Grandes Diretores: Alfred Hitchcock Parte 3

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS – PARTE 3/4
Hitchcock dizia que Walt Disney era feliz porque se tivesse algum problema com os personagens, ele precisaria apenas passar a borracha

Alfred Hitchcock afirmava que 95% do sucesso de um filme se devia ao diretor e que os atores eram gado, ou melhor, “que deviam ser tratados como gado”. Alguns não davam a mínima, como James Stewart, astro de sucessos como “Um Corpo que Cai” e “Janela Indiscreta”. Para o ator, “então ele é o maior caubói que conheço”. Jimmy ainda contava: “Com Hitch, havia apenas um jeito de fazer uma cena – o dele”. Já Ingrid Bergman se sentia frustrada. Nos sets de “Quando Fala o Coração”, ela pediu para discutir o personagem e ele disse: “Está no roteiro”. Desconhecendo o processo do “MacGuffin” que movia o cineasta, a atriz perguntou: “Mas qual é a minha motivação?”
“O seu salário!”

Em outra ocasião, a atriz insistiu: “Eu não me sinto como a personagem”. “Então simplesmente finja”, rebateu o cineasta.

Quando filmava “Psicose”, Hitch gritava para um Anthony Perkins angustiado, “relaxa Tony, é só um filme!”. O diretor costumava dizer que Walt Disney é que era feliz, pois se tivesse algum problema com os personagens, simplesmente passava a borracha. Kim Novak, estrela de “Um Corpo que Cai”, também reclamava: “Quando ele está gostando do seu trabalho, não fala nada; e se não gosta, também continua mudo, só que te olha com aquela cara de quem está prestes a vomitar”. Para aqueles que, como Paul Newman (formado no conceituado Actor’s Studio) em “Cortina Rasgada”, teimavam em utilizar um “método” de interpretação, Hitchcock avisava: “Faça o que quiser. Há sempre a sala de edição”. Às vezes, o cineasta conseguia ser muito cruel. Durante um teste, uma atriz iniciante perguntou qual era o seu melhor perfil. “Querida, você está sentada em cima dele”, retrucou de forma ácida.

Além de ter uma língua ferina, o diretor adorava fazer brincadeiras, muitas um tanto bizarras. Antes de filmar “Os 39 Degraus”, ele algemou os protagonistas e os deixou assim por horas. “Queria que se acostumassem com a ideia, pois passariam a maior parte do filme daquela forma”, explicava. Durante a divulgação de um filme, ele convidou os jornalistas para um almoço. Nos sets, montou um cemitério, com o nome e a data de nascimento de cada convidado escritos nos respectivos túmulos. Em outro almoço, mandou tingir todos os alimentos de azul. Hitch era de fato um sádico, mal falava com os atores e ainda os desconsiderava publicamente.

Por que, então, todos sonhavam em trabalhar com ele? Porque Hitchcock nunca precisou berrar ou insultar para conseguir o que queria. Sua calma era contagiante. Seu estúdio era descrito como um ambiente de cortesia formal, onde se ouviam “por favor”, “eu sugiro”, “sinto muito”, etc. Um dos técnicos observou: “Não há correrias, ninguém levanta a voz, ninguém discute num set de Hitchcock. Ele próprio dá o exemplo, sentado calmamente, observando”. Um dia, a roda de um carrinho esmagou-lhe um dos pés. Ninguém percebeu nada, até que ele, com uma voz suave, pediu: “Por favor, poderiam tirar o carrinho de cima do meu pé?” Jimmy Stewart disse nunca ter visto Hitch ter qualquer desentendimento com alguém no trabalho.

Pode até ser que com os atores Hitchcock fosse estável e equilibrado, mas com suas estrelas a história era outra. Ele dizia que mulher é feito suspense, “quanto mais deixa para a imaginação, melhor. Tinha uma relação fetichista com as loiras. Suas blonde girls eram frias, distantes, aparentemente frágeis, mas capazes de revelar temperaturas vulcânicas sob um ar ausente. “Essas são as realmente excitantes”, observava. “Não gosto do objeto sexual óbvio, tipo Marilyn Monroe e Jean Harlow, que têm sexo escrito na testa.” Hitch se deixava cativar.

Adorava Vera Miles e não escondeu o desapontamento quando ela não pôde filmar “Um Corpo que Cai” por estar grávida de Gordon Scott, então o Tarzan. “Ela se tornaria uma verdadeira estrela com o filme, mas não resisitiu ao seu Tarzan!”, lamentava: “Deveria ter tomado uma pílula das selvas”. Hitch ainda faria de Vera uma das estrelas da série “Alfred Hitchcock Presents”, tansmitida pela CBS por sete anos e 353 episódios. Quando Ingrid Bergman se casou com Roberto Rossellini, o cineasta se sentiu “trocado”.

A maior paixão, porém, foi Grace Kelly, com quem trabalhou em “Disque M Para Matar”, “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca”. Ele mesmo a descobriu e ele mesmo a perdeu ao levar a equipe para gavar este último filme em Mônaco, dando a chance para que ela conhecesse o futuro marido, o Príncipe Rainier.

Depois de ficar sem Grace, Hitch tentou recriá-la em todas as atrizes com quem trabalhou: Doris Day (O Homem que Sabia Demais), Vera Miles (O Homem Errado), Eve Marie Saint (Intriga Intrernacional), Kim Novak (Um Corpo que Cai), Tippi Hedren (Os Pássaros) e até Julie Andrews (Cortina Rasgada). Se com Grace seu amor era platônico, com Tippi Hedren ele externou seus sentimentos. Ela era a mais parecida fisicamente com a princesa, e as investidas de Hitch foram embaraçosas. “Tippi, ontem sonhei que você disse que me amava”, ele provocava. Sua devoção, no entanto, acabava com a palavra “ação!” Tippi enfrentou tamanha tensão na filmagem da cena em que foi atacada por pássaros (Hitchcock achou que usar somente pássaros mecânicos soaria falso) que teve um colapso mental e ficou de licença por uma semana.

Quem parecia não dar a mínima a essas paixões do cineasta era Alma Reville, a única mulher da vida de Alfred Hitchcock, sua companheira por mais de cinquenta anos. Quando se conheceram, em 1921, Alma era roteirista e editora da Players Lasky. “Por dois anos, trabalhamos juntos e ele nunca olhou para mim”, conta ela, “Um dia, ele me ligou e disse: ‘Srta. Reville, aqui fala Alfred Hitchcock. Sou diretor-assistente de um novo filme e gostaria de saber se a srta. aceitaria a posição de monatdora da película’.” Mais tarde, Hitch revelou que a observava discretamente, mas que era constrangedor para um inglês admitir que uma mulher tivesse um cargo mais alto do que o do homem. Em 1926, eles voltavam para a Inglaterra de navio, após as filmagens em locação, quando se declarou. “Estava deitada na minha cabine quando Hitchcock entrou e disse ‘Você se incomodaria em casar comigo?’”, lembra ela. “Sempre quis ser, primeiro, diretor de cinema e, segundo, marido de Alma – não em ordem de preferência, certamente, mas porque sentia que só poderia ter o segundo se tivesse o primeiro”, disse na ocasião.

Ela tornou-se sua companheira, consultora e colaboradora indispensável. Participou de todos os seus filmes, em alguns aparecendo como roteirista, em outros colaborando anonimamente. Ela descreve o marido como “o mais calmo dos homens”. “Hitch é um esvaziador de cinzeiros, nunca lava as mãos sem usar duas ou três toalhas para enxugar as torneiras e a pia”, revela. Alma conta que Hitch encarava os problemas com rara serenidade. “Procuro ver as coisas como se fossem recordações de três anos atrás”, explicava ele. Tiveram uma filha, Patricia, que apareceu em sucessos como “Pacto Sinistro” e “Psicose”, além principalmente de vários episódios de mistério e suspense da série de TV “Alfred Hitchcock’s Presents”, entre os anos de 1955 e 1960, creditada como Pat Hitchcock.

Hitch e Alma adoravam ficar em casa, mais precisamente, na cozinha, preparando banquetes para dois. “Comida é o único substituto para o sexo”, brincava ele. Os amigos acreditavam que a base da felicidade dos dois estava muito mais numa profunda amizade do que na atração física. Alguns até se arriscavam a dizer que Hitch não era muito chegado ao assunto. “Minha atitude em relação ao sexo é a mesma que em relação a todos os aspectos de meu trabalho: discreta, mas vital”, defendia-se. Ele admitia, porém, que havia casado virgem e que nunca foi um perito no sexo oposto. No trabalho, Alma era sua crítica mais severa. “Ele sempre aceitava minhas sugestões”, afirmava. Mas o que mais a impressionava, porém, era sua metodologia.

Entre todos os seus filmes, “Psicose” foi o de maior bilheteria e só custou oitocentos mil dólares. A clássica cena do chuveiro – que dura 45 segundos, tem 78 diferentes posições de câmera e levou uma semana para ser realizada – gerou polêmica: Hitchcock garante que o mérito é dele, mas tudo indica que Saul Bass foi o mentor. “Hitch não gostava de usar truques de câmera, e a cena foi filmada num estilo pouco hitchcockiano”, observou Bass. “Ele aprovou minhas ideias e, na hora de rodar, falou, ‘você sabe o que fazer, vá em frente’.” Hitchcock conta que filmou em preto-e-branco porque temia que o sangue vermelho na banheira – na verdade, calda de chocolate – ficasse repugnante. A princípio, ele concebeu como muda a cena do assassinato. Coube a Bernard Herrmann compor os acodes que entrariam para a história. À época do lançamento, Hitch recebeu a carta de um sujeito dizendo que sua filha tinha visto o filme francês “As Diabólicas”, em que há um assassinato na banheira, e nunca mais tomou banho ali. E que agora, ao assisitir a “Psicose”, não queria nem entrar no chuveiro. “Sugeri que mandasse a garota para uma lavagem a seco.”

O filme se inspirou nos modelos góticos de terror que vinham ganhando popularidade na época graças às produções da inglesa Hammer, e no ritmo dos episódios do seriado de TV do cineasta, tendo como base uma história macabra de Robert Bloch sobre uma ladra que encontra um rapaz esquisito, dominado pela mãe, que toma conta de um motel em ruínas. Segundo Hitchcock, “Psicose” foi feito de forma despretensiosa: “Eu não o empreendi com a ideia de fazer um filme importante. Pensei que podia me divertir fazendo uma experiência. ‘Posso fazer um filme de longa metragem nas mesmas condições de um filme de televisão?’. Usei uma equipe de televisão para rodar muito rapidamente. Só reduzi o ritmo da filmagem quando rodei a cena do assassinato no chuveiro, a cena da limpeza e uma ou duas outras coisas que marcavam o escoamento do tempo. Todo o resto foi rodado como na televisão.”

Hitchcock mudou apenas uma vez de estilo, com a comédia “Um Casal do Barulho”. Foi um fracasso. “Eu me especializei no suspense por uma razão estritamente comercial”, explicava. “O público espera de mim um certo tipo de história e não quero decepcioná-lo.” Apesar disso, negava ter um estilo. “Só se plagiar a si mesmo seja o que chamamos de estilo.” O cineasta também nunca concordou com a associação das palavras cinema e arte. “Talvez esse maldito conceito tenha sido imposto quando alguém decidiu chamar de estúdio e não de fábrica o lugar onde os filmes são feitos”, debochava.

Embora tenha sido indicado cinco vezes ao Oscar de melhor diretor, Hitchcock jamais foi premiado. Receberia apenas um Oscar honorário. Os críticos da época não viam seus filmes com bons olhos. André Bazin, por exemplo, considerava-o frio e artificial. Quem vinha em sua defesa era François Truffaut, o maior admirador: “O problema é que Bazin ama o cinema e os homens. Hitchcock ama só o cinema”. Hitch nunca teve interesse em mensagens ou na moral da história. Ele queria apenas divertir e se divertir. Considerava-se um artesão, um contador de histórias. Ser criador, detentor de reflexões profundas e definitivas sobre a vida e a morte, a história e a política, o amor e Deus, eram coisas que pouco o preocupavam. “Não quero que meus filmes seja pedaços de vida, prefiro que sejam vistos como delicioso pedaços de bolo de chocolate”, dizia o mestre. O público adorou a receita e o transformou num dos poucos cineastas cujo nome e imagem eram chamarizes mais fortes do que o nome das estrelas de seus filmes.

Para ler a Parte 1 clique aqui.
Para ler a Parte 2 clique aqui.
Para ler a Parte 4, clique aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: