Atores: Charlton Heston

CHARLTON HESTON, O “SR. ÉPICO”

Nome: John Charles Carter
Nascimento e local: 4 de outubro de 1923, Evanston, Illinois
Morte e local: 5 de abril de 2008, Beverly Hills, California
Ocupação: Ator
Nacionalidade: Norte-americana
Casamento: Lydia Clarke (1944-2008)

Nascido John Charles Carter, notabilizou-se no cinema por viver papéis heróicos e personagens históricos em superproduções da época de ouro de Hollywood, como Moisés de “Os Dez Mandamentos”, Judah Ben-Hur de “Ben-Hur”, o lendário cavaleiro espanhol El Cid no filme homônimo e Robert Neville em “A Última Esperança da Terra”.

Em 1952, o filme “O Maior Espetáculo da Terra”, de Cecil B. DeMille, transformou Heston numa estrela de primeira grandeza do cinema. A partir dali, seu porte ereto, sua altura e o perfil musculoso, lhe dariam os papéis mais simbólicos nas superproduções dos anos 50 do cinema norte-americano.

Certa vez, perguntaram a Fraser Heston qual era a profissão de seu pai. “Ele finge que é outra pessoa”, respondeu o menino. De fato desde menino, Charlton Heston fingia ser Gary Cooper ou Errol Flynn em suas brincadeiras, inspiradas por intermináveis sessões de cinema. Foi assim que ele descobriu que atuar era tudo o que queria na vida e apesar desse ideal romântico, sua vida foi cercada de austeridade, rigor, praticidade e até mesmo uma certa arrogância, que ele próprio descrevia como “responsabilidade”.

Típico pai de família quadradão, marido fiel e profissional correto, Heston ergueu um muro ao seu redor para se proteger e proteger sua família da curiosidade que uma celebridade pode despertar no público e na mídia. Heston nunca gostou de multidões ou do agito de Hollywood. Suas declarações sempre foram levadas ao extremo, graças ao seu passado de Republicano e a sua eleição para a vice-presidência da famigerada Associação Nacional do Rifle, que defende o uso de armas de fogo nos EUA. Em contrapartida, assumiu postos de prestígio, como a presidência da Associação dos Atores de Cinema e do American Film Institute.

De língua afiada, criticou os novos diretores, como Tarantino: “James Cagney viveu maníacos que tiveram finais violentos, como mereciam, ao contrário do que ocorre com os filósofos-assassinos que o Sr. Tarantino nos dá em “Pulp Fiction”. Para ele, o ator deveria se dedicar, pelo menos uma vez, a um texto de Shakespeare, e chegou a abordar Robert De Niro sobre a temeridade de um ator do seu porte nunca ter feito Shakespeare. Fã de Laurence Olivier, teve a honra de ser dirigido por ele na peça “The Tumbler”, um dos seus poucos fracassos de crítica e de público. Diante do prejuízo, ele afirmou ter sido o único que saiu lucrando com o espetáculo: “Aprendi com Laurence Olivier o que jamais teria aprendido na vida”.

Heston se considerava um anti-astro, diante da ilusão que o público criava em torno dos atores de Hollywood, e que depois eram ridicularizados quando apareciam bêbados ou envolvidos em ocorrências policiais. “Afinal, sempre levei uma vida respeitável, sou casado com a mesma mulher há 54 anos, tenho dois filhos normais e nunca saí por aí dando sopapos em ninguém depois de uma noitada”. Mas Heston também estava enganado. Ele foi um astro de verdade, no sentido literal da palavra e exatamente por ser o oposto de tudo o que o termo representa em Hollywood.

Foi uma vida inteira de austeridade e coerências que fez com que este senhor de 1m88, atlético, rosto forte, de ossos salientes, se encaixasse com perfeição a personagens como Moisés, Michelangelo, Ben-Hur, João Batista, El Cid ou o Cardeal Richelieu.

Personagens históricos

Cinco décadas atrás, Charlton Heston almoçava na Paramount quando o lendário diretor Cecil B. De Mille se aproximou dele e lhe entregou um papel: “Leia isto”, ordenou o cineasta, e Heston recitou o texto: “É necessário que eu vá reconhecer essa grande maravilha…” Ao final, De Mille deu-lhe um tapinha nas costas. “Como eu esperava!”, celebrou: “Eu te enviarei ao faraó para fazeres sair do Egito os filhos de Israel”. Semanas depois, com barba postiça e uma túnica colorida, Heston interpretava Moisés na superprodução “Os Dez Mandamentos”. Em sua autobiografia, De Mille contou que antes de gravar uma cena importante, o astro ficava sozinho, já caracterizado, concentrando-se. Quando um jornalista perguntou a Heston quase eram seus pensamentos enquanto partia o Mar Vermelho, ele respondeu: “Eu estava rezando para que o bendito tanque de água funcionasse”.

O astro sempre preferiu a simplicidade e detestava quando o chamavam de Sr. Heston. Preferia Chuck. Até o fim da vida, tentou levar uma vida saudável e cheia de disciplina, e manteve a integridade quando anunciou que sofria de uma doença que lhe tirava pouco a pouco a memória e suas funções vitais. Da mesma forma como ocorreu com seu amigo, o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan. “Devo ter coragem e resignação”, disse na ocasião Heston, quando se viu obrigado a fechar definitivamente as portas para o cinema e a qualquer atividade pública à frente da National Rifle Association, organização americana em favor das armas que liderou durante anos.

Por conta disto, ele aceitou participar do filme-documentário de Michael Moore, ‘Tiros em Columbine’, que retrata justamente a facilidade de se comprar armas nos EUA, mas ficou indignado ao ser interpelado duramente pelo cineasta durante a entrevista para o filme.

Paixão pela interpretação

John Charlton Carter, como foi batizado, nasceu em Evanston, Illinois, em 4 de outubro de 1923. Teve um começo complicado: os pais se separaram quando era bebê. Do pai, conservou poucas e vagas lembranças. Sua mãe, Lilla, casou-se de novo com um Sr Heston. Com o padrasto, comerciante de madeiras, mudou-se para as florestas do Alto Michigan e fez o primário numa escola que tinha treze alunos e uma única sala.

Dez anos depois, em uma situação mais próspera, os Heston mudaram-se para Chicago, onde o ator diz ter sido profundamente infeliz: “Eu era um bicho do mato. O tráfego dos automóveis me apavorava, e os ruídos urbanos flagelavam meus nervos.” Na escola, sentia-se desgostoso. Até os dezesseis era bem mais baixo que os colegas e depois disparou a crescer. Tentou aprender a dançar para não dar vexame em seu primeiro baile e para se enturmar, entrou para o time de futebol. Desistiu após ganhar um nariz quebrado. Já na faculdade, as coisas começaram a melhorar quando ele iniciou suas aula de interpretação. Foi nessa época que bateu os olhos numa moreninha que sentava à sua frente, Lydia Clarke. “Eu me declarava a ela semanalmente e perdia a conta de quantas vezes falei sobre casamento”, afirmou o ator.

Charlton Heston ao lado da mulher Lydia em 5 de setembro de 1963, durante a premiere do filme ’55 dias em Pequim’ (Foto: AP)

Com a entrada dos EUA na Guerra, Heston foi convocado para a Força Aérea. A notícia de que seria enviado para a frente de batalha chegou junto com o telegrama de Lydia, aceitando o pedido de casamento. A cerimônia, realizada em 1944, foi improvisada, já que ele se preparava para a guerra: “Todo mundo diz que o primeiro ano de casamento é o mais difícil”, comentou o ator: “O meu foi facílimo, pois não a vi por um ano e meio, período em que Lydia terminou seus estudos e eu tratei de não ser baleado”.

De volta para casa e disposto a tentar carreira na Broadway, ele mudou-se com a esposa para Nova York, onde Lydia trabalhou como modelo enquanto seu marido procurava trabalho. Foram contratados como diretores e atores de um teatro na Carolina do Norte e em vez de uma peça, fizeram seis, o suficiente para que Heston descobrisse que gostava mesmo de atuar e não de dirigir.

De volta à Nova York, ele debutou na Broadway em 1948, com “Antônio e Cleópatra”, e depois foi trabalhar na TV – uma das suas fases mais felizes, graças aos amigos que conquistou – gente como Paul Newman, Anne Bancroft, Jack Lemmon. e diretores novatos como Arthur Penn e John Frankenheimer. Foi sua atuação como Antônio em uma versão de Júlio César que chamou a atenção do produtor Hal B. Wallis. Foi um dos poucos atores independentes da época, com contratos que permitiam que trabalhasse com quem quisesse. De Mille o escalou para a sua saga circense “O Maior Espetáculo da Terra”, mas até ser chamado para interpretar Moisés, Heston precisou trabalhar em muitos Filmes B.

Não foi só o Mar Vermelho que se abriu diante dele, mas também a Calçada da Fama. E embora tenha atingido o sucesso, Heston nunca se deixou embriagar por ele e parte do crédito coube à sua esposa Lydia, que além de paciente com as manias do ator quando estava atuando, também largou a carreira para se dedicar ao filho, Fraser, que nasceu após onze anos de casamento, na época das filmagens de “Os Dez Mandamentos”, e já pôde ser visto em cena, como o bebê Moisés. Seis anos mais tarde, o casal decidiu adotar uma menina, Holly Ann.

“Não era brincadeira ouvir ele falar horas sobre o Império Romano ou narrar uma passagem inteira da Bíblia”, comentou Lydia. Pior mesmo é quando Heston passava os dias vestido com o figurino de seus personagens ou ficava o dia inteiro ouvindo a trilha sonora dos filmes em que atuou. “Mas eu não posso aparecer no set com jeito de quem usa uma toga pela primeira vez”, ele explicava, ou então dizia “se você tivesse ganho tanto dinheiro quanto eu com o filme, sentiria um prazer enorme em ouvi-la”, referindo-se à música composta por Miklos Rosza para o épico “Ben-Hur”, de 1958.  Vencedor de onze Oscar, o filme de William Wyler é um marco. Depois que outros astros da época recusaram o papel, Heston foi agraciado com o personagem que lhe renderia o Oscar e a fama imorredoura. Antes das filmagens, passou dois meses aprendendo a dirigir bigas: “Aquele com cara de medo na corrida de bigas era eu mesmo”.

O curioso é que, embora o apelido de Heston seja “Sr. Épico” e seu nome seja sinônimo de personagens bíblicos ou históricos, ele fez muito mais filmes de outros gêneros. Basta lembrar da ficção científica “O Planeta dos Macacos”, dos filmes-catástrofes “Aeroporto 1975” e “Terremoto” ou do thriller policial “A Marca da Maldade”, de Orson Welles.

Protegido por sua vida de reclusão, o ator continuou trabalhando em seus últimos anos. Só em 1998, atuou em quatro filmes, entre eles “Armageddom”. Depois de muita relutância e controvérsias, acabou concordando em atuar no remake de “O Planeta dos Macacos”, dirigido por Tim Burton, em papel inverso daquele que fez na versão de 1968: sob uma pesada fantasia, ele faz o pai do personagem de Tim Roth, um macaco que no leito de morte faz discursos contra a violência.

Afastado das telas desde 2002 devido ao agravamento de uma doença degenerativa com sintomas similares aos do Mal de Alzheimer, ele faleceu na noite de 5 de abril de 2007, em sua residência de Beverly Hills. “Aos seus amados amigos, colegas e fãs, nós agradecemos suas preces e apoio”, disse a família em comunicado divulgado à imprensa: “Ninguém poderia pedir uma vida mais plena do que a dele. Nenhum homem poderia ter dado mais à sua família, profissão, e ao seu país. Nas suas próprias palavras: ‘Eu vivi uma vida tão maravilhosa! Eu vivi o bastante para duas pessoas'”, acrescentou a nota.

Filomografia:

Peer Gynt (1941) (filme estudantil)
Julius Caesar (1950) (1950)
Cidade Negra (1950)
O Maior Espetáculo da Terra (1952)
Trágica Emboscada (1952)
A Fúria do Desejo (1952)
O Destino Me Persegue (1953)
As Aventuras de Buffalo Bill (1953)
O Último Guerreiro (1953)
Ambição que Mata (1953)
A Selva Nua (1954)
O Segredo dos Incas (1954)
Aventura Sangrenta (1955)
A Guerra Íntima do Major Benson (1955)
Lucy Galante (1955)
Os Dez Mandamentos (1956)
Trindade Violenta (1957)
A Marca da Maldade (1958)
Da Terra Nascem os Homens (1958)
O Corsário sem Pátria (1958)
O Navio Condenado (1959)
Ben-Hur (1959)
The Fugitive Eye (1961) (TV)
El Cid (1961)
O Pombo Que Conquistou Roma (1962)
Os Tiranos também Amam (1963)
55 Dias em Pequim (1963)
A Maior História de Todos os Tempos (1965)
Juramento de Vingança (1965)
Agonia e Êxtase (1965) … Michelangelo
O Senhor da Guerra (1965)
Khartoum (1966)
Maugli (1967) (narrador da versão inglesa)
Os Heróis não Se Entregam (1968)
Planeta dos Macacos (1968)
E o Bravo Ficou Só (1968)
Number One (1969)
The Festival Game (1970) (documentário)
King: A Filmed Record… Montgomery to Memphis (1970) (documentário)
De Volta ao Planeta dos Macacos (1970)
Júlio César (1970)
O Senhor das Ilhas (1970)
A Última Esperança da Terra (1971)
À Sombra das Pirâmides (1972)
Voo 502 em Perigo (1972)
Catástrofe nas Selvas (1972)
No Mundo de 2020 (1973)
Os Três Mosqueteiros (1973)
Aeroporto 75 (1974)
Terremoto (1974)
A Vingança de Milady (1974)
Os Últimos Machões (1976)
Midway (1976)
America at the Movies (1976) (documentário) (narrador)
Pânico na Multidão (1976)
O Príncipe e o Mendigo (1977)
SOS Submarino Nuclear (1978)
Os Homens da Montanha (1980)
Reencarnação (1980)
A Montanha de Ouro (1982)
Chiefs (1983) (minissérie)
The Fantasy Film Worlds of George Pal (1985) (documentário)
Directed by William Wyler (1986) (documentário)
Traição e Honra (1987)
Solar Crisis (1990)
As Aventuras na Ilha do Tesouro (1990)
Quase um Anjo (1990)
Genghis Khan (1992) (não completado)
Quanto Mais Idiota Melhor 2 (1993)
SeaQuest DSV (1993) (TV)
Tombstone – A Justiça Está Chegando (1993)
A Century of Cinema (1994) (documentário)
True Lies (1994)
À Beira da Loucura (1995)
Friends (1995) (ele mesmo)
O Anjo Vingador (1995) (TV)
The Dark Mist (1996) (narrador)
Alaska – Uma aventura inacreditável (1996)
Ben Johnson: Third Cowboy on the Right (1996) (documentário)
Hamlet (1996)
Hércules (1997) (narrador)
Off the Menu: The Last Days of Chasen’s (1997) (documentário)
Armagedom (1998) (narrador)
Gideon – Um anjo em nossas vidas (1999)
Um Domingo Qualquer (1999)
Ricos, Bonitos e Infiéis (2001)
Como Cães e Gatos (2001) (voz)
Planet of the Apes (2001)
Last Party 2000 (2001) (documentário)
A Irmandade (2001)
Tiros em Columbine (2002) (documentário)
Josef Menguele (2003)

Tributo:

Galeria de Fotos:

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