua TV de LED – que você comprou apenas para assistir filme no formato 19:6. Mas se apesar de tudo isso você ainda assistir este filme vai se deliciar com quase uma hora e meia em que uma casa balança à beira de um abismo, um sujeito come a própria botina, outro imagina o colega como um frango gigante, há um sapateado com pães espetados em garfos, uma tentativa de suicídio, um pouco de romance, um pouco de aventura e um final feliz. Se você insistir que não gosta de filmes mudos, não tem problema. Em 1942 Chaplin reeditou o filme, diminuindo sua duração, acrescentando uma trilha sonora e efeitos sonoros, e narrando a história ele próprio, relançando “Em Busca do Ouro” como um filme sonoro. Para os puristas que argumentam que a narração de Chaplin é refinada demais e desnecessária, a versão original também pode ser encontrada na edição dupla em DVD.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0015864/

Filme Completo (versão 1942 – 72 min.):

Galeria de Imagens:

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