Grandes Diretores: Alfred Hitchcock -Parte 2

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS PARTE 2/4
A elegância, diga-se de passagem, sempre foi a marca registrada de Hitch. Tanto nas imagens quanto na aparência. O diretor estava sempre de terno, mesmo sob o calor escaldante do verão californiano.

E foi para a Califórnia que Hitchcock se mudou, em 1939, ao aceitar o convite do produtor David O. Selznick. A essa altura, Hitch tinha no currículo clássicos como “Chantagem e Confissão”, “O Homem que Sabia Demais” e “Os 39 Degraus”. Sua estreia na América não poderia ter sido melhor: “Rebecca, a Mulher Inesquecível” levou o Oscar de melhor filme.

“Rebecca”, era baseado em romance gótico de Daphne Du Marier, mas o gênio criativo de Hitchcok logo bateu de frente com o gênio manipulador de Selznick, que insistia em ter a palavra final sobre todos os detalhes dos filmes que produzia. Por isso, a vinda de Alfred Hitchcock para os Estados Unidos não significou apenas a aquisição de um grande diretor europeu para o universo cinematográfico de Hollywood: tal ato acabaria por se transformar numa verdadeira revolução.

Hitch já era famoso mundialmente como o “mestre do suspense” quando emigrou da Inglaterra para os Estados Unidos, em 1939, sob a segurança de um contrato de 7 anos assinado com David O. Selznick, o todo-poderoso produtor de “E o Vento Levou”. Segurança falsa, entretanto. Trabalhar para Selznick significava dar ao produtor o controle total da obra, algo que Hitchcock fazia questão de manter sob seu próprio domínio. A tensão entre os dois homens foi intensa e produziu inúmeros choques, o que mudaria a história do cinema: o poder passaria das mãos do produtor às mãos do diretor.

Sobre o filme, Hitchcock declarou depois: “Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto de fadas e a própria história pertence ao fim do século XIX. Era uma história bastante antiquada, bem fora de moda. Havia muitas mulheres escritoras naquela época: não sou hostil a elas, mas ‘Rebeca’ é uma história que carece de humor.”

O problema entre os dois homens não se limitaria ao controle da obra cinematográfica: o diretor inglês também seria explorado economicamente. Selznick o alugava para outros estúdios por um valor maior do que pagava, ficando com a diferença. Neste “empréstimo”, Hitchcock conseguiria liberdade, fazendo, inclusive algumas novas experiências, como a comédia “Um Casal do Barulho” e uma filmagem inteira no mesmo set, num barco, em “Um Barco e Nove Destinos”. Mas foi com o suspense que Hitch iria se destacar. “Correspondente Estrangeiro” e “Sabotador” não acrescentariam muito à obra do diretor. Mas suas obras-primas do período “emprestado” foram “Suspeita” e “A Sombra de uma Dúvida”.

Porém, o filme que mais problemas deu a Hitch nessa época foi “Quando Fala o Coração”, um projeto do próprio Selznick (que curou-se de uma profunda depressão graças à psicanálise) que queria adaptar um romance (“The House of Dr. Edwardes”, de Francis Beeding, Hilary St George Saunders e John Palmer) passado num asilo, mas tantas interferências na história e na maneira de contá-la, senão prejudicaram o sucesso comercial do filme, transformou-o em um dos mais impessoais da carreira de Hitch. O cineasta percebeu que, se quisesse ter o domínio sobre os seus filmes, teria de ser também o produtor.

De qualquer forma, “Quando Fala o Coração” apresentou Hitchcock ao extraordinário escritor Ben Hecht, com o qual desenvolveu o roteiro de “Interlúdio”, que acabou vendido por David O Selnick para a RKO antes de ter sido concluído. Com o fracasso comercial do seu filme seguinte, “Agonia de Amor”, um drama de tribunal feito para cumprir contrato, mesmo estrelado por um elenco com Gregory Peck, Charles Coburn e Charles Laughton, Hitch cumpriu seu contrato com Selznick e estava livre para iniciar a sua fase mais genial.

Mas a “Grande Fase” do cineasta começou com uma série de fracassos que pareciam condená-lo ao ostracismo, inclusive com a falência de sua produtora, a “Transatlantic Pictures”, em sociedade com Sidney Bernstein. O primeiro projeto foi bastante ousado: “Festim Diabólico”, que viria a ser também o seu primeiro filme colorido. O roteiro foi retirado de uma peça teatral e era bastante complexo, tratando de homossexualismo, assassinato e humor negro (temas polêmicos que Hitch adorava trabalhar): dois jovens matam um amigo e dão uma festa para ele, com sua própria presença (seu corpo foi escondido num porta livros horizontal na sala, onde seria servida a comida e bebida) para seus amigos, família e namorada. Um professor, interpretado por James Stewart, que também estava na festa, é quem descobre o crime.

Se a trama era polêmica, a forma de filmá-la não ficava atrás: Hitch fez um filme contínuo, sem cortes, utilizando longas seqüências de 10 minutos (que era o máximo de tempo que as fitas da época permitiam, sendo que os cortes nos finais foram disfarçados, com a câmera indo até uma substância plana e escura, como as costas de algum personagem ou a madeira de um móvel). As dificuldades para este tipo de filmagem foram muitas.

A técnica de longos planos era completamente contrária à filosofia do próprio Hitchcock, que, até então, conseguia suspense com a montagem (pequenos planos diferentes juntados). Embora “Festim Diabólico” tenha sido um filme empolgante e inteligente, não foi um grande sucesso. E o diretor iria tentar outra vez a técnica de longas tomadas no seu próximo filme, “Sob o Signo de Capricórnio”. Fascinado por conseguir Ingrid Bergman para o papel principal, Hitchcock filmou um romance de época, assim como tinha sido com “Rebeca, a Mulher Inesquecível”. A contratação de Bergman desequilibrou o orçamento e, ao mesmo tempo, fez o diretor sofrer com o mau humor da atriz, que reclamava constantemente das filmagens.

Hitchcock amargaria outro fracasso, agora pelos estúdios Warner, com “Pavor nos Bastidores”. Para o mundo de Hollywood, era praticamente uma sentença de morte: poucos diretores conseguiram se recuperar depois de tantos fracassos em seguida. Mas Hitch iria inverter a lógica, recuperando-se com o clássico “Pacto Sinistro”, baseado numa obra de Patricia Highsmith, com a colaboração de Raymond Chandler, um dos maiores escritores da literatura policial norte-americana. Hitch fez um dos seus mais intensos e famosos filmes.

O filme seguinte, “A Tortura do Silêncio”, trouxe problemas no relacionamento entre o cineasta e o ator Montgomery Clift, que insistia em atuar conforme um “método” que buscava justificativas emocionais e psicológicas, coisas que nunca interessaram Hitchcock. O fracasso, mais um, porém, não atrapalhou o cineasta de encontrar nos Estúdios da Paramount a sua “casa” em 1954. Ali realizaria seus melhores e mais populares filmes: “Janela Indiscreta”, “Ladrão de Casaca”, “O Terceiro Tiro”, “O Homem que Sabia Demais”, refilmagem de seu próprio filme de maior bilheteria da “fase inglesa”, de 1934) e “Um Corpo que Cai”.

Nos anos 50, dirigiria uma série de obras-primas. Começando com “Janela Indiscreta”, de 1954, que é um triunfo de técnica, uma aula de cinema e de suspense para cinéfilos e as gerações futuras de cineastas. Em um cenário construído inteiramente em estúdio, filmando praticamente o tempo todo em um pequeno espaço (o apartamento do personagem de Jimmy Stewart), Hitchcock aborda o voyeurismo e a dúvida na investigação de um assassinato que ninguém sabe se realmente aconteceu até os momentos finais do filme, um dos grandes momentos do suspense no cinema: preso à uma cadeira de rodas, o personagem de Jimmy tenta se proteger do ataque do assassino vivido por Raymund Burr.

O filme foi o seu segundo trabalho de Hitch com a atriz Grace Kelly, que quer seja por sua beleza e elegância impecáveis, quer seja por seu ar de frieza e distanciamento que ocultavam uma mulher sedutora e fatal, era considerada pelo cineasta a perfeita encarnação da sua heroína loira tradicional. Sua atuação na adaptação para as telas da peça “Disque M Para Matar” naquele mesmo ano, conquistou o público e a crítica, mas acimea de tudo conquistou o cineasta, que a escalaria para seus dois filmes seguintes, “Janela Indiscreta”, que apesar do pequeno papel, Grace protagoniza uma das melhores cenas do filme quando sua personagem invade o apartamento de Thornwald, o suposto assassino, em busca de algo que de fato o incrimine, e depois em “Ladrão de Casaca”, que marcaria o início de seu romance e eventual casamento com o Príncipe Rainier de Mônaco, o que a afastaria para sempre do Cinema.

A comédia de humor negro – rara incursão pelo gênero – “O Terceiro Tiro”, de 1956, revelou o talento da estreante Shirley MacLaine, e embora seja um filme menor e quase esquecido dentro de uma filmografia que beira a genialidade, merece ser redescoberto. Em seguida, refilmou um de seus grandes sucessos dos anos 30, ainda na Inglaterra: “O Homem que Sabia Demais”, repetindo a parceria com o ator James Stewart, e com Doris Day como a heroína loira da vez. Embora tenha ficado abaixo da qualidade do original, principalmente pela falta de credibilidade dos atores como casal, o filme tem pelo menos uma sequência antológica, onde o gênio criativo do cineasta se faz notar através da qualidade da montagem e da construção do suspense: um assassinato que será cometido durante a apresentação de uma orquestra sinfônica. Seu filme seguinte foi o drama intimista “O Homem Errado”, onde consegue extraordinárias atuações de Vera Miles e Henry Fonda, no papel de um homem pacato e honesto que é confundido com um ladrão.

Hitchcock terminaria a década de 50 em grande alta, graças a “Um Corpo que Cai” e “Intriga Internacional”, seus filmes seguintes, considerados as suas obras-primas. No primeiro, Hitchcock quis contar a história de um homem que reconstrói uma mulher morta, quando encontra outra muito parecida com ela. Aqui, o prenúncio sobrenatural é mero pretexto para uma história envolvente de obsessão, necrofilia e suspense, com sequências antológicas filmadas em belas locações de San Francisco. O filme seria revelador das ideias e fixações do diretor, em particular com as mulheres loiras. Na verdade, o filme carregava a idéia do diretor em construir sua atriz ideal e Kim Novak não era sua primeira escolha. Ele nunca ficou muito satisfeito com sua interpretação e buscava nela e nas outras atrizes com quem trabalhou posteriormente o ideal sutil de beleza de Ingrid Bergman e Grace Kelly. O final trágico e chocante, porém, resultou em uma fraca bilheteria, apesar da elogiada atuação de James Stewart e do reconhecimento da crítica. “Um Corpo Que Cai” ficou conhecido pelo uso do que ficou conhecido como “Hitchcock Zoom“, um truque de câmera utilizado para passar ao espectador a sensação de vertigem sofrida pelo protagonista através da distorção de perspectiva.

Mas “Intriga Internacional” seria um grande sucesso, podendo ser considerado como seu melhor filme de viagem e perseguição (Gary Grant é confundido com um agente secreto e tenta provar sua inocência enquanto foge, por todo os Estados Unidos, da polícia e da organização secreta inimiga, temática semelhante aos filmes “Os 39 Degraus”, “Jovem e Inocente” e “Sabotador”). Com um roteiro complexo e perfeito (o próprio Hitchcock adorava contar a história de que Cary Grant não tinha a menor ideia do que estava filmando), vilões sensacionais (com as notáveis interpretações de James Manson e Martin Landau) e sequências sensacionais (o assassinato dentro da ONU; o avião atacando Cary Grant no deserto; a cena das Montanhas Rushmore, onde estão esculpidas as faces de quatro presidentes dos Estados Unidos), podemos dizer que este é o melhor filme de espionagem de todos os tempos.

Neste ínterim, o diretor teria uma série de televisão, a Alfred Hitchcock Presents (no Brasil recebeu o nome de Alfred Hitchcock ou Suspense). Com histórias criativas, cheias de humor negro e suspense, o seriado teria grande sucesso. O próprio Hitchcock apresentava os programas com entradas criativas e bem humoradas. Estas entradas retratando um Hitchcock levemente bobo tiveram um efeito duplo: popularizaram o diretor para um grande e novo público, mas o afastaria de vez do público mais intelectualizado. O sucesso do seriado o tornaria o diretor de cinema mais rico e popular do final dos anos 50 e início dos anos 60. Esta fama iria confirmar-se ainda mais com “Psicose”, de 1960.

Para ler a Parte 1 clique aqui.
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