Grandes Diretores: Alfred Hitchcock Parte 4

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS – PARTE 4/4
Uma vez perguntado sobre qual era o seu melhor filme, o cineasta respondeu que era impossível dizer: “É como perguntar a Casanova qual de suas amantes foi a melhor.”

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James Stewart falava que nunca conheceu alguém tão metódico quanto Hitchcock. “Ele entrava nos sets com o filme meticulosamente planejado, com marcações de cena, posições de câmera, figurinos, tudo”, comentava o ator. “Não havia como sair algo errado, pois, na verdade, o filme já estava pronto.”

Se todo bom filme começa por um bom roteiro, os roteiros de Hitchcock eram era uma obra de arte de detalhamento, e o diretor parecia perder o interesse no filme quando esta fase terminava. Ele mesmo confessava que achava as filmagens monótonas. “Não me interesso pela temática ou pelo ato de encenar, mas pela sequência de um filme. Ou melhor, pelos ingredientes técnicos que possam fazer uma plateia inteira gritar.” Hitchcock chegava a ponto de dormir em pleno set. Dormir em público, diga-se de passagem, era de praxe em se tratando de Hitchcock. Não havia barulho ou agitação que lhe tirasse o sono, tendo dormido durante um show em companhia de David Selznick, apagado na cara de Thomas Mann durante um de seus discursos e dormido à mesa durante um jantar que ele mesmo estava dando ao casal Gable, antes de o prato principal ter sido servido. Durante o sono, ele tinha os sonhos mais mirabolantes.


Hitchcock sempre privilegiou as imagens. “Um cineasta não deve dizer as coisas, mas mostrá-las.” Quando soltava a língua, no entanto, tinha tiradas geniais. “Impossível dizer qual meu melhor filme, é como perguntar a Casanova qual de suas amantes foi a melhor.” De qualquer forma, Hitch sempre foi afável e receptivo com a imprensa, dizendo o que queriam ouvir.


Porém, seria na Universal o período menos interessante de Hitchcock, que marcaria o seu declínio, após uma sucessão de clássicos e campeões de bilheteria. “Os Pássaros” não agradou nem crítica nem público. Baseado em uma novela fantástica de Daphne Du Marier, de quem o cineasta já tinha filmado “Rebecca”, o filme estava muito a frente de seu tempo. O sobrenatural, ausente nas obras do cineasta, ganhava aqui um lugar de destaque para explicar a inexplicável onda de ataques das aves aos seres humanos. Sem Ingrid, Grace ou Kim, Hitchcock resolveu criar a “sua loira” particular e, aparentemente, a encontrou em Tippi Hedren, que, até então, era uma garota propaganda: deu-lhe aulas de interpretação, ensinou-lhe posturas, comprou-lhe roupas e a escalou como protagonista de “Os Pássaros”. Apesar da sua imensa beleza, sua falta de carisma é notória. Mas neste filme isso não era um problema, pois a atenção estaria nos pássaros, que foram os personagens principais e obrigaram o cineasta a trabalhar com truques e efeitos de trucagens até então inéditos em sua carreira.


O filme seguinte esbarrou na falta de carisma de Tippi, novamente escalada no papel principal, e no desinteresse de Sean Connery, já badalado graças à série do agente 007. Também baseado em romance de Daphne Du Marier, “Marnie, Confissões de uma Ladra”, poderia ter sido o filme que os críticos tanto queriam (um suspense psicológico profundo, onde a protagonista procurava compensar sua frigidez sexual cometendo furtos e roubos), mas se tornou um filme que nem mesmo os fãs do cineasta prestigiaram. O estilo dominador do diretor acentuou-se sobre a atriz, tornando-se quase uma obsessão. O domínio que Hitch tentou exercer e suas tentativas de assediá-la sexualmente foram repelidos por Tippi, chegando ela, inclusive, a criticar-lhe um dos seus pontos fracos: sua gordura. A última parte das filmagens foram tensas, com os dois não se falando.


A química entre o casal de protagonistas de “Cortina Rasgada” também não funcionou. Julie Andrews, famosa pelos musicais, e Paul Newman, que insistia em buscar um “método” de atuação que irritava o cineasta, acabaram criando tensões durante as filmagens que terminariam no péssimo desempenho nas bilheterias. Para Hitchcock, a pressão era enorme. Ele precisava trazer de volta seu público fiel e ao mesmo tempo conquistar um público novo, nascido com seu filme “Psicose” e já integrado nas transformações estéticas e artísticas que o cinema vinha retratando nas telas. Para aumentar seus problemas, ele estava perdendo seus colaboradores antigos: George Tomasini, o montador, e Robert Burks, o fotógrafo, que morreram, e Bernard Herrmann, com quem o diretor se desentendeu por causa da trilha de “Cortina Rasgada”. O resultado foi visto em “Topázio”, o pior filme americano de Hitchcock.


Os anos 70 seriam terríveis para Hitchcock. Aos setenta anos ele insistia que tinha apenas duas vezes 35 anos. A idade e a saúde debilitada (não apenas dele, mas também de sua esposa Alma) iriam fazê-lo sofrer: ele iria usar um marca-passo e sofria de artrite crônica nos joelhos. O diretor iria receber um Oscar especial (destinado àqueles que nunca o receberam) e pensou que já estava superado. “Frenesi” mostraria que não.

Com uma história simples e eficiente e uma sequência final sensacional, o filme pode ser dito como um grande resumo da obra de Hitchcock. Aqui temos um assassinato brutal, a transferência de culpa, muito humor, suspense, um travelling sensacional e uma fixação mórbida por mulheres. “Frenesi” marcou o seu retorno triunfal à Inglaterra, depois de uma ausência de 33 anos (seu último filme produzido na terra natal do cineasta havia sido “A Estalagem Maldita”, de 1939).

“Trama Macabra” foi seu canto de cisne, uma história agradável, mas longe de qualquer brilho dos seus grandes clássicos. Hitchcock ainda tentaria realizar outro filme, “The Short Night”, em 1978, mas seu estado de saúde não permitiu. Em maio de 1979 a produção de “The Short Night” foi interrompida e Hitchcock, pouco tempo depois, fechou seu escritório na Universal Pictures.


Alguns amigos diziam que Hitch era um sujeito comum e que, por acaso, era um gênio. Outros, que sua personalidade era multifacetada. Sempre haverá o Hitchcock público, personagem divulgadíssimo; o profissional, o diretor insuportavelmente meticuloso; e o homem tímido e doméstico, que adorava jardinagem, animais e a família. O próprio cineasta nunca fez questão de analisar a si mesmo. No íntimo, ele sabia que era uma pessoa especialmente complicada, mas nunca pareceu preocupado em procurar uma resposta para o seu prórprio enigma.

Em 1980 Alfred Hitchcock recebeu a KBE da Ordem do Império Britânico, das mãos da Rainha Elizabeth II. Ele morreu quatro meses depois, de insuficiência renal, em sua casa em Los Angeles. Seu coração parou de bater na manhã de 29 de abril de 1980, aos 80 anos. Dois anos depois, Alma, sua fiel escudeira e esposa, iria seguí-lo.

Poucos artistas foram tão importantes para sua arte como Alfred Hitchcock foi para o cinema. Ele valorizou a linguagem da imagem, do som, da forma, ou seja, do próprio cinema. Amor, morte, culpa, humor, terror e, logicamente, suspense foram o “cardápio” que o Mestre servia de maneira genial, mesmo nos piores momentos da sua obra e da sua vida. Muitos tentaram copiá-lo (como, por exemplo, Brian de Palma), mas poucos conseguiram chegar perto da sua sutileza e genialidade.


O mundo mudou e, logicamente, sua obra sofreu com as mudanças, em particular nos últimos 20 anos da sua vida. Mas, fazendo uma espécie de resumo, a “ferrugem do tempo” não conseguiu destruir uma das obras mais geniais da cultura do século XX.

FILMOGRAFIA DE ALFRED HITCHCOCK:

1976 – Trama Macabra (Family Plot)
1972 – Frenesi (Frenzy)
1969 – Topázio (Topaz)
1966 – Cortina Rasgada (Torn Curtain)
1964 – Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie)
1963 – Os Pássaros (The Birds)
1960 – Psicose (Psycho)
1959 – Intriga internacional (North by Northwest)
1958 – Um Corpo Que Cai (Vertigo)
1958 – O Homem Errado (The Wrong Man)
1956 – O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much)
1956 – O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry)
1955 – Ladrão de Casaca (To Catch a Thief)
1954 – Janela Indiscreta (Rear Window)
1954 – Disque M Para Matar (Dial M For Murder)
1952 – A Tortura do Silêncio (I Confess)
1951 – Pacto Sinistro (Strangers on a Train)
1950 – Pavor nos Bastidores (Stage Fright)
1949 – Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn)
1948 – Festim Diabólico (Rope)
1947 – Agonia de Amor (The Paradise Case)
1946 – Interlúdio (Notorious)
1945 – Quando Fala o Coração (Spellbound)
1943 – Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat)
1943 – A sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt)
1942 – Sabotador (Saboteur)
1941 – Suspeita (Suspicion)
1941 – Um casal do Barulho
1940 – Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent)
1940 – Rebecca, A Mulher Inesquecível (Rebecca)
1939 – A Estalagem Maldita (Jamaica Inn)
1938 – A Dama Oculta (The Lady Vanishes)
1937 – Jovem e Inocente (Young and Innocent)
1936 – O Marido era o Culpado (Sabotage)
1936 – O Agente Secreto
1935 – Os 39 Degraus (The Thirty-Nine Steps)
1934 – O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much)
1933 – Waltzes from Vienna
1932 – O Mistério Número 17
1932 – Ricos e Estranhos
1931 – The Skin Game
1930 – Assassinato (Murder!)
1929 – Juno and the Paycock
1929 – Chantagem e Confissão (Blackmail)
1929 – O Ilhéu
1928 – Champagne
1928 – A mulher do Fazendeiro
1927 – O Anel (The Ring)
1927 – Easy Virtue
1927 – Downhill
1926 – A Story of the London fog
1926 – O Locatário (The Lodger)
1926 – The mountain Eagle
1925 – The Pleasure Garden

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