Arquivos Mensais: agosto \30\UTC 2012

Grandes Diretores: Alfred Hitchcock Parte 3

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS – PARTE 3/4
Hitchcock dizia que Walt Disney era feliz porque se tivesse algum problema com os personagens, ele precisaria apenas passar a borracha

Alfred Hitchcock afirmava que 95% do sucesso de um filme se devia ao diretor e que os atores eram gado, ou melhor, “que deviam ser tratados como gado”. Alguns não davam a mínima, como James Stewart, astro de sucessos como “Um Corpo que Cai” e “Janela Indiscreta”. Para o ator, “então ele é o maior caubói que conheço”. Jimmy ainda contava: “Com Hitch, havia apenas um jeito de fazer uma cena – o dele”. Já Ingrid Bergman se sentia frustrada. Nos sets de “Quando Fala o Coração”, ela pediu para discutir o personagem e ele disse: “Está no roteiro”. Desconhecendo o processo do “MacGuffin” que movia o cineasta, a atriz perguntou: “Mas qual é a minha motivação?”
“O seu salário!”

Em outra ocasião, a atriz insistiu: “Eu não me sinto como a personagem”. “Então simplesmente finja”, rebateu o cineasta.

Quando filmava “Psicose”, Hitch gritava para um Anthony Perkins angustiado, “relaxa Tony, é só um filme!”. O diretor costumava dizer que Walt Disney é que era feliz, pois se tivesse algum problema com os personagens, simplesmente passava a borracha. Kim Novak, estrela de “Um Corpo que Cai”, também reclamava: “Quando ele está gostando do seu trabalho, não fala nada; e se não gosta, também continua mudo, só que te olha com aquela cara de quem está prestes a vomitar”. Para aqueles que, como Paul Newman (formado no conceituado Actor’s Studio) em “Cortina Rasgada”, teimavam em utilizar um “método” de interpretação, Hitchcock avisava: “Faça o que quiser. Há sempre a sala de edição”. Às vezes, o cineasta conseguia ser muito cruel. Durante um teste, uma atriz iniciante perguntou qual era o seu melhor perfil. “Querida, você está sentada em cima dele”, retrucou de forma ácida.

Além de ter uma língua ferina, o diretor adorava fazer brincadeiras, muitas um tanto bizarras. Antes de filmar “Os 39 Degraus”, ele algemou os protagonistas e os deixou assim por horas. “Queria que se acostumassem com a ideia, pois passariam a maior parte do filme daquela forma”, explicava. Durante a divulgação de um filme, ele convidou os jornalistas para um almoço. Nos sets, montou um cemitério, com o nome e a data de nascimento de cada convidado escritos nos respectivos túmulos. Em outro almoço, mandou tingir todos os alimentos de azul. Hitch era de fato um sádico, mal falava com os atores e ainda os desconsiderava publicamente.

Por que, então, todos sonhavam em trabalhar com ele? Porque Hitchcock nunca precisou berrar ou insultar para conseguir o que queria. Sua calma era contagiante. Seu estúdio era descrito como um ambiente de cortesia formal, onde se ouviam “por favor”, “eu sugiro”, “sinto muito”, etc. Um dos técnicos observou: “Não há correrias, ninguém levanta a voz, ninguém discute num set de Hitchcock. Ele próprio dá o exemplo, sentado calmamente, observando”. Um dia, a roda de um carrinho esmagou-lhe um dos pés. Ninguém percebeu nada, até que ele, com uma voz suave, pediu: “Por favor, poderiam tirar o carrinho de cima do meu pé?” Jimmy Stewart disse nunca ter visto Hitch ter qualquer desentendimento com alguém no trabalho.

Pode até ser que com os atores Hitchcock fosse estável e equilibrado, mas com suas estrelas a história era outra. Ele dizia que mulher é feito suspense, “quanto mais deixa para a imaginação, melhor. Tinha uma relação fetichista com as loiras. Suas blonde girls eram frias, distantes, aparentemente frágeis, mas capazes de revelar temperaturas vulcânicas sob um ar ausente. “Essas são as realmente excitantes”, observava. “Não gosto do objeto sexual óbvio, tipo Marilyn Monroe e Jean Harlow, que têm sexo escrito na testa.” Hitch se deixava cativar.

Adorava Vera Miles e não escondeu o desapontamento quando ela não pôde filmar “Um Corpo que Cai” por estar grávida de Gordon Scott, então o Tarzan. “Ela se tornaria uma verdadeira estrela com o filme, mas não resisitiu ao seu Tarzan!”, lamentava: “Deveria ter tomado uma pílula das selvas”. Hitch ainda faria de Vera uma das estrelas da série “Alfred Hitchcock Presents”, tansmitida pela CBS por sete anos e 353 episódios. Quando Ingrid Bergman se casou com Roberto Rossellini, o cineasta se sentiu “trocado”.

A maior paixão, porém, foi Grace Kelly, com quem trabalhou em “Disque M Para Matar”, “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca”. Ele mesmo a descobriu e ele mesmo a perdeu ao levar a equipe para gavar este último filme em Mônaco, dando a chance para que ela conhecesse o futuro marido, o Príncipe Rainier.

Depois de ficar sem Grace, Hitch tentou recriá-la em todas as atrizes com quem trabalhou: Doris Day (O Homem que Sabia Demais), Vera Miles (O Homem Errado), Eve Marie Saint (Intriga Intrernacional), Kim Novak (Um Corpo que Cai), Tippi Hedren (Os Pássaros) e até Julie Andrews (Cortina Rasgada). Se com Grace seu amor era platônico, com Tippi Hedren ele externou seus sentimentos. Ela era a mais parecida fisicamente com a princesa, e as investidas de Hitch foram embaraçosas. “Tippi, ontem sonhei que você disse que me amava”, ele provocava. Sua devoção, no entanto, acabava com a palavra “ação!” Tippi enfrentou tamanha tensão na filmagem da cena em que foi atacada por pássaros (Hitchcock achou que usar somente pássaros mecânicos soaria falso) que teve um colapso mental e ficou de licença por uma semana.

Quem parecia não dar a mínima a essas paixões do cineasta era Alma Reville, a única mulher da vida de Alfred Hitchcock, sua companheira por mais de cinquenta anos. Quando se conheceram, em 1921, Alma era roteirista e editora da Players Lasky. “Por dois anos, trabalhamos juntos e ele nunca olhou para mim”, conta ela, “Um dia, ele me ligou e disse: ‘Srta. Reville, aqui fala Alfred Hitchcock. Sou diretor-assistente de um novo filme e gostaria de saber se a srta. aceitaria a posição de monatdora da película’.” Mais tarde, Hitch revelou que a observava discretamente, mas que era constrangedor para um inglês admitir que uma mulher tivesse um cargo mais alto do que o do homem. Em 1926, eles voltavam para a Inglaterra de navio, após as filmagens em locação, quando se declarou. “Estava deitada na minha cabine quando Hitchcock entrou e disse ‘Você se incomodaria em casar comigo?’”, lembra ela. “Sempre quis ser, primeiro, diretor de cinema e, segundo, marido de Alma – não em ordem de preferência, certamente, mas porque sentia que só poderia ter o segundo se tivesse o primeiro”, disse na ocasião.

Ela tornou-se sua companheira, consultora e colaboradora indispensável. Participou de todos os seus filmes, em alguns aparecendo como roteirista, em outros colaborando anonimamente. Ela descreve o marido como “o mais calmo dos homens”. “Hitch é um esvaziador de cinzeiros, nunca lava as mãos sem usar duas ou três toalhas para enxugar as torneiras e a pia”, revela. Alma conta que Hitch encarava os problemas com rara serenidade. “Procuro ver as coisas como se fossem recordações de três anos atrás”, explicava ele. Tiveram uma filha, Patricia, que apareceu em sucessos como “Pacto Sinistro” e “Psicose”, além principalmente de vários episódios de mistério e suspense da série de TV “Alfred Hitchcock’s Presents”, entre os anos de 1955 e 1960, creditada como Pat Hitchcock.

Hitch e Alma adoravam ficar em casa, mais precisamente, na cozinha, preparando banquetes para dois. “Comida é o único substituto para o sexo”, brincava ele. Os amigos acreditavam que a base da felicidade dos dois estava muito mais numa profunda amizade do que na atração física. Alguns até se arriscavam a dizer que Hitch não era muito chegado ao assunto. “Minha atitude em relação ao sexo é a mesma que em relação a todos os aspectos de meu trabalho: discreta, mas vital”, defendia-se. Ele admitia, porém, que havia casado virgem e que nunca foi um perito no sexo oposto. No trabalho, Alma era sua crítica mais severa. “Ele sempre aceitava minhas sugestões”, afirmava. Mas o que mais a impressionava, porém, era sua metodologia.

Entre todos os seus filmes, “Psicose” foi o de maior bilheteria e só custou oitocentos mil dólares. A clássica cena do chuveiro – que dura 45 segundos, tem 78 diferentes posições de câmera e levou uma semana para ser realizada – gerou polêmica: Hitchcock garante que o mérito é dele, mas tudo indica que Saul Bass foi o mentor. “Hitch não gostava de usar truques de câmera, e a cena foi filmada num estilo pouco hitchcockiano”, observou Bass. “Ele aprovou minhas ideias e, na hora de rodar, falou, ‘você sabe o que fazer, vá em frente’.” Hitchcock conta que filmou em preto-e-branco porque temia que o sangue vermelho na banheira – na verdade, calda de chocolate – ficasse repugnante. A princípio, ele concebeu como muda a cena do assassinato. Coube a Bernard Herrmann compor os acodes que entrariam para a história. À época do lançamento, Hitch recebeu a carta de um sujeito dizendo que sua filha tinha visto o filme francês “As Diabólicas”, em que há um assassinato na banheira, e nunca mais tomou banho ali. E que agora, ao assisitir a “Psicose”, não queria nem entrar no chuveiro. “Sugeri que mandasse a garota para uma lavagem a seco.”

O filme se inspirou nos modelos góticos de terror que vinham ganhando popularidade na época graças às produções da inglesa Hammer, e no ritmo dos episódios do seriado de TV do cineasta, tendo como base uma história macabra de Robert Bloch sobre uma ladra que encontra um rapaz esquisito, dominado pela mãe, que toma conta de um motel em ruínas. Segundo Hitchcock, “Psicose” foi feito de forma despretensiosa: “Eu não o empreendi com a ideia de fazer um filme importante. Pensei que podia me divertir fazendo uma experiência. ‘Posso fazer um filme de longa metragem nas mesmas condições de um filme de televisão?’. Usei uma equipe de televisão para rodar muito rapidamente. Só reduzi o ritmo da filmagem quando rodei a cena do assassinato no chuveiro, a cena da limpeza e uma ou duas outras coisas que marcavam o escoamento do tempo. Todo o resto foi rodado como na televisão.”

Hitchcock mudou apenas uma vez de estilo, com a comédia “Um Casal do Barulho”. Foi um fracasso. “Eu me especializei no suspense por uma razão estritamente comercial”, explicava. “O público espera de mim um certo tipo de história e não quero decepcioná-lo.” Apesar disso, negava ter um estilo. “Só se plagiar a si mesmo seja o que chamamos de estilo.” O cineasta também nunca concordou com a associação das palavras cinema e arte. “Talvez esse maldito conceito tenha sido imposto quando alguém decidiu chamar de estúdio e não de fábrica o lugar onde os filmes são feitos”, debochava.

Embora tenha sido indicado cinco vezes ao Oscar de melhor diretor, Hitchcock jamais foi premiado. Receberia apenas um Oscar honorário. Os críticos da época não viam seus filmes com bons olhos. André Bazin, por exemplo, considerava-o frio e artificial. Quem vinha em sua defesa era François Truffaut, o maior admirador: “O problema é que Bazin ama o cinema e os homens. Hitchcock ama só o cinema”. Hitch nunca teve interesse em mensagens ou na moral da história. Ele queria apenas divertir e se divertir. Considerava-se um artesão, um contador de histórias. Ser criador, detentor de reflexões profundas e definitivas sobre a vida e a morte, a história e a política, o amor e Deus, eram coisas que pouco o preocupavam. “Não quero que meus filmes seja pedaços de vida, prefiro que sejam vistos como delicioso pedaços de bolo de chocolate”, dizia o mestre. O público adorou a receita e o transformou num dos poucos cineastas cujo nome e imagem eram chamarizes mais fortes do que o nome das estrelas de seus filmes.

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Filmes: Agente Secreto (1936)

AGENTE SECRETO
Título Original: Secret Agent
Ano: 1936
País: Inglaterra
Duração: 86 min.
Gênero: Suspense/Policial
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: John Gielgud, Madeleine Carroll, Peter Lorre, Percy Marmont, Robert Young, Florence Kahn, Charles Carson, Lilli Palmer.
Sinopse:
Durante a Segunda Guerra, soldado britânico descobre que uma agência do governo forjou sua morte e trocou seu nome. Agora ele será enviado para uma operação especial: viajar para a Suíça e matar um agente alemão. Para levar a cabo a missão, ele é ajudado por uma agente novata e um assassino profissional.

Produzido na fase inglesa do mestre do suspense, não está cotado entre os grandes exemplares do período, como “Os 39 Degraus” e “O Homem que Sabia Demais”, mas já demonstra o talento do cineasta na condução do suspense e na criação do clima de seus filmes, além de boas cenas de ação e pelo menos uma cena realmente engenhosa, no final.

Um filme que já antecipa o talento de um gênio das telas
Apesar da mistura inadequada de gêneros (romance, espionagem, humor sofisticado), o filme também serveria de laboratório para as obras-primas que o cineasta faria duas décadas depois, com resultados superiores, em “Intriga Internacional” e “Ladrão de Casaca”. A despeito de seu início inusitado e até certo ponto ridículo, no qual John Gielgud e Madeline Carroll são dois espiões novatos à caça de um agente alemão com a ajuda de um divertido Peter Lorre no papel de mexicano, não causa muito espanto atuações tão fracas. Era fato de que a Lorre, na época em um momento ruim de sua carreira tumultuada mas de toda forma brilhante, tenha sido forçadamente imposta uma atuação mais cômica por Hithcock (e que acabou sendo explorada em outros de seus trabalhos em Hollywood), para completar o filme de forma satisfatória.

O enredo por sua vez é baseado frouxamente em uma história de Somerset Maugham transposta para o teatro por Campbell Dixon, e em seguida, adaptada por Charles Bennett, um dos favoritos de Hitchcock. Por melhores que sejam os talentos envolvidos, diante de tantas adaptações, até mesmo os melhores originais resultam em trabalhos apenas medianos. Por todo o filme, o grande mote é o romance entre os personagens de Gielgud e Carroll e a consciência que os atormenta, de que serão ou não capazes de cumprir a missão que lhes foi concedida. Além disso, pouco importava para o cineasta a motivação de seus personagens, desde que se cumprissem as premissas que ele imaginava para seus filmes.

O roteiro e a linha geral da história não são dos melhores aos quais Hitchcock teve acesso em toda a sua carreira, mas são bastante ricos em relação a algumas das parcelas com que ele trabalhou em seu início de carreira, e o diretor desenvolve a comédia, o suspense e o drama humano economicamente e afetivamente, se não totalmente. Seu trabalho com a câmera é, naturalmente, bom, mas não tão experimental ou interessante como muitos dos filmes anteriores e posteriores de Hitchcock, principalmente se compararmos com os que dirigiu anteriormente, como “Sabotage” ou “39 Steps”.

Um bom e divertido thriller de espionagem de um mestre do suspense
Alfred Hitchcock fazia filmes na Inglaterra desde 1922, mas teve seu primeiro sucesso internacional com a primeira versão de “The Man Who Knew Too Much”, de 1934. Seu próximo filme, “The 39 Steps”, estabeleceu padrões para a sua filmografia, como os temas do inocente injustamente acusado e perseguido e da heroína loira clássica (que esconde um vulcão sob uma fachada aparentemente glacial), aos quais Hitchcock retornaria ao longo de sua carreira. Hitchcock tinha convencido o grande ator dos palcos John Gielgud a assumir o papel principal em “Secret Agent” como se este fosse um Hamlet moderno. Mas Gielgud acabou odiando seu personagem pelo simples fato de que Hitchcock fez o vilão do filme muito mais charmoso e interessante do que o herói vivido por ele. Gielgud também se ressentiu com os mimos que o diretor dispensava à mocinha Madeleine Carroll e apontasse demais a câmera na direção de sua personagem. Porém, o ator admirava muito o estilo obsessivo de Hitchcock em filmar.

Sir John Gielgud conquistou uma carreira de grande longevidade e respeito, tanto nos palcos como no cinema, e tornou-se após a morte de seus contemporâneos o último elo de sobrevivência para uma era monumental de atuação para o teatro britânico, que incluía Sir Lawrence Olivier, Sir Michael Redgrave e Sir Ralph Richardson. Gielgud nasceu em 1904 e fez sua primeira apresentação nos palcos aos 10 anos (cantando “Soup of the Evening, Beautiful Soup”) como a Tartaruga em uma produção da escola para “Alice no País das Maravilhas”). Sua primeira aparição nos palcos de Londres foi em 1921, sua primeira transmissão de rádio em 1923 e seu primeiro filme em 1924. Aos 78 anos de idade, ele ganhou um Oscar como o mordomo na comédia mordaz “Arthur”, estrelada por Dudley Moore. Gielgud fez poucos filmes em sua juventude: “É claro que eu recebia mais dinheiro do que no teatro, mas eu tinha a sensação de que ninguém pensou que eu era suficientemente bonito para ser bem sucedido”. Ele não ligava para atuar no cinema, acreditando que o diretor, e não o ator, criasse o personagem. As primeiras filmagens foram se sucedendo, mas ele achava difícil moldar uma performance com as longas esperas de bastidores e tantas cenas filmadas fora de seqüência. Quando ele estava filmando o “Agente Secreto” durante o dia, à noite ele estava no palco em “Romeu e Julieta”, com Laurence Olivier. Sua carreira no cinema não decolou até ele chegar aos 65 anos, embora tenha até então aparecido em filmes ocasionalmente. A demanda ficou menos extenuante e mesmo aos 90 anos o ator continuou atuando. Seu último filme foi aos 96 anos.

Hitchcock aproveita bem a localidade suíça em “Secret Agent”, incorporando os Alpes e uma fábrica de chocolate na trama. Madeleine Carroll vive a heroína em seu segundo filme e também o último para Hitchcock. Posteriormente, ela partiu da Inglaterra para uma carreira breve em Hollywood. O excelente elenco inclui o ator americano Robert Young e o alemão Peter Lorre. Lorre, filho de um rabino, se tornou uma estrela internacional como o assassino de crianças em “M, o Vampiro de Dusseldorf”, mas fugiu da Alemanha em 1933 fuzindo dos nazistas. Gielgud escreveu certa vez: “Em ‘Secret Agent’ eu atuei com Peter Lorre, um ator alemão muito marcante que atuou em “M” de Fritz Lang Ele era viciado em morfina e um especialista em roubar cenas, adicionando uma mistura de espontaneidade e intuição”, o que para um ator tão disciplinado como Gielgud era quase imcompreensível. O personagem foi construído para Lorre (ele atuou na versão original de “The Man Who Knew Too Much” em 1934) e de certa forma, ele representa o lado negro do herói. A verdade é que Ashenden não é um herói muito arrojado, e isso para Gielgud facilitou as coisas. Hitchcock não tem nenhuma aparição surpresa no filme, então não se preocupe em procurar por ele.

”Secret Agent” foi baseado em duas das sete histórias sobre Ashenden escritas por Somerset Maugham, “The Traitor” and “The Hairless Mexican”” e o romance foi tirado de uma peça baseada nas histórias de Campbell Dixon. Maugham foi um agente secreto por cerca de um ano em 1915-1916, trabalhando principalmente como um intermediário. Não era incomum para os escritores e artistas serem recrutados pelo serviço secreto britânico na época. As histórias de Ashenden foram baseados em casos e pessoas reais. Supostamente, Winston Churchill aconselhou Maugham que queimasee outras 14 histórias, alertando-o de que violou a Lei de Segredos Oficiais.

”Secret Agent” não foi muito admirado na época, mas Ashenden influenciou muito os romances de Ian Fleming sobre James Bond. “Secret Agent” é relembrado com muito menos freqüência do que outros filmes de Hitchcock nos anos 30, como “Os 39 Degraus” e “A Dama Oculta”. Este não é um dos grandes filmes de Hitchcock, mas é fascinante, seja por conta de podermos assistir uma das raras atuações de Gielgud em sua juventude, seja por conta de Peter Lorre, seja pelo estilo distinto e já tão evidente de um diretor ainda em seus primeiros trabalhos.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0028231/

Filme Completo Legendado: Assista no YouTube

Galeria de Imagens:

Atores: Charlton Heston

CHARLTON HESTON, O “SR. ÉPICO”

Nome: John Charles Carter
Nascimento e local: 4 de outubro de 1923, Evanston, Illinois
Morte e local: 5 de abril de 2008, Beverly Hills, California
Ocupação: Ator
Nacionalidade: Norte-americana
Casamento: Lydia Clarke (1944-2008)

Nascido John Charles Carter, notabilizou-se no cinema por viver papéis heróicos e personagens históricos em superproduções da época de ouro de Hollywood, como Moisés de “Os Dez Mandamentos”, Judah Ben-Hur de “Ben-Hur”, o lendário cavaleiro espanhol El Cid no filme homônimo e Robert Neville em “A Última Esperança da Terra”.

Em 1952, o filme “O Maior Espetáculo da Terra”, de Cecil B. DeMille, transformou Heston numa estrela de primeira grandeza do cinema. A partir dali, seu porte ereto, sua altura e o perfil musculoso, lhe dariam os papéis mais simbólicos nas superproduções dos anos 50 do cinema norte-americano.

Certa vez, perguntaram a Fraser Heston qual era a profissão de seu pai. “Ele finge que é outra pessoa”, respondeu o menino. De fato desde menino, Charlton Heston fingia ser Gary Cooper ou Errol Flynn em suas brincadeiras, inspiradas por intermináveis sessões de cinema. Foi assim que ele descobriu que atuar era tudo o que queria na vida e apesar desse ideal romântico, sua vida foi cercada de austeridade, rigor, praticidade e até mesmo uma certa arrogância, que ele próprio descrevia como “responsabilidade”.

Típico pai de família quadradão, marido fiel e profissional correto, Heston ergueu um muro ao seu redor para se proteger e proteger sua família da curiosidade que uma celebridade pode despertar no público e na mídia. Heston nunca gostou de multidões ou do agito de Hollywood. Suas declarações sempre foram levadas ao extremo, graças ao seu passado de Republicano e a sua eleição para a vice-presidência da famigerada Associação Nacional do Rifle, que defende o uso de armas de fogo nos EUA. Em contrapartida, assumiu postos de prestígio, como a presidência da Associação dos Atores de Cinema e do American Film Institute.

De língua afiada, criticou os novos diretores, como Tarantino: “James Cagney viveu maníacos que tiveram finais violentos, como mereciam, ao contrário do que ocorre com os filósofos-assassinos que o Sr. Tarantino nos dá em “Pulp Fiction”. Para ele, o ator deveria se dedicar, pelo menos uma vez, a um texto de Shakespeare, e chegou a abordar Robert De Niro sobre a temeridade de um ator do seu porte nunca ter feito Shakespeare. Fã de Laurence Olivier, teve a honra de ser dirigido por ele na peça “The Tumbler”, um dos seus poucos fracassos de crítica e de público. Diante do prejuízo, ele afirmou ter sido o único que saiu lucrando com o espetáculo: “Aprendi com Laurence Olivier o que jamais teria aprendido na vida”.

Heston se considerava um anti-astro, diante da ilusão que o público criava em torno dos atores de Hollywood, e que depois eram ridicularizados quando apareciam bêbados ou envolvidos em ocorrências policiais. “Afinal, sempre levei uma vida respeitável, sou casado com a mesma mulher há 54 anos, tenho dois filhos normais e nunca saí por aí dando sopapos em ninguém depois de uma noitada”. Mas Heston também estava enganado. Ele foi um astro de verdade, no sentido literal da palavra e exatamente por ser o oposto de tudo o que o termo representa em Hollywood.

Foi uma vida inteira de austeridade e coerências que fez com que este senhor de 1m88, atlético, rosto forte, de ossos salientes, se encaixasse com perfeição a personagens como Moisés, Michelangelo, Ben-Hur, João Batista, El Cid ou o Cardeal Richelieu.

Personagens históricos

Cinco décadas atrás, Charlton Heston almoçava na Paramount quando o lendário diretor Cecil B. De Mille se aproximou dele e lhe entregou um papel: “Leia isto”, ordenou o cineasta, e Heston recitou o texto: “É necessário que eu vá reconhecer essa grande maravilha…” Ao final, De Mille deu-lhe um tapinha nas costas. “Como eu esperava!”, celebrou: “Eu te enviarei ao faraó para fazeres sair do Egito os filhos de Israel”. Semanas depois, com barba postiça e uma túnica colorida, Heston interpretava Moisés na superprodução “Os Dez Mandamentos”. Em sua autobiografia, De Mille contou que antes de gravar uma cena importante, o astro ficava sozinho, já caracterizado, concentrando-se. Quando um jornalista perguntou a Heston quase eram seus pensamentos enquanto partia o Mar Vermelho, ele respondeu: “Eu estava rezando para que o bendito tanque de água funcionasse”.

O astro sempre preferiu a simplicidade e detestava quando o chamavam de Sr. Heston. Preferia Chuck. Até o fim da vida, tentou levar uma vida saudável e cheia de disciplina, e manteve a integridade quando anunciou que sofria de uma doença que lhe tirava pouco a pouco a memória e suas funções vitais. Da mesma forma como ocorreu com seu amigo, o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan. “Devo ter coragem e resignação”, disse na ocasião Heston, quando se viu obrigado a fechar definitivamente as portas para o cinema e a qualquer atividade pública à frente da National Rifle Association, organização americana em favor das armas que liderou durante anos.

Por conta disto, ele aceitou participar do filme-documentário de Michael Moore, ‘Tiros em Columbine’, que retrata justamente a facilidade de se comprar armas nos EUA, mas ficou indignado ao ser interpelado duramente pelo cineasta durante a entrevista para o filme.

Paixão pela interpretação

John Charlton Carter, como foi batizado, nasceu em Evanston, Illinois, em 4 de outubro de 1923. Teve um começo complicado: os pais se separaram quando era bebê. Do pai, conservou poucas e vagas lembranças. Sua mãe, Lilla, casou-se de novo com um Sr Heston. Com o padrasto, comerciante de madeiras, mudou-se para as florestas do Alto Michigan e fez o primário numa escola que tinha treze alunos e uma única sala.

Dez anos depois, em uma situação mais próspera, os Heston mudaram-se para Chicago, onde o ator diz ter sido profundamente infeliz: “Eu era um bicho do mato. O tráfego dos automóveis me apavorava, e os ruídos urbanos flagelavam meus nervos.” Na escola, sentia-se desgostoso. Até os dezesseis era bem mais baixo que os colegas e depois disparou a crescer. Tentou aprender a dançar para não dar vexame em seu primeiro baile e para se enturmar, entrou para o time de futebol. Desistiu após ganhar um nariz quebrado. Já na faculdade, as coisas começaram a melhorar quando ele iniciou suas aula de interpretação. Foi nessa época que bateu os olhos numa moreninha que sentava à sua frente, Lydia Clarke. “Eu me declarava a ela semanalmente e perdia a conta de quantas vezes falei sobre casamento”, afirmou o ator.

Charlton Heston ao lado da mulher Lydia em 5 de setembro de 1963, durante a premiere do filme ’55 dias em Pequim’ (Foto: AP)

Com a entrada dos EUA na Guerra, Heston foi convocado para a Força Aérea. A notícia de que seria enviado para a frente de batalha chegou junto com o telegrama de Lydia, aceitando o pedido de casamento. A cerimônia, realizada em 1944, foi improvisada, já que ele se preparava para a guerra: “Todo mundo diz que o primeiro ano de casamento é o mais difícil”, comentou o ator: “O meu foi facílimo, pois não a vi por um ano e meio, período em que Lydia terminou seus estudos e eu tratei de não ser baleado”.

De volta para casa e disposto a tentar carreira na Broadway, ele mudou-se com a esposa para Nova York, onde Lydia trabalhou como modelo enquanto seu marido procurava trabalho. Foram contratados como diretores e atores de um teatro na Carolina do Norte e em vez de uma peça, fizeram seis, o suficiente para que Heston descobrisse que gostava mesmo de atuar e não de dirigir.

De volta à Nova York, ele debutou na Broadway em 1948, com “Antônio e Cleópatra”, e depois foi trabalhar na TV – uma das suas fases mais felizes, graças aos amigos que conquistou – gente como Paul Newman, Anne Bancroft, Jack Lemmon. e diretores novatos como Arthur Penn e John Frankenheimer. Foi sua atuação como Antônio em uma versão de Júlio César que chamou a atenção do produtor Hal B. Wallis. Foi um dos poucos atores independentes da época, com contratos que permitiam que trabalhasse com quem quisesse. De Mille o escalou para a sua saga circense “O Maior Espetáculo da Terra”, mas até ser chamado para interpretar Moisés, Heston precisou trabalhar em muitos Filmes B.

Não foi só o Mar Vermelho que se abriu diante dele, mas também a Calçada da Fama. E embora tenha atingido o sucesso, Heston nunca se deixou embriagar por ele e parte do crédito coube à sua esposa Lydia, que além de paciente com as manias do ator quando estava atuando, também largou a carreira para se dedicar ao filho, Fraser, que nasceu após onze anos de casamento, na época das filmagens de “Os Dez Mandamentos”, e já pôde ser visto em cena, como o bebê Moisés. Seis anos mais tarde, o casal decidiu adotar uma menina, Holly Ann.

“Não era brincadeira ouvir ele falar horas sobre o Império Romano ou narrar uma passagem inteira da Bíblia”, comentou Lydia. Pior mesmo é quando Heston passava os dias vestido com o figurino de seus personagens ou ficava o dia inteiro ouvindo a trilha sonora dos filmes em que atuou. “Mas eu não posso aparecer no set com jeito de quem usa uma toga pela primeira vez”, ele explicava, ou então dizia “se você tivesse ganho tanto dinheiro quanto eu com o filme, sentiria um prazer enorme em ouvi-la”, referindo-se à música composta por Miklos Rosza para o épico “Ben-Hur”, de 1958.  Vencedor de onze Oscar, o filme de William Wyler é um marco. Depois que outros astros da época recusaram o papel, Heston foi agraciado com o personagem que lhe renderia o Oscar e a fama imorredoura. Antes das filmagens, passou dois meses aprendendo a dirigir bigas: “Aquele com cara de medo na corrida de bigas era eu mesmo”.

O curioso é que, embora o apelido de Heston seja “Sr. Épico” e seu nome seja sinônimo de personagens bíblicos ou históricos, ele fez muito mais filmes de outros gêneros. Basta lembrar da ficção científica “O Planeta dos Macacos”, dos filmes-catástrofes “Aeroporto 1975” e “Terremoto” ou do thriller policial “A Marca da Maldade”, de Orson Welles.

Protegido por sua vida de reclusão, o ator continuou trabalhando em seus últimos anos. Só em 1998, atuou em quatro filmes, entre eles “Armageddom”. Depois de muita relutância e controvérsias, acabou concordando em atuar no remake de “O Planeta dos Macacos”, dirigido por Tim Burton, em papel inverso daquele que fez na versão de 1968: sob uma pesada fantasia, ele faz o pai do personagem de Tim Roth, um macaco que no leito de morte faz discursos contra a violência.

Afastado das telas desde 2002 devido ao agravamento de uma doença degenerativa com sintomas similares aos do Mal de Alzheimer, ele faleceu na noite de 5 de abril de 2007, em sua residência de Beverly Hills. “Aos seus amados amigos, colegas e fãs, nós agradecemos suas preces e apoio”, disse a família em comunicado divulgado à imprensa: “Ninguém poderia pedir uma vida mais plena do que a dele. Nenhum homem poderia ter dado mais à sua família, profissão, e ao seu país. Nas suas próprias palavras: ‘Eu vivi uma vida tão maravilhosa! Eu vivi o bastante para duas pessoas'”, acrescentou a nota.

Filomografia:

Peer Gynt (1941) (filme estudantil)
Julius Caesar (1950) (1950)
Cidade Negra (1950)
O Maior Espetáculo da Terra (1952)
Trágica Emboscada (1952)
A Fúria do Desejo (1952)
O Destino Me Persegue (1953)
As Aventuras de Buffalo Bill (1953)
O Último Guerreiro (1953)
Ambição que Mata (1953)
A Selva Nua (1954)
O Segredo dos Incas (1954)
Aventura Sangrenta (1955)
A Guerra Íntima do Major Benson (1955)
Lucy Galante (1955)
Os Dez Mandamentos (1956)
Trindade Violenta (1957)
A Marca da Maldade (1958)
Da Terra Nascem os Homens (1958)
O Corsário sem Pátria (1958)
O Navio Condenado (1959)
Ben-Hur (1959)
The Fugitive Eye (1961) (TV)
El Cid (1961)
O Pombo Que Conquistou Roma (1962)
Os Tiranos também Amam (1963)
55 Dias em Pequim (1963)
A Maior História de Todos os Tempos (1965)
Juramento de Vingança (1965)
Agonia e Êxtase (1965) … Michelangelo
O Senhor da Guerra (1965)
Khartoum (1966)
Maugli (1967) (narrador da versão inglesa)
Os Heróis não Se Entregam (1968)
Planeta dos Macacos (1968)
E o Bravo Ficou Só (1968)
Number One (1969)
The Festival Game (1970) (documentário)
King: A Filmed Record… Montgomery to Memphis (1970) (documentário)
De Volta ao Planeta dos Macacos (1970)
Júlio César (1970)
O Senhor das Ilhas (1970)
A Última Esperança da Terra (1971)
À Sombra das Pirâmides (1972)
Voo 502 em Perigo (1972)
Catástrofe nas Selvas (1972)
No Mundo de 2020 (1973)
Os Três Mosqueteiros (1973)
Aeroporto 75 (1974)
Terremoto (1974)
A Vingança de Milady (1974)
Os Últimos Machões (1976)
Midway (1976)
America at the Movies (1976) (documentário) (narrador)
Pânico na Multidão (1976)
O Príncipe e o Mendigo (1977)
SOS Submarino Nuclear (1978)
Os Homens da Montanha (1980)
Reencarnação (1980)
A Montanha de Ouro (1982)
Chiefs (1983) (minissérie)
The Fantasy Film Worlds of George Pal (1985) (documentário)
Directed by William Wyler (1986) (documentário)
Traição e Honra (1987)
Solar Crisis (1990)
As Aventuras na Ilha do Tesouro (1990)
Quase um Anjo (1990)
Genghis Khan (1992) (não completado)
Quanto Mais Idiota Melhor 2 (1993)
SeaQuest DSV (1993) (TV)
Tombstone – A Justiça Está Chegando (1993)
A Century of Cinema (1994) (documentário)
True Lies (1994)
À Beira da Loucura (1995)
Friends (1995) (ele mesmo)
O Anjo Vingador (1995) (TV)
The Dark Mist (1996) (narrador)
Alaska – Uma aventura inacreditável (1996)
Ben Johnson: Third Cowboy on the Right (1996) (documentário)
Hamlet (1996)
Hércules (1997) (narrador)
Off the Menu: The Last Days of Chasen’s (1997) (documentário)
Armagedom (1998) (narrador)
Gideon – Um anjo em nossas vidas (1999)
Um Domingo Qualquer (1999)
Ricos, Bonitos e Infiéis (2001)
Como Cães e Gatos (2001) (voz)
Planet of the Apes (2001)
Last Party 2000 (2001) (documentário)
A Irmandade (2001)
Tiros em Columbine (2002) (documentário)
Josef Menguele (2003)

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