Grandes Diretores: Jean Renoir

JEAN RENOIR, O GÊNIO BONACHÃO

Um mito do cinema, cineasta na mais exata concepção do termo e uma das personalidades mais fascinantes do século 20, Jean Renoir foi provavelmente o maior cineasta francês de todos os tempos. Foi o segundo filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir e de Aline Victorine Charigot. Criado entre as artes, Renoir cresceu envolvido pela sensibilidade artística em um apartamento cujas paredes eram abarrotadas de quadros do seu pai. Incompreendidos e subestimados no seu tempo, os seus filmes são hoje considerados entre as obra máximas da arte cinematográfica. Realizou nove filmes mudos e 27 falados. Suas maiores obras foram “A grande ilusão”, de 1937, um sensível relato sobre as condições de vida dos prisioneiros franceses e seus captores alemães durante a I Guerra Mundial, e “A regra do jogo”, de 1939.

Os filmes de Renoir, a maioria pertencente à escola do realismo poético francês, marcaram profundamente o cinema francês entre 1930 e 1950, tendo aberto a porta à nouvelle vague. O diretor François Truffaut é aquele que mais explicitamente reconhece a dívida para com Renoir. Em 1975, Jean Renoir recebeu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, um Oscar especial que lhe foi entregue em reconhecimento ao conjunto de sua obra. Em 1976 foi condecorado pelo Ministério da Cultura da França.

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Em mais de cinqüenta anos de trabalho, em que se revelou mestre tanto no cinema mudo quanto no sonoro, Renoir realizou uma obra generosa e de grande vitalidade.

jeanrenoir-2A família Renoir parece, desde Pierre Auguste, o célebre pintor impressionista e pai do cineasta, saber viver e fazer desse simples ato a sua principal arte. Sem solenidades, vaidades ou manifestações egocêntricas, a infância de Jean correu tranqüila, sem nenhum sobressalto. Aventuras, porém, não faltaram à vida do jovem Renoir.

Jean Renoir nasceu em Paris, em 15 de setembro de 1894. Seu pai, o célebre pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir, queria que o filho se tornasse ceramista, mas Jean se inclinava para a carreira militar. Durante a Primeira Guerra ele foi aviador, foi ferido e quase teve uma perna amputada, com suspeita de gangrena. Graças a uma mudança na direção do hospital em que estava internado, os médicos suspenderam a operação na última hora. Jean manteve suas pernas, mas uma ficou maior que a outra. A perna mais curta que o fazia mancar, serviu de desculpa para não ter que andar (ele detestava caminhadas) e para comer e engordar (coisa que ele adorava), e dizer que não fosse por isso seria um homem magro.

Pierre era um grande pintor, mas nunca deu muita importância a isso e sempre levou uma vida pacata com sua família e levar adiante sua teoria de que crianças não deveriam ser alfabetizadas antes dos dez anos. Não fosse o nascimento de um irmão mais novo e graças às crises de ciúmes por razão disso, Jean acabou sendo enviado para a escola apenas para não atormentar mais a tranqüilidade do lar. Apesar disso, ele amava o pai e durante toda a vida contava histórias sobre ele e os quadros que pintava. A arte do pai e a forma como ele retratou a mulher moderna através de seus quadros, mais tarde encontrou na musa do cinema francês Brigitte Bardot, o melhor resumo da mulher francesa em todos os tempos.

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Depois da Primeira Guerra Mundial, pretendeu cumprir o desejo paterno, mas no início da década de 1920 redescobriu a antiga paixão juvenil pelo cinema. O primeiro filme que realizou foi “La Fille de l’eau” (A filha da água, 1924), que mais tarde renegou como ingênuo e mal realizado. Fortemente influenciado, no início da carreira, por Erich von Stroheim, Renoir procurou encontrar, dentro do realismo poético, uma linguagem própria: de “Nana” (1926) a “Le Crime de monsieur Lange” (1935), passando por “La Petite Marchande d’allumettes” (A pequena vendedora de fósforos, 1928), “La Chienne” (A cadela, 1931) e “Toni” (1934), é o cineasta do cotidiano, eminente francês, que compreende e ama a gente simples.

La Grande Illusion

Entre 1935 e 1940 Renoir realizou algumas de suas obras-primas: “La Vie est à nous” (1936), “Le Bas-fond” (1936), o lírico e corajoso “La Grande Illusion” (A grande ilusão, 1937), sobre pioneiros da primeira guerra mundial, “La Bête humaine” (A besta humana, 1938) e sobretudo “La Règle du jeu” (A regra do jogo, 1939), obra de grande beleza, mas só conhecida em sua versão integral a partir de 1965. Depois seus filmes ganharam um tom dramático: os grandes temas são a denúncia da hipocrisia e das convenções, a sátira às classes dirigentes.

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Em 1940, com a invasão da França pelos alemães e depois que o êxito de seus filmes o havia elevado à condição de líder do cinema de seu país, transferiu-se para os Estados Unidos. Em Hollywood, fez “Swamp Water” (O segredo do pântano, 1941) e “The Southerner” (O sulista, 1946). Depois rodou na Índia “The River” (O rio, 1951), em torno da magia do Ganges, e, de volta à França, dirigiu “Le Carrosse d’or” (O coche de ouro, 1952), apoteose de cor e ritmo rodada na Itália, e “Eléna et les hommes” (As estranhas coisas de Paris, 1956), um dos poucos filmes do cineasta lançado no Brasil.

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Jean Renoir não quis ficar à sombra da genialidade do pai, e quando decidiu também ser artista, acreditou que em vez de pintar quadros, talvez tivesse mais sucesso em capturar imagens e colocá-las em movimento. De “Nana”, filme mudo, até “A Besta Humana”, ambos baseados em obras de Émile Zola, ou “A Cadela”, Renoir também sabia tocar o trágico da existência humana. Em “Toni”, foi ao campo conhecer a vida de pessoas simples e voltou com o filme que é considerado o pioneiro do neo-realismo: os interiores e exteriores eram reais e a maioria do elenco era composta de atores amadores do local. Na época do Front Populaire, união da esquerda francesa nos anos 30, não teve vergonha de fazer cinema engajado, com “A Marselhesa”, mas também não esqueceu a arte do pai de contemplar a natureza e transformá-la em filme, como em “Une Partie de Campagne”. Da análise e crítica social de “A Regra do Jogo” até a constatação de um mundo cavalheiresco que chegava ao fim, representado pela Europa da Primeira Guerra em “A Grande Ilusão”, é difícil encontrar um gênero como que Renoir não soubesse lidar.

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Seus filmes raramente foram sucessos de público e freqüentemente eram massacrados pela crítica. Nem por isso Jean se abalava. Sua incapacidade de compor vilões odiosos, estava refletida na forma como retratava seus personagens, principalmente suas femme fatales, como Séverine de “A Besta Humana” ou Lulu de “A Cadela”: Renoir parece sempre querer justificar suas atitudes e tornar compreensível um comportamento a princípio inaceitável. Em “Boudu Salvo das Águas”, Michel Simon faz o simpático personagem, mendigo e anarquista que após uma tentativa fracassada de afogar-se no Rio Sena, acaba envolvido na alta sociedade francesa, mas é incapaz de dobrar-se às suas rígidas etiquetas e convenções, por um direito que acredita ser seu de levar a própria liberdade às últimas conseqüências.

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Renoir foi um Republicano radical, para o qual Felicidade deveria ser adicionada ao lema da Revolução Francesa. Liberdade para viver, para ver o mundo, para fazer o que se gosta, para filmar. Idéias que ele trouxe de casa e que o fizeram o mais francês dos cineastas, um pintor do movimento, que adequou a arte paterna em uma maneira muito pessoal de ver o mundo, a natureza e as pessoas. Talvez por isso, o conjunto de seus filmes ficam na lembrança como o mais bem acabado retrato da França até 1960.

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Jean Renoir foi um mito ao contrário, ou seja, um antimito. Bonachão e genial, soube mostrar uma França onde se vive alegremente, e felicidade e beleza podem ser encontradas em cada esquina, onde todos pensam, falam e fazem o que querem. Uma França igualmente mítica, com a qual o cineasta se confunde. Renoir morreu em Los Angeles, Estados Unidos, em 12 de fevereiro de 1979.

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Filmografia:

1924: Une vie sans joie (também ator)
1925: La fille de l’eau
1926: Nana
1927: Sur un air de charleston
1927: Marquitta
1928: Tire-au-flanc
1928: Le tournoi dans la cité
1928: La petite marchande d’allumettes
1929: Le bled
1931: On purge bébé
1931: La chienne
1932: La nuit du carrefour
1932: Boudu sauvé des eaux (Boudu Salvo das Águas)
1932: Chotard et Cie
1933: Madame Bovary
1935: Toni
1936: Le crime de M. Lange
1936: Une partie de campagne (Passeio ao Campo) (também ator)
1936: La vie est à nous (ator)
1936: Les bas-fonds
1937: La grande illusion (A Grande Ilusão)
1938: La marseillaise
1938: La bête humaine (A Besta Humana) (também ator)
1939: La règle du jeu (A Regra do Jogo) (também ator)
1941: L’étang tragique (Swamp Water)
1943: Vivre libre (This Land Is Mine) (Esta Terra É Minha)
1945: L’homme du sud (The Southerner) (Semente do Ódio)
1946: Le journal d’une femme de chambre (The Diary of a Chambermaid)
1946: Salut à la France (Salute to France)
1947: La femme sur la plage (The Woman on the Beach)
1951: Le fleuve (The River) (O Rio Sagrado)
1953: Le carrosse d’or (A Comédia e a Vida)
1954: French Cancan
1956: Elena et les hommes
1959: Le testament du docteur Cordelier
1959: Le déjeuner sur l’herbe
1962: Le caporal épinglé
1970: Le petit théâtre de Jean Renoir, telefilme em quatro episódios

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