Grandes Clássicos: Matar ou Morrer (1952)

MATAR OU MORRER
Título Original: High Noon
País: Estados Unidos
Ano: 1952
Duração: 85 min.
Direção: Fred Zinnemann
Roteiro: Carl Foreman, baseado na história The Tin Star, de John W. Cunningham
Música: Dimitri Tiomkin, com letra da canção “Do Not Forsake Me, Oh My Darling”, por Ned Washington
Produção: Stanley Kramer Productions
Distribuição United Artists
Elenco:
Gary Cooper (Will Kane)
Grace Kelly (Amy Fowler Kane)
Katy Jurado (Helen Ramirez)
Thomas Mitchell (Jonas Henderson)
Lloyd Bridges (Harvey Pell)
Otto Kruger (Judge Percy Mettrick)
Lon Chaney (Martin Howe)
Harry Morgan (Sam Fuller)
Ian MacDonald (Frank Miller)
Eve McVeagh (Mildred Fuller)
Morgan Farley (pastor)
Harry Shannon (Cooper)
Lee Van Cleef (Jack Colby)
Robert Wilke (James Pierce)
Sheb Wooley (Ben Miller)
Tom London (Sam)
Sinopse:
No dia do seu casamento com a bela Amy, o xerife Will Kane recebe a notícia de que o perigoso bandido Frank Miller que ele capturou anos atrás saiu da cadeia e agora estará de volta no trem do meio-dia em busca de vingança. Seus amigos aconselham-no a fugir, mas quando Kane resolve ficar e enfrentar Miller e seu bando, amedrontados, todos os habitantes da cidade se recusam a ajudá-lo.

As listas dos dez melhores westerns de todos os tempos em geral incluem o filme de Fred Zinnemann “Matar ou Morrer” – e as que não incluírem estão erradas, na opinião de muitos fãs e críticos de cinema. Para muitos, este é o melhor faroeste de todos. Mas não é apenas para fãs de western. É um grande filme, uma obra-prima, um grande painel político de um país em uma época de trevas em sua sociedade. Western antológico, feito em tempo real: sua duração corresponde ao tempo efetivo em que a ação se desenrola. Por isso, o filme mostra vários relógios, intensificando o suspense à medida que os ponteiros avançam para o meio-dia. Oscar de ator para Gary Cooper, montagem, trilha sonora e canção (“Do Not Forsake me, Oh My Darling”), de Dimitri Tiomkin e Ned Washington.

Um contundente estudo sobre o medo de uma cidade que reflete um triste período da sociedade norte-americana

Com um argumento simples, o renomado cineasta Fred Zinneman realizou um faroeste antológico. Já no título em português, “Matar ou Morrer” define o dilema essencial de todo e qualquer faroeste que se preza. À maneira de John Ford, e de maneira precisa e brilhante, Zinneman faz prevalecer toda a mitologia do velho oeste (talvez a verdadeira essência da mitologia americana) às vésperas de seu desaparecimento das telas do cinema, devido ao declínio do gênero nas décadas seguintes. Ao lado de “Shane – Os Brutos Também Amam”, “Matar ou Morrer” ainda sorveu do prestígio que o gênero gozava nos anos dourados de Hollywood, o que se faz notar na caprichada produção da United Artists.

Favorito ao Oscar daquele ano, perdeu para “O Maior Espetáculo da Terra”, de Cecil B. De Mille, mas ganhou nas categorias de Música, composta por Dimitri Tiomkin e de Canção (a balada “High Noon – Do Not Forsake Me, Oh My Darling”, composta por Tiomkin e Ned Washington, e cantada por Tex Ritter), além das merecidas estatuetas para Gary Cooper como Melhor Ator (o segundo de sua carreira, após a vitória com “Sargento York”, de 1941) e para a excelente montagem de Elmo Williams e Harry Gerstad. Como todo o filme se passa em tempo real (isto é, sua duração equivale ao tempo em que a ação se desenrola na tela), a montagem responde pelo clima tenso que permeia os 85 minutos e pelo suspense emocionante que culmina no inevitável confronto final.

Em virtude disso, Zinneman tratou de ampliar a adrenalina, aumentando também a expectativa do público ao mostrar vários relógios, o que injeta uma intensa carga psicológica na narrativa à medida que os ponteiros avançam para o meio-dia. O roteiro foi escrito por Carl Foreman, e foi o último que ele escreveu nos Estados Unidos, antes do seu exílio em Londres por causa de sua inclusão na “lista negra” do Macartismo dos anos 50, o que fez com que muitos críticos vissem na história uma metáfora sobre os perseguidos políticos daquela época. Além disso, não satisfeito em realizar um faroeste perfeito, tecnicamente e artisticamente falando, Zinneman realizou um estudo sobre o medo do ser humano ao mostrar uma cidade inteira refém da sua própria covardia. O xerife vence Miller e seus capangas, mas lança o distintivo na poeira da rua, vira as costas para a população que tanto defendeu e que no final o abandonou e parte com a esposa em lua-de-mel.

Gary Cooper, um dos últimos grandes atores da época de ouro de Hollywood, aos 51 anos, compõe um herói vulnerável e demasiadamente humano, e Grace Kelly, aos 23 anos, em seu primeiro papel principal e no auge da sua beleza dourada, empresta personalidade e força à sua personagem. Sem uma cena, um diálogo ou um tiro além do necessário, “Matar ou Morrer” dura o tempo suficiente para transformar-se num dos grandes filmes americanos de todos os tempos.

Não há fã de westen que não considere “Matar ou Morrer” como um dos melhores da história.

Está no livro “1001 Filmes para se Ver Antes de Morrer”. Está entre os 51 westerns do livro “501 Must-see Movies”. Está entre os 5 westerns do livro “Hollywood Picks the Classics”. A edição de colecionador está no 1,000 “Best Movies on DVD”. Está em segundo lugar entre os 10 melhores westerns do American Film Institute (o primeiro é “Rastros de Ódio” (The Searchers, de John Ford, de 1956). Está entre os 130 melhores filmes segundo a votação popular no iMDB. Foi indicado a sete Oscars, levou quatro – ator para Gary Cooper, montagem, canção original (Dimitri Tiomkin e Ned Washington) e trilha sonora. Teve outros 11 prêmios e oito indicações. Entre esses outros prêmios, levou os Globos de Ouro por ator em drama para Gary Cooper, atriz coadjuvante para Katy Jurado, fotografia em preto-e-branco e trilha sonora.

Como sinopse, o primeiro parágrafo do resumo que o próprio American Film Institute faz do filme:

“Às 10h30 de uma tranqüila manhã de 1870, três bandidos chegam à cidade de Hadleyville, exatamente no momento em que seu xerife, Will Kane, está se casando com uma bela quaker chamada Amy Fowler. Para agradar Amy, Will renuncia a seu posto imediatamente após a cerimônia, mas fica perturbado porque o novo xerife só chegará no dia seguinte. De repente, o chefe da estação ferroviária chega com a terrível notícia de que Frank Miller, um bandido violento que Will prendeu por assassinato cinco anos antes, recentemente recebeu perdão e deve chegar a Hadleyville no trem do meio-dia.”

Will Kane (o papel de Gary Cooper, um dos melhores de sua carreira extraordinária) e Amy (Grace Kelly, com aquela beleza absurda) chegam a deixar Hadleyville, em uma carroça, mas não vão longe. Will logo pára, compreende que tem que voltar e enfrentar a ameaça – o novo xerife ainda não chegou. E volta. Amy é a primeira pessoa a abandoná-lo – diz que, se ele insistir em voltar para lutar contra aqueles homens, ela tomará o trem do meio-dia e irá embora sozinha. Ao contrário de tantos outros que abandonarão Will Kane sozinho por tibieza, fraqueza, covardia, Amy toma a decisão por uma questão de foro íntimo, de crença: sua religião é contra o uso de armas de fogo.

Cada minuto de ação no filme corresponde a um minuto real
São muitas as características que fazem de “High Noon” um filme absolutamente extraordinário, mas talvez a mais aparente, a mais especial, a que o torna único seja o fato de que a ação se passa em tempo real, ou seja, cada minuto de ação corresponde a um minuto do que vemos na tela. Não há corte no tempo, aquela coisa presente em todo tipo de narrativa.

Em “Matar e Morrer” não há corte no tempo. Às 10h30 da manhã daquele domingo, no momento em que o xerife Will Kane está se casando com Amy Fowler, os três bandidos atravessam a cidade a cavalo, rumo à estação ferroviária, onde vão esperar a chegada de Frank Miller no trem do meio-dia. Uma hora e meia, 90 minutos – o filme dura 85 minutos. Durante 85 minutos de extraordinário cinema, acompanharemos os 85 minutos de busca desesperada de Will Kane por auxiliares que possam enfrentar com ele os quatro bandidos que estão aí para matá-lo.
Nestes 60 anos que se passaram desde que Fred Zinnemann dirigiu “High Noon”, foram feitos vários outros filmes em tempo real, ou com boa parte em tempo real. Em 1952, era uma raridade absoluta. Que eu saiba, ou que seja importante, apenas Alfred Hitchcock, o mestre, tinha feito algo assim, em “Festim Diabólico” (Rope, de 1948), no qual ele ousava mais ainda: fez o filme inteiro em um único gigantesco plano seqüência de 80 minutos – 80 minutos de duração de filme, 80 exatos minutos de ação, dentro de um apartamento, a câmara movendo-se em torno de três atores. (Na verdade, não era exatamente um único, porque não havia bobinas de filmes que durassem tanto tempo, mas ele criou seu filme de tal forma que parece um único plano seqüência.)

Uma busca desesperada, diversos personagens e uma montagem brilhante
Fred Zinnemann, ao contrário, não faz planos seqüência; nem mesmo planos muito longos. Há muitos cortes – vemos Will Kane em suas andanças pela cidade à procura de ajuda, mas vamos vendo também diversos outros acontecimentos na cidade. Vemos os bandidos fumando, bebendo, esperando na estação. Vemos o dono da barbearia em seu trabalho, ele também dono da funerária, preocupado com o fato de que só há dois caixões prontos – ele manda seu auxiliar fazer pelo menos mais dois, correndo. Vemos o hotel da cidade, em que vive Helen Ramírez (a bela mexicana Katy Jurado, com um rosto forte, severo, impressionante, na foto), a dona do maior saloon da cidade, que no passado namorou o bandido Frank Miller, depois namorou o xerife Will Kane e agora namora Harvey (Lloyd Bridges, o pai de Jeff e Beau Bridges), o delegado auxiliar de Kane. Vemos o saloon Ramírez, onde um bando de gente bebe desde cedo, e o gerente diz satisfeito para os bêbados matinais que Will Kane estará morto cinco minutos depois que Frank Miller descer do trem. Vemos a igreja que reúne as boas famílias da cidade.

Para mostrar várias ações paralelas que se passam todas naqueles 90 minutos entre o casamento e a hora da chegada do trem com o bandido que vem matar o xerife, o diretor Zinnemann fez um uso genial do trabalho de montagem. Quando estão faltando uns dois minutos para o meio-dia, o high noon do título original, aí então ele dá uma aula de cinema: em dois minutos, ele mostra tomadas dos diversos, dos muitos personagens envolvidos na trama: o xerife Will Kane, Amy, Helen Ramírez, os bandidos, os fiéis na igreja, a cadeira em que Frank Miller estava sentado quando foi condenado. É estonteante: tomadas rápidas, close-ups dos personagens, dos relógios.

Depois dessa seqüência de diversas tomadas, uma passeada geral pelos protagonistas todos da história, há uma tomada que é um show. Vemos o rosto de Will Kane em grande close-up; aí a câmara pega o corpo inteiro do xerife e vai ampliando o campo; um longo zoom para trás, a câmara vai subindo, subindo, subindo, carregada por uma grua, um guindaste, e vemos Will Kane, cada vez menor dentro do campo de visão que se amplia, caminhando sozinho na rua deserta rumo ao seu destino.

A pequena e covarde cidade espelha toda uma sociedade
Carl Foreman conseguiu, em seu roteiro magistral, dar ao espectador uma visão geral de quem são as pessoas, como é a organização social daquela cidadezinha – e conseguiu transformar Hadleyville num microcosmo que espelha toda uma sociedade, todo um país. Não me ocorre um trabalho tão extraordinário de composição de um roteiro que faça isso, que mostre uma pequena cidade como uma célula de um corpo maior, um espelho de toda a sociedade, a não ser “Caçada Humana” (The Chase), o grande filme de Arthur Penn.

É um bangue-bangue para espectador nenhum botar defeito – nem os que não gostam de bangue-bangue, nem o mais fanático adorador de western. Mas é muito mais que um western. É um filme intrinsecamente político, é a radiografia de uma sociedade, é uma grande parábola sobre os Estados Unidos de 1952, um país assolado por uma louca, insana, doentia caça às bruxas, em que, a partir de um comitê do Congresso sobre “atividades anti-americanas”, dezenas e dezenas de artistas de cinema, teatro, televisão, música, foram acusados de ser comunistas ou simpatizantes do comunismo, e por isso proibidos de trabalhar. O império da deduragem, do medo, da paranóia.

Está no iMDB: “O filme foi feito para ser uma alegoria mostrando que muitas pessoas em Hollywood não se opuseram ao Comitê sobre as Atividades Anti-Americanas do Congresso, durante a época da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy.” E o próprio iMDB informa que o roteirista Carl Foreman entrou na lista negra do comitê logo após o lançamento de filme; na verdade, ele já havia se exilado na Inglaterra quando o filme foi completado.

“Matar ou Morrer se passa em tempo real, com a hora fatal se aproximando enquanto a música tema (a balada “Do not forsake, oh my Darling”) insiste em frisar os acontecimentos, com aqueles que o xerife supõe que vão ajudá-lo caindo como pinos de boliche”, diz o livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. E acrescenta, em um bom e preciso texto: “No clímax, que continua pungente mesmo nestes dias de filmes de ação de um homem contra um exército, ele é deixado praticamente sozinho contra quatro vilões. O filme de Zinnemann é ao mesmo tempo um excelente faroeste de suspense e uma perfeita alegoria do clima de medo e suspeita que prevalecia nos Estados Unidos durante a era McCarthy.”

Uma obra-prima. Que não perde nada com o passar do tempo, nem com as sucessivas revisões. Ao contrário: a cada vez fica ainda melhor.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0044706/

High Noon Final:

Do Not Forsake, oh My Darlin’, in Slideshow:

Galeria de Imagens:

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