Filmes: No Tempo das Diligências (1939)

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS
Título Original: Stagecoach
País: Estados Unidos
Ano: 1939
Duração: 96 min.
Direção: John Ford
Elenco: John Wayne, Thomas Mitchell, George Bancroft, Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine, Louise Platt, Donald Meek, Tim Holt.
Sinopse:
Uma diligência atravessa o Monument Valley, entre Tonto e Lordsburg, com 5 passageiros aos quais se reúne Ringo Kid, um pistoleiro em busca de vingança, mas no meio do caminho sofrem um violento ataque de apaches.

Clássico fundamental do mestre John Ford, modelo básico para os westerns posteriores e referência obrigatória em qualquer antologia cinematográfica, impecável em todos os níveis. Com direção precisa, bela fotografia de Bert Glennon e trilha sonora de Richard Hageman, Franke Harling, John Leipold e Leo Shuken premiada com o Oscar valorizam ainda mais esta obra prima do cinema. Foi o filme que fez a carreira de John Wayne finalmente deslanchar depois de quase uma década e meia de papéis insignificantes, e deu a Thomas Mitchell, no papel do médico bêbado que precisa fazer um parto durante a viagem das diligências, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Baseado no conto “Stage to Lordsburg”, de Ernest Haycox, com roteiro de Dudley Nichols, consolidou o western como um dos mais importantes gêneros do Cinema. Foi refilmado em 1966, como “A Última Diligência”, e para a TV, em 1986.

A enciclopédia do western no cinema

À época do surgimento de “No Tempo das Diligências”, o western já estava com 36 anos. Adulto na idade cronológica, não o era na idade intelectual e artística. Até então, os exemplares do gênero, ou se enquadravam na categoria de produções modestas, servindo de veículo para os caubóis populares da época, como Tom Mix, Buck Jones, Hopalong Cassidy, entre outros. O filme de John Ford, apesar de este já ser um nome respeitado em Hollywood, com um Oscar na bagagem (por “O Delator”, de 1934), não tinha um alto orçamento, nem uma única estrela no elenco (John Wayne até então era um ator pouco menos que obscuro, e sua escolha para o principal papel masculino, dizem, foi uma conquista que Ford obteve depois de uma luta árdua com o produtor Walter Wanger), e apresentava uma proposta temática não convencional.

Sim, é verdade que, como observa J.L. Rieupeyrout em seu “O Western, ou o Cinema Americano por Excelência”, o filme “respeitava todos os elementos consagrados pelo uso, conservando os tiroteios e as galopadas, e, em suma todos os temas dramáticos do gênero”, mas, por outro lado, o autor ressaltava, “enriquecia-os com um conteúdo moral, social e psicológico que, sem desnaturá-los, lhes conferia uma dignidade intelectual e artística, com a qual até então o western não se preocupava”.

“No Tempo das Diligências”, à medida que procedia ao desnudamento dos passageiros de uma viagem de diligências, representando diversas categorias sociais (que sofrem um ataque de índios, o qual propicia uma sequência que entraria para a antologia das maiores do cinema), tocava em questões, como a discriminação social, a dignidade humana e profissional de pessoas postas na marginalidade. O roteiro de Dudley Nichols e Ben Hecht (este não creditado) inspirou-se em novela de Maupassant. Essa identificação com a obra do escritor francês torna-se acentuada na importância que é dada à figura da prostituta Dallas (Claire Trevor), que é a personagem principal. Ela acaba revestida de uma dimensão humana, que a coloca em posição superior às beatas que a expulsaram da cidade e à jovem esposa do oficial do Exército, que lhe torcera o nariz empinado durante a viagem. E não por acaso, a afinidade que se estabelece entre ela e Ringo Kid (Wayne) é originada por ele ser também um pária social, já que é um pistoleiro que acabara de cumprir pena na prisão. A segregação que sofrem dos demais passageiros, com exceção do médico alcoólatra (na primeira parada da diligência, ficam separados dos outros durante a refeição), os conduz a essa afinidade que evolui para o amor.

Essa simpatia, essa generosidade por pessoas ou etnias postas à margem do Sistema é um dos temas caros a John Ford. Recorde-se, a propósito, que foi ele o primeiro diretor a dar voz ativa ao índio em “Fort Apache”, isso em 1948. Outro tema sempre presente em sua obra é a amizade. Em “No Tempo das Diligências”, esse sentimento aflora entre o médico (Thomas Mitchell, por sinal, ganhador do Oscar de coadjuvante, juntamente com Claire Trevor) e o xerife (George Bancroft).

“No Tempo das Diligências”, mantém-se ainda hoje de pé por suas diversas qualidades, ao mesmo tempo em que se firma, cada vez mais, como desbravador de uma trilha temática pela qual transitaram inúmeros westerns que o sucederam, ajudando o gênero a adquirir o status artístico que um dia fez dele, na opinião de muitos críticos, o gênero cinematográfico por excelência.

Um dos mais importantes faroestes do cinema, deixou legado que transcendeu o próprio gênero

Muito mais do que um clássico absoluto, “No Tempo das Diligências” é um marco da história do cinema, um divisor de águas. Motivos para tal atribuição são muitos. Este emblemático filme de faroeste é praticamente a súmula do gênero western, reunindo todas as características do estilo de uma maneira inventiva, dando novo impulso a este formato, nos idos anos de 1939.

É curioso pensar que este filme, que ressuscitou o filão num momento onde o western era visto como um gênero ultrapassado e pouco comercial, tenha sido o responsável por revelar ao mundo a maior estrela da história dos filmes de faroeste, a encarnação do cinema de bangue-bangue em pessoa: John Wayne.

Até então um ator de filmes pouco expressivos, Wayne já havia tido suas incursões no cinema, como em “A Grande Jornada” (1930), mas nada o alavancou mais do que esta produção. Aqui se consolidaria de forma definitiva a parceria entre Wayne e o diretor John Ford, que viu naquele rapaz um tanto rude e explosivo a personificação do caubói destemido. Wayne serviu de arquétipo de herói norte-americano, do homem simples e de personalidade forte, que doma o imaculado território estadunidense como um vaqueiro domestica seu gado. E é já na sua primeira aparição neste filme, em torno dos 18 minutos, como o pistoleiro e fugitivo da cadeia Ringo Kid, o plano em que Ford enquadra seu rosto como quem anuncia o nascimento de um mito.

A saga narrada em “No Tempo das Diligências” ainda hoje tem sua originalidade. Nos Estados Unidos ambientado no Velho Oeste, com seus saloons em vilarejos interioranos, o transporte é feito via diligências, aquelas antigas cabines conduzidas por cavalos. Eis que a diligência retratada por Ford é encarregada de levar nove pessoas ao destino de “Lordsburg”, onde cada passageiro tem sua razão pessoal para estar lá. O de Ringo Kid (John Wayne), não poderia se encaixar melhor ao estilo, descendente dos filmes de perseguição e tiroteio: vingar-se dos irmãos Plummer, que assassinaram seu pai e irmão.

O grande desafio da diligência está em cruzar a aldeia dos índios Apaches – remetendo ao mote clássico do faroeste, o do coubói versus o índio. Mas Ford, que se definia como um “diretor de westerns”, raramente caia em fórmulas fáceis, e de certa forma sempre incluiu elementos de subversão ao gênero. Destes nove personagens da diligência, conhecemos o universo e o drama pessoal de cada um. Temos desde o apostador de cartas, ao traficante de bebidas, passando pelo médico alcoólatra (Thomas Mitchel ganhou o Oscar por este papel). Não há uma visão romantizada do norte-americano. Os personagens de Ford são marginalizados, outsiders, que encontram na viagem ao seio da América uma jornada a própria essência daquela nação. E os índios, como afirma o crítico Edward Buscombe (autor de livros sobre o cinema de John Ford), não são tratados de forma individual, mas simplesmente como uma força da natureza.

Mas, talvez a maior contribuição de “No Tempo das Diligências” para a sétima arte seja no que se refere a sua linguagem cinematográfica. Ford era antes de mais nada um esteta, um homem que conseguia fazer cinema de autor dentro de propostas comerciais do sistema de gêneros imposto pelos estúdios. Orson Welles, quando questionado quais seus três diretores favoritos, respondeu categoricamente: John Ford, John Ford e John Ford. “Cidadão Kane” (1941), que é considerado a maior obra-prima de toda a história do cinema, encontra sua maior influência justamente neste filme. Tudo isso simplesmente pela forma particular como Ford olhava o mundo. Aqui ele abusa dos contra-plongées, e torna notório o modo como enquadrava ambientes internos utilizando uma grande amplitude focal. Desse modo, passamos a enxergar o teto dos ambientes, utilizando-os como recursos narrativos, como signos visuais. As ações se desenrolam em planos que são verdadeiras obras pictóricas, sem grande fragmentação na edição. Janelas e portas servem para emoldurar os cenário e as paisagens que se desenrolam no horizonte – referências ao próprio cinema.

Outro aspecto que marcaria muito a concepção de “Cidadão Kane” é quanto ao uso dramático da profundidade de campo. Utilizando uma abertura de diafragma (íris) bastante fechada, Ford conseguia captar detalhes bem distantes em termos de profundidade, gerando ações que se desenrolam simultaneamente no mesmo quadro, dando uma nova dimensão ao cinema, que nasceu predominantemente chapado e sem muita perspectiva. Ford consegue isso com um sofisticadíssimo uso de luz e sombra, numa cartilha que fez a cabeça do novato Welles.

Em 1939 ainda não havia o formato Cinemascope, que permitia ao cinema o formato widescreen, com sua grande amplitude horizontal. Ford compensa isso nos diversos enquadramentos que faz nas pradarias do Monnument Valley, na divisa entre os estados de Arizona e Utah. Para compensar o formato até então quadrado do cinema, preenchia quase todo o quadro com o céu e a paisagem natural, reservando um pequeno espaço na base do para o solo, um recurso que foi utilizado inclusive no final de “E o Vento Levou, após o discurso inflamado de Scarlett O’Hara. Com isso Ford conseguiu dar uma noção visual da dimensão e da vastidão e complexidade que é o território norte-americano, com suas disputas entre homens e índios, bandidos e mocinhos. As colinas de arenito do Monnument Valley viraram símbolos do próprio faroeste. Talvez por sua perenidade, por sua capacidade de resistir ao tempo e registrar toda a história de uma nação e de um cinema – algo que “No Tempo das Diligências” representa.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0031971/

Trailer:

Filme Completo 1:

Filme Completo 2:

Galeria de Imagens:

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