Grandes Diretores: Akira Kurosawa

AKIRA KUROSAWA: O MAIS OCIDENTAL DOS CINEASTAS JAPONESES

Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu 30 filmes. É amplamente considerado como um dos cineastas mais importantes e influentes da história do cinema. Em 1989, foi premiado com o Oscar pelo conjunto de sua obra e pelas realizações cinematográficas que inspiraram, encantaram, enriqueceram e entreteram o o público e influenciaram cineastas de todo o mundo.

kurosawa3
“Não há nada que diga mais a respeito de um criador do que sua própria obra”.
Akira Kurosawa

Graças à combinação de técnicas narrativas ocidentais e de elementos espirituais da tradição nipônica, Kurosawa foi o primeiro cineasta do Japão a ganhar fama internacional e a consagrar-se como mestre do cinema mundial

Akira Kurosawa continua sendo a maior referência do cinema de seu país. Ele consagrou-se internacionalmente a partir de 1951, quando a indústria cinematográfica do Japão – já tendo superado as dificuldades criadas pela Segunda Guerra – estava no auge, mas sem entrar nos mercados internacionais. Apenas para algumas cidades como São Paulo, que possuía salas exibidoras exclusivas para o público da colônia. Naquele ano, no Festival de Veneza, Kurosawa ganhou o Leão de Ouro com o seu “Rashomon”. Daí em diante, qualquer filme com a sua assinatura era motivo para láureas e fartos elogios da crítica especializada. Em 1980, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, por “Kagemusha, a Sombra do Samurai”.

setesamurais
Na sua pátria, porém, ele não tinha a mesma reverência. Até a Academia de Cinema do Japão só o premiou em 1999 e 2000, após a sua morte em 6 de setembro de 1998, em Tóquio, onde nasceu em 23 de março de 1910. “Rashomon” foi o 12º longa dos cerca de trinta que fez a partir de 1943 até 1993, quando concluiu o belo e melancólico “Madadayo”. Antes da estréia na direção, esse filho de um oficial militar trabalhou como assistente de direção na Toho. Posteriormente, mesmo enfrentando as pressões comerciais daquela e de outras produtoras, dirigiu filmes que se faziam notar não só pela estética rigorosa, especialmente em cenas épicas, mas pela ternura com que tratava os sofrimentos de seus personagens. Caso, por exemplo, do amargo “Viver”. Sem deixar de apresentar características típicas de seu país, Kurosawa mostrava-se extramente ocidental nas narrativas e até na escolha dos roteiros. Alguns foram adaptados da literatura de Shakespeare (“Trono Machado de Sangue” e “Ran” que aproveitam “Macbeth” e “O Rei Lear”), Gorki (“Ralé”) e Dostoievski (“O Idiota”). Um cineasta grandioso, comunicativo e, acima de tudo, preocupado com o ser humano em meio às injustiças que sofre por ações coletivas ou individuais.

kurosawa9Um imperador reverenciado no planeta inteiro e desprezado por seu próprio povo. Um samurai que expressava tal fragilidade a ponto de, na infância, chegar a ser chamado pelo humilhante apelido de “Kompeito-san”, uma alusão aos confeitos que se derretiam tal como o menino que se desmanchava em lágrimas diante da rigidez do sistema educacional japonês. Contradições de um espírito com inequívoca vocação para o conflito. Um cineasta com fama de rígido, mas de cujas mãos surgiram peças delicadas, como “Sonhos” e “Madadayo”. Um diretor de cenas complexas, mas incapaz de dirigir um automóvel.

Akira – “O Luminoso”, em japonês – sempre buscou a diferença. Nascido no ano 13 da era Meiji (23 de março de 1910, em Tóquio), descendente de uma família de samurais, passou a vida confeccionando sonhos em celulóide. Akira era o mais novo de oito filhos de Shima e Isamu Kurosawa, nasceu num subúrbio de Tóquio quando  Shima Kurosawa tinha 40 anos de idade e seu pai, Isamu, tinha 45. Ele cresceu numa família com três irmãos mais velhos e quatro irmãs mais velhas. De seus três irmãos mais velhos, um morreu antes de Akira nascer e um já estava crescido e fora do lar. Uma das suas quatro irmãs mais velhas também havia deixado a casa para formar a sua própria família antes de Kurosawa nascer. A irmã que nascera logo antes de Kurosawa, a quem ele chamava de “Pequena Grande Irmã”, também morreu repentinamente após uma curta doença quando ele tinha 10 anos de idade.

O pai de Kurosawa trabalhava como diretor de uma escola secundária dirigida pelos militares japoneses e os Kurosawas descendiam de uma linhagem de antigos samurais. Financeiramente, a família estava acima da média. Isamu Kurosawa gostava da cultura ocidental, dirigindo programas atléticos e levando a família para ver filmes ocidentais, que estavam naquela época apenas começando a aparecer nos cinemas japoneses. Mais tarde, quando a cultura japonesa se afastou dos filmes ocidentais, Isamu Kurosawa continuou a acreditar que os filmes foram uma experiência positiva de ensino.

Tentou a carreira de artista plástico, mas foi reprovado na Escola de Belas-Artes. Mais tarde, depois do que classificou como sua “fase rebelde”, integrou os estúdios cinematográficos Toho, em 1936. O início foi como roteirista e logo passou a assistente de direção de Kajirô Yamamoto – que ele carinhosamente chamava de Yama-san. Seu primeiro filme foi Sugata Sanshiro (“A Lenda do Judô”), de 1943, que contava a história de um genial judoca que vivia de forma desordeira. Kurosawa teve uma intuição instantânea ao saber sobre o livro de Tsuneo Tomita que deu origem ao filme. Sem nem mesmo o haver lido, solicitou aos estúdios Toho que comprassem os direitos do livro. Sucesso.

kurosawa2
O filme seguinte foi “Ichiban Utsukushiku” (“A Mais Bela”, 1944), em que deixa florescer sua face esquerdista e feminista – isso em um país que não possui em seu vocabulário a palavra “querida”. Casou-se com a protagonista do filme, Yaguchi Yoko, com quem teve dois filhos. Em seguida, vieram “Nenhum Pesar por Nossa Juventude” e “Um Domingo Maravilhoso”, retratos do Japão pós-guerra e que evocam o neo-realismo italiano. Quando o Japão se rendeu aos americanos, Kurosawa dirigiu “Os homens que pisaram na cauda do tigre” (1945), paródia de um drama do teatro kabuki. Como as forças de ocupação haviam proibido filmes sobre o passado feudal do Japão, a comédia só foi exibida em 1952. A fama veio com “O anjo embriagado” (1948), drama policial que junta violência, lirismo e crítica social, e também “O cão danado” (1949). O primeiro lançou um novo ator, Mifune Toshiro, que passou a estrelar a maioria dos filmes de Kurosawa.

Cidadão do mundo, Kurosawa bebeu na arte e na cultura ocidentais, sem maiores temores. “Não importa para onde eu vá, e embora não fale outra língua, nenhum lugar é estranho o suficiente para mim. Sinto que a Terra é meu lar”, disse em seu “Relato Autobiográfico” (publicado no Brasil pela editora estação Liberdade). Suas incursões foram além da música de Beethoven, Haydn e Schubert, que usou em trilhas sonoras de seus filmes. Apaixonado por Shakespeare, filmou “Ran” e “Trono Machado de Sangue”, respectivamente adaptações de “Rei Lear” e “Macbeth”; além de “O Idiota”, inspirado da obra de Dostoiévsky, e “Ralé”, adaptado na obra de Gorki. Transcendeu a gêneros, períodos e nacionalidades, sem jamais relegar a segundo plano a sua própria cultura, aquele peculiar jeito nipônico, manifestado na movimentação dos atores, nas caracterizações de personagens de teatro Nô, em sua obsessão por cenários e roupas absolutamente autênticos e nas adaptações que fez de peças do teatro Kabuki, das quais o mais belo exemplo é “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”.

kurosawa-fellini

Mas nada se compara a seu amor pela personalidade controversa e pela obra genial de Vincent Van Gogh. O episódio “Os Corvos”, do filme “Sonhos”, é uma amostra de um desejo manifesto que Kurosawa deixou irrealizado: filmar a biografia do pintor holandês. Em “Sonhos”, fez o que todo amante da obra do mestre holandês adoraria fazer: caminhar entre os dourados campos de trigo sob a sombra dos negros corvos pintados por Van Gogh.

O tempo traria refinamento e desejo de romper mais barreiras. “Rashomon” (1950) apresentou inovações que marcaram a história do cinema. Eram os primeiros vôos de grande alcance de um cineasta que jamais se conformou com o senso comum. Em “Rashomon”  – Grande Prêmio do Festival de Veneza de 1951 –  pela primeira vez uma câmera (a do magnífico Kazuo Miyagawa) filmou o sol. O grande feito de “Rashomon” foi atrair pela primeira vez na história do cinema o olhar ocidental para um filme japonês.

kurosawa6

Quatro anos mais tarde, Hollywood enfim rendeu-se ao seu talento com o antológico “Os Sete Samurais”, cuja seqüência da batalha final, filmada sob chuva torrencial e de uma impressionante variedade de ângulos, tornou-se mais um marco cinematográfico. O filme se inspira na admiração de Kurosawa pelos filmes de faroeste americanos, embora possua estilo marcadamente japonês. Foi um grande sucesso comercial e abriu caminho para as adaptações de obras literárias, como “O idiota” (1951), “Trono manchado de sangue” (1957) e “Ralé” (1957), respectivamente de Dostoievski, Shakespeare e Gorki. O americano John Sturges transformou a saga japonesa “Os Sete Samurais” no western “Sete Homens e um Destino”, mas nem mesmo a presença do eterno cowboy John Wayne foi capaz de fazer frente ao original de Kurosawa.

img0000363A
Junho de 1946 havia lhe trazido aquele que viria ser o mais espetacular ator de todo o cinema japonês. Foi durante os testes para  “O Anjo Embriagado” que Kurosawa conheceu Toshiro Mifune. A ele Kurosawa dedicou os mais esfuziantes elogios em sua autobiografia. Nada havia preparado o imperador para a explosão cênica chamada Mifune. O impacto de sua presença impressionou Kurosawa desde o primeiro momento, como conta o diretor:

“Abri a porta e fiquei paralisado de deslumbramento. Um jovem estava girando pela sala em violento frenesi. Era tão assustador quanto observar um animal selvagem ferido ou preso em uma armadilha, tentando libertar-se. Fiquei petrificado. Mifune tinha uma espécie de talento que nunca antes encontrei no mundo cinematográfico japonês”.

kurosawa-richardgere-rhapsody

A partir do primeiro filme, sempre estiveram juntos. Na semana do lançamento de seu último filme, “Madadayo”, questionado porque não havia usado Mifune em seus dois últimos filmes, Kurosawa reagiu, afirmando que o ator era um de seus mais queridos amigos e que pretendia usá-lo em outras produções. A última aparição pública de Akira Kurosawa ocorreu justamente no sepultamento de Mifune, em dezembro de 1997.

rashomonO ocidente já o reconhecia como mestre e mago. Era o imperador do cinema japonês, mas o Japão insistia em não compreendê-lo. Acirravam-se as acusações de ser ocidental demais – anglo-americano particularmente – e os financiamentos para novos filmes tonavam-se cada vez mais difíceis. Após uma crise econômica na década de 1960, Kurosawa fundou um estúdio e voltou a realizar grandes filmes, entre eles “Dodeskaden” (1970). “Havia sempre um anjo em minha vida”, costumava dizer, referindo-se à sorte que dizia acompanhá-lo. Mas em 22 de dezembro de 1971, ano 46 da era Showa, o anjo que o protegia perdeu espaço para o desespero e Kurosawa tentou o suicídio, deprimido com a incompreensão de seu próprio povo e as críticas que recebia. No ano seguinte, morre Yama-san. O socorro veio do exterior, mais precisamente da ex-União Soviética, e filmou na Sibéria em 1974 o aplaudido “Dersu Uzala”, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sobre essa experiência, disse Kurosawa: “Um desses salmões, não vendo outro caminho, empreendeu uma longa jornada para subir um rio soviético e dar à luz algum caviar. Assim surgiu meu filme “Dersu Uzala” em 1975. Nem eu penso que seja essa uma coisa ruim. Mas o mais natural, para um salmão japonês, é pôr seus ovos em um rio japonês”. Referia-se ao fato de que sempre se considerou um “salmão, que jamais esquece o lugar que nasce”, e sobre a opção da indústria cinematográfica em fazer filmes mais próximos do modelo indicado para a televisão.

kurosawa4
No ano 51 da era Showa, finalmente o governo japonês reconheceu sua contribuição à cultura. “Kagemusha, a Sombra do Samurai” levou o grande prêmio do Festival de Cannes em 1980. E em 1990, ano 2 da era Heisei, recebeu o Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Sua vida pontuou seus filmes. Foi autobiográfico sempre. Em muitos momentos, a personalidade do diretor mergulhou no mundo de celulóide, renascendo nas almas dos personagens. Assim foi na radiografia da sensibilidade oculta de um burocrata e seus pares em “Viver”. Sua reverência ao professor da escola primária pôde ser (re)vista em celulóide em “Madadayo”, na história do mestre universitário Hyakken Ushida e sua relação com os ex-alunos. No último episódio de “Sonhos” revive sua passagem pela aldeia Tokoyawa, cinqüenta anos antes.

kurosawa5
O mais tocante e belo em toda a obra de Kurosawa está justamente na grandeza de sentimentos. Seus últimos filmes “Sonhos”, “Rapsódia em Agosto” e “Madadayo” são pinceladas intimistas sobre a velhice, a morte, o tempo. Perguntado sobre o que faria se tivesse o poder de influenciar a sociedade e mudá-la”, ele disse simplesmente: “Daria o melhor de mim para aproveitar minhas habilidades como artista. Eu sou feliz porque tenho a chance de me expressar. Eu me sinto responsável, verdadeiro e honesto para com minha profissão e estou consciente disso. Eu estou primeiro lidando com a sociedade japonesa e tentando ser cândido ao lidar com nossos problemas. Eu espero que você entenda isso sobre mim quando vir o filme. Como um contador de histórias, não tenho segredos”.

Filmes:
1993 – Madadayo
1991 – Rapsódia em agosto
1990 – Sonhos (Yume)
1985 – Ran (Ran)
1980 – Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kagemusha)
1974 – Dersu uzala
1970 – Dodesukaden
1965 – O barba ruiva
1963 – Céu e inferno
1962 – Sanjuro
1961 – costas
1960 – Homem mau dorme bem
1958 – A fortaleza escondida
1957 – Ralé
1957 – Trono manchado de sangue
1955 – Anatomia do medo
1954 – Os Sete Samurais (Shicinin No Samurai)
1952 – Viver
1951 – Hakuchi, o idiota
1950 – Rashomon (Rashômon)
1950 – O escândalo
1949 – Cão danado
1949 – Duelo silencioso
1948 – O anjo embriagado
1947 – Subarashiki nichiyobi
1946 – Waga seishun ni kuinashi
1946 – Asu o tsukuru hitobito
1945 – Os homens que pisaram na cauda do tigre
1945 – Zoku Sugata Sanshiro
1944 – Ichiban utusukushiku
1943 – Sugata Sanshiro
1941 – Uma

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: