Filmes: Spartacus (1960)

SPARTACUS
Título Original: Spartacus
País: Estados Unidos
Ano: 1960
Duração: 184 min.
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Tony Curtis.
Sinopse:
Em 73 a.C., Spartacus é um escravo forte e inteligente que é comprado por um traficante para ser preparado como gladiador. Mas durante uma rebelião, ele e outros escravos conseguem se libertar e se unem para enfrentar as forças do Império Romano e conquistar a liberdade.

Superprodução baseada no romance histórico de Howard Fast, com roteiro de Dalton Trumbo, preso em 1950 depois de condenado por atividades antiamericanas. Como sempre, Stanley Kubrick entra em um gênero para marcá-lo com seu perfeccionismo e a sua visão pessoal do cinema e do mundo. Com notável trilha sonora de Alex North, o filme ganhou quatro Oscar, incluindo o de melhor ator coadjuvante (Peter Ustinov) e o de fotografia (Russel Metty). Em 1991, foi lançada a versão definitiva, com 12 minutos a mais.

Com Spartacus, Kubrick foi muito além dos filmes de gladiador

“Spartacus” é um épico nos moldes hollywoodianos que se consagraram nos anos 1950. A obra exala grandiosidade em cada fotograma. Já na abertura, em que a música composta por Alex North ecoa solitária na tela escura, o espectador é o tempo todo surpreendido por uma obra peculiar. Os letreiros — cuja composição foi supervisionada por Saul Bass (autor, entre outras, da abertura de “Psicose” “Intriga Internacional” e “Um Corpo que Cai”, todos de Alfred Hitchcock) — reforçam essa impressão, que irá atingir seu ponto culminante nas cenas de batalhas minuciosamente orquestradas. Não surpreende, portanto, que o filme tenha recebido Oscars de Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), além do Globo de Ouro de Melhor Filme.

Mas, por uma fina ironia, “Spartacus” é um típico filme de Hollywood que se opõe ao próprio sistema. O gênero épico, que teve seu representante maior na figura do cineasta Cecil B. DeMille, ganha novos contornos nas mãos do roteirista Dalton Trumbo. Ele foi um dos nomes que constaram na lista negra de Hollywood na época do macarthismo, um dos períodos mais obscuros na história dos EUA na segunda metade do século passado. Esse fato parece ter contaminado a obra, escrita e produzida em um período em que os norte-americanos ainda viviam o rescaldo do incêndio provocado pelas perseguições aos comunistas.

“Spartacus” é construído a partir do ponto de vista dos vencidos. São os subjugados que ganham vozes e ação neste filme. Embora qualquer um que tenha estudado História Antiga saiba que essa rebelião foi sufocada pelo Império Romano, não há como não se empolgar com os avanços obtidos pelo exército de Spartacus a cada legião romana que enfrenta na sua busca pela liberdade. Não há como não se emocionar com o drama humano que envolve o personagem principal e sua companheira Varínia (Jean Simmons), nem a amizade que une Spartacus e o poeta fugitivo interpretado por Tony Curtis. E se eles lutam por liberdade, causa que será perpetrada mesmo com a derrota final dos escravos, a vitória, deve-se ressaltar, não estava tão distante, pois não é por acaso que o roteirista situa sua ação no decadente Império Romano para compor uma metáfora sobre a realidade da época em que o filme foi produzido. Pode-se verificar no enredo uma crítica clara ao sistema de estúdios, que no final dos anos 50 conhecia seu crepúsculo.

“Spartacus” seria uma indicação da mudança de valores que ocorria no núcleo criativo da indústria cinematográfica, em que diretores e atores se libertavam da rigidez espartana dos estúdios enquanto o sistema implodia. No filme, essa situação é metaforizada na figura de Antoninus (Tony Curtis) e Crassus (Laurence Olivier). Assim, a arte, simbolizada por Antoninus, escravo responsável por declamar versos e fazer truques para o entretenimento da corte, ganha prestígio. Em contrapartida, o ouro, o lucro das conquistas, personificado por Crassus, perdem espaço em uma sociedade que desaba. Além disso, escravos como Antoninus e Spartacus serão responsáveis pela desestruturação do sistema constituído. Como Tony Curtis e Laurence Olivier puderam protagonizar um dos relacionamentos homossexuais mais escancarados do cinema, e também o mais subentendido, e passando incólume pela censura da época, é coisa que só um roteiro inteligente e repleto de sutilezas poderia permitir. A cena mais famosa, a do banho, porém, foi removida na época do lançamento é só restaurada recentemente, mas devido a falhas no áudio, o personagem de Olivier foi dublado por Anthony Hopkins.

O filme ressalta ainda em diversos momentos a virtude da lealdade, em uma crítica feroz ao macarthismo. Quando muitos realizadores da época, pressionados pelo comitê presidido pelo Senador MacCarthy, não hesitaram em entregar seus colegas, mesmo que isso destruísse para sempre a carreira deles, a lealdade entre os escravos em nenhum momento é abalada, mesmo que isso condene todos eles à morte. Na vida real, a lealdade de Trumbo aos seus princípios o condenou ao ostracismo. Ele se recusou a denunciar colegas de profissão que seriam supostos comunistas e, por isso, foi banido dos estúdios. Em uma cena antológica, é exigido que o líder dos revoltosos se identifique para evitar novas mortes, quando vários de seus homens se identificam, um a um, como o próprio Spartacus, ou mesmo no final, em que ele e Antoninus duelam até a morte.

O responsável direto por esta obra ter chegado às telas foi o astro Kirk Douglas, que também foi o produtor executivo do filme. Também se deve a ele a inclusão de Stanley Kubrick no projeto. O ator havia se desentendido com o diretor Anthony Mann, que abandonou as filmagens. Foi assim que Kubrick, com quem Douglas já havia trabalhado em “Glória Feita de Sangue” (1957), assumiu a direção. Mesmo com as filmagens em andamento, o jovem cineasta conseguiu imprimir sua marca, presente no rigoroso perfeccionismo que rege muitos dos planos de “Spartacus”. Destaque especial à impactante cena do confronto do exército romano contra os escravos, em que toda uma planície é tomada pelos soldados de Roma. O efeito é ainda mais devastador quando levamos em conta que a filmagem foi feita em uma época em que os efeitos especiais limitados impediam a multiplicação de personagens em cena através de recursos computadorizados, coisas que épicos modernos como “Tróia” ou “Gladiador” acabaram por banalizar.

Considerado uma obra menor de Kubrick e um épico de dimensões moderadas em comparação ao padrão hollywoodiano dos anos 50, em que dominaram os superespetáculos de Cecil B. De Mille e William Wyler, ao longo de todos os seus extraordinários 183 minutos, “Spartacus” permanece até hoje como um grande filme.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0054331/

Trailer:

Spartacus Clipe:

Galeria de Imagens:

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