Filmes: Johnny Guitar (1954)

johnnyguitar_2JOHNNY GUITAR
Título Original: Johnny Guitar
País: Estados Unidos
Ano: 1954
Duração: 110 min.
Direção: Nicholas Ray
Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ernest Borgnine, Ward Bond, John Carradine, Ben Cooper, Royal Dano, Frank Ferguson.
Sinopse:
Dona de saloon é pressionada a abandonar pequena cidade e tem a ajuda de um antigo amor, um ex-pistoleiro e músico, para enfrentar o xerife do lugar e uma fazendeira que lhe dedica ódio mortal.

Faroeste psicológico, com surpreendente espaço para as reivindicações e sentimentos femininos. Momentos comoventes e ótimas interpretações de Joan Crawford e Mercedes McCambridge. Peggy Lee interpreta a canção-título, escrita por ela e Victor Young, um dos grandes sucessos da época.

O western sob o olhar crítico de um mestre da narrativa cinematográfica

É raro nos dias hoje acompanhar a estréia de algum western nos cinemas. O western, outrora um gênero consagrado e amplamente estudado, hoje sobrevive à custa de poucos entusiastas. O western já foi considerado o gênero cinematográfico por excelência e o primeiro modelo da mitologia sobre a qual a sociedade norte-americana se ergueu e que remete diretamente à História dos Estados Unidos, sobre a violenta formação de uma nação. Existe, tanto nos westerns clássicos de John Ford, quanto em “Johnny Guitar”, filme de Nicholas Ray – diretor mais famoso por “Juventude Transviada”, estrelado por James Dean -, uma estranheza e uma peculiaridade que os tornam mais do que dignos de uma revisão.

De qualquer maneira, as convenções deste gênero ainda são reconhecidas à milhas de distância, basta bater o olho e constatar que se está diante de um western, pois se este gênero se tornou popular pelo mundo inteiro, isso depende menos do interesse dos outros povos por essa História particular e mais dos mitos que o gênero gerou: o maniqueísmo entre o bandido e o mocinho, evidenciado pelas cores das roupas; as tramas de vingança, de restauração de honra; a mulher pura que precisa ser conquistada e a perversa que precisa se redimir; os duelos ritualísticos e as mortes necessárias para que a ordem se mantenha.

É a partir disso que Nicholas Ray desenvolve o seu “Johnny Guitar”. O personagem que dá título ao filme é um pistoleiro que renuncia às armas em nome da mulher que ama, Vienna. Ela adquiriu terras e construiu um bar em um lugar isolado, onde soube que a estrada de ferro iria passar, valorizando a região. Mas as pessoas de uma cidade próxima, liderados por Emma, uma latifundiária ambiciosa, querem a todo custo expulsá-la. O grande conflito do filme é entre essas duas mulheres, Vienna e Emma, potencializado por um terceiro fator: Kid Dançarino, um pistoleiro canastrão, lider de um bando e que flerta com ambas. Emma irá promover uma verdadeira caça às bruxas contra Vienna e o bando de Kid, sob a vaga suspeita de que eles assaltaram uma diligência. As acusações falsas e a massa pronta para linchamento em nome de um “bem maior” numa alegoria ao Mccarthismo do início da década de 50. A relação é evidente, e a coragem de Ray de tratar o assunto, mesmo que de maneira disfarçada, é louvável.

Sabemos que há uma história pregressa entre Vienna e Johnny, o filme começa já no meio do caminho, revelando os dilemas desses personagens maduros, já escolados no gênero que estão inseridos, arquétipos da tradição do western. O que Nicholas Ray nos dá desse passado é apenas o suficiente para desenvolver os conflitos atuais, não sabemos exatamente o que aconteceu entre Vienna e Johnny, nem pelo que ela teve que passar durante os 5 anos que os dois ficaram separados. Seja qual tenha sido seu passado, o importante é que a partir dele Vienna tornou-se essa mulher forte, que procura domar o seu próprio destino.

Estamos tratando de um filme consciente da existência de um passado, tanto dentro quanto fora do roteiro. Todo o estabelecimento de um poder patriarcal comum nos filmes do gênero parece abalado, uma vez que são Vienna e Emma que fazem a ação transcorrer. Todos os homens parecem depender da posição dessas duas mulheres para então fazer o seu movimento. A inversão do que se espera dos personagens masculinos e femininos é notável, principalmente porque a mise-en-scène trabalha para ressaltar o fato, através principalmente de um figurino de cores marcadas, revelador das relações primordiais da trama. Quando Nicholas Ray realizou “Johnny Guitar”, o western já atingira o seu ápice, já fora exaustivamente explorado por Hollywood. Compreende-se então que ele se sinta tão à vontade para retrabalhar as convenções do gênero, usar o mito para falar do mundo em sua época.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0047136/

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