Filmes: A Idade do Ouro (1930)

idade-do-ouroA IDADE DO OURO
Título Original: L’Age d’Or
País: França
Ano: 1930
Duração: 60 min.
Direção: Luis Buñuel
Elenco: Gaston Modot, Lya Lys, Caridad de Laberdesque, Max Ernst, Josep Llorens Artigas, Lionel Salem, Germaine Noizet, Duchange, Bonaventura Ibáñez.
Sinopse:
O diretor espanhol Luis Buñuel traz imagens fortes e cruas de morte, espancamento, fetichismo e, no final, um epílogo com um conto do Marquês de Sade.

“A Idade do Ouro” não é um filme convencional, visto mais como uma continuação de “O Cão Andaluz”, de 1928, do qual herdou a estética abstrata, o estilo difuso e as imagens perturbadoras, estas sim, a própria justificativa de o filme existir, incompreensíveis por si mesmas, e que mantém o filme enigmático há 80 anos. A poética e o inconformismo de Buñuel escapa do mimetismo e da representação fiel de um estado de coisas e se traduzem nessas imagens, seja contra a Igreja, seja contra a burguesia, seja contra o Governo. Se em certa medida Buñuel coloca em xeque a integridade moral do homem, seu “A Idade do Ouro” chama atenção justamente para aquilo que também faz parte da condição humana, mas que foi abafado pelo processo civilizatório: sua fragilidade, sua impotência, seu medo, suas paixões. A falibilidade e a imperfeição insistem em vazar por todos os lados, indiferentes ao freio da razão. Buñuel apropriou-se do surreal como algo a serviço da realidade concreta. É como se o próprio olhar do cineasta desdobrasse o mundo em sua dimensão caótica. O humor típico do diretor se traduz de forma particularmente maliciosa, capitaneado pela parceria inestimável de Salvador Dali. Amigos pessoais, Dali e Buñuel se desentenderam pouco tempo depois da conclusão de “A Idade do Ouro”, iniciando um período de mágoas e ressentimentos mútuos que se prolongaria até a morte desses dois artistas geniais.

Um marco do surrealismo cinematográfico

Realizado dois anos após “Um Cão Andaluz” (1928), “A Idade do Ouro” radicaliza aquilo que eclodiu como preocupação inicial do cineasta espanhol Luis Buñuel, em parceria com o artista Salvador Dali: o cinema como instrumento de poesia e máquina do surreal. A poética de Buñuel escapa do mimetismo e da representação fiel de um estado de coisas e opera imagens desejantes, polissêmicas, provocadoras.

Não quer dizer que tal profusão de signos e o embaralhamento de sentidos levam à compreensão de Buñuel apenas como “cineasta surrealista”. Se por um lado “Um Cão Andaluz” e A “Idade do Ouro” passam a ser considerados marcos do surrealismo no cinema por apresentar elementos como a não-linearidade, o humor negro, o bizarro, a provocação ao clero e à burguesia, por outro lado, Buñuel apropriava-se do surreal como algo a serviço da realidade concreta. É como se o próprio olhar do cineasta desdobrasse o mundo em sua dimensão caótica. Por isso mesmo que encontramos tanta vitalidade nos desconexos planos de “A Idade do Ouro”: marcados pela incompletude, eles são atravessados por alegorias que dimensionam o compromisso de Buñuel em se posicionar contra a representação das instituições. Todo o poder exercido pela religião, pela família, pela política e pela sociedade em geral é dessacralizado.

Inicialmente, acompanhamos uma seqüência de planos convencionais que desdobra um “despretensioso” documentário sobre escorpiões. Em seguida, bandidos fracos e armados caminham entre penhascos pedregosos, onde arcebispos se transformam em esqueletos. Uma caravana de padres, militares, freiras, chega para fundar a Roma imperial, mas a cerimônia é interrompida pelos gritos de uma mulher em luta amorosa com um homem.

O amor entre o homem e a mulher – aparentemente protagonistas do filme – jamais se concretiza, permanecendo apenas no horizonte do desejo. Há sempre um obstáculo acidental externo que impossibilita a efetivação amorosa do casal: a caravana no penhasco, o som estridente da orquestra, o telefonema do ministro, o beijo da moça no maestro. Guiado pelo desejo, o homem já não pode cumprir sua missão humanitária de salvar o mundo. Mesmo aqueles que, na História, apresentaram-se como inspirados pelo divino – a imagem de Jesus Cristo como conde é emblemática – falham em tal missão.

Se em certa medida Buñuel coloca em xeque a integridade moral do homem, seu “A Idade do Ouro” chama atenção justamente para aquilo que também faz parte da condição humana, mas que foi abafado pelo processo civilizatório: sua fragilidade, sua impotência, seu medo, suas paixões. A falibilidade e a imperfeição insistem em vazar por todos os lados, indiferentes ao freio da razão. É disso que o cinema poético de Buñuel é feito e que se tornariam temas recorrentes em sua filmografia desde então.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0021577/

Filme completo restaurado:

Galeria de Imagens:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: