Filmes: A Turba (1928)

A TURBA

crowd_1Título Original: The Crowd
País: Estados Unidos
Ano: 1928
Duração: 98 min.
Direção: King Vidor
Elenco: Eleanor Boardman, James Murray, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel G. Tomlinson, Dell Henerson, Lucy Beaumont, Freddie Burke Frederick, Alice Mildred Puter.
Sinopse:
Nascido no quatro de julho americano, o futuro parecia ser promissor para John “Johnny” Simms, mas anos mais tarde, trabalhando em um escritório em Nova York ele é apenas mais um rosto na multidão. Ainda assim, ele é feliz e conhece a jovem Mary, com quem acaba se casando, mas quando John decide se separar, descobre que a esposa está grávida. Após cinco anos, já com um casal de filhos e a vida estagnada no que para ele parece um beco sem saída, uma tragédia faz com que John reflita se deve se resignar ou perder o pouco que tem.

Famoso melodrama em produção esmerada de Irving Thalberg para a Metro-Glowyn-Mayer, com direção de arte de Cedric Gibbons e Arnold Gillespie na decoração dos cenários, obrigou o diretor King Vidor a filmar nove finais diferentes para a história porque o estúdio se recusou a lançar o filme sem um final feliz. O diretor filmou diversas cenas nas ruas de Nova York, usando personagens reais. Tido como a obra-prima de King Vidor, a trama simples, porém de forte impacto emocional permanece ainda hoje como um dos marcos do cinema mudo, graças ao realismo e à sensibilidade com que o diretor aborda o drama do casal vivido por Murray (um ator então desconhecido, que acabou cometendo suicídio anos mais tarde) e Boardman, atriz de notável beleza e talento (casada com o diretor Vidor). Com a ajuda do fotógrafo Henry Sharp, que captura a beleza de cenas de tirar o fôlego, como as luzes de Coney Island à noite, a grandeza das cataratas de Niagara e a gigantesca Nova York, que surge muitas vezes em tom amedrontador, além de provar o talento de Vidor para o melodrama, “A Turba” é a prova da qualidade dos filmes da MGM no período em que Thalberg era o chefe de produção do estúdio.

Uma obra-prima do diretor King Vidor

Com a obra-prima “A Turba”, o diretor King Vidor resolveu exibir o lado mais duro e cruel da vida. Primeiro assunto exposto: a enorme competição no mercado de trabalho. Em seguida, o matrimônio e suas implicações. Tudo isso sem nenhum pingo do ingênuo romantismo que tanto exalavam os filmes mudos americanos da década de 20. Visto hoje, quase oito décadas após ter sido realizado, o filme ainda conserva muita força e emoção, e há dois grandes motivos para isso: o elenco impecável e o roteiro bem-construído.

Chegado em Nova York, John Sims é apenas mais uma dentre milhões e milhões de pessoas em busca de um sonho, de um “futuro brilhante”. Encantado, ele observa os prédios que parecem não ter fim. É de um desses edifícios que sai uma garota chamada Mary, com quem John se casa algum tempo depois. O rapaz trabalha em um escritório de contabilidade, não ganha muito, mas garante à companheira que o “amanhã” será bem mais promissor. Os anos se passam, e a oportunidade da qual ele fala incessantemente jamais lhe dá as caras. O que consegue é um aumento de 8 dólares e duas bocas a mais para alimentar… A vaidade e a confiança inicial de John Sims faz dele um sujeito pretensioso e janota. Ele ri de um homem que trabalha na rua segurando anúncios vestido de palhaço, sem imaginar que um dia ele seria obrigado a fazer o mesmo para sobreviver. O orgulho também o faz recusar uma oferta de trabalho proposta pelos cunhados, embora John estivesse numa das fases mais problemáticas de sua vida (o casamento, por um fio; a situação financeira, constrangedora). Até mesmo quando, por sorte, ele consegue vencer um concurso de “slogans” e recebe um bom prêmio em dinheiro, algo terrível lhe acontece. Foram necessários alguns anos de sofrimento e desilusões para que John finalmente se rendesse e deixasse de lado a vaidade ridícula que o acompanhava desde a infância.

O final feliz e redentor da trama, no entanto, foi imposto pelos estúdios MGM, uma vez que a audiência reprovara o desfecho original em exibições-teste, antes do lançamento. Convém destacar o fascinante modo como King Vidor dispõe as imagens em seu filme. As janelas dos arranha-céus transformam-se em múltiplas fileiras de mesas, revelando o simétrico e frio interior daqueles prédios. O close dos protagonistas em um passeio de bonde contrasta com os milhares de pedestres sem rosto que lotam as ruas da cidade. O néon de um parque de diversões emoldura os personagens em uma das raras cenas felizes da obra. A imagem de um cemitério, com as lápides distribuídas igual a um jogo de dominó, antecede uma seqüência com homens formando filas de desempregados. E tem ainda o plano final, quando a câmera passeia por cima de uma infinita platéia que assiste a um espetáculo circense. Grande trabalho do diretor de fotografia Henry Sharp, que trabalharia nos anos seguintes em produções como “Diabo a Quatro” e “Negócios da China”.

Para viver Mary, Vidor escolheu sua esposa, a estreante Eleanor Boardman. Mas a maior curiosidade é que, na vida real, o ator James Murray também teve uma biografia repleta de tragédias e sofrimento, tal qual a de John Sims, seu personagem em “A Turba”. Trabalhou como lavador de pratos, motorista de táxi e fez figuração em alguns filmes da MGM, até que, num belo dia, foi chamado para fazer um teste para o cineasta King Vidor, que em 1925 ganhara fama mundial com o épico de guerra “O Grande Desfile” (o filme mudo mais lucrativo de todos os tempos). Murray, como já se sabe, conseguiu o papel principal de “A Turba”, contudo, nos anos seguintes, sua carreira foi minguando para papéis cada vez mais insignificantes. Virou alcoólatra e passou a recusar ofertas de trabalho por puro esnobismo. Ao contrário de John Sims, não teve um final feliz. O corpo do ator foi encontrado por pescadores no rio Hudson, em 1936. Até hoje, não se sabe se o afogamento de James Murray foi um acidente, um assassinato ou um suicídio. Morria um jovem ator com um “futuro brilhante”. Nem o pai de John Sims sonharia com uma oportunidade daquela para o filho.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018806/

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