Arquivos Mensais: dezembro \28\UTC 2012

Filmes: A Turba (1928)

A TURBA

crowd_1Título Original: The Crowd
País: Estados Unidos
Ano: 1928
Duração: 98 min.
Direção: King Vidor
Elenco: Eleanor Boardman, James Murray, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel G. Tomlinson, Dell Henerson, Lucy Beaumont, Freddie Burke Frederick, Alice Mildred Puter.
Sinopse:
Nascido no quatro de julho americano, o futuro parecia ser promissor para John “Johnny” Simms, mas anos mais tarde, trabalhando em um escritório em Nova York ele é apenas mais um rosto na multidão. Ainda assim, ele é feliz e conhece a jovem Mary, com quem acaba se casando, mas quando John decide se separar, descobre que a esposa está grávida. Após cinco anos, já com um casal de filhos e a vida estagnada no que para ele parece um beco sem saída, uma tragédia faz com que John reflita se deve se resignar ou perder o pouco que tem.

Famoso melodrama em produção esmerada de Irving Thalberg para a Metro-Glowyn-Mayer, com direção de arte de Cedric Gibbons e Arnold Gillespie na decoração dos cenários, obrigou o diretor King Vidor a filmar nove finais diferentes para a história porque o estúdio se recusou a lançar o filme sem um final feliz. O diretor filmou diversas cenas nas ruas de Nova York, usando personagens reais. Tido como a obra-prima de King Vidor, a trama simples, porém de forte impacto emocional permanece ainda hoje como um dos marcos do cinema mudo, graças ao realismo e à sensibilidade com que o diretor aborda o drama do casal vivido por Murray (um ator então desconhecido, que acabou cometendo suicídio anos mais tarde) e Boardman, atriz de notável beleza e talento (casada com o diretor Vidor). Com a ajuda do fotógrafo Henry Sharp, que captura a beleza de cenas de tirar o fôlego, como as luzes de Coney Island à noite, a grandeza das cataratas de Niagara e a gigantesca Nova York, que surge muitas vezes em tom amedrontador, além de provar o talento de Vidor para o melodrama, “A Turba” é a prova da qualidade dos filmes da MGM no período em que Thalberg era o chefe de produção do estúdio.

Uma obra-prima do diretor King Vidor

Com a obra-prima “A Turba”, o diretor King Vidor resolveu exibir o lado mais duro e cruel da vida. Primeiro assunto exposto: a enorme competição no mercado de trabalho. Em seguida, o matrimônio e suas implicações. Tudo isso sem nenhum pingo do ingênuo romantismo que tanto exalavam os filmes mudos americanos da década de 20. Visto hoje, quase oito décadas após ter sido realizado, o filme ainda conserva muita força e emoção, e há dois grandes motivos para isso: o elenco impecável e o roteiro bem-construído.

Chegado em Nova York, John Sims é apenas mais uma dentre milhões e milhões de pessoas em busca de um sonho, de um “futuro brilhante”. Encantado, ele observa os prédios que parecem não ter fim. É de um desses edifícios que sai uma garota chamada Mary, com quem John se casa algum tempo depois. O rapaz trabalha em um escritório de contabilidade, não ganha muito, mas garante à companheira que o “amanhã” será bem mais promissor. Os anos se passam, e a oportunidade da qual ele fala incessantemente jamais lhe dá as caras. O que consegue é um aumento de 8 dólares e duas bocas a mais para alimentar… A vaidade e a confiança inicial de John Sims faz dele um sujeito pretensioso e janota. Ele ri de um homem que trabalha na rua segurando anúncios vestido de palhaço, sem imaginar que um dia ele seria obrigado a fazer o mesmo para sobreviver. O orgulho também o faz recusar uma oferta de trabalho proposta pelos cunhados, embora John estivesse numa das fases mais problemáticas de sua vida (o casamento, por um fio; a situação financeira, constrangedora). Até mesmo quando, por sorte, ele consegue vencer um concurso de “slogans” e recebe um bom prêmio em dinheiro, algo terrível lhe acontece. Foram necessários alguns anos de sofrimento e desilusões para que John finalmente se rendesse e deixasse de lado a vaidade ridícula que o acompanhava desde a infância.

O final feliz e redentor da trama, no entanto, foi imposto pelos estúdios MGM, uma vez que a audiência reprovara o desfecho original em exibições-teste, antes do lançamento. Convém destacar o fascinante modo como King Vidor dispõe as imagens em seu filme. As janelas dos arranha-céus transformam-se em múltiplas fileiras de mesas, revelando o simétrico e frio interior daqueles prédios. O close dos protagonistas em um passeio de bonde contrasta com os milhares de pedestres sem rosto que lotam as ruas da cidade. O néon de um parque de diversões emoldura os personagens em uma das raras cenas felizes da obra. A imagem de um cemitério, com as lápides distribuídas igual a um jogo de dominó, antecede uma seqüência com homens formando filas de desempregados. E tem ainda o plano final, quando a câmera passeia por cima de uma infinita platéia que assiste a um espetáculo circense. Grande trabalho do diretor de fotografia Henry Sharp, que trabalharia nos anos seguintes em produções como “Diabo a Quatro” e “Negócios da China”.

Para viver Mary, Vidor escolheu sua esposa, a estreante Eleanor Boardman. Mas a maior curiosidade é que, na vida real, o ator James Murray também teve uma biografia repleta de tragédias e sofrimento, tal qual a de John Sims, seu personagem em “A Turba”. Trabalhou como lavador de pratos, motorista de táxi e fez figuração em alguns filmes da MGM, até que, num belo dia, foi chamado para fazer um teste para o cineasta King Vidor, que em 1925 ganhara fama mundial com o épico de guerra “O Grande Desfile” (o filme mudo mais lucrativo de todos os tempos). Murray, como já se sabe, conseguiu o papel principal de “A Turba”, contudo, nos anos seguintes, sua carreira foi minguando para papéis cada vez mais insignificantes. Virou alcoólatra e passou a recusar ofertas de trabalho por puro esnobismo. Ao contrário de John Sims, não teve um final feliz. O corpo do ator foi encontrado por pescadores no rio Hudson, em 1936. Até hoje, não se sabe se o afogamento de James Murray foi um acidente, um assassinato ou um suicídio. Morria um jovem ator com um “futuro brilhante”. Nem o pai de John Sims sonharia com uma oportunidade daquela para o filho.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0018806/

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Grandes Diretores: Billy Wilder

BILLY WILDER
Um dos maiores nomes da história do cinema, Billy Wilder teve êxito tanto no drama quanto no suspense e na comédia, além de revelar enorme talento na direção de atores

A carreira de roteirista, cineasta e produtor de Billy Wilder estendeu-se por mais de 50 anos em mais de 60 filmes. Ele é lembrado como um dos mais brilhantes cineastas de sua época em Hollywood e vários de seu filmes foram aclamados tanto pelo público quanto pela crítica entre os melhores de todos os tempos.

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O OLHAR CRÍTICO DO “AMERICAN WAY OF LIFE”

Samuel Wilder, que adotaria o pseudônimo de Billy Wilder, nasceu em Sucha, Áustria, hoje Polônia, em 22 de junho de 1906. Filho Max Wilder, hoteleiro, e Eugenia Dittler, ambos judeus. abandonou a Universidade de Viena depois de estudar Direito por um ano, para ser repórter de um importante jornal da capital. Em seguida, foi para Berlim, onde continuou trabalhando como jornalista e fez suas primeiras incursões no cinema, colaborando como roteirista. Sua primeira experiência cinematográfica foi no semidocumentário de Robert Siodmak “Menschen am Sontag”, de 1929, em cujos créditos também estavam Curt Siodmak (co-roteirista), Edgar G. Ulher (co-diretor), Fred Zinnemann e Eugene Shuftan (fotógrafos). De 1929 a 1932, colaborou no roteiro de 11 filmes.

billywilder1Com a ascensão do nazismo ao poder, em 1933, teve que abandonar a Alemanha devido as suas origens judaicas. Sua mãe e avós morreram em Auschwitz. Viveu alguns meses na França, já sonhando em fazer carreira em Hollywood, e co-dirigiu e co-escreveu um filme estrelado por Danielle Darrieux, “Mauvaise Graine”. Em 1934, chegou aos Estados Unidos e, depois de algumas dificuldades com a língua, conseguiu tornar-se conhecido como roteirista, principalmente após a união profissional com o roteirista Charles Brackett. Juntos, escreveram grandes sucessos: “Meia-Noite”, de 1939, de Mitchel Leisen, “A Oitava Esposa do Barba Azul”, de 1938, “Ninotchka”, de 1939, ambos de Ernst Lubistch, e “Bola de Fogo”, de 1942, de Howard Hawks.

A primeira oportunidade com a direção surgiu com “A Incrível Susana”, de 1942. Durante a década de 40, dirigiu filmes escritos em parceria com Charles Brackett e produzidos por este. Essa parceria rendeu vários êxitos artísticos e comerciais. “Pacto de Sangue”, de 1944, foi o único filme de Wilder nessa época a não ter a assinatura de Brackett e sim do escritor policial Raymond Chandler. O filme era um thriller noir, cínico e amoral, mas o seu grande êxito do período foi “Farrapo Humano”, de 1945, no qual Ray Milland vive um escritor fracassado e alcóolatra que durante um final de semana tenta se livrar do vício, mas acaba tendo que empenhar a máquina de escrever e roubar a bolsa de uma mulher para comprar bebida, até ir parar na enfermaria de um hospital. A dupla Wilder-Brackett adaptou o romance de Charles R. Jackson, mas modificaram o fim para torná-lo mais comercial. A impressionante cena do delirium tremens e a surpreendente transformação de Ray Milland durante o filme, são os grande trunfos deste drama impressionante, vencedor do Oscar de Filme, Diretor e Ator.

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“Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, é a indiscutível obra-prima do cineasta, uma sátira ácida a Hollywood, estrelada pela ex-musa do cinema mudo Gloria Swanson, no papel de uma decadente ex-estrela que procura voltar à glória através de um roteirista frustrado que se torna seu amante (William Holden). O filme conta com surpreendentes aparições de Erich Von Stroheim (famoso diretor do cinema mudo), Buster Keaton e Cecil B. De Mille. No ano em que “A Malvada” foi o grande vencedor do Oscar, Wilder conseguiu os Oscar de Direção de Arte e Roteiro, e marcou o fim de sua parceria com Brackett.

billywilder6“A Montanha dos Sete Abutres”, de 1951, é considerado o filme mais forte do diretor, no qual Kirk Douglas interpreta um repórter sem escrúpulos que explora deliberadamente a trágica situação de um homem preso numa mina. Foi sucesso de crítica mas fracasso nas bilheterias. Aos poucos, Wilder foi se mostrando um hábil, cínico e certeiro comentarista do american way of life: o arrivismo a qualquer custo que chega até ao assassinato: o estrelato e a sua degeneração e o jornalismo (inspirado em suas experiências na juventude) como componente perverso do sistema americano.

“Inferno 17”, seu filme seguinte, uma comédia dramática passada num campo de prisioneiros durante a Segunda Guerra, foi grande sucesso de público e rendeu o Oscar de Melhor Ator para William Holden. Com a mesma habilidade com que abordava o drama e a crítica social, Wilder também mostrava-se um excelente maestro de comédias sofisticadas, como “Sabrina”, de 1954, estrelada por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden, ou “Amor na Tarde”, de 1957, com Audrey Hepburn e Gary Cooper. Em “Testemunha de Acusação”, de 1958, ele adaptou para as telas a célebre peça teatral de Agatha Christie, estrelada por Marlene Dietrich e Charles Laughton em ótimas atuações.

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Wilder transformou Marilyn Monroe numa competente comediante em “O Pecado Mora ao Lado”, de 1955, e depois em “Quanto Mais Quente Melhor”, de 1959, estrelado por ela, Jack Lemmon e Tony Curtis, onde os dois atores, após presenciarem um assassinato, são obrigados a se travestir de mulheres para fugirem dos gangsters. Eles arrumam emprego num orquestra só de mulheres e conhecem a ingênua Sugar, vivida por Marilyn, que sonha casar-se com um milionário. O filme é um marco da comédia maliciosa.

billywilder5A partir de “Amor na Tarde”, Wilder inicia um período de parceria com o roteirista I.A.L. Diamond. “Se Meu Apartamento Falasse”, de 1960, uma comédia dramática no qual Jack Lemmon é um homem que empresta seu apartamento para os encontros amorosos do seu patrão e a amante, em troca de promoção, mas quando ela tenta o suicídio e ele a socorre, ambos se apaixonam. Foi o último grande êxito do cineasta, premiado com Oscar de Filme, Direção e Roteiro Original. Wilder e Jack Lemmon voltariam a trabalhar juntos na comédia romântica “Irma La Douce”, de 1963, estrelada por Shirley MacLaine.

Wilder continuou trabalhando nos anos 70, mas seus filmes já não atraíam mais a atenção do público. Os tempos agora eram outros, embora ele fizesse filmes interessantes, como “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”, “A Primeira Página” (novamente com Jack Lemmon), “Fedora” (uma espécie de retorno à era dourada de Hollywood) ou “Amigos Amigos, Negócios à Parte”, em que voltou a trabalhar com Jack Lemmon e Walter Matthau, e que acabou sendo o último filme dirigido por ele. Billy Wilder faleceu em 28 de março de 2002, em sua casa em Beverly Hills, aos 95 anos, vítima de pneumonia.

Filmografia:

Buddy Buddy (Amigos, amigos, negócios a parte, 1981)
Fedora (Fedora, 1978)
The Front Page (A primeira página, 1974)
Avanti!    (Avanti… Amantes a italiana, 1972
The Private Life of Sherlock Holmes (A vida íntima de Sherlock Holmes, 1970)
The Fortune Cookie (Uma loura por um milhão, 1966)
Kiss Me, Stupid    (Beija-me, idiota, 1964)
Irma la Douce (Irma la Douce, 1963)
One, Two, Three    (Cupido não tem bandeira, 1961)
The Apartment (Se meu apartamento falasse, 1960)
Some Like It Hot (Quanto mais quente melhor, 1959)
Witness for the Prosecution (Testemunha de acusação, 1957)
Love in the Afternoon (Um amor na tarde, 1957)
The Spirit of St. Louis    (Águia solitária, 1957)
The Seven Year Itch (O pecado mora ao lado, 1955)
Sabrina    (Sabrina, 1954)
Stalag 17 (Inferno nº 17, 1953)
Ace in the Hole    (A montanha dos sete abutres, 1951)
Sunset Blvd. (Crepúsculo dos deuses, 1950)
A Foreign Affair (A mundana, 1948)
The Emperor Waltz (Valsa do imperador, 1948)
The Lost Weekend (Farrapo humano, 1945)
Death Mills, 1945)
Double Indemnity (Pacto de sangue, 1944)
Five Graves to Cairo (Cinco covas no Egito, 1943)
The Major and the Minor    (A incrível Suzana, 1942)
Mauvaise graine    (Semente do mal, 1934)

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Grandes Diretores: Jean Renoir

JEAN RENOIR, O GÊNIO BONACHÃO

Um mito do cinema, cineasta na mais exata concepção do termo e uma das personalidades mais fascinantes do século 20, Jean Renoir foi provavelmente o maior cineasta francês de todos os tempos. Foi o segundo filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir e de Aline Victorine Charigot. Criado entre as artes, Renoir cresceu envolvido pela sensibilidade artística em um apartamento cujas paredes eram abarrotadas de quadros do seu pai. Incompreendidos e subestimados no seu tempo, os seus filmes são hoje considerados entre as obra máximas da arte cinematográfica. Realizou nove filmes mudos e 27 falados. Suas maiores obras foram “A grande ilusão”, de 1937, um sensível relato sobre as condições de vida dos prisioneiros franceses e seus captores alemães durante a I Guerra Mundial, e “A regra do jogo”, de 1939.

Os filmes de Renoir, a maioria pertencente à escola do realismo poético francês, marcaram profundamente o cinema francês entre 1930 e 1950, tendo aberto a porta à nouvelle vague. O diretor François Truffaut é aquele que mais explicitamente reconhece a dívida para com Renoir. Em 1975, Jean Renoir recebeu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, um Oscar especial que lhe foi entregue em reconhecimento ao conjunto de sua obra. Em 1976 foi condecorado pelo Ministério da Cultura da França.

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Em mais de cinqüenta anos de trabalho, em que se revelou mestre tanto no cinema mudo quanto no sonoro, Renoir realizou uma obra generosa e de grande vitalidade.

jeanrenoir-2A família Renoir parece, desde Pierre Auguste, o célebre pintor impressionista e pai do cineasta, saber viver e fazer desse simples ato a sua principal arte. Sem solenidades, vaidades ou manifestações egocêntricas, a infância de Jean correu tranqüila, sem nenhum sobressalto. Aventuras, porém, não faltaram à vida do jovem Renoir.

Jean Renoir nasceu em Paris, em 15 de setembro de 1894. Seu pai, o célebre pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir, queria que o filho se tornasse ceramista, mas Jean se inclinava para a carreira militar. Durante a Primeira Guerra ele foi aviador, foi ferido e quase teve uma perna amputada, com suspeita de gangrena. Graças a uma mudança na direção do hospital em que estava internado, os médicos suspenderam a operação na última hora. Jean manteve suas pernas, mas uma ficou maior que a outra. A perna mais curta que o fazia mancar, serviu de desculpa para não ter que andar (ele detestava caminhadas) e para comer e engordar (coisa que ele adorava), e dizer que não fosse por isso seria um homem magro.

Pierre era um grande pintor, mas nunca deu muita importância a isso e sempre levou uma vida pacata com sua família e levar adiante sua teoria de que crianças não deveriam ser alfabetizadas antes dos dez anos. Não fosse o nascimento de um irmão mais novo e graças às crises de ciúmes por razão disso, Jean acabou sendo enviado para a escola apenas para não atormentar mais a tranqüilidade do lar. Apesar disso, ele amava o pai e durante toda a vida contava histórias sobre ele e os quadros que pintava. A arte do pai e a forma como ele retratou a mulher moderna através de seus quadros, mais tarde encontrou na musa do cinema francês Brigitte Bardot, o melhor resumo da mulher francesa em todos os tempos.

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Depois da Primeira Guerra Mundial, pretendeu cumprir o desejo paterno, mas no início da década de 1920 redescobriu a antiga paixão juvenil pelo cinema. O primeiro filme que realizou foi “La Fille de l’eau” (A filha da água, 1924), que mais tarde renegou como ingênuo e mal realizado. Fortemente influenciado, no início da carreira, por Erich von Stroheim, Renoir procurou encontrar, dentro do realismo poético, uma linguagem própria: de “Nana” (1926) a “Le Crime de monsieur Lange” (1935), passando por “La Petite Marchande d’allumettes” (A pequena vendedora de fósforos, 1928), “La Chienne” (A cadela, 1931) e “Toni” (1934), é o cineasta do cotidiano, eminente francês, que compreende e ama a gente simples.

La Grande Illusion

Entre 1935 e 1940 Renoir realizou algumas de suas obras-primas: “La Vie est à nous” (1936), “Le Bas-fond” (1936), o lírico e corajoso “La Grande Illusion” (A grande ilusão, 1937), sobre pioneiros da primeira guerra mundial, “La Bête humaine” (A besta humana, 1938) e sobretudo “La Règle du jeu” (A regra do jogo, 1939), obra de grande beleza, mas só conhecida em sua versão integral a partir de 1965. Depois seus filmes ganharam um tom dramático: os grandes temas são a denúncia da hipocrisia e das convenções, a sátira às classes dirigentes.

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Em 1940, com a invasão da França pelos alemães e depois que o êxito de seus filmes o havia elevado à condição de líder do cinema de seu país, transferiu-se para os Estados Unidos. Em Hollywood, fez “Swamp Water” (O segredo do pântano, 1941) e “The Southerner” (O sulista, 1946). Depois rodou na Índia “The River” (O rio, 1951), em torno da magia do Ganges, e, de volta à França, dirigiu “Le Carrosse d’or” (O coche de ouro, 1952), apoteose de cor e ritmo rodada na Itália, e “Eléna et les hommes” (As estranhas coisas de Paris, 1956), um dos poucos filmes do cineasta lançado no Brasil.

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Jean Renoir não quis ficar à sombra da genialidade do pai, e quando decidiu também ser artista, acreditou que em vez de pintar quadros, talvez tivesse mais sucesso em capturar imagens e colocá-las em movimento. De “Nana”, filme mudo, até “A Besta Humana”, ambos baseados em obras de Émile Zola, ou “A Cadela”, Renoir também sabia tocar o trágico da existência humana. Em “Toni”, foi ao campo conhecer a vida de pessoas simples e voltou com o filme que é considerado o pioneiro do neo-realismo: os interiores e exteriores eram reais e a maioria do elenco era composta de atores amadores do local. Na época do Front Populaire, união da esquerda francesa nos anos 30, não teve vergonha de fazer cinema engajado, com “A Marselhesa”, mas também não esqueceu a arte do pai de contemplar a natureza e transformá-la em filme, como em “Une Partie de Campagne”. Da análise e crítica social de “A Regra do Jogo” até a constatação de um mundo cavalheiresco que chegava ao fim, representado pela Europa da Primeira Guerra em “A Grande Ilusão”, é difícil encontrar um gênero como que Renoir não soubesse lidar.

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Seus filmes raramente foram sucessos de público e freqüentemente eram massacrados pela crítica. Nem por isso Jean se abalava. Sua incapacidade de compor vilões odiosos, estava refletida na forma como retratava seus personagens, principalmente suas femme fatales, como Séverine de “A Besta Humana” ou Lulu de “A Cadela”: Renoir parece sempre querer justificar suas atitudes e tornar compreensível um comportamento a princípio inaceitável. Em “Boudu Salvo das Águas”, Michel Simon faz o simpático personagem, mendigo e anarquista que após uma tentativa fracassada de afogar-se no Rio Sena, acaba envolvido na alta sociedade francesa, mas é incapaz de dobrar-se às suas rígidas etiquetas e convenções, por um direito que acredita ser seu de levar a própria liberdade às últimas conseqüências.

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Renoir foi um Republicano radical, para o qual Felicidade deveria ser adicionada ao lema da Revolução Francesa. Liberdade para viver, para ver o mundo, para fazer o que se gosta, para filmar. Idéias que ele trouxe de casa e que o fizeram o mais francês dos cineastas, um pintor do movimento, que adequou a arte paterna em uma maneira muito pessoal de ver o mundo, a natureza e as pessoas. Talvez por isso, o conjunto de seus filmes ficam na lembrança como o mais bem acabado retrato da França até 1960.

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Jean Renoir foi um mito ao contrário, ou seja, um antimito. Bonachão e genial, soube mostrar uma França onde se vive alegremente, e felicidade e beleza podem ser encontradas em cada esquina, onde todos pensam, falam e fazem o que querem. Uma França igualmente mítica, com a qual o cineasta se confunde. Renoir morreu em Los Angeles, Estados Unidos, em 12 de fevereiro de 1979.

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Filmografia:

1924: Une vie sans joie (também ator)
1925: La fille de l’eau
1926: Nana
1927: Sur un air de charleston
1927: Marquitta
1928: Tire-au-flanc
1928: Le tournoi dans la cité
1928: La petite marchande d’allumettes
1929: Le bled
1931: On purge bébé
1931: La chienne
1932: La nuit du carrefour
1932: Boudu sauvé des eaux (Boudu Salvo das Águas)
1932: Chotard et Cie
1933: Madame Bovary
1935: Toni
1936: Le crime de M. Lange
1936: Une partie de campagne (Passeio ao Campo) (também ator)
1936: La vie est à nous (ator)
1936: Les bas-fonds
1937: La grande illusion (A Grande Ilusão)
1938: La marseillaise
1938: La bête humaine (A Besta Humana) (também ator)
1939: La règle du jeu (A Regra do Jogo) (também ator)
1941: L’étang tragique (Swamp Water)
1943: Vivre libre (This Land Is Mine) (Esta Terra É Minha)
1945: L’homme du sud (The Southerner) (Semente do Ódio)
1946: Le journal d’une femme de chambre (The Diary of a Chambermaid)
1946: Salut à la France (Salute to France)
1947: La femme sur la plage (The Woman on the Beach)
1951: Le fleuve (The River) (O Rio Sagrado)
1953: Le carrosse d’or (A Comédia e a Vida)
1954: French Cancan
1956: Elena et les hommes
1959: Le testament du docteur Cordelier
1959: Le déjeuner sur l’herbe
1962: Le caporal épinglé
1970: Le petit théâtre de Jean Renoir, telefilme em quatro episódios