Filmes: A Regra do Jogo (1939)

regledujeu_1A REGRA DO JOGO
Título Original: La Regle du Jeu
País: França
Ano: 1939
Duração: 110 min.
Direção: Jean Renoir
Elenco: Marcel Dalio, Nora Gregor, Roland Toutain, Jean Renoir, Mila Parely, Paulette Dubost, Odette Talazac, Claire Gérard, Anne Mayen.
Sinopse:
O conde de la Cheyniest organiza uma festa durante um fim-de-semana em que recebe um grupo de amigos em sua casa de campo, entre eles, um galante aviador que acaba de cruzar o Atlântico. O resultado é uma teia de intrigas amorosas e sociais em que a esposa finalmente descobre a infidelidade do marido.

O consagrado cineasta francês, filho do pintor impressionista Auguste Renoir, realizou no auge da carreira um de seus grandes filmes. Com cinismo e poesia, retrata a infidelidade com elegância e impecável composição visual: fotografia primorosa, figurinos deslumbrantes de Coco Chanell e atuações inspiradas, entre elas, a do próprio cineasta, no papel de Octave. Tido hoje como a obra-prima do realizador, o filme foi incompreendido em sua época.

Uma obra-prima que o tempo se encarregou de valorizar

O filme é notório por realizar uma ácida, porém irreverente, crítica à disposição da hierarquia social e, principalmente, à alta burguesia francesa da época. A trama gira em torno de vários representantes da classe mencionada, às voltas com, dentre outras coisas, suas relações amorosas (tanto intra, quanto extra conjugais), os códigos morais e sociais que deveriam seguir, a relação com seus empregados e a presença da morte. A primeira exibição em Paris faz parte de uma das lendas que circundam a obra. Mal recebido por tanto espectadores e críticos, motivou uma calorosa reação negativa e se tornou alvo de modificações – parte da lenda diz que houve desde tentativas de atirar cadeiras à tela, até colocar fogo na sala de cinema. O filme foi montado e remontado pelo próprio Renoir, que cortou diversas cenas, principalmente as suas próprias, mas o Governo francês baniu o filme por considerá-lo imoral e este quase foi destruído quando esteve nas mãos dos nazistas e se julgava perdido para sempre por ocasião dos bombardeios de 1942. Só no final da década de 50 é que o filme ganharia uma reconstrução, sob a supervisão de Jean Gaborit e Jacques Durand, em uma versão de incríveis 106 minutos. Exibido no Festival de Cinema de Cannes de 1959, foi saudado entusiasticamente e reconhecido como um dos expoentes máximos da sétima arte.

“A Regra do Jogo” é considerado por muitos um filme magistral, em parte por ter incorporado uma série de recursos inovadores na maneira de desenvolver sua narrativa. É possível detectar o uso consciente da profundidade de campo, de planos-seqüência relativamente longos, e constantes movimentos de câmera – todos mais evidentes no terço final do filme. Esses elementos imprimem à obra uma agilidade e um dinamismo impressionante, contribuindo para o lirismo de sua atmosfera e para uma maior efetividade da mensagem que pretende transmitir. A sagacidade de seus diálogos e o acelerado senso de ritmo o diferencia das outras produções da mesma época, transformando-o em uma obra importante e altamente influenciadora na História do Cinema.

Jean Renoir foi um grande diretor francês que tratava, através de seus filmes, temas estritamente humanos, analisando o comportamento dessa espécie que você tão bem conhece (ou talvez não) em histórias que prezavam sobretudo a qualidade dos diálogos. “A Grande Ilusão”, de 1937, foi assim. “A Regra do Jogo”, de 1939, funciona da mesma forma. Esses dois filmes são franceses, mas seus temas e a análise que eles fazem da sociedade vale muito bem para qualquer sociedade que vive sob regras semelhantes às nossas, dos Ocidentais. E eles vão mais além: são filmes atemporais. Por isso, hoje, aproximadamente 70 anos depois, são lembrados facilmente como filmes ainda relevantes à cinematografia mundial.

Durante a ocupação da França na Segunda Guerra, Jean Renoir buscou exílio nos Estados Unidos, mas dificilmente conseguiu propostas de filmes que realmente o agradassem. Ao longo de sua carreira enfrentou certo grau de dificuldade para obter financiamento, sendo obrigado a vender quadros de seu pai para realizar algumas de suas obras. À medida que foi envelhecendo, seus filmes foram adquirindo um caráter mais pessoal. Além de desenvolver um estilo mais “autoral”, é também notável um desvio dos temas mais engajados, e até “esquerdistas”, do início de sua filmografia. Ele realizaria um total de  41 filmes.

Apesar de atualmente ser endeusado por muitos críticos, e como é comum a inúmeros clássicos, “A Regra do Jogo” teve uma recepção muito ruim à época de seu lançamento. Apesar de ser basicamente uma comédia sobre o comportamento da classe alta na época que antecedera a Segunda Guerra Mundial, seus conflitos amorosos, com excesso de libertinagem sexual, e algumas das questões morais apresentadas pelo roteiro (que foi escrito, em parte, pelo próprio Renoir) talvez estivessem à frente de seu tempo. Ou algumas pessoas não gostaram de se verem satirizadas e sentiram-se ofendidas. Foi depois da guerra ter terminado que os críticos começaram a ver o filme de Renoir com olhos agradecidos, considerando-o uma grande obra – e assim ele é visto até hoje.

Um grande ponto a favor de “A Regra do Jogo” é o fato de que ele demonstra como a futilidade e alguns problemas humanos não são específicos de uma classe social apenas. O roteiro é feliz ao retratar algumas situações e decisões errôneas entre os ricos e os pobres da mesma forma, mas não deixa de ser perspicaz ao mostrar que a maior das diferenças é que os ricos sofrem e erram com classe e elegância (vide a ótima cena final) – o que não deixa de ser uma síntese da sátira presente em todo o filme. A cena da caça, que ocupa um grande tempo de celulose, é uma demonstração perfeita da ignorância criticada acidamente por Renoir, ao mostrar seus personagens matarem cruelmente um bando de animais por simples entretenimento. Apesar de filmada de forma simples, é uma cena mais forte do que muitas que o cinema atual consegue nos mostrar.

Como obra cinematográfica (independente de críticas sociais), o grande destaque de “A Regra do Jogo” é sem dúvida seus ótimos diálogos (geralmente relevantes e inspirados) e também algumas ótimas cenas, como o show teatral na casa de campo – onde comportamentos ridículos de vários personagens são expostos sem hesitação. Outras vezes, porém, somos apresentados a cenas quase tolas, inocentes, ou mesmo exageradamente paródicas – uma balbúrdia ocorrendo em tela que transforma o tom do filme em pura comédia, e a sátira perde um pouco o seu controle. Ainda assim, quando há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, Renoir se vira muito bem ao mostrá-las com energia e planos bem elaborados.

Falando nisso, “A Regra do Jogo” possui muitos personagens, o que origina um grande número de situações diversas e, consequentemente, recortadas, picotadas em partes, às vezes ficando incompletas. O excesso dessas situações e de outras intrigas, porém, não atrapalha o desenvolvimento dos personagens, pelo menos dos principais, mas há aqueles que nos são apresentados e são simplesmente esquecidos logo em seguida (por isso a palavra “incompletas” foi utilizada acima). Infelizmente, o filme não escapa de um ritmo lento (o que é um pouco da característica do cinema do diretor), porque insiste em uma grande quantidade de diálogos. Afinal, em meio a tantos textos inspirados, sempre há espaço para alguns desnecessários ou excessivamente longos.

Apesar do que foi falado em relação a alguns diálogos, o principal ponto negativo do filme pode ser o fato de as mulheres serem endeusadas e protegidas ao extremo. Pois enquanto os problemas dos personagens advêm principalmente da falta de decisão delas (que têm total incapacidade de saber realmente o que querem de suas vidas) e da infidelidade originada por elas, são os homens quem sempre pagam por isso, muitas vezes com suas vidas ou, no mínimo, com sua infelicidade. Não acredito que tenha ocorrido um desenvolvimento proposital desse tipo de situação por parte do roteiro, mas é o que acaba acontecendo.

Uma rápida curiosidade: a cena de caça de “Assassinato em Gosford Park”, de Robert Altman, é uma homenagem direta à toda a sequência de caça de “A Regra do Jogo”. Altman foi fortemente influenciado pelo filme de Renoir, principalmente pelo seu tom satírico, demonstrando um pouco da importância do filme para o cinema. “A Regra do Jogo” exige apenas um pouco de paciência de seu público com relação ao ritmo cadenciado. Passada essa intempérie, resta o prazer de assistirmos a um filme rico em diálogos e com alguns personagens muito bons, frutos de um roteiro excepcional. Um ótimo filme, não somente da cinematografia francesa, mas do cinema mundial.

IMDb:http://www.imdb.com/title/tt0031885/

Filme Completo (Legendas em Inglês):

Galeria de Imagens:

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